31 dezembro 2008

2009: NOVO ANO


Nada como ter o poeta à mão. Dizem aquilo que queremos dizer mas com as palavras certas.
Beijos e abraços para todos que cá vierem e, já agora, um bom ano.


poema completo [aqui]

30 dezembro 2008

NOVAS "COZINHAS"

Na admirável obra “Memórias de Adriano”, Margarite Yourcenar, apresenta-nos um imperador próximo da gente comum, atacado pelas mesmas fraquezas que atormentam a gente anónima. Tendo recebido imensos territórios do seu antecessor Trajano, Adriano, suspende a sanha conquistadora do antepassado e dedica parte da sua vida a solidificar as conquistas recentes.
Adriano é um amante da cultura, discreto e reflexivo. Não muito longe já, do fim da vida, numa carta escrita ao jovem Marco, Adriano confidencia-lhe: "Foi em Roma, durante as longas refeições oficiais, que me aconteceu pensar nas origens relativamente recentes do nosso luxo, nesse povo de cultivadores económicos e soldados frugais, alimentados de alho e cevada, subitamente emporcalhados pela conquista nas cozinhas da Ásia, tragando aquelas comidas complicadas com uma rusticidade de camponeses dominados por fome canina".
Socorro-me desta obra para comentar os negócios escandalosos que nos vão entrando pelas portas adentro, pontualmente, às oito da noite de todo o santo dia. Não necessitamos, sequer, das capacidades meditativas de Adriano para concluir que, tal como os romanos, também nós, muito recentemente ainda, não passávamos de uns cultivadores económicos. Quem não se lembra daquela célebre fotografia do “ganhão”, enquadrado por uma paisagem bucólica, deixando ver as botas cardadas e com a sola já furada? As nossas recentes “conquistas” nas “cozinhas” da União, ao tempo Comunidade, emporcalhou muita gente que não estaria preparada para aquela súbita entrada de “comida”. O resultado é o que já sabemos. Espero, esperamos todos, que todos estes exageros dêem pelo menos para uma reflexão profunda sobre o papel que a todos e a cada um de nós está reservado sob pena de vermos uma matilha de cães esfaimados dizimar todo um rebanho dócil e triste.

Este texto, publicado inicialmente em 4 de Dezembro p.p., foi premiado no sorumbático como comentário ao texto de Alfredo Barroso, Perguntas assassinas.

22 dezembro 2008

A NOITE É FRIA...


Nesta quadra, desejo a todos os leitores do blogEVENTUAL, que considero já meus amigos, um FELIZ NATAL. Não posso, porém, esquecer todos aqueles para quem esta é uma quadra de dor ao invés de ser uma quadra de alegria. Socorro-me do poeta que, nestas circunstâncias, diz as coisas melhor do que digo.


a um pequenito vendedor de jornais [aqui]

20 dezembro 2008

SÓCRATES E AS "MAÇÃS DA TERRA"

Nos últimos trinta anos a educação tem sido entregue, ora a românticos, ora a fracos. Quando se pensava que a pasta tinha encontrado, finalmente, o dono certo, eis que entra em cena uma equipa de aventureiros que, de educação, parece não entenderem muito mais do que aquilo que lhes ficou de umas leituras apressadas. E desastre após desastre, três anos depois, a parte do edifício que ainda continuava de pé, acaba de ruir.
A propósito desta calamidade vem-me à memória uma história que Steve Berry contava n’A Profecia dos Romanov. Pedro o Grande, czar de todas as Rússias, querendo alimentar o seu povo decretou que os camponeses da Geórgia passassem a cultivar batatas. “Maçãs da terra”, como lhes chamava. O tubérculo, recentemente introduzido na Europa, era, ainda, desconhecido na Rússia e o soberano esqueceu-se de dizer aos cultivadores qual a parte da planta que devia ser aproveitada. Quando, depois da colheita, os camponeses tentaram comer a rama, adoeceram. Encolerizados, queimaram toda a sementeira. Foi só quando um provou a raiz queimada da planta que se descobriu onde estava, afinal, o alimento.
Não duvido que José Sócrates quisesse o melhor para a educação do seu país. Não duvido, sequer, da bondade da sua escolha mas, tal como Pedro, quatro séculos antes, também ele se esqueceu de avisar a equipa que escolheu, que, uma boa parte dos professores, quiçá a melhor, embora “escondida” era imprescindível se se quisesse uma boa colheita. Não avisada, nada sensata e pouco perspicaz, a equipa tomou todos os professores por foras-da-lei e toca a mover-lhes uma guerra sem quartel. Covardemente, aliciou os pais e o país contra o inimigo, mas, quando a batalha parecia ganha, eis que começam a surgir brechas nas forças de assalto. Quando percebem as ideias diabólicas dos generais, o melhor das forças, muda-se para o outro lado da barricada. O resto já se sabe.
Desgraçadamente, perdeu-se outra oportunidade de reformar o ensino público e teremos de trabalhar muito para reconstruir tudo o que uma equipa de celerados teimou em destruir.

Este texto, publicado inicialmente em 29 de Novembro p.p., foi premiado no sorumbático como comentário ao texto de António Barreto, Políticas Educativas.

08 dezembro 2008

[5] CRIATIVIDADE


liderança e gestão em 5 lições [5.ª Lição]

Um fazendeiro resolve colher alguns frutos da sua propriedade. Pega num balde vazio e segue para o pomar. No caminho, ao passar por uma lagoa, ouve vozes femininas que provavelmente invadiram as suas terras. Aproxima-se lentamente e descobre várias raparigas nuas banhando-se na lagoa. Quando elas se apercebem da sua presença, nadam até à parte mais profunda da lagoa e gritam:
- Nós não vamos sair daqui enquanto não se for embora.
O fazendeiro responde:
- Não vim aqui para vos espreitar, só vim dar de comer aos jacarés!

Moral da História:
É a criatividade que faz a diferença na hora de atingirmos os nossos objectivos.

[4] MOTIVAÇÃO

liderança e gestão em 5 lições [4.ª Lição]

Em África, todas as manhãs, uma gazela ao acordar, sabe que deve conseguir correr mais do que o leão se se quiser manter viva.
Todas as manhãs, o leão acorda e sabe que deverá correr mais do que a gazela se não quiser morrer de fome.

Moral da História:
Pouco importa se és gazela ou leão, quando o sol nascer deves começar a correr.

[3] ZONA DE CONFORTO

liderança e gestão em 5 lições [3.ª Lição]

Um corvo está sentado numa árvore o dia inteiro sem fazer nada. Um pequeno coelho vê o corvo e pergunta-lhe:
- Posso sentar-me, como tu, e não fazer nada o dia inteiro?
O corvo responde:
- Claro, por que não?
O coelho senta-se no chão, debaixo da árvore e relaxa. De repente, uma raposa aparece e come-o.

Moral da História:
Para ficares sentado sem fazeres nada deves estar sentado bem no alto .

[2] CHEFIA E LIDERANÇA

liderança e gestão em 5 lições [2.ª Lição]

Dois funcionários e o gerente de uma empresa saem para almoçar. Na rua encontram uma antiga lâmpada a óleo. Esfregam-na e, de dentro dela, sai um génio. O génio diz:
- Só posso conceder três desejos, por isso, concederei um a cada um de vós.
- Eu primeiro, eu primeiro – grita um dos funcionários –, queria estar nas Bahamas a pilotar um barco, sem ter nenhuma preocupação na vida!
- Desejo concedido – exclama o génio. Puf! E lá se foi.
O outro funcionário apressa-se a fazer o seu pedido:
- Quero estar no Havai com o amor da minha vida e um provimento interminável de pina coladas!
- Desejo concedido – sentencia o génio. Puf e lá se foi.
- Agora você – diz o génio para o gerente.
- Quero que aqueles dois voltem ao escritório logo depois do almoço .

Moral da História:
Deixe sempre o seu chefe falar primeiro.

[1] GESTÃO DO CONHECIMENTO


liderança e gestão em 5 lições [1.ª Lição]

A mulher sai do banho, pega na toalha, e começa a enxugar-se. O marido entra, por sua vez, no chuveiro. A campainha toca. Depois de alguns segundos de discussão para ver quem iria atender, a mulher desiste, enrola-se na toalha e desce as escadas. Quando abre a porta, vê o vizinho Filipe na soleira. Antes que ela possa dizer qualquer coisa, diz o Filipe:
- Dou-lhe € 10.00 se deixar cair essa toalha.
Depois de pensar por alguns segundos, a mulher deixa cair a toalha e fica nua. Filipe, então, entrega-lhe os € 10.00 prometidos e vai-se embora.
Confusa, mas radiante com a sua sorte, a mulher fecha a porta, enrola-se novamente na toalha e volta a subir. Quando entra no quarto, o marido grita do chuveiro:
- Quem era?
- Era o Filipe, o vizinho da casa ao lado - diz ela.
- Óptimo! Deu-te os € 10.00 que me estava a dever?


Moral da história:
Se compartilhares informações a tempo, podes evitar exposições desnecessárias!

05 dezembro 2008

ESTAREI...

Ontem, chamada, salvo erro, pelos bloquistas, a ministra da educação foi, mais uma vez, ao parlamento. Confesso que me começa a faltar a pachorra para aturar as cretinices da senhora, mas, de relance, dei uma vista de olhos na meia dúzia de segundos que um dos canais dedicou ao assunto no jornal das oito. Apesar do interesse fugidio que dediquei ao acontecimento houve três pormenores que retive: o primeiro foi o semblante carregado da senhora que aquela indumentária de corvo, em nada favorecia. Devia despedir o assessor de imagem. A segunda tem a ver com o tempo verbal empregue numa afirmação “estarei totalmente aberta à discussão…”. Devo referir que este “estarei”, não se refere ao amanhã, nem sequer ao próximo mês, refere-se, isso sim, ao próximo ano ou aos próximos anos. Ouvir esta afirmação causou-me uma impressão horrível. Imaginar esta ministra, acolitada por aqueles dois mostrengos, nos próximos anos, a continuar a fazer o trabalho medonho que tem feito até agora. A quem não passou despercebido este “estarei”, devia ter passado pela mesma experiência pavorosa. Deus nos livre de tal provação. A terceira tem mais a ver com o conteúdo da mensagem. Uma mensagem, pelo menos, imbecil, que demonstra à saciedade as intenções destes senhores: “O modelo pode ser corrigido mas primeiro tem de ser aplicado”. Quando a ministra, enfrentando os parlamentares da nação, faz uma afirmação destas, acaba de esvaziar qualquer resquício de credibilidade que poderia ainda conter.

PS: a ministra mostrou-se ao país, cansada, triste, azeda e, pior que tudo, oca. A oferta que lhe fiz há 9 meses mantém-se. Na esperança de que a senhora, finalmente, aceite, tenho, desde aí, paulatinamente, aclarando a voz.

03 dezembro 2008

E AINDA LHE PAGAM?

Há dois temas sobre os quais todo o português que se preze tem sempre opinião. Definitiva opinião, diga-se. É sobre futebol e sobre o tempo (ando fodido dos ossos!.. Humm, o tempo vai mudar). Há depois outros temas, que podemos considerar sazonais, que ocupam, por prazos mais ou menos longos, consoante o ruído do assunto, as conversas dos indígenas. Actualmente falamos de educação.
Mas, como em tudo na vida, também aqui a quantidade é inimiga da qualidade e mesmo aqueles de quem se esperaria, pelo menos, uma opinião inteligente, produzem arrazoados que em nada elevam o baixo nível em que caiu a discussão. Na sua última crónica para o Jornal de Notícias, Manuel Serrão, escreve sobre educação (e que mais podia ser?). Logo de início vai avisando os leitores que para escrever esta crónica dá-me muito jeito perceber pouco do fundo da questão. Vai falando depois das guerras entre sindicalistas e governo e colegas cronistas do jornal e, mais à frente, contando que a alguém possa ter passado despercebido o primeiro aviso, reitera que gostava de repetir que, até por falta de informação (a que se somará porventura alguma falta de formação na área), pouco sei dos verdadeiros problemas em cena na greve dos professores. Diz mais qualquer coisa sobre a entidade patronal da classe docente e conclui: imaginemos em tese académica que os professores estão cheios de razão. […] Imaginemos que por um estranho acaso, todos os professores estão de acordo com a greve e os outros termos da luta contra o Governo. […] Mesmo assim, não me parece que o Governo tenha de ceder.
- Manuel Serrão, teve muita sorte o seu paizinho não o ter mandado para professor: se produzisse esta bela argumentação numa turma do oitavo ano, pela certa os alunos crucificavam-no – não, crucificar não. Não que não o merecesse, mas seria difícil arranjar um madeiro à sua medida. Mas umas boas dúzias de ovos ganhava, isso posso garantir-lhe.
E agora só entre nós senhor Serrão: o senhor escreve estas bostas e o JN ainda lhe paga por cima?

... APENAS NOSTALGIA DE SER LIVRE.

Nestes dias de chumbo que se vivem nas escolas públicas, socorro-me de Al-Mu'tamid

Chorei quando vi passar
livre, sobre mim voando,
o bando de cortiçóis.
Nem grades nem grilhetas os detinham.
Não foi por inveja que fiquei chorando...
apenas nostalgia de ser livre,

27 novembro 2008

NO MEU CASO NÃO!

O personagem galga sofregamente as escadas acossado pela matilha de jornalistas. As luzes mordem-lhe o cachaço cabeludo mas ele não vacila. Trota sem parar. Quase no cimo, olha por cima do ombro para o último resistente e dispara numa vozinha cómica, quase infantil: “No meu caso não!”. Satisfeito, o jornalista interrompe, por fim, a perseguição e fica a ver a “presa” alcançar o último patamar e, no seu passinho miúdo de Charlot, desvanecer-se de encontro à luz que jorra lá do fundo e ilumina a cena.
Podia ser o plano de um filme da série B. Tinha todos os condimentos para tal. Mas não. A cena nada tinha de ilusório. O doutor Sebastião é o presidente da Autoridade da Concorrência. O seu amigo de longa data e ministro da economia, Manuel Pinho, viu nele predicados mais do que suficientes para um bom desempenho do cargo e escolheu-o. Paralelamente, o doutor Sebastião pertencia à direcção da ordem dos economistas. Pertencia e ainda pertence. Dito de outra forma: o doutor Sebastião enquanto membro da direcção da ordem dos economistas vai ser investigado pelo doutor Sebastião enquanto presidente da Autoridade da Concorrência. Os estatutos deste último organismo dizem claramente que está vedado aos membros do Conselho o exercício de quaisquer funções públicas ou privadas, ainda que não remuneradas, com excepção da docência a tempo parcial no ensino superior mas, quando o jornalista lhe lembrou isto, o doutor, candidamente, assegurou: “No meu caso não!”.
Eu oiço isto e fico a pensar: que magnífico odor exalará um corpo que desobriga o seu dono daquelas maçadas que todos nós, os brutos, somos obrigados a cumprir? “No meu caso não!”. Eu oiço isto e vem-me à memória o jovem Arnau Estanyol: - Pai […], que dizem os livros acerca de nós, camponeses? - Dizem que somos animais, brutos, e que não somos capazes de entender o que é a cortesia. Dizem que somos horríveis, vis e abomináveis, desavergonhados e ignorantes. Dizem que somos cruéis e toscos, que não merecemos nenhuma honra porque não sabemos apreciá-la, e que só somos capazes de entender as coisas à força. Dizem que…

25 novembro 2008

NÃO DIGAM MAIS NADA...

Numa recente entrevista ao Correio da Manhã a ministra da educação confessou que “se o governo suspendesse a avaliação seria uma vergonha”. Note-se que a senhora não disse que tinha que se avançar com este modelo de avaliação porque esse era o caminho certo. Não. O que ela disse é que não recuava porque isso seria uma vergonha. Enquanto os nossos políticos continuarem a governar para as aparências, borrifando-se para o interesse do país, parafraseando Millôr Fernandes, continuaremos fodidos!
No dia seguinte uma reunião em Coimbra de um ministro com professores socialistas. À primeira vista pensar-se-ia que a assistência era, por assim dizer, "alinhada". As televisões deram-nos uns segundos do conclave. Enquanto o ministro tentava convencer as hostes a câmara mostrou a assistência. De semblantes fechados, não conseguiam, nem para a câmara, disfarçar o que lhes ia na alma. No final um dos jornalistas colheu a opinião de um dos participantes. Apesar do cartão e da proximidade do ministro, o homem, com indisfarçável irritação, lá foi dizendo que o ministério teria de recuar sob pena de “perdermos” muitos votos. Enquanto tivermos professores que acham que se deve recuar, não pelo interesse do ensino mas para não perder votos nas próximas eleições, parafraseando Millôr Fernandes, continuaremos fodidos!
Ontem no P’rós e Contras, o secretário Pedreira, quando questionado sobre as razões pelas quais o ministério não ouve os cento e vinte mil professores que lhes têm assoprado aos ouvidos e não deixa de imediato cair este famigerado modelo para começar a trabalhar noutro ainda a tempo de ser implementado neste ano lectivo, candidamente, respondeu: “Estamos quase em Dezembro. Agora é já tarde para mudar”. O secretário não disse que este modelo era para avançar porque era o ideal para o nosso sistema de ensino. Não. O que ele disse foi que não se podia já suspender porque agora era tarde demais. Enquanto tivermos políticos que andam durante meses a fazer orelhas moucas àquilo que todos lhe querem dizer para, no fim, dizerem que agora é tarde, parafraseando Millôr Fernandes, continuaremos fodidos!

24 novembro 2008

E ESSE DIA HÁ-DE VIR!

...
Apesar de você
amanhã há-de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
...
Chico Buarque, "Apesar de você"

FOSSEM ASSIM TODOS...

«O meu pai não é um assassino e também não é um herói. É apenas um homem, desesperadamente humano, capaz do pior e do melhor.»
Nicolas D’Estienne D’Orves, "Os Órfãos do Mal"
Fossem assim todos os pais e o mundo seria, certamente, melhor.

21 novembro 2008

LIÇÃO DE ZOOLOGIA

invertebrado, adj. (zool.) diz-se dos animais desprovidos de endosqueleto desenvolvido (com vértebras) e crânio propriamente dito, em oposição aos vertebrados ou craniotas.
Dicionário da Língua Portuguesa, 6.ª Edição, Porto Editora

Foram necessárias 120 000 vozes, gritando em uníssono, para que a ministra, finalmente, entendesse, embora que apenas um bocadinho, aquilo que todos os professores lhe vêm dizendo há meses: «Tenho de reconhecer que a forma como estávamos a concretizar a dimensão relativa aos resultados escolares não era confortável, nem razoável, mas excessiva, desajustada e com erros técnicos» disse. Entretanto perderam-se meses de trabalho, o ambiente nas escolas degradou-se, a paciência dos professores esgotou-se, as aprendizagens, fatalmente, ressentiram-se. E tudo porquê? Ora, porque é caprichosa e teima em ouvir sempre uns figurões que ainda a confundem mais. Um deles, aquele do “bamos promober um encôuntro” que sempre louvou as virtualidades do modelo, secundando incessantemente as palavras de tudo quanto era ministro ou secretário, hostilizando sempre os professores, vem agora dizer, depois do recuo, que agora é que sim “cremos que estom criadas as condições para no aprofundamento de uma escuta atiba e dum diálogo consequente seja possíbel lebar a cabo a abaliação do desempenho dos docentes num quadro de serenidade num quadro de serenidade e tranquilidade que as escolas precisam e portanto faz falta que todos nós atrabés da cominicaçom social possamos dizer que o ministério reconhece que deberia ter sido mais generoso em matéria daquilo que eram as questões que tinham sido lebantadas de dificuldades objectibas de aplicaçom do modelo o que foi feito hoje foi o lebantamento exaustivo dessas questões e foram imbentariadas soluções para todos os casos”.
É, convenhamos, uma nítida evolução do seu pensamento acerca do processo de avaliação do pessoal docente... pensamento, disse eu? Parece que não interiorizei bem a lição de hoje. De qualquer modo, honra lhe seja feita, nem um contorcionista conseguiria tal proeza… a coluna vertebral não o permitiria.

18 novembro 2008

SÓ PARA OS AMIGOS

Senhor primeiro-ministro, eu sei que o senhor é visita assídua deste blog e, perdoe-me a imodéstia, sei, até, que o tem em boa conta. Como sei tudo isso vou esclarecê-lo sobre um assunto porque, por mais do que uma vez, já o vi meter os pés pelas mãos. É sobre a avaliação dos professores. Ainda um dia destes, em Ponte de Lima, enquando distribuía autógrafos pelos alvoroçados alunos – é campeão! dizia o senhor com a mesma convicção com que eu diria que este ano, finalmente, os políticos vão deixar de mentir ao povo – e prantava uma série de Magalhães – duzentos e sessenta ao que me dizem - na frente das criancinhas que os receberam com “um brilhozinho nos olhos” como reconheceu junto do seu staff, que recolheria, depois das fotografias da praxe, para continuar o seu reclame noutra escola, dizia aos jornalistas, com aquele seu ar de homem providencial: “Eu não quero que os professores passem mais trinta anos sem serem avaliados!” Cometeu, como vem cometendo desde há tempos, um erro grosseiro. Na realidade, aquilo que o senhor vem dizendo, é uma grande mentira. Compreendo que uma pessoa não pode saber tudo. Nem mesmo sendo o primeiro-ministro. Sei também que não arranjou uma grande equipa para o elucidar. Começando pela doutora Maria de Lurdes, sempre a humedecer aqueles lábios finos antes de cada frase. Deve ser intragável – refiro-me, claro está, às suas qualidades de conversadora –, sempre a martelar as suas ideias sem dar qualquer oportunidade ao interlocutor. E eu sei que, tal como eu, também o senhor primeiro-ministro gosta de uma boa cavaqueira. E cavaqueira pressupõe diálogo! Tenho quase a certeza que também o senhor não apreciará nada a sua companhia. Podia perguntar àquele senhor da carapinha que fala sempre com aquela falta de voz como se tivesse passado metade da noite a puxar pela equipa. Mas, para lhe ser franco, parece que também por aí não ganharia grande coisa. A sensação que dá ao ouvi-lo é que diz sempre a mesma coisa, independentemente dos assuntos, e isso pode tornar-se perigoso. É que, normalmente, não acerta. Temos depois o senhor da careca, aquele que quando é apanhado em falso, e é-o muitas vezes, fica com a moleirinha brilhante de suor e desata a dizer que a culpa é dos adversários e dos manobradores. Também parece faltar-lhe aquele distanciamento essencial a uma pessoa sensata. Sobra aquele senhor que costuma dizer: “bamos promober um encôuntro” e que tenho visto, juntamente com vossa excelência, a distribuir Magalhães e a lambuzar as criancinhas com beijos mas, também por aí, basta o dito senhor abrir a boca para ficarmos a saber o que dele se pode esperar. De modo que, tirando a ministra, subtraindo o da carapinha, deduzindo o da careca e descontando o do encôuntro, quem resta?
Então vamos lá: para dar cumprimento ao art. 42.º do ECD o docente terá de, até sessenta dias antes do prazo legal para mudança de escalão apresentar um relatório que incida sobre toda a actividade desenvolvida, individualmente ou em grupo, no plano da educação e do ensino e da prestação de outros serviços à comunidade, durante o período de tempo a que diz respeito.
De acordo com o estipulado no art. 6.º do Dec. Reg. n.º 14/92 e salvaguardando outra informação que o docente ache por bem fornecer, o relatório deverá, obrigatoriamente, considerar os seguintes itens: a) Serviço distribuído b) Relação pedagógica com os alunos c) Cumprimento de programas curriculares d) Desempenho de cargos directivos e pedagógicos e) Participação em projectos e actividades desenvolvidas no âmbito da comunidade educativa f) Acções de formação frequentadas e unidades de crédito obtidas nas mesmas g) Contributos inovadores no processo de ensino/aprendizagem h) Estudos realizados e trabalhos publicados i) Níveis de assiduidade j) Eventuais sanções disciplinares k) Possíveis louvores e distinções.
No fim o relatório é analisado por uma comissão de avaliação que propõe uma nota final que tanto pode ser negativa como positiva. Está a ver senhor primeiro-ministro, e não me venha com figuras de retórica, se a apreciação pressupõe uma nota quer dizer que houve uma avaliação. Pena é que em vez de se melhorar aquela que se já conhecia se tenha ido copiar a primeira que apareceu. [A propósito: ouvi a senhora ministra da educação há dias dizer que trabalharam “naquilo” durante dois anos. Será verdade senhor primeiro-ministro? É que estou em crer que, mesmo com o meu castelhano hesitante, não demoraria mais do que quinze dias a traduzir aquela trapalhada toda].
Bom, será o tempo do senhor cá vir e tenho a certeza que mais uns dias e passará a falar claro sobre a avaliação dos professores. Passe muito bem e, se lhe for possível, mande a ministra p’rá terra.

13 novembro 2008

OVAÇÃO [2]

Os vândalos do Secundário – ou adversários da política educativa, no dizer do secretário Pedreira –, voltaram a manifestar-se. Agora em Lisboa, na Secundária de D. Dinis, os alunos voltaram a atacar uma equipa ministerial. Embora tivessem diversificado as munições, além dos ovos tinham também tomates, o seu objectivo não foi inteiramente atingido: a equipa de intervenção rápida da PSP foi chamada à escola para pôr na ordem a chusma dos perigosos desordeiros e, segundo declarações dos responsáveis pelas forças da ordem, apesar de ter havido arremesso de alguns ovos, nenhum acertou nas viaturas nem em ninguém da comitiva.
E ainda não foi desta que o país viu, na abertura dos Telejornais, a carapinha do secretário Valter salteada com ketchup ou a careca do colega Pedreira a escorrer gema de ovo.

12 novembro 2008

OVAÇÃO [1]

Ontem, em Fafe, os alunos do Secundário presentearam a ministra da educação – ou o seu automóvel, para sermos mais precisos – com uma monumental chuva de ovos, que só não tomou ainda maiores proporções porque, chamada a intervir, a GNR confiscou uma parte considerável das munições. “Foi a única maneira de nos fazermos ouvir!”, diriam os adolescentes. Pouco tempo depois, o primeiro-ministro, naquela sua vozinha de cana rachada, afivelando a costumeira expressão de quem acaba de assistir à lapidação de uma virgem, bufa por cima do ombro para os jornalistas que não conseguem acompanhar a sua passada atlética: “Lamentável, absolutamente lamentável!” À parte a opinião de cada um, acerca do sucedido, há duas notas a reter de todo este imbróglio. A primeira é que, analisando com rigor o comportamento da ministra, somos levados a concluir que, pelo menos em parte, os alunos têm razão: por meios civilizados a ministra não ouve ninguém. Já a segunda é de molde a descansar os nossos espíritos inquietos: a geração que aí vem continua interventiva. À noite, ligo a televisão e um peralta com uns ridículos óculozinhos de aros grená pedia desculpa à ministra pelo sucedido. De repente ainda pensei que era um dos mariolas que tinha atacado a senhora e agora demonstrava o seu arrependimento, mas não, era tão-somente o presidente da câmara reprovando com veemência a atitude dos seus munícipes e lamentando a sua pouca sorte: tinha posto o maior dos empenhos naquela visita da governante, tinha posto uns óculos à Sarah Palin e uma gravatinha de seda a condizer e, de repente, vê uma camada de energúmenos a rapinarem-lhe esse gosto. “Esta atitude envergonha-me” diria.
Tenha cuidado senhor presidente. Olhe que os imberbes já votarão nas próximas eleições e na hora de votar pode ser que se lembrem do que acaba de dizer.

10 novembro 2008

ESTAMOS FODIDOS!


Quando o último manifestante mal tinha, ainda, abandonado a Rotunda já um jornalista, comentando a jornada, dizia do alto da sua sapiência: «Os professores têm de ser avaliados! Nós aqui também somos avaliados. Todas as organizações avaliam o seu pessoal.» Mais tarde diria ainda: «A ministra não pode ceder. Se o fizesse teria outras classes profissionais a encher as ruas reclamando cinco por cento de aumento.». No recato do meu lar, depois de ouvir isto, lembrei-me de Millôr Fernandes: Estamos fodidos!
A opinião pública não entende patavina do que se passa. Com pouca capacidade de analisar o mundo, não conseguiu, ainda, desembaraçar-se daquela ideia simples que um dia lhe transmitiram: “Os professores não querem é trabalhar!” Aqueles que têm por missão informar, separando o trigo do joio, afinal, vemos agora, também não perceberam nada do que realmente se está a passar – recuso-me, até ver, a aceitar aquela hipótese mais maquiavélica de, “não quererem” perceber – e continuam a sua cruzada de imbecilidades que em nada contribui para a resolução deste gravíssimo problema. Se não vejamos: Partindo do princípio que o jornalista não tinha qualquer inconfessável interesse em deturpar as coisas, erra quando diz que os professores têm de ser avaliados. Na realidade os professores sempre foram avaliados e querem continuar a sê-lo só não querem é este sistema de avaliação arbitrário, incoerente e injusto que o senhor jornalista, ainda para mais no papel de comentador de temas de educação, de todo, não conhece. No item “Preparação para o desenvolvimento dos temas a tratar” poderia ter um dez (excelente), ou um oito (muito bom), ou um sete (bom) ou, até um seis (regular), mas como mostrou uma total impreparação terá, tão só, um três (insuficiente). No item “Conhecimento dos temas tratados” continua a não poder levar mais do que um três (insuficiente). Pensava que os professores estavam lá a reclamar o aumento de ordenado. Finalmente, no item “Percepções do público ouvinte” levará outro três. Enganou-o. Disse-lhe que os professores têm de ser avaliados [porque] nós aqui [na estação] também somos avaliados [e] todas as organizações avaliam o seu pessoal. Disse-lhe que a ministra não pode ceder [porque] se o fizesse teria outras classes profissionais a encher as ruas reclamando cinco por cento de aumento. Disse-lhe tudo isto e o público ouvinte, com a sua capacidade de síntese, interpretou: “Os professores não querem é trabalhar!” O jornalista comentador de quem falo tem nome, ouvi-o ontem de manhã na RTPN mas o nosso drama, é que me poderia estar a referir a um comentador em abstracto que não seria necessário alterar nem uma vírgula, tal é a homogeneidade de pensamento que patenteiam.
E enquanto este estado de coisas não se alterar todos perdemos. Mesmo que artificialmente, se apresentem belas estatísticas sobre a melhoria do ensino no país – o público não sabe que é impossível melhorar em apenas um ano os resultados escolares em mais de vinte por cento mas abre a boca de espanto –, o nosso ensino público continuará a definhar. E a quem me disser que a criação das elites dirigentes está assegurada pelas selectivas escolas privadas dir-lhe-ei que nunca uma batalha foi ganha apenas pelos generais.

11 outubro 2008

UM PRÉMIO DE MERDA

A notícia, ainda que envergonhada, lá estava entre as novas que naquele dia pontificavam na secção local de um diário nacional. Ali para os lados de Paredes de Coura – em Castanheira, assim é que é –, tinha-se realizado um sorteio peculiar. O campo da bola lá da terra, com a mesma cal que Domingo sim, Domingo não, se fazem as marcações para o futebol, foi dividido aos quadradinhos, devidamente numerados. Depois do almoço, os castanheirenses tomam o caminho do campo. Lá chegados, quem quisesse experimentar a sua sorte, e tivesse posses para tal, escolhia o número da sua predilecção e “comprava” o quadradinho. Depois do campo “vendido”, passava-se, então, ao sorteio. E é aqui que está o caricato do processo. A organização solta uma vaca no campo da bola. O bicho lá vai “ruminando” a sua pouca sorte, alheio à populaça que ao redor do campo parece querer dizer-lhe algo e, quando acometido de uma maior pressão intestinal, pára e, literalmente, defeca sobre um número. A algazarra do povo atinge o clímax: o vencedor do primeiro prémio está encontrado. A vaca, essa, continua em campo: terá de cagar ainda o segundo e o terceiro prémios. Findo o jogo, na hora de pagar aos vencedores, o primeiro pode levar o dinheiro para casa, ou, se assim o preferir, a vaca.
Depois de ler a notícia dei por mim a pensar: se fosse a Paredes de Coura jogar o que poderia eu fazer para aumentar a minha probabilidade de ganhar? Todos os apostadores que se acotovelam ao redor do campo terão feito a mesma pergunta. Alguns terão até as suas mezinhas mas, modestamente, direi que nenhuma chegará à infalibilidade do meu processo. E não precisei de ruminar[1] muito. Quando o bicho estivesse com o rabo bem sobre o meu quadradindo, desenrolava um poster que levava bem enroladinho e mostrava-lhe uma certa figurona. À vista de tal personagem, ainda que o bicho fosse dos obstipados, haveria de lhe dar tal volta ao estômago que cagaria, pela certa, o prémio na minha casa.


[1] Esta é a minha pequena homenagem ao bicho que não tem culpa nenhuma da tontaria dos homens

06 outubro 2008

PERDOAI-LHES SENHOR...

Chegou-me hoje à caixa do correio, encaminhado já me não lembro por quem, um link que remetia para uma notícia do Correio da Manhã de há meia dúzia de dias onde Mário Nogueira, secretário-geral da Frenprof, respondia a algumas questões e, entre outras coisas, se insurgia contra as arbitrariedades e injustiças que, por estes dias, vão atazanando a vida dos professores. Embora o mail chamasse a atenção para a entrevista, confesso que esta pouco interesse me despertou – para mal do país este estado de coisas começa a eternizar-se –, antes me chamaram a atenção os comentários que a dita entrevista mereceu dos leitores. De um modo geral as opiniões iam, monotonamente, no sentido de dizerem que os malandros dos professores não querem é ser avaliados, enfim, a ladainha que lhes vêm ensinando há tempos e eles, sem qualquer capacidade de discernimento – não diria análise –, vão repetindo. De todos esses comentários elegi um que antecipa, na perfeição, aquilo que os nossos alunos, aqueles que hoje se sentam nos bancos da escola, poderão vir a fazer no futuro se rapidamente não se arrepiar caminho. O Jorge, diante do monitor, como se enfrentasse uma turba imensa de indolentes e odiosos, disse de sua justiça:

02 Outubro 2008 – 11h06 JORGEÈU ACHO QUE TODA A GENTE QUE TRABALHA PARA O ESTADO SEJA AVALIDO E QUEM NAO PRESTA RUA.NÒS PUDEMOS VÈR POR EZEMPLO O NOTÀRIO HOJE E HA DEZ ANOS,POR EZEMPLO OS PREFESSORES, SAO ULGUNS!ÈU SEI O QUE PASSEI NA ESCOLA( HOJE TENHO ÒDIO AOS PROFESSORES TODOS.JORGE DA RIBEIRA DE JOAO DE LAGOS.

O Jorge lá terá as suas razões para odiar os professores – mas os professores todos Jorge? Então o Jorge não sabe que em todas as profissões há inconscientes e malandros mas também trabalhadores e responsáveis? Não sabe Jorge? Nem a escola da vida lhe ensinou isso? Que raio anda o senhor a fazer que passa pela vida e não consegue sequer aperceber-se destas coisas? - e os professores, olhando às circunstâncias, até lhe podem perdoar, mas o que hoje está a ser feito à escola, isso, nem os professores nem o país perdoarão porque, neste caso, quem o faz “sabe o que faz”.

01 outubro 2008

É O FIM!

Profeta é, por definição, aquele que profetiza, que prevê acontecimentos futuros por dedução ou intuição. O ministro Manuel Pinho ainda lá não chegou. Até agora ainda só consegue identificar com precisão o momento em que as coisas acontecem. Sejam boas, como quando, vai para dois anos, anunciou o terminus da crise, sejam das mais penosas como a que nos deu a conhecer há dois dias: “O mundo de prosperidade acabou!”.
O ministro Manuel Pinho ainda lá não chegou. Mas estou profundamente convencido que lá chegará. Ao contrário de poeta, profeta faz-se, não nasce. E o ministro Pinho trilha, seguramente, o bom caminho.

28 setembro 2008

PODIAM SER AS MINHAS

Um dia, acompanhei um fotojornalista até Arja, onde se removiam os escombros de uma escola feminina. Quando uma retro-escavadora pôs a descoberto muitos corpos de meninas, ele olhou-me emocionado: «Daqui a meia hora, esta foto estaria a circular o mundo. Mas tenho duas filhas desta idade...» E não fotografou.
ÚNICA, n.º 1873, 20 Setembro 2008

É em momentos como este que deposito as maiores esperanças no futuro da humanidade... Pena que logo as perca ao virar da página.

27 setembro 2008

"...O TEMPO ESTÁ PERTO"

Ninguém tem consciência de nada […] O mais incrível para mim é esta indiferença geral que está instalada. […] Quando confrontado com uma grande mudança, o público tende a ficar muito mais alarmado do que os peritos. […] Mas aqui é ao contrário. O público parece muito descontraído com a questão do aquecimento global, enquanto os peritos estão em pânico. […] Quando os cientistas do painel da ONU vieram a público e confirmaram que, nas próximas décadas, as tempestades vão ficar mais violentas, o deserto irá alastrar para mais de metade do planeta e o nível do mar vai subir uma dezena de metros ou mais, […] só faltou ver as pessoas bocejarem de tédio. […] E os políticos, que deviam ter juízo na cabeça, estão na mesma […] com aquela filosofia do deixa andar e o raciocínio de que os que vêm a seguir que desliguem a luz e paguem a conta.
José Rodrigues dos Santos, “O Sétimo Selo”
Depois da estafa que foi ler a Fórmula de Deus, confesso fiquei sem grande vontade de me aventurar no Sétimo Selo. Condicionantes várias fizeram-mo, no entanto, chegar às mãos com algumas notas abonatórias.
Comecemos, então, pelo princípio. Pela capa, mais propriamente. Logo abaixo do título, em letrinhas pequeninas, como que envergonhadas, pode ler-se “Romance”. Mas, como diria um figurão da nossa praça que por estes dias lançará a sua última obra, este não me parece um romance. Não sendo também um conto é, isso sim, um longo texto panfletário que, com dados irrefutáveis, anuncia o apocalipse. Umas alusões piegas à mãe do Tomás Noronha, o Gordiano Descobridor do José Rodrigues dos Santos, uma velhinha que só à força entrou no lar, literalmente, ao empurrão, algumas cenas escaldantes com a Russa no Transiberiano e, de romance, ficamos por aqui.
Não se deduza, no entanto, que este é um daqueles livros que devemos ter o mais afastado possível da estante lá de casa, não. Tal como aqueloutro disco, também este livro devia ser lido por todos os garotos da escola. Talvez tomassem consciência do que aí virá e conseguissem explicar aos pais.

15 setembro 2008

DIA DO RIDÍCULO

Nestes dias de brasa em que molhadas de ministros se desdobram pelas escolas do país a dizer barbaridades e a distribuir cheques de 500 euros, lembrei-me de um recente estudo sobre as profissões que inspiravam mais confiança aos portugueses.
As conclusões não podiam ser mais elucidativas: os professores, a par dos bombeiros e dos carteiros, constituem uma das classes profissionais em quem os portugueses mais confiam. Pormenor elucidativo, os políticos, os publicitários, os empresários e os banqueiros obtiveram as notas mais negativas entre as 20 profissões consideradas pelo estudo.
Depois deste espectáculo deprimente só me ocorre dizer: continuam a tentar desacreditar o trabalho dos professores mas, parafraseando uma desassossegada do lado de lá da fronteira, “Não conseguirão!”

A propósito, quem é aquele senhor ao lado do primeiro-ministro que distribui beijos e diplomas às crianças, fala com uma vozinha de cana rachada e diz, com ar afectado, imbecilidades que ninguém entende? Alguém sabe?

15 agosto 2008

ADEUS ATÉ AO MEU REGRESSO

Nos tempos da guerra colonial, chegados que éramos ao Natal, lá tínhamos a monopolista RTP exibindo durante a quadra os filmezinhos que previamente tinha gravado no teatro de operações. Tudo se passava mais ou menos assim: no meio da mata, uma câmara fixa, um arremedo de jornalista empunhado um microfone e uma fila enorme de militares. Iniciada a coisa, o primeiro da fila avançava, dizia o que tinha a dizer – normalmente: “para os meus pais, irmãos, madrinha de guerra e restante família, desejo um feliz natal e um ano novo cheio de propriedades. Eu estou bem. Adeus até ao meu regresso” – e saía em passo de corrida para dar o lugar ao seguinte que, com uma ou outra nuance, diria o mesmo. Lembrei-me disto, a primeira vez que vi aquelas fotos ridículas que a SIC insiste em mostrar-nos no fim de cada Jornal da noite. Agora que não temos guerra e as reportagens da quadra natalícia são feitas nos Centros Comerciais, a dita estação teve a infeliz ideia de pedir aos espectadores que mandassem fotografias das suas férias de verão para serem exibidas em horário nobre. Além da imbecilidade da ideia – quem teria sido o iluminado? -, a ver pela qualidade das obras, não deve haver qualquer trabalho prévio de selecção, isto é, tudo o que chega vai para o ar. E então é ver toda a sorte de figuras grotescas que vamos fazendo pelas sete partidas do imaginário da nossa classe média, das Caraíbas ao Pacífico Sul. A Alta Autoridade para a Comunicação Social devia admoestar os autores.

22 junho 2008

ENCONTRO DE LEGIONÁRIOS

Ontem, ao almoço, enquanto apreciava os comensais reunidos à volta da mesa, lembrei-me dos legionários da American Legion que no longínquo ano de 1976 se reuniram na sala de Congressos de um hotel de Filadélfia para, entre outras coisas, falar das proezas do passado.
Tal como os legionários, também o curso de Engenharia Mecânica de 1983 do ISEP se reúne, quase religiosamente, todos os anos. Contam-se histórias de ontem e de hoje, pergunta-se pelos filhos e pelas mulheres – o curso de 83 foi, exclusivamente, masculino –, fala-se do trabalho e dos achaques que, fatalmente, começam a bater à porta, inflacionam-se as proezas e apoucam-se os desaires. Entretanto, desanca-se, a meias, no governo e na oposição.
Ontem foi dia de comemorar os 25 anos do curso. O Pires achou que era uma data demasiado importante para passar em claro e toca a organizar o convívio. Mais uma vez, à roda da mesa, passamos em revista o último ano e no fim, quando do leitão não restavam mais do que uns ossinhos limpos, despedimo-nos. No próximo ano, voltaremos a encontrar-nos e, prerrogativa da amizade que nos une, continuaremos a nossa conversa como se tivesse sido interrompida, apenas, no dia anterior.
Ontem, ao almoço, enquanto apreciava os comensais reunidos à volta da mesa lembrei-me dos legionários da American Legion que em 1976 se reuniram em Filadélfia. Pelo calor que passamos ao almoço, concluí que o ar condicionado não tinha sido ligado. Ainda bem que assim foi! Aumentou a probabilidade de nos reunirmos daqui a 25 anos para comemorar o cinquentenário o que, diga-se em abono da verdade, todos estão apostados em fazer.
À amizade que nos une, levanto a minha taça. Acompanhem-me!

14 junho 2008

O FANTASMA DE MOURINHO

Uns dias antes do início do Euro’2008, a SIC decidiu “presentear-nos” com reportagens sobre o que cada um dos elementos da rapaziada que nos representaria na Suiça e, eventualmente, na Áustria, é, na intimidade, ou, no aconchego do lar, digamos. Talvez por falta de assunto, as reportagens revelaram-se, de um modo geral, pobrezinhas. Giravam sempre pelo trinómio: casas; carros; calinadas, – este pessoal da bola não deixa os créditos por mãos alheias: é pontapé na bola e na gramática. Por vezes, no meio de toda aquela mediocridade, lá vinha um pormenor um pouquinho mais interessante como aquele das flores para a senhora Scolari. Luís Felipe, ao que me consta, mora ali para os lados de Sintra. Um dia, durante as suas lides domésticas, parou na frutaria. Depois de receber pelos tomates e pelas cebolas, a dona da frutaria entregou um ramo de flores ao técnico: - são para oferecer à sua senhora! – disse. O sargentão ficou visivelmente agradado com o gesto, agradeceu, e, meio a brincar, foi dizendo que diria à esposa que tinha sido ele a comprá-las.
Vem este episódio a propósito das últimas notícias que dizem que Luís Felipe Scolari vai, já no início de Julho, para o Chelsea. Faz mal! Faz mal por duas razões: primeiro porque sobre aquele clube continua – e continuará por muitos anos, espero – a pairar o fantasma de Mourinho (aquela colectividade está no bom caminho para se tornar um cemitério de treinadores) e em segundo lugar porque no chique bairro de Chelsea, por certo, não encontrará ninguém que lhe ofereça flores para levar à esposa.

10 maio 2008

A FILHA DE RASPUTINE

- Dizem que o seu pai foi primeiro envenenado, depois alvejado a tiro, depois apunhalado. Mas que ainda vivia e, desesperados por matá-lo, lançaram-no por um buraco no gelo e
[…]
- Não consegue melhor do que acreditar nas histórias dos inimigos de um homem?

Robert Alexander, A Filha de Rasputine

Grigori Rasputine é, e sempre o será, uma personagem dúbia da história Russa. Introduzido na corte do último czar, Nicolau II – … na verdade não faço ideia de como Rasputine foi apresentado à antiga família imperial –, este homem disporá de um poder imenso na condução dos destinos da nação Russa.
Desde novo este “monge louco” e analfabeto, originário dos confins da Sibéria, mostrou possuir sobrenaturais dotes de cura: “o cavalo com a perna aleijada – a primeira criatura que ele tinha curada –, [a velhota], em tempos dobrada com a artrite e agora a andar direita […], o rapaz atropelado pela carruagem, agora a viver feliz e com boa saúde. E também Madame Virubova, que sobreviveu ao acidente ferroviário quando os médicos já a davam como perdida. O Papá tinha curado centenas, se não milhares.
Os que têm o dom da cura, dizia [a minha própria mãe], sempre existiram ao longo da nossa vasta nação, homens e mulheres que conseguiram colocar a natureza sob o seu controlo. […] Tal como Cristo, eram pessoas especiais que podiam fazer os cegos verem e os estropiados andarem. Foi só recentemente que os pensamentos modernos – pensamentos modernos ocidentais, acrescentava a minha mãe com grande desdém – rasgaram o tecido das nossas antigas crenças russas, lançando dúvidas e perguntas por todo o lado.
Segundo ele, os seus poderes provinham das grandes quantidades de peixe que consumia. “O peixe é parte de um caminho, um caminho iluminado pelos apóstolos, que nos mostraram que comendo peixe os seus corpos nunca enegreciam. […] os apóstolos comiam tanto peixe, de manhã, à tarde e à noite, que a luz começou a sair dos seus corpos”. “O papá gostava mais de bacalhau[1] do que qualquer outro peixe e comíamo-lo não uma vez, não duas, mas em todos e em cada um dos dias”.
O livro de Robert Alexander retrata a alucinante última semana da vida de Rasputine contada pela sua filha mais velha, Maria, falecida em 1977 com 78 anos, na Califórnia, depois de passar fora do seu país os últimos 58 anos de vida.



[1] Estará aqui a explicação para a nossa estóica paciência para aturar todos os desgraçados que nos atormentam: o anafado consumo de bacalhau. Estará, com certeza, a deixar-nos a todos com uma aura de santidade. Se olharmos com atenção veremos o halo de luz em torno das nossas cabeças.

13 abril 2008

EUROPA: À ESPERA DE VISIONÁRIOS II

Ontem, em Idanha-a-Nova, por alturas da sessão de encerramento do 6.º Seminário Luso-Espanhol de Jornalistas, Mário Soares falou da Europa. Falou sobre os novos desafios que a União terá de enfrentar, sobre o Tratado de Lisboa – um longuíssimo e difícil tratado “à alemã” – e, em especial, sobre o impasse que, neste momento, a Europa vive. Ao ouvir hoje as palavras de Soares, não podemos deixar de nos congratular pelo facto de verificar-mos que anda a consultar o blogEVENTUAL. Mário Soares fez notar que faltam à Europa líderes com “peso” suficiente para resolver as dificuldades que se nos vão colocando.

05 abril 2008

I LOVE THIS COUNTRY

Por cá, por este imenso Entroncamento, continuam a acontecer coisas extraordinárias. Ontem duas notícias prenderam a minha atenção.
Primeira: Valter Lemos, questionado por jornalistas, à margem IX Fórum da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo, afirmou que «há uma campanha orquestrada contra a escola pública». Quando lhe foi perguntado quem estaria por detrás dessa campanha, lacónico como convém, respondeu: «Eu só vejo as vossas notícias, é isso que eu vejo, vocês é que saberão[1]».
Reparo agora que, além da tsf, parece que mais ninguém deu relevo às palavras do secretário. Será que começam a não o levar a sério?
Segunda: Arredores de Lisboa. Num estabelecimento comercial com mini-mercado e café contíguos, o proprietário, no café, ouve um ruído estranho no mini-mercado que, àquela hora, se encontrava já fechado. Pé ante pé, caminha para a fonte de ruído e, qual não é o seu espanto, apanhou o ladrão com a mão na caixa registadora. Manietou-o e chamou a polícia que o levou preso. O insólito da história viria uns dias depois em forma de intimação do tribunal. O assaltante processou o assaltado por ofensas corporais.
Por hoje chega. Estas coisas são extraordinárias mas exigem muito da gente. Vou-me entreter com algo mais “leve”. Vou ver se encontro o novo livro da Marta Crowford. Pela amostra promete.

[1] Espero que os “patifes” dos jornalistas deitem cá para fora tudo o que sabem.

01 abril 2008

SAIU-ME A TALUDA!


Finalmente, as nossas preces – ou cânticos, já não sei –, surtiram efeito. A agência Lusa informa que a carta de demissão da Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, está já sobre a mesa de trabalho do primeiro-ministro. E diz mais, Sócrates estará inclinado a aceitá-la. Depois do desgaste causado no governo, tanto pela titular da pasta da educação, como por todas as notícias negativas com ela relacionadas o primeiro-ministro terá confidenciado aos seus mais próximos colaboradores que a decisão mais acertada será aceitar o pedido da ministra.
Hoje, quando for para as aulas, irei, ainda, com mais vontade. Se os alunos me perguntarem as razões da minha súbita alegria, dir-lhes-ei que me saiu o euro-milhões.

29 março 2008

QUEM FICA PARA FECHAR A PORTA?

Desconheço se a ministra da Educação lê jornais. Talvez, por absoluta impossibilidade, o não o faça. Na sua vidinha atarefada não lhe sobrará tempo para essas minudências. Deve ter uma súcia de assessores que lhe peneiram as notícias e, todas as manhãs, como em tempos faziam àqueleoutro, lhe entregam o seu diário, expurgado de desastres. Desgraçadamente, a malha da joeira é fina em demasia e, além de todo o farelo, retém, também, muita da farinha.
Pelo crivo dos yes-men não passou, com toda a certeza, a notícia “Mais professores querem trocar a sala de aula pela reforma antecipada”, inserta no Público de ontem. Se tivesse passado, a senhora ministra ficaria a saber que:
Ana Maria Brito Jorge, professora de Matemática com 58 anos de idade, vai-se embora porque lhe “falta motivação para enfrentar mais um ciclo que, até pode acabar bem, mas que está a ser muito mal gerido”. Ela, que durante 18 anos foi co-autora de manuais escolares da editora Areal, e hoje é professora titular, até se podia acomodar e ver passar as coisas mas isso era se aceitasse as novas regras “e tivesse estômago para calar a discordância”, o que não pode fazer porque “esta avaliação é completamente desfocada e desajustada da realidade das escolas. Tem uma tal sofisticação burocrática que a torna completamente inexequível”. Chegou a uma altura em que sente escaparem-se-lhe as forças para enfrentar um “atípico e nebuloso ciclo”;
Maria Augusta Jorge Mendes, de 59 anos, é professora de Físico-Química. Esta professora, que foi um dos sete membros nomeados pelo governo para a comissão eleitoral do Conselho das Escolas, diz que reconhece à ministra, “boas intenções” e, até, “vontade de dialogar”, no entanto lá vai dizendo que “boas intenções não chegam e a tendência é para que o ambiente das escolas se degrade ainda mais”. Sente-se “cansada” e “desencantada”. Se num dia fazia parte do “unido” e ”solidário” corpo docente da prestigiada Escola Secundária Infanta D. Maria, no dia seguinte “passou a ser mais um entre os malandros dos professores que nem trabalham nem querem trabalhar”. Por tudo isto, apesar de sair penalizada com nove por cento na sua pensão, apresta-se para deixar o ensino;
Isabel Gaspar Lopes, 61 anos de idade e 37 de profissão, professora de Português na Secundária de D. Duarte, em Coimbra, ainda que com uma penalização de 4,5 por cento na sua pensão, bateu com a porta em Dezembro. Saiu, “a tempo de ter algumas saudades”, mas, “a degradação do ambiente na escola era tal que mais um pouco e já não as teria”;
Carlos Afonso, 57 anos, professor de História, requisitado pela Direcção Regional de Educação do Algarve, na iminência de voltar à escola, sente-se deslocado e abandona a profissão, ainda que isso lhe custe uma penalização de 22,5 por cento na sua reforma. “Já não tenho idade para aguentar este barco”, diz;
Lurdes Brito, 56 anos, os últimos 34 a leccionar Português e Francês, mesmo que com uma penalização de 22,5 por cento, também conta os dias para se vir embora. “O que acontece é que perdi a esperança”, diz. A carga burocrática que assoberba hoje em dia os professores está a deixá-los sem tempo para preparar as aulas. “Todos os papéis que é preciso preencher sem que isso contribua para a qualidade do ensino…”;
José Campinho, 60 anos, professor de Latim e Português na Secundária de Barcelos, tem os papéis preenchidos. No dia 22 de Abril, quando fizer 60 anos e meio, avança com o pedido de aposentação. Ainda que esse passo lhe leve 4,5 por cento da reforma, vai-se embora porque, diz, “ninguém consegue ser bom professor se não estiver motivado”, não se coibindo de afirmar que “o Ministério da Educação não deixa que os professores sejam exigentes e cria mecanismos sub-reptícios a pensar no sucesso estatístico”.
Se a notícia chegasse aos olhos ou aos ouvidos da ministra, diria, como sempre o diz, aliás, que são casos pontuais sem qualquer significado. Mas quem, como ela, se move com enorme desenvoltura pelos meandros das estatísticas saberá que esta é uma amostra significativa do desencanto que vai tomando conta do corpo docente das nossas escolas. Desgraçadamente, aqueles que, desiludidos, saem quando tinham ainda muito para dar à educação, são, porventura, os melhores dentre os melhores. Quem prefere perder uma parte considerável das suas reformas e sair são aqueles que não arranjam coragem para ficar a assistir ao esboroar da obra que durante décadas, dedicadamente, ajudaram a construir.

21 março 2008

EDUCAÇÃO HOJE

Sinal dos tempos, ontem, as televisões, abriram os noticiários do horário nobre com um filme de telemóvel. Pelo décor apercebemo-nos que tudo se passava numa sala de aula de uma qualquer escola do país. A filmagem, feita por um dos alunos da turma, mostrava uma encolerizada aluna do 9.º ano gritando para a professora e arrastando-a pela sala, enquanto esta tentava chegar à porta para, naturalmente, pedir ajuda. As imagens eram degradantes, mas o que mais me horrorizou foi não ver aparecerem os restantes alunos da turma para porem cobro àquele espectáculo aviltante, antes proferindo frases de regozijo e aprovação pelo que se passava.
Há uns anos, numa conferência sobre o poder da televisão – ou mesa-redonda, não me recordo já – alguém proferiu esta frase visionária: “Se a televisão não mostrou o incêndio na floresta, será que ela realmente ardeu?”. Talvez o Senhor Rangel não veja telejornais. Nem sempre perderá grande coisa – não raras vezes, azucrinam-nos os ouvidos com as novas mais imbecis – mas ontem teria assistido à prova mais eloquente de que pouco entenderá daquilo que o rodeia. Cristalizou e não descobriu, ainda, que os alunos que se sentam hoje nos bancos da escola pouco têm a ver com aqueles que conheceu quando por lá passou. Continua a falar da aula que frequentou há quarenta anos. E essa é a nossa desgraça. Tal como o Senhor Rangel, quem hoje decide fá-lo tendo como horizonte, tão só, a “sua” sala de aula.

15 março 2008

UMA CRÓNICA DE MERDA!

Há tempos, numa das minhas habituais rondas pelos blogs “amigos” descobri um comentário que um energúmeno achou por bem deixar em vários deles. Dizia mais ou menos isto: “Blog de merda, este. Quem não sabe dizer mais nada, põe fotografias”. Se bem que o comentário fosse injusto para muito dos destinatários, confesso que me deu uma enorme vontade de rir ao ler tal coisa. Penso que o intuito do endemoninhado era chocar, o que, em parte, terá conseguido. Quem visitasse o seu poiso podia ver toda a sorte de impropérios com que os ofendidos acharam por bem obsequiá-lo.
Lembrei-me deste episódio quando um amigo meu me enviou um artigo de opinião com que Emídio Rangel “valorizou” as páginas do novel jornal Correio da Manhã: “Hooligans em Lisboa”.
Comecemos pelo princípio. Parafraseando o arreliador dos blogs: “Crónica de merda esta. Por estes dias quem não tem mais nada para dizer escreve sobre os professores”. Depois, analisando-a em mais pormenor, descobre-se um chorrilho de imbecilidades. Vejamos algumas: Emídio Rangel, não poupa elogios aos seus professores que “não tinham nada que ver com esta gente” a quem agradece por tudo o que lhe ensinaram. Não duvido que assim seja, só que talvez o aluno não tenha aprendido o que lhe era ensinado. Os seus professores não teriam, certamente aprovado os seus métodos, quando, utilizando os melhores modos de tasca, se refere a “um tal Mário Sequeira”, fazendo lembrar aqueloutro que se referia a um tal Pinto de Sousa. Linguagem de quem pouco aprendeu nos bancos da escola.
Rangel coloca no mesmo saco todos os “professores travestidos de operários da Lisnave”. Continua a não aplicar os conhecimentos que os seus professores lhe transmitiram. Se o fizesse nunca poderia dizer que os dois terços dos professores que desceram a Lisboa eram “pseudoprofessores que trabalham pouco, ensinam menos, não aceitam avaliações e transformaram-se em soldados do Partido Comunista para todo o serviço”. De seguida mete os pés pelas mãos e diz que “felizmente ainda há milhares de professores, talvez a maioria, que exercem com toda a dignidade a sua profissão”. Repa-se: os dois terços que “vestem de preto e gritam desalmadamente” são todos uns “madraceirões” e foram urrar para Lisboa, o terço que ficou, talvez a maioria, afinal são dos bons. Esperamos todos que o seu venerável professor de matemática não tenha lido o artigo. Envergonhar-se-ia.
Na parábola dos cegos, quando um deles apalpou a tromba ao elefante, jurou a pés juntos que um elefante é uma enorme serpente que se enrola. Emídio Rangel, que “deu aulas”, não sabe que dar aulas não é, longe disso, o mesmo que ser professor. Rangel não o sabe e talvez não o venha já a aprender – demonstrou ser um fraco aluno ainda que com bons professores –, por isso, tal e qual como os cegos, continuará a bater-se pela defesa da sua visão parcial do problema. Entretanto, os nossos alunos continuarão a experimentar soluções de mentes providenciais que, um dia, “deram aulas”
Outra evidência que esta é uma verdadeira crónica de merda é o facto de Emídio Rangel repetir, sem que ao menos tenha introduzido um arabesco de sua lavra, o discurso que a Ministra da Educação, “uma ministra sábia, tranquila, dialogante, que fala com uma clareza tal que só os inúmeros boatos, a manipulação e a leitura distorcida do que propõe podem beliscar o que de boa fé pretende para Portugal”, se tem esfalfado a fazer passar: “introduziu um sistema de avaliação de professores, chamou os pais a intervir, fechou as escolas sem alunos, prolongou os horários e criou as aulas de substituição, resolveu os problemas de colocação de professores, introduziu o Inglês, levou a informática aos lugares mais recônditos do País”. E continua dizendo que estas e outras medidas já deram frutos. Outra intrujice. Se tivesse ouvido os seus saudosos professores saberia que em educação não se pode dizer, passado que foi apenas um ano, que as reformas já dão frutos.
Enfim, por todo o texto perpassam duas coisas: a primeira, uma estranha animosidade para com os professores e a segunda uma enorme ignorância do que é hoje a educação.
Quando chegar a ministro, se algum lambe-botas escrever algo deste género, darei instruções aos serviços para que jamais seja admitido no ministério.

07 março 2008

PARA TODAS... MENOS PARA UMA!


Por vezes, no meio dos montes de mensagens cretinas que os meus queridos amigos enviam para a minha caixa de correio electrónico, lá vem uma ou outra que me desperta a atenção. O Carlos Pires, um amigo que vejo apenas uma vez por ano quando, à mesa, recordamos os bons velhos tempos de estudante, enviou-me, atrevo-me a dizer, uma das mais belas loas que um homem pode tecer a uma mulher. Talvez que há vinte anos – se já houvesse correio electrónico, claro está –, o Pires não ma tivesse enviado ou eu não a tivesse apreciado sobremaneira, mas hoje, quando a idade já me permite apreciar o mundo em todos – ou quase todos – os seus matizes, reconheço: gostei e faço minhas as palavras do anónimo que as escreveu.
Neste dia oito de Março, partilho com todas as mulheres esse texto de que tanto gostei… com todas não, com todas menos uma! Só não digo quem porque teria logo a polícia à perna a fazer-me perguntas a que, talvez, nem soubesse responder.




CUIDEM-NO! CUIDEM-SE! AMEM-SE!



Não importa quanto pesa.
É fascinante tocar, abraçar e acariciar o corpo de uma mulher.
Saber o seu peso não nos proporciona nenhuma emoção.

Não temos a menor ideia de qual seja o seu manequim.
A nossa avaliação é visual. Isso quer dizer: se tem forma de guitarra... está bem!
Não nos importa quanto medem em centímetros – é uma questão de proporções, não de medidas.

As proporções ideais do corpo de uma mulher são: curvilíneas, cheiinhas, femininas....
Essa classe de corpo que, sem dúvida, se nota numa fracção de segundo.
As muito magrinhas que desfilam nas passereles seguem a tendência desenhada por estilistas que, diga-se de passagem, são todos gays, odeiam as mulheres, e competem com elas .
As suas modas são rectas e sem formas. Agridem o corpo que eles odeiam porque não podem tê-los.

Não há beleza mais irresistível na mulher do que a feminilidade e a doçura.
A elegância e o bom trato são equivalentes a mil viagras.

A maquilhagem foi inventada para que as mulheres a usem. Usem!
Para andar de cara lavada, basta a nossa.
Os cabelos, quanto mais tratados, melhor.

As saias foram inventadas para mostrar as suas magníficas pernas.
Por que razão as cobrem com calças longas? Para que as confundam connosco?
Uma onda é uma onda, as cadeiras são cadeiras, e pronto!
Se a natureza lhes deu estas formas curvilíneas, foi por alguma razão, e eu reitero: nós gostamos assim!
Ocultar essas formas é como ter o melhor sofá embalado no sótão.

É essa a lei da natureza... que todo aquele que se casa com uma modelo magra, anoréctica, bulímica e nervosa logo procura uma amante cheiinha, simpática, tranquila e cheia de saúde.

Entendam de uma vez! Tratem de agradar a nós, e não a vocês, porque nunca terão uma referência objectiva, do quanto são lindas, dita por uma mulher.
Nenhuma mulher vai reconhecer jamais, diante de um homem, com sinceridade, que outra mulher é linda.

As jovens são lindas... mas as de 30 para cima, são verdadeiros pratos fortes.
Por Karina Mazzocco, Eva Longaria, Angelina Jolie ou Demi Moore - ou Jessica Alba, digo eu -, somos capazes de atravessar o Atlântico a nado.
O corpo muda... cresce.
Não podem pensar, sem ficarem psicóticas, que podem entrar no mesmo vestido que usavam aos 18.
Entretanto, uma mulher de 45, na qual entre na roupa que usou aos 18 anos, ou tem problemas de desenvolvimento, ou está-se autodestruindo.

Nós gostamos das mulheres que sabem conduzir a sua vida com equilíbrio e sabem controlar a sua natural tendência à culpa.
Ou seja, aquela que quando tem que comer, come com vontade – a dieta virá em Maio, não antes –; quando tem que fazer dieta, faz dieta com vontade - não se sabota e não sofre -; quando tem que ter intimidade com o parceiro, tem com vontade; quando tem que comprar algo que goste, compra; quando tem que economizar, economiza.

Algumas linhas no rosto, algumas cicatrizes no ventre, algumas marcas de estrias não lhes tiram a beleza.
São feridas de guerra, testemunhas de que fizeram algo em suas vidas, não estiveram anos em formol, nem em SPA’s. Viveram!
O corpo da mulher é a prova de que Deus existe. É o sagrado recinto da gestação de todos os homens, onde foram alimentados, mimados e nós, sem querer, enchemo-los de estrias, de esárias e demais coisas que tiveram que acontecer para estarmos vivos.

Cuidem-no! Cuidem-se! Amem-se!
A beleza é tudo isto. Tudo junto!

02 março 2008

COM A MINHA MELHOR VOZ DE BARÍTONO

Ao arrepio da opinião dos entendidos, são as óperas de cariz popular que eu aprecio na vasta obra de Guiseppe Verdi. Confesso que os meus rudes ouvidos apreciam muito mais A Traviata que as eleitas dos eruditos. Pela obra perpassa uma bela história de amor. Fala de amizade, de dignidade, de perdão, de arrependimento, enfim, de tudo o que os meus incultos ouvidos gostam de ouvir. A história conta-se em duas penadas. Violeta, uma mulher mundana, vive faustosamente a expensas de um barão. Um dia, durante uma festa em sua casa, Alfredo Germont é-lhe apresentado por um amigo comum. Num momento a sós, Alfredo confessa-lhe o grande amor que sente por ela. Violeta promete-lhe, tão só, a sua amizade mas, uma vez a sós, é fustigada pela imagem do jovem galanteador e pelas suas palavras que não consegue esquecer. Pouco depois os amantes iniciarão uma vida em comum que escandalizará a família de Alfredo. O pai fará tudo para afastar o filho daquela relação adúltera e, por fim, consegui-lo-á. Um dia, ao chegar a casa, Alfredo encontra uma carta da sua amada. Abre-a e basta ler a primeira frase para saber que Violeta o abandonou. A sua tristeza é pungente. Entretanto, Giorgio Germont, pai de Alfredo, entra, e ao ver o seu filho naquela melancolia, tenta fazê-lo esquecer-se daquele amor que tantas contrariedades tinha trazido à família. Fala-lhe, então, das belezas da sua Provença natal, tentando que deste modo o filho esqueça o seu amor contrariado e regresse ao lar. A beleza da melodia aliada à mágoa do filho e ao desespero do pai fazem de “Di Provenza il mar, il suol” a minha ária preferida d’A Traviata. Na última Segunda-feira, depois das enormidades do “Prós e Contras”, tive alguma dificuldade em adormecer. Cheguei os phones aos ouvidos e liguei o leitor de mp3. Tenho sempre esta ópera à mão. Contra o que é habitual, desta vez, nem com o desespero de Giorgio no fim do 2.º acto consegui adormecer.
Ao que me dizem a ministra da educação terá alguma ligação ao Alto-Minho. Então – dei por mim a pensar –, e se alguém lhe cantasse as belezas da sua terra? O rio Minho correndo entre margens verdejantes, as searas de centeio ondulando aos ventos da Primavera, os vinhedos escarlates das vertentes viradas a Sul, os picos alvos da serra Amarela, os carvalhos da floresta primordial conservados no parque natural da Peneda-Gerês... será que esquecia os dissabores da grande cidade e fugia deste povo ignorante e mal agradecido que a não merece, refugiando-se lá para as terras da raia? Ah, se assim fosse! Até eu punha a minha melhor voz de barítono e cantava para ela.

29 fevereiro 2008

TALVEZ O DN

Durante as vinte e quatro horas de um dia, se atentarmos um pouco (um pouco basta) nas notícias que nos bombardeiam, ouvimos coisas extraordinárias. Anteontem de manhãzinha, na televisão, falava-se de avaliação dos professores. A ministra da educação e uma roda de jornalistas. Três milhões de euros p’ráqui, providência cautelar p’ráli, decisão favorável dos tribunais p’rácolá, por fim lá vem a pergunta: “E quanto à avaliação dos professores, em que pé estão as coisas?”. Dos lábios finos da ministra sai esta coisa extraordinária: “A avaliação dos professores é um processo que está a decorrer em todo o país em absoluta normalidade”. Alguns segundos depois, as imagens que ilustravam a notícia seguinte davam conta das manobras nocturnas de mais de dois mil e quinhentos professores de Coimbra que marchavam em protesto pelas trapalhadas do ministério da educação. Ouvi isto e fiquei estuporado. Dei por mim a pensar no New York Times do David Rockfeller. Conta-se – conta-o José Saramago n’O Ano da Morte de Ricardo Reis –, que para o fim da vida, Rockfeller morreu em 1937 com a provecta idade de 98 anos, enquanto a América se debatia, ainda, com as sequelas da grande depressão e na Europa os sinais do caos que se avizinhava eram já bem visíveis, o New York Times fazia todos os dias um exemplar único do jornal, falsificado de uma ponta à outra, só com notícias agradáveis e artigos optimistas para que o pobre velho não [tivesse] de sofrer com os terrores do mundo e suas promessas de pior.
Será que o Público edita diariamente uma edição extirpada de todas as desgraças para que a ministra da educação não se sinta amargurada com as banalidades do povo? Não, o Público não! O Público é mais do género Washington Post. Deve ser o Diário de Notícias. É, deve ser o DN. Correio da Manhã ou 24 horas não podem ser: extirpados de desgraças sobrariam, apenas, classificados.
O Doutor Monteiro anda assoberbado com trabalho. Tivesse um tempinho livre e pedíamos-lhe que investigasse.

24 fevereiro 2008

QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COM GATO!


No meio das toneladas de lixo com que os meus amigos entendem por bem atafulhar a minha caixa de correio, aparecem, ainda que raramente, algumas pérolas pelas quais vale a pena ter o trabalho de enviar todas as outras direitinhas para o lixo. A última foi a foto que acompanha este texto. Confesso que me ri a bandeiras despregadas.
Lembrei-me, ao vê-la, de um episódio rocambolesco que metia também uma cadeira. Há muito tempo, tanto que já lhe perdi a conta, no meu círculo de amigos havia um que tinha o infeliz hábito – infeliz e irritante, diga-se – de distribuir cumprimentos. Fazia-o, dando-nos arreliadoras palmadas nas costas, tal como hoje, estupidamente, o fazem os jogadores de futebol, nas cabeças dos colegas bem sucedidos. Enfim, o regresso às cavernas. Voltemos ao abusador. Talvez porque o seu estatuto económico fosse bem mais elevado que o dos restantes – na altura tinha já um emprego especializado que lhe rendia um ordenado acima da média, ao passo que os outros ou frequentavam ainda a escola, ou tinham um emprego mais precário, ou nem uma coisa nem outra – achava ele, que nós, os tesos, devíamos prestar-lhe vassalagem. O vil metal a isso nos obrigava e, se bem que não apreciássemos aquele peculiar modo de cumprimentar, lá o íamos aturando, afastando, sempre que possível, os nossos prezados espinhaços das suas manápulas. Mas lá chegou a altura em que a sua sorte mudou. Um dia, estávamos nós calmamente conversando – sobre a vida, quem sabe – quando chegou o nosso amigo capitalista, começando, de imediato, a distribuir cumprimentos. Mas, ou porque não estivesse em dia sim ou porque estivesse já saturado de cumprimentos tão efusivos, um dos da roda, tão logo recebeu a palmada no costado, levantou-se, como que impulsionado por uma mola, amarrou na cadeira que em que estava sentado e, com incontida raiva, fê-la voar de encontro às espáduas do amigo. Naquele momento o destemido foi o nosso herói. Fez o que todos, há muito, desejávamos fazer. Quanto ao abusador, foi remédio santo: mudou de cumprimento e, paulatinamente, foi-se afastando do grupo. Enfim, digamos que se mataram dois coelhos de uma cajadada só ou, melhor dizendo, de uma cadeirada.
Agora, vendo a fotografia, sou levado a concluir que a serventia de uma cadeira pode ser bem menos prosaica do que descansar o traseiro ou assestá-la na lombada de um amigo abusador: traçar, com rigor, o gráfico de uma função afim.

05 fevereiro 2008

... E O BURRO SOU EU?

Um destes dias uma cadeia britânica de televisão resolveu fazer um estudo – à escala nacional, diz-se – sobre os conhecimentos da juventude britânica em matéria de História. Entrevistaram uma amostra de três mil jovens com menos de 20 anos e, tratados os dados, obtiveram resultados preocupantes. Bem, melhor dizendo, preocupantes para eles, para mim foram hilariantes. Algumas pérolas saídas do dito: Winston Churchill, que a gente pensava ter sido Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha durante a II Guerra Mundial e o Rei Ricardo I, Coração de Leão, que tínhamos como um dos líderes da terceira cruzada, o terror dos infiéis na Terra Santa, são, afinal, figuras de ficção. Sherlock Homes, o metódico investigador, criado pelo escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle e Robin Hood, o príncipe dos ladrões, um fora-da-lei que roubava dos ricos para dar aos pobres, esses sim, ao contrário do que pensávamos, foram personagens com uma existência real.
Parafraseando Luiz Felipe Scolari: então Artur, o da Távola Redonda, foi rei de Inglaterra? E Charles Dickens é uma personagem da banda desenhada? E o burro sou eu? E o ruim sou eu?