16 maio 2006

"I LOVE THIS GAME"

Ontem, às oito horas da noite como se impunha, Scolari falou. Começou por dizer umas tretas que não tinham qualquer razão de ser e, de seguida, passou a anunciar os vinte e três que nos representarão na Alemanha. Se a primeira parte da sua intervenção me causou algum espanto, por totalmente deslocada, já a segunda não trouxe qualquer novidade. Aliás, continuo a não entender como ainda há pessoas que esperavam ver o Ricardo Quaresma na selecção - que os treinadores de bancada tivessem ficado estupefactos e revoltados pela sua não inclusão, ainda vá que não vá, mas os jornalistas senhor?!
O seleccionador fez o que devia ser feito. O futebol é, ao contrário do que muita gente pensa, um desporto colectivo. Como tal, a equipa não vale pelas suas estrelas, individualmente consideradas, mas pelo seu todo. O Ricardo Quaresma, detentor de uma técnica fabulosa que leva ao delírio estádios inteiros, fazendo com que adeptos e adversários se rendam à sua magia, não pode, ainda por cima diante de todo o país, chamar filho da puta a um colega de profissão que, passado menos de um mês, iria encontrar na sua equipa.
Quando no passado dia vinte e dois de Abril, Scolari ligou a TV e viu como na varanda do estádio do Dragão o F. C. Porto festejava a recente vitória no campeonato, terá pegado na lista de convocados e riscado o nome de Ricardo Quaresma.
Espero, esperamos todos, que este triste episódio tenha servido de exemplo ao jovem jogador. Que tenha servido, pelo menos, para o fazer crescer. Se assim for a selecção terá, com certeza, muito a ganhar com ele. Se assim não for... teremos, pelo menos, outra novela!
Os vinte e três do Scolari são os nossos vinte e três!
Viva a Selecção!

11 maio 2006

BLANQUETTE

A nossa ministra da educação tem andado num afã tremendo desde que assumiu a pasta há já mais de um ano.
Uma das criações pela qual será, com certeza, lembrada é a das "famigeradas" aulas de substituição. Tendo tomado posse pouco tempo antes de terminar o ano lectivo de 2004/05, numa altura em que todas as decisões sobre o ano lectivo seguinte estariam já amadurecidas e prontas a serem implementadas, a ministra, decide fazer tábua rasa de tudo isso e num Verão verdadeiramente frenético toca a fazer tudo de novo. A nossa ministra da educação é, não o duvido, uma pessoa trabalhadora, de espírito livre e que não recua perante as dificuldades. Mas nem sempre isso chega. Por vezes, em doses excessivas, pode revelar-se, até, contraproducente. A ministra não terá pesado todas as implicações que a implementação do sistema teria. Desgraçadamente, também não se terá aconselhado com quem devia, de modo que, na ânsia de começar a conferir à educação o seu cunho pessoal lança atabalhoadamente o sistema. Sem uma experimentação prévia e mal pensado, o sistema nunca funcionou. Os professores, sentindo que tudo foi feito contra eles, nunca o adoptaram. Os alunos, não ganhando nada com isso, muito menos. Quase um ano lectivo depois, embora não o admitindo, a ministra vem reconhecer que talvez tenha havido precipitação e decide mudar as regras do jogo. Agora o professor que vai faltar tem de deixar o plano da aula ao professor que o vai substituir. Se o não fizer arrisca-se a levar uma falta injustificada. Enfim, continua a ameaçar-se os professores e a decidir-se em cima do joelho. Não será necessário outro ano lectivo para verificar da nula utilidade das novas mudanças. Então, alegremente, levada pelo instinto, a ministra mudará o rumo. . Temo que daqui a menos de um ano a ministra conclua que este não é, ainda, o sistema ideal e, atabalhoadamente, queira desencantar mais um despacho que mude tudo outra vez. Só que pode ser já demasiado tarde...
Tudo isto me faz lembrar a história da cabra do senhor Seguin, contada por Alphonse Daudet nas "Cartas do meu moinho". Blanquette, era uma bela cabrinha de sedosa pelagem branca que amava a liberdade. Apesar de ter uma bela vida na quinta do senhor Seguin, no verdejante vale do Ródano, olhava para o horizonte e sentia o apelo das montanhas distantes. Até que uma manhã, apesar dos esforços em contrário do dono, Blanquette fugiu. Durante todo o dia andou alegre, correndo pela montanha, guiada pelo instinto, inebriada pelos mil cheiros e sabores das plantas que nunca tinha visto. Ao cair da noite a cabrinha pressente o perigo. Podia ainda regressar à segurança da quinta mas lembrando-se que voltaria a ser amarrada ao poste, atira para longe esse pensamento, vira-se e enfrenta corajosamente o lobo. Lutará com ele toda a noite mas ao alvorecer o lobo lançar-se-á, finalmente, sobre ela e comê-la-á. A tristeza assola a alma do senhor Seguin: como todas as anteriores, também blanquette foi comida pelo lobo.
A história não o diz, mas o senhor Seguin recomeçará tudo. Levará para a quinta outra cabrinha e, como sempre, fará tudo o que pode para que ela lá permaneça. De início pensará: "Finalmente acertei, esta ficará comigo para sempre!"... Mas quem sabe... um dia pode olhar para as montanhas e sentir o seu apelo...

09 maio 2006

EUROPA: À ESPERA DE VISIONÁRIOS.

A Europa é, desde há mais de vinte séculos, o farol do mundo. Perdoem-me aqueles que dizem que essa função se deslocou, definitivamente, para outras paragens. Contraponho que duas gerações de liderança, não são tempo suficiente para que se tirem conclusões definitivas sobre tão importante matéria.
Vinte séculos depois a Europa tem ainda vitalidade suficiente para nos surpreender. Para surpreender o mundo, diria. Ninguém mais no mundo está preparado para se unir como fizeram, há cinquenta anos, seis países da Europa que depois passaram a nove e depois a dez e depois a doze e depois a quinze e depois a vinte e cinco e ninguém sabe ainda quando parará esta jornada.
- Quem mais no mundo estaria preparado para abolir, literalmente, as fronteiras?
- Quem mais no mundo estaria preparado para abdicar da sua moeda em troca de uma moeda única?
- Quem mais no mundo estaria preparado para abdicar da tomada de decisões para as transferir para a união?
- Quem mais no mundo estaria preparado para repartir os seus recursos com os seus vizinhos mais necessitados, ajudando-os no seu desenvolvimento?
Atrevo-me a responder: - Ninguém!
Hoje é o Dia da Europa. Esta é a minha singela homenagem àqueles que tiveram uma certa ideia "utópica" de Europa e que a conseguiram materializar: Robert Schuman, Jacques Delors, François Miterrand, Helmut Kohl,... À sua maneira todos foram visionários e tem sido com eles que esta bela ideia tem avançado.
Talvez que a Europa não avance propriamente em passo de peregrino mas tem alternado as eras de avanço com as de estagnação. Dir-me-ão que são necessárias para assimilar todas as modificações mas do que não restam dúvidas é que a Europa avança quando surgem os visionários.
Hoje todos eles morreram ou estão retirados.
A Europa espera os próximos.

07 maio 2006

EXTRAORDINÁRIO CONGRESSO DO CDS

Felisberta Cabrinha é jornalista. Como todos os jornalistas, Felisberta tem a sua carteira de informadores a que recorre sempre que necessário. Hoje vai escrever sobre o Congresso do CDS mas ainda não decidiu como irá titular o artigo: se "Congresso Extraordinário do CDS" se "Extraordinário Congresso do CDS". A dúvida tem a ver com o que o informador lhe contou: o Congresso, convocado extraordinariamente pelo líder, tinha o seu início marcado para as 10 horas da manhã, mas, a essa hora, apenas tinha chegado um congressista - embora o informador lhe tenha dito que era um betinho com pretensões de liderar o partido, Cabrinha não utilizará essa informação.
Uma hora depois, tinham chegado mais quatro delegados. Eram agora cinco no total, se não nos esquecermos do dito betinho.
Mais uma hora se passa e chegamos ao meio-dia. Agora já são mais alguns congressistas na sala, mas, mesmo assim, ainda não seriam suficientes para ocupar todos os lugares que no parlamento estão destinados aos deputados do PSD. Não há ainda quorum por isso esperarão mais meia hora. Finalmente, às 12,30, com a sala já composta - duzentos e cinquenta delegados ao que consta -, tem início o congresso.
- Mas afinal - pergunta Felisberta -, quantos congressistas estavam na sala ao meio-dia?
- Isso não consegui apurar - respondeu o informador -, apenas consegui saber que a média das idades dos congressistas, que nesse momento se encontravam na sala, era de 45,54 anos.
Há por aí alguém que consiga responder à Felisberta? Caso contrário o seu artigo não será totalmente elucidativo para os leitores.

Em tempos deixei aqui outro problema deste género (PORTUGAL 2025). Como até hoje não obtive qualquer resposta, volto à carga.

06 maio 2006

NAVALHA ROMBA

Periodicamente, Clara Pinto Correia escreve no 24 Horas, mantendo uma coluna a que dá o sugestivo nome de "O fio da navalha". Na última Sexta-feira verteu lá uma prosa que de tão prodigiosa decidi transcrevê-la para que, eventualmente, mais alguns possam ter a oportunidade de lê-la. Dizia assim:

Fui a um congresso ao Algarve. Como a função metia fim-de-semana prolongado em hotel com praia e piscina, além de muitos outros daqueles entretenimentos de que a juventude gosta, incluindo até karaoke, resolvi levar os meus rapazes. E claro que houve outros colegas que tiveram a mesma ideia. Chegámos tarde, noite fechada, mesmo prontos a cair mortos na cama, eu com uma boa dose de vodka e eles com uma boa dose de televisão. No dia seguinte, o cenário não podia ser mais promissor: céu azul, sol a brilhar, mar a perder de vista, voos de gaivotas, a piscina convidativa mesmo debaixo das nossas varandas, as falésias cintilantes na luz da manhã. Eu fui trabalhar e eles atiraram-se com unhas e dentes à tarefa séria de se divertirem até não poderem mais. E assim foi que comecei logo a ouvir umas conversas, cada vez mais intensas, sobre duas meninas que não paravam de olhar para eles. A certa altura, no bar, mostraram-me as tais meninas – e juravam a pés juntos que, de cada vez que eles passavam, elas olhavam. No dia seguinte, dei eu um salto à piscina e às tantas vi as tais meninas a falar com uma colega do congresso. Quando elas se afastaram, não resisti a perguntar-lhe quem elas eram. “São minhas filhas,” disse ela. E depois acrescentou, com um ar divertido: “Por acaso, olhe... estão sempre a dizer que os seus filhos não param de olhar para elas!”

Desculpe, Clara, mas depois de ler esta pérola fiquei deveras curioso:
- Pagam-lhe por escrever estas coisas?

05 maio 2006

PARA TODAS AS MÃES


Socorro-me de quem diz as coisas melhor do que eu digo para desejar a todas as mães 365 dias da mãe em cada ano.


CORREIO

Carta de minha Mãe.
Quando já nenhum Proust sabe de enredos,
A sua letra vem
A tremer-lhe nos dedos.

- "Filho"...
E o que a seguir se lê
É de uma tal pureza e de um tal brilho,
Que até da minha escuridão se vê.

Miguel Torga, Diário II

04 maio 2006

"TIQUES" DE DESENVOLVIMENTO

Em Portugal o mercado de animais de companhia não pára de crescer e representa já um volume de negócios de duzentos milhões de euros anuais. Enquanto a economia desde há três ou quatro anos anda roçando o limiar de recessão, este mercado tem subido acima dos dez por cento ao ano.
Marcas de luxo como "Gucci" e "Ágata Ruiz de la Prada", olham para estes apetecíveis nichos de mercado e criam linhas de acessórios e produtos de beleza especialmente direccionados para animais e acessíveis apenas a pessoas de elevado poder de compra.
Enquanto um cão com pedigree pode custar € 800.00 e um gato com uma árvore genealógica recomendável chega a vender-se a € 1 000.00, uma percentagem considerável de portugueses, vai (sobre)vivendo, indigentemente. Oitenta e cinco por cento dos pensionistas da nossa Segurança Social recebem até € 374.00. Paralelamente, alguns gastam rios de dinheiro em ridículos artefactos para animais...
Senhoras e senhores, eis o verdadeiro mundo cão!

02 maio 2006

SÉRGIO SANTIMANO

O "Norteshoping" tem 3 pisos de estacionamento. Um deles tem a particularidade de se situar, literalmente, na cobertura do edifício. O arquitecto Eduardo Souto Moura imaginou uma peculiar forma de aceder ao referido estacionamento. Idealizou um cilindro com uma dupla hélice na sua superfície lateral: por uma sobe-se; pela outra desce-se. O interior do cilindro foi aproveitado para um espaço cultural: "Silo". Um belo e monumental espaço cultural, diga-se em abono da verdade, premiado - Prémio de Opinião - pela FAD (Foment de les Arts Decoratives) de Barcelona.
As paredes interiores foram cobertas com tijolo burro e o pé direito com cerca de uma dúzia de metros confere-lhe a monumentalidade que atrás referi.
Até ao dia 7 de Maio lá estará patente uma mostra de fotografia de Sérgio Santimano, um fotógrafo que nasceu e cresceu em Moçambique, ainda que com ascendência Goesa, e vive, presentemente, na Suécia.
A mostra retrata diversas facetas da vida em Moçambique: os tempos da guerra, a aprendizagem da paz, a ilha de Moçambique...
A reprodução aqui exibida refere-se a uma das fotografias expostas. Pelo seu significado foi uma das que mais gostei. Melhor que a fotografia só mesmo o título que Sérgio Santimano lhe deu: auto-retrato.

01 maio 2006

DIA DO TRABALHADOR

...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Augusto Gil

30 abril 2006

MOURINHO CAMPEÃO DE INGLATERRA

F. C. do Porto campeão de Portugal;
Barcelona campeão de Espanha;
Lyon campeão de França;
Juventus campeão de Itália;
Bayern de Munique campeão da Alemanha;
...

Mourinho campeão de Inglaterra.

28 abril 2006

PORTUGAL 2025

Roque Marinho é o decano dos professores de História. No início de Abril distribuiu por todos os outros 83 professores da sua escola um inquérito onde fazia apenas uma pergunta:
"- O que é para si o 25 de Abril?".
Muitas das respostas que obteve deixaram-no estarrecido: "- É o 25.º dia do 4.º mês de cada ano", dizia um, "- É o equinócio da primavera", dizia outro, "- É o nome de um filme sobre a Revolução Chilena", dizia ainda outro, "- É a data em que se realizou o primeiro Festival de Woodstock"... enfim, um nunca mais acabar de imbecilidades.
Preocupado pelo desconhecimento da razão de ser de uma data tão importante para a história do país, o professor Roque Marinho decidiu organizar uma conferência subordinada ao tema e aberta a todos os professores da escola que desejassem participar, para a qual convidou um historiador famoso.
Durante a conferência circulou uma lista onde cada participante escreveu o nome e a idade.
A média de idades dos professores participantes foi de 36,425 anos
Quantos professores da escola assistiram à conferência?
Ah! já me esquecia: 6 dos professores da escola não puderam participar na conferência porque foram acompanhar os alunos do 9.º ano numa visita de estudo a Óbidos.

A VITÓRIA DE "ANTÓNIO"

D. António Montes, vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, é, também por inerência do cargo que ocupa, uma voz importante da hierarquia da Igreja. Ontem, ainda que com anos de atraso, veio dizer que a Igreja estaria disposta a considerar o uso do preservativo como um "mal menor". Embora não se compreenda bem como a Igreja contemporiza com o mal, ainda que menor, é de salientar a inversão da opinião da igreja acerca deste tema que motivou em tempos um olhar crítico do cartoonista António. Não sei se com a nova postura da Igreja sobre este assunto se vai passar a usar mais o preservativo, duvido até que isso se venha a verificar, mas o que não posso deixar de dizer era a revolta que me causava a pregação contra o preservativo enquanto quase metade da população da África subsariana se infectava com o vírus da SIDA. A igreja é uma estrutura dinâmica, não há qualquer dúvida, e reconhece os seus erros... embora que por vezes demasiado tarde.

25 abril 2006

MARÇO NUNCA MAIS!


“… e o professor Salazar […] em passinhos delicados de freira, ondulando os dedos transparentes para os vasos a cuidar que as flores o aplaudiam, e quem diz o professor Salazar diz o senhor almirante a cortar fitas de inauguração invisíveis com uma tesoura enorme seguido pelo seu cortejo de Diogos Cães engalanados, e quem diz o senhor almirante diz o cardeal lânguido, empalidecido pelos jejuns e mortificações da virtude, oferecendo o anel a beijar aos apliques e às caixas do correio, e quem diz o cardeal diz o major de Pide, pardo, oblíquo e sozinho como um empregado bancário viúvo, todos reunidos […] a decidirem de milagres com pastorinhos e de campos de concentração…”

in "O Manual dos Inquisidores", António Lobo Antunes

23 abril 2006

PANOPTICON VIRTUAL


“… os computadores […] forçavam a sua entrada em sistemas de dados protegidos. Quais fantasmas digitais, atravessavam paredes e surgiam em salas de armazenamento. O mundo exterior continuava a parecer igual, mas os fantasmas podiam ver as torres e as paredes ocultas do Panopticon virtual.”
in "O Viajante", John Twelve Hawks
Desde sempre o mundo tem sido um lugar perigoso para se viver... Pelo menos para alguns.
Talvez preocupado pela segurança, o jurista e pensador britânico Jeremy Bentham, concebeu, em finais do séc. XVIII, uma estrutura de forma circular, comportando vários andares, a que deu o nome de Panopticon e que funcionaria como uma prisão ideal. Na periferia do círculo situavam-se as celas totalmente abertas para o interior. No centro do anel existia uma torre de vigilância onde os guardas podiam ver os presos sem que estes os vissem. A cela não oferecia ao preso qualquer possibilidade de se esconder. Além do trabalho de vigilância poder ser desempenhado por um número diminuto de guardas, este sistema iria criar no preso a sensação que estava permanentemente sob vigilância, mesmo que isso não fosse verdade. Em última análise, seria o preso a controlar os seus actos.
Baseado no conceito de Panopticon, ainda que virtual, John Twelve Hawks, retrata em "O Viajante" um mundo onde, teoricamente, todos os cidadãos estão permanentemente vigiados, a menos que consigam viver fora da rede. É uma história perturbadora...
Talvez que esse mundo não esteja assim tão longe. Num julgamento mediático que actualmente se desenrola nos tribunais, os passos dos arguidos foram fielmente reconstituídos com a consulta de telemóveis, cartões de crédito, portagens de auto estrada, imagens de câmaras... como diria o viajante Gabriel “As pessoas querem acreditar que há uma ilha tropical ou uma gruta nas montanhas onde se podem esconder, mas hoje em dia isso já não é verdade. Quer gostemos, quer não, estamos todos ligados.”

20 abril 2006

AO PREÇO DA UVA MIJONA

Abriu hoje a Festa do Livro, na Praça da República. Logo que possa passarei por lá. Procurando bem, podemos ter a sorte de encontrar algo interessante. No ano passado, entre outras coisas, encontrei um livro delicioso ao preço da uva mijona: "A vida deste rapaz" de Tobias Wolff. Um livro autobiográfico que retrata a infância e adolescência do autor. As suas deambulações pela América profunda, seguindo a mãe, entretanto separada do pai. A dificuldade em enraizar-se em qualquer lugar. A relação tensa com os ocasionais companheiros da mãe. Enfim, uma pequena maravilha. Há uma versão "em celulóide" com o Robert de Niro e o Leonardo DiCaprio, mas não conheço. Se não leu, aconselho-o vivamente a passar por lá. Parece não ter grande procura por isso talvez encontre ainda um exemplar.

16 abril 2006

NÃO É POETA QUEM QUER...


"Vovó, você já está muito velha e quando eu voltar eu não vou ver você mais, mas eu vou ser cantor de rádio e você poderá ligar o rádio do Céu, se sentir saudades."

(Chico Buarque, com oito anos; bilhete para a avó.)

15 abril 2006

CRÓNICA ZIG-ZAG

Semanalmente, aos Sábados, Rui Reininho escreve no Jornal de Notícias. Não fora o modo peculiar como o músico escreve as suas crónicas e, por si só, isto não seria notícia. Todas as Segundas, talvez ainda moído pelos afazeres do fim de semana, Reininho tem dificuldade em dormir. Então, senta-se na frente do computador, liga-se à net e toca a navegar. Ao sabor do vento, já se vê. Tudo o que lhe soe, vai guardando, e, ao fim de algum tempo, quando acha que tem material suficiente para obrar uma bela coluna, cola tudo e vai cortando aqui e ali até ficar no tamanho conveniente. Agora é só enviar por correio electrónico para a redacção e, com a sensação do dever cumprido, pode, finalmente, dormir.
Estava a brincar. Apenas a primeira frase é verdadeira.
Mas, já agora: - Há por aí alguém que entenda as crónicas que o músico Rui Reininho escreve todos os Sábados no JN? Ou dito de outro modo: - Há aí alguém que consiga ler uma crónica do Rui Reininho até ao fim sem enjoar?

O CASCA-GROSSA

Há um ministro do nosso governo que tem o condão de fazer um grande estardalhaço sempre que se lembra de tomar qualquer decisão. Quem é o elefantinho? Quem é?
Depois, claro, durante umas boas semanas, meio país desbarata energias - essenciais para outras lutas -, insurgindo-se contra o político ou contra as suas políticas.
Nas minhas deambulações pela internet - estarei em pecado? - encontrei algo que talvez ajudasse a resolver o problema. Funcionaria assim: uns dias antes da tomada de qualquer decisão o referido ministro mandava colocar o sinal à porta do ministério e todos nós ficávamos avisados que o casca-grossa ia decidir.

14 abril 2006

O NOVO CATECISMO

Se no Vaticano não seguissem já o novo catecismo do Cardeal Stafford, teria lá chegado a opinião de D. Januário acerca dos novos pecados. Na sua voz desassombrada, como sempre, diz no 24 horas de hoje (não é pecado ler o 24 horas às Sextas porque traz o suplemento Bits e Bytes) que ler, ver televisão ou navegar na Internet não é pecado, é, isso sim, um acto de cultura. E, para quem o quiser ouvir, diz D. Januário Torgal Ferreira: "... a igreja devia ocupar-se de pecados realmente graves, como as barbaridades cometidas no Iraque, o armamento e a exploração de crianças pelo clero americano, esses sim, pecados bárbaros."

P.S. O Cardeal James Francis Stafford já veio desmentir a notícia publicada pela imprensa de todo o mundo. Como não podia deixar de ser, disse que se fez uma interpretação abusiva das suas palavras. Que não senhor, não foi bem isso que quis dizer... Está em pecado! Anda a ler demasiada imprensa portuguesa: ou em papel ou na internet ou, eventualmente, na televisão. Foi desse modo que aprendeu com os nossos políticos: declarar hoje; desmentir amanhã.

12 abril 2006

COZINHAS DA ÁFRICA

Metade da comitiva do Sócrates chegou de Angola com caganeira! Enquanto leio a notícia no Correio da Manhã vem-me à memória, sabe-se lá porquê, uma frase das "Memórias de Adriano" de Marguerite Yourcenar:
"Foi em Roma, durante as longas refeições oficiais, que me aconteceu pensar nas origens relativamente recentes do nosso luxo, nesse povo de cultivadores económicos e soldados frugais, alimentados de alho e cevada, subitamente emporcalhados pela conquista nas cozinhas da Ásia, tragando aquelas comidas complicadas com uma rusticidade de camponeses dominados por fome canina"

11 abril 2006

REGRESSO AO PASSADO

Na sua coluna do JN de ontem, Manuel António Pina dava conta de uma reportagem do The Guardian que denunciava uma verdadeira caça às bruxas nas instituições de ensino norte americanas.
Hoje acusam-se professores por antiamericanismo e suspendem-se por serem proguessistas ou por criticarem Bush.
Exortam-se os alunos a gravarem as aulas e a denunciarem os professores de esquerda ou amigos de gays ou aqueles que usam nas suas aulas textos obcurantistas.
Listas como The dirty thirty ou Os 101 mais perigosos professores da América são periodicamente actualizadas.
Criam-se associações de cidadãos vigilantes como a associação Pais contra os maus livros na escola.
Enfim, a história, afinal, sempre se repete.
A propósito: não se podería dar ordem de despejo ao inquilino da Casa Branca? É que o mundo ficaria, certamente, um lugar mais seguro...

TRABALHADORES DO COMÉRCIO

Na semana passada, um cronista da nossa praça insurgia-se contra os abespinhados portugueses que atendem o público nas lojas deste país. Na sua opinião não chegavam sequer aos calcanhares das eslavas e dos brasileiros.
Discordo!
A senhora da minha padaria, que é portuguesa, tem, nos 365 dias do ano, o sorriso de uma eslava e a boa disposição de um brasileiro.

10 abril 2006

O DINHEIRO SUJO DE JUDAS

Nos anos 70 do século passado, nas areias quentes de El Minya, no Egipto, é descoberto um manuscrito que esteve enterrado durante 1700 anos. Nos 30 anos seguintes circula de antiquário em antiquário até que chega a Zurique, às mãos de Frieda Nussberger-Tchacos. A sua intenção seria negociá-lo, mas, alarmada com a rápida degradação do códice, decide confiá-lo à Fundação Mecenas para a Arte Antiga da Suíça, em Basileia, para ser restaurado e traduzido. Cinco anos de intenso e ininterrupto trabalho e o Evangelho de Judas pode, finalmente, falar: "Este é o relato secreto da revelação que Jesus confiou em segredo a Judas Iscariotes três dias antes da Paixão", assim começa o documento. Judas que na tradição cristã sempre foi apresentado como o vil, o apóstolo maldito, aquele que entregou Jesus Cristo aos Romanos para ser crucificado, afinal pode tê-lo feito em conluio com Cristo. E isso porque Judas seria o favorito de Jesus e, por isso, aquele que Ele escolheu para o denunciar: "Tu excederás todos os outros. Pois tu sacrificarás o homem que me veste".
Depois desta descoberta, que os especialistas já vieram dizer que é autêntica e, além disso, havia já relatos que davam como certa a sua existência, a história não será propriamente reescrita, mas, do que parece não restarem dúvidas, é que abrirá a porta à reabilitação do mal amado Judas.
Enquanto a National Geographic desvendava esta descoberta, o Bispo da Funchal, na homilia do Domingo de Ramos, exortava os jovens a absterem-se de participar no Madeira Paradise Dance Festival 2006 que decorrerá na Sexta-feira Santa na Ponta do Sol. Dizia D. Teodoro de Faria: "Caros jovens, não vos deixeis seduzir em Sexta-feira Santa, por um evento musical que é uma falta de respeito às convicções religiosas do nosso povo. [...] Sexta-feira Santa é um símbolo sagrado, dia da morte de Jesus". Até aqui tudo bem. Compreende-se que D. Teodoro queira retirar os escolhos do caminho das suas ovelhas, mas, mais à frente, continuava D. Teodoro: "seduzir jovens para um megaconcerto em Sexta-feira Santa para negócio é sujar as mãos com o dinheiro de Judas"
D. Teodoro de Faria, Iminência, não seria do mais elementar bom senso ter-se abstido de falar do sujo dinheiro de Judas, pelo menos por agora?

07 abril 2006

A MINHA PAIXÃO SEGUNDO S. MATEUS


Aqui, sentado num banco da sexta fila da nave central da igreja do Convento de S. Domingos, vem-me à memória uma entrevista que em tempos li. A certa altura, o entrevistado, um director de orquestra americano, contou uma história cujos contornos guardo até hoje. Contava ele que no dia 22 de Novembro de 1963 iria dirigir uma orquestra num concerto importante. Até aqui nada de anormal. Mas eis que, passada meia hora do meio dia, começam a chegar notícias aterradoras de Dallas. À uma da tarde o horror confirmava-se: John Kennedy, o 35.º Presidente dos Estados Unidos da América, era assassinado com dois tiros, enquanto desfilava, em carro aberto, pelas ruas da cidade. Recordo-me que o director dizia que a decisão natural, conhecida que era a tragédia, teria sido cancelar o concerto mas ele recusou-se a fazê-lo. Naquela altura a única coisa capaz de aplacar a tristeza que sentia era ir para a frente da orquestra. Foi o que fez. Não me recordo já se o programa contemplava qualquer obra de Bach mas do que me recordo é do maestro dizer que, naquela altura, só a música do compositor alemão lhe poderia apaziguar a mágoa que sentia, sem que isso beliscasse a memória de um homem que muito admirava.
O meu Benfica acaba de perder com o Barcelona e eu, aqui sentado num banco da sexta fila da nave central da igreja do Convento de S. Domingos, recordo-me, não sei bem porquê, desta entrevista que li há já muitos anos. No altar-mor a orquestra dá os primeiros acordes. As cerca de cinco dezenas de vozes do coro começam a entoar as primeiras palavras: "Requiem aeternam dona eis domine...".
Nesta tormentosa noite de Primavera, o Requiem de Mozart será a minha paixão segundo S. Mateus.

29 março 2006

HISTÓRIA INTERMINÁVEL

Um destes dias, na mesa ao lado, ouvi uma história que me fez arrebitar a orelha. Duas amigas conversavam. Falariam de trivialidades, talvez de doenças. Até que a certo ponto uma delas diz à outra. A voz embargada pela ira, o olhar faiscante de indignação:
- Sabes, ontem a minha mãe foi ao médico. No fim da consulta o médico disse-lhe que eram 25 euros. A minha mãe pediu-lhe um recibo dessa importância e não queres saber que o sacana (não me recordo bem se foi este o classificativo utilizado, mas se não foi este foi outro do mesmo jaez) do médico lhe disse? "- Então são 40 euros". A minha mãe, incrédula, lá teve que dizer, meio cabisbaixa: "- Então sem recibo".
Quando era pequeno ensinaram-me que era feio ouvir a conversa dos outros. Sigo à risca este ensinamento e só ouvi porque as duas amigas não tinham intenção de guardar a história só para elas. Faltou-me foi a coragem para perguntar o nome do médico (ou elas nunca o mencionaram durante a conversa ou foi um pormenor que me escapou), porque se o tivesse perguntado, e elas mo tivessem dito, prometo que o escancararia aqui!

27 março 2006

TOMAR A NUVEM POR JUNO


No início do presente ano lectivo, na minha escola, uma escola dos 2.º e 3.º Ciclos, inquiriram todos os alunos acerca do que pensavam ser os factores que mais condicionavam o seu sucesso. Esperar-se-ia que "à cabeça" viessem factores como a dificuldade dos conteúdos ministrados, o desinteresse pelas matérias, o desinteresse pela escola, ou, eventualmente, o interesse por actividades que a escola não lhes poderia, ou saberia, dar. Puro e redondo engano. Uma parte considerável dos alunos, elegeu factores como indisciplina na sala de aula, falta de atenção e/ou concentração, desinteresse e falta de hábitos de estudo. Apenas 9% das cerca de sete centenas de alunos da escola, elegeu para principal factor de insucesso a dificuldade dos conteúdos ministrados. A minha escola será uma amostra significativa das escolas deste país, querendo eu com isto dizer que as respostas dos alunos de outras escolas, a esta pergunta, não seriam substancialmente diferentes. Assim sendo, será que quando se definem as políticas de ensino, esse passo é dado depois de uma análise profunda de todos estes dados ou, como por vezes parece, todas as decisões são, perdoe-se-me o lugar comum, tomadas em cima do joelho? Não estarão, por acaso, a tomar a nuvem por Juno? Será que na ânsia de mostrar resultados se estão a trilhar caminhos que deveriam ser evitados? Penso que sim! Enquanto que o governo, qualquer que ele seja, se esquecer dos professores, são os alunos que perdem, são as famílias que perdem, é o país que perde. Não tenhamos ilusões, chamar malandros aos professores, por estas ou semelhantes palavras, é hipotecar o futuro do país. Estas coisas, para quem ainda não percebeu, funcionam do seguinte modo: o governante diz, a televisão amplifica, a família interpreta e o professor terá de gastar energia e tempo precioso para explicar à criança (e não é certo que o consiga - note-se que neste momento o aluno não ouve o professor mas sim o destinatário de todos os impropérios que o pai lhe endereçou ao jantar, na noite anterior), que o senhor governante não queria dizer bem o que a televisão disse e o pai interpretou.
Enquanto todos não nos pusermos de acordo sobre estas questões, o nosso sistema de ensino continuará a marcar passo, de pouco lhe valendo a implementação de medidas avulsas e desgarradas da realidade, que entretanto se possam ir tomando.

25 março 2006

ANDORINHAS

Hoje chegaram as andorinhas!
Quando chegará a Primavera?

FRONTEIRA

Acabo de atravessar a fronteira. Conto embrenhar-me, mais e mais, por esses "espaços" que se estendem à minha frente. Espero apenas que não me aconteça o mesmo que ao Torga quando foi caçar à outra banda: "O coração comovido, o meu iberismo todo aos saltos, mas o tôco dum carrasco é que não quis saber de lérias: foi-se-me a um joelho e deu-me cabo dele. E eu atravessei a fronteira com esta sabedoria dos avós na perna dorida: - de Espanha nem bom vento nem bom casamento."