14 outubro 2006

A CRISE ACABOU!

Ontem, ao ouvir o ministro Manuel Pinho anunciar uma refinaria do Monteiro de Barros, ainda maior do que a primeira, lembrei-me, não sei porquê, do gato da Whiskas. Num anúncio, que por estes dias vai passando nas televisões, a dona chega das compras e, mal entra em casa, começa a bombardear o sansão – acho que não é bem este o nome do animal, mas, pelo menos por hoje, passará a sê-lo – de verborreia. O bicho, não sei se por fome se por cansaço, interpreta do palavreado da patroa: blá, blá, blá,… whiskas,… blá, blá, blá,… whiskas,… blá, blá, blá…
Nos últimos dias tem sido grande a azáfama que reina nas reuniões do governo. Os últimos protestos de rua parece que foram em grande. Alguns jornais disseram-no com todas as letras: manifestações como Lisboa já não via desde a revolução! – vamos lá a metê-los na ordem! De modo que toca a puxar pelos miolos – temos que anestesiar a populaça!
Já sei! – exclamou o chefe. E todo o grupo, mais embevecido ainda, espera avidamente a ideia iluminada do grande líder -, vamos anunciar uma grande refinaria!
Alguém, timidamente, lembrou que essa tinha sido já anunciada. Então anuncia-se outra muito maior que a primeira! Todos deram vivas e agradeceram a Deus – cada um ao seu, claro! – tê-los presenteado com aquele grande timoneiro. Só mais uma coisa – disse –, como se trata de uma refinaria é o Manel Pinho que o vai anunciar à Nação.


Post Scriptum: tenha ou não acabado a crise – embora, por vezes, possam ajudar, o povo não se alimenta de palavras, alimenta-se com o dinheiro que tem no bolso – este governo continua a ser bafejado pela sorte. Então não é que continua a haver jackpot no euro milhões. Com o pensamento em cem milhões quem é que vai ligar a greves ou manifestações? Até sexta à noite o governo está à vontade para continuar com as suas maquinações.

02 outubro 2006

OS ÁRBITROS E O REI HIERON DE SIRACUSA

Ontem, ao ler a notícia dos presentes, em ouro falsificado, oferecidos aos árbitros, lembrei-me do Rei Hieron de Siracusa.
Conta-se – conta-nos Vitrúvio, arquitecto Romano do séc. I a.C. – que o Rei Hieron II, desejando obsequiar as divindades com um presente à altura da sua real dignidade, decidiu oferecer-lhes uma coroa em ouro maciço. Mandou procurar o melhor ourives do reino e entregou-lhe uma generosa quantidade desse metal.
No dia aprazado o ourives entregou ao soberano uma coroa ricamente cinzelada. Vá lá saber-se porquê, ao espírito do monarca começam a assomar algumas dúvidas acerca da fidelidade do trabalho do artista. A coroa tinha exactamente o peso do ouro que o rei lhe tinha entregue, mas quem lhe garantia que uma parte não foi substituída por outro metal? Por prata, por exemplo. Querendo uma resposta para a dúvida que o atormentava, Hieron confiou a Arquimedes a tarefa de resolver o enigma.
Vitrúvio, que nos conta a história, viveu dois séculos depois de Arquimedes. Talvez que durante todo esse tempo a história tivesse sido, digamos, boleada. Mas é uma bela história.
Estando no balneário público, enquanto ia imergindo no tanque, Arquimedes reparava que a água ia subindo. Na sua mente apareceu, então, a solução do problema do Rei Hieron: “Todo corpo mergulhado total ou parcialmente num líquido sofre um impulso vertical, de baixo para cima, igual ao peso do volume do líquido deslocado."
A sua alegria foi tal que, sem reparar sequer que estava completamente nu, saiu das termas e precipitou-se pelas ruas de Siracusa, exclamando: “- Eureka! Eureka!”.
A história diz-nos que Arquimedes descobriu que o ourives tinha substituído uma parte do ouro pelo mesmo peso em prata e, diz-se, por sua intercessão, o monarca não terá punido o trafulha. Ao fim e ao cabo, não fora ele e essa importante descoberta teria de esperar.
Os nossos corruptos árbitros nunca duvidaram da autenticidade das prendas que lhes ofereciam, e, mesmo que duvidassem, nem conheciam o Arquimedes nem a história do Rei Hieron, por isso é que, sabe-se agora, foram presenteados com prendas de ouro falsificado para comprar os seus favores.
Os nossos corruptos árbitros. Corruptos a simplórios.

26 setembro 2006

BROCANDO O NOSSO CÉREBRO

Há alguns anos, um solidário bebedor, Inglês ou Irlandês, já me não recordo, fez os seus amigos prometerem-lhe que, uma vez morto e incinerado, o punhado de cinzas que restassem iriam para uma pequena ânfora que seria colocada em local de destaque no seu pub de eleição. Ali, à vista dos amigos, ser-lhe-ia menos penosa a jornada para a eternidade. Embora não tenha vertido uma lágrima como o outro quando viu os tanques irromper por Bagdad, confesso que esta notícia me sensibilizou. Todos ganhariam com isso: o morto tinha companhia e os vivos podiam mandar vir outra rodada – erguiam o copo, viravam-se para a urna e exclamavam: - À nossa!
Desconheço se algum dos amigos ainda vive mas, ainda hoje, o morto lá continuará a contemplar os bebedores do alto do escaparate. Por vezes, um ou outro, lá lhe dirigirá a palavra. Serão, fatalmente, frases sem nexo mas que ajudam a passar o tempo.
Tudo isto vem a propósito de uma nova moda que acaba de chegar a Portugal. Alguém teve a ridícula ideia de, por meio de brutais aumentos de pressão e temperatura, num processo em tudo idêntico ao que se utiliza na natureza, transformar em diamante o carbono contido numa madeixa de cabelo de um finado. Deste modo, os entes queridos que cá ficassem, lembrar-se-iam dele. Se não de memória pelo menos pelo tacto.
O diamante, ao que me dizem com certificado e tudo, é idêntico àquele que protege a ponta de qualquer broca para furar pedra. Um material pouco consentâneo com a memória que se quer preservar, mas enfim… é a desmedida criatividade dos homens.

22 setembro 2006

ESTADO DA NAÇÃO: RECOMENDA-SE!

Às segundas-feiras, o principal canal da televisão pública brinda os telespectadores com o Prós e Contras. A dinâmica do programa vive muito à custa da selecção do painel. Por vezes, essa escolha é tudo menos criteriosa e o programa é um longo bocejo, outras vezes, apesar de um painel redondo, propício a duas horas de enfado, o programa prende a atenção do espectador. São insondáveis os caminhos do Senhor.
Na última segunda feira o tema girava à volta de Educação. O assunto era já gasto pelo que se esperaria um miserável share para o canal 1. Tal parece não ter acontecido.
Na mesa da situação, digamos assim, sentava-se a ministra – à Pai Natal, como diria numa das suas habituais tontarias, a condutora do programa. Sobre a senhora ministra, podemos não lhe conhecer as ideias mas conhecemos-lhe o discurso. Até aqui nada de novo.
Ao seu lado direito uma personagem de carinha miúda e corte à Charlie Brown. Apresentar-se-ia como Presidente do Conselho Executivo de uma escola dos arredores de Guimarães. O primeiro mal escolhido. Limitou-se, qual sabujo, a concordar inteiramente com todas as medidas propostas pela equipa da educação. Na sua escola reinava a harmonia. Os professores estavam felizes e contentes e os alunos aprendiam melhor. Lá, no Eldorado, está quase a atingir-se a perfeição. Estaria a pensar num futuro lugar de Director-Geral para cima. Depois daquela prestação o seu sonho terá caído por terra. Ninguém quer tamanho bajulador a trabalhar consigo.
Na mesa da oposição tínhamos um professor universitário ex-governante da área. Punha aquela expressão grave tão natural naqueles que conhecem os meandros do labirinto. Numa introspecção rápida terá avaliado a situação do seu telhado e, na sua linguagem polida, passou o serão a concordar com as medidas da ministra. Havia uma ou outra com que não estava, totalmente, de acordo mas, cortesmente, evitou revelá-las. A linguagem monocórdica com que dizia as coisas também não ajudou. Enfim a segunda má escolha. No final do programa, em parte, redimir-se-ia.
A seu lado outra professora presidente. Agora da escola de uma terra com uma fábrica de cerveja de que não consigo lembrar-me o nome. Nem da terra nem da cerveja. Não trouxe muito para o debate. Na sua zona haverá interesses alheios à escola que chamem os alunos porque, pelos vistos, o abandono escolar não é despiciendo. Abusou dos Cursos de Educação e Formação que o comum dos mortais não sabe bem de que se trata. Outra escolha desacertada, portanto.
Na primeira fila do anfiteatro, a apresentadora costuma sentar alguns convidados cuja função é dinamizar o debate e abanar as consciências. Pensava eu. Vejamos:
Outro dirigente de uma escola, agora do Algarve. No seu estilo de presidente de Associação de Moradores, que sim, que agora é que isto vai p’rá frente, que na sua escola era como no Eldorado, estava tudo bem e havia harmonia.
Ao lado um velhinho. Embora já retirado, continua a encontra-se com colegas ainda no activo. Não vá a senhora ministra lembrar-se de lhe baixar a reforma – ficaram um poucochinho desagradados com todas estas mudanças mas, como é para melhorar, estão a encarar o sacrifício como necessário – limitou-se a aplicar a última pedagogia que conheceu: «Aninhas, quantos são quatro mais oito?». «São dez senhora professora!». «Está certo, mas…». Podiam ter evitado a deslocação do velhinho à capital.
Ao centro dois jovens do décimo segundo ano. Um deles, com o calor e o nervoso, não conseguiu alinhavar uma frase que fosse. Foi-lhe prometido que falaria quando estivesse mais calmo mas, como continuasse a gastar lenços de papel para enxugar a cara, foi mantido calado até ao fim. O outro, que sim senhora, que gostou de todos os professores, que todos o ajudaram a chegar até onde se encontrava, blá, blá, blá. Todos os professores?! Como se todos nós não tivéssemos andado na escola. Enfim, podiam ter poupado este sacrifício aos imberbes. Deitar-se-iam mais cedo e ficariam mais frescos para aturar os queridos professores na manhã seguinte.
Junto deles uma senhora com a pintura esborratada. O adiantado da hora não se compadece com estas coisas e a caracterização também não ajudou. Era uma professora que também era mãe, ou uma mãe que também era professora, bom, já não me recordo muito bem. Praguejou contra a direcção do colégio do filho mais novo que não a deixou, ou deixou relutantemente, visitar as instalações. Não sei se disse mais qualquer coisa mas a dizer teriam sido destas banalidades. Podia ter ficado a contar uma história ao seu filhinho mais novo. A criancinha teria adormecido em paz e o país não teria perdido grande coisa.
Finalmente, um sindicalista. Embora o seu estilo Adriano Correia de Oliveira não o tenha ajudado e estivesse constantemente a responder à antepenúltima pergunta da apresentadora, não ouvindo sequer as duas últimas, foi o único que tentou remar contra a maré. Não é bonita aquela peculiar mania dos agitadores de responderem sem que lhes tenham perguntado, atropelando os outros, mas esteve quase a levar a ministra a utilizar a sua frase mais querida: - Não me deixam falar.
E eis que é chamado um último participante. É um professor da Serra da Estrela que, nas palavras da apresentadora, pediu, insistentemente, para ser convidado. De uma das últimas filas, levanta-se, então, a personagem mais burlesca de todo o programa. Trota pelo anfiteatro abaixo e chega afogueado junto do palco. Parece que tinha vindo de Manteigas a pé. Numa linguagem de vendedor de banha de cobra começa por dizer que tem uma série de perguntas para fazer à ministra. Alarmada, a apresentadora lembra-o do combinado: - Apenas uma pergunta! O troglodita que tinha o discurso preparado para uma dúzia de perguntas não conseguiu resumir tudo numa só e o que disse soou ininteligível. A sua viagem desde a Serra foi em vão.
De vez em quando, em aparições hitchcockianas, viam-se dois marretas sentados no extremo direito da primeira fila. Ora meneavam a cabeça, ora mostravam enfado. Estou ainda por saber quem eram e o que ali faziam.
A montanha teria parido um rato, não fora uma curta afirmação final. O senhor das falinhas mansas que já tinha sido secretário de estado, apelando à sua capacidade de síntese, conseguiu, ainda que, penso eu, não intencionalmente, resumir tudo o que ali se tinha passado. Olhando para o Charlie Brown que tinha sentado à sua frente disse-lhe: - Tenho-o ouvido atentamente desde o início do programa e de tudo o que disse só consigo estar de acordo consigo numa coisa: ambos somos benfiquistas.
Perdemos, pelo menos, duas horas de descanso mas fomos para a cama mais felizes: o país vai bem!

19 setembro 2006

PASSADO À MEDIDA DO PRESENTE

Félix Ventura vive na baixa de Luanda num velho casarão colonial rodeado de retratos circunspectos e estantes a abarrotar de livros. Quando bebé foi deixado numa caixa de cartão, acondicionado entre vários exemplares d’A Relíquia – Eça foi o meu primeiro berço, costumava, orgulhosamente, dizer – junto da porta de um alfarrabista que, após a revolução, deixaria casa e livros ao filho adoptivo e trocaria a instabilidade de Luanda pela calma de Lisboa.
Diariamente o albino Félix Ventura – Branco, eu?! Não, não! Sou negro. Sou negro puro. Sou um autóctone. Não está a ver que sou negro?... – espiolhava o jornal. Quando encontrava alguma notícia que lhe interessava, recortava-a e arquivava-a. Guardava, religiosamente, centenas de pastas com recortes e centenas de filmes.
Em Angola emerge, por estes tempos, uma conjunto de pessoas cujo venturoso presente não está em consonância com o inconfessável passado.
O albino era uma pessoa atenta aos novos tempos e viu nesta discrepância uma oportunidade de negócio - Dê aos seus filhos um passado melhor. O material que laboriosamente guardava, ajudá-lo-á a construir passados para todos aqueles que reclamarem os seus serviços. Há os que necessitam de sangue nobre na sua árvore genealógica, há os que querem limpar o sangue das mãos e há até aqueles que querem trocar o seu passado porque, simplesmente, é inacreditável – quero trocar esta história inverosímil, a história da minha vida, por outra simples e sólida. A história de um homem comum. Eu dou-lhe uma verdade impossível, você dá-me uma mentira vulgar e convincente, aceita? E fá-lo-á com tal verosimilhança que os próprios se convencerão do seu passado glorioso e sem mácula.
Tudo isto é-nos dado a conhecer por intermédio de uma osga – uma osga, sim, mas de uma espécie muito rara. Está a ver estas listras? Trata-se de uma osga-tigre ou osga-tigrada, um animal tímido, ainda pouco estudado. Os primeiros exemplares foram descobertos há meia dúzia de anos na Namíbia – que, desde sempre, viveu na casa de Félix Ventura. Tal como Félix, também a osga experimenta sérias dificuldades em presença da luz, daí, talvez, a afinidade que se vai criando entre ambos. Por vezes sonha com a sua vida anterior quando era um humano.
N’O Vendedor de Passados, numa linguagem escorreita, José Eduardo Agualusa palmilha os caminhos que o jovem país percorreu após a independência.
Um caminho enxameado de escolhos que tolhem a caminhada.

08 setembro 2006

... MAS SÓ QUANDO FOR VELHA!

A Dona Maria de Jesus faz, no próximo Domingo, 113 anos. É a pessoa mais velha da Europa e uma das mais velhas do Mundo.
Literalmente, atravessou 3 séculos.
Nasceu, corria o séc. XIX, reinava ainda D. Carlos. Assistiu ao regicídio, à implantação da República, às 2 Guerras Mundiais do séc. XX e aos dias de ódio do início do séc. XXI.
Um destes dias, falando sobre o seu futuro, a simpática anciã confidenciava: “Um dia irei para um lar, mas só quando for velha!”.
Gostava de chegar lá perto e ter presença de espírito para dizer tal coisa.
Parabéns, Dona Maria! Para o ano cá estarei, novamente, a desejar-lhe Feliz Aniversário.

03 setembro 2006

DOS 18 AOS 45, MAS...

Ainda este ano, os casais, que por problemas de infertilidade se viam na necessidade de recorrer a clínicas espanholas para tentar solucionar o seu problema, vão poder fazê-lo em Portugal.
O Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto, está a criar o primeiro banco de esperma e óvulos do país. Falando sobre este assunto, Mário Sousa, investigador do ICBAS, realçou que “todos os dadores candidatos serão sujeitos a rigorosos exames de selecção, quer a nível da história clínica pessoal e familiar, quer de análises ao sangue, antes de serem seleccionados par a integrar o banco”. Já a partir de 15 de Setembro começarão as entrevistas a mulheres, potenciais dadoras de óvulos, sendo que as entrevistas aos homens, potenciais dadores de esperma, se iniciarão mais lá para o Outono.
O banco excluirá os voluntários com hábitos tabágicos, alcoólicos ou de toxicodependência ou que tenham contraído vírus como as hepatites B ou C ou o HIV. Os óvulos serão recolhidos em mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 35 anos.
Até aqui tudo bem! Temos que assegurar a qualidade do material genético. Nunca se sabe se o substituto do Engenheiro Sócrates não sairá dali.
O Inverno da notícia vem a seguir: os dadores deverão ter entre 18 e 45 anos! Quem, como eu, estava a pensar doar a sua semente para a posteridade, foi fulminado com esta frase, mesmo que respondendo a todos os outros predicados.
Apenas nos resta agarrarmo-nos a uma pequena nuance de linguagem: quando o Doutor Mário Sousa se referiu às margens de idades dos dadores disse, laconicamente, que estas eram apenas indicativas, não exclusivas, dependendo de cada caso analisado.

01 setembro 2006

SE O RIDÍCULO MATASSE…

De quando em vez, um qualquer manga-de-alpaca de uma qualquer instituição governamental, manda uma imbecilidade cá para fora para nos lembrar que o governo existe e está vigilante.
A imprensa noticia hoje que, no Programa Nacional de Alterações Climáticas (PNAC), está inscrita uma proposta que prevê que a velocidade máxima nas auto-estradas baixe de 120 para 118 km/h. Isso mesmo, leu bem, 118 km/h.
Será que o iluminado estaria a pensar noutras coisas? É que até 118 km/h é Tempestade Tropical mas a partir de 119 km/h é Furacão.

30 agosto 2006

PAU-BRASIL

...
O jovem riu-se e começou a desapertar o colar que usava ao pescoço. Desenfiou, então, uma das conchas, voltou a apertar o colar e lançou para a areia a conta retirada.
- Que estás a fazer? - perguntou Colombe.
- Hoje é dia de lua cheia - respondeu o jovem, com toda a naturalidade -, tenho de tirar uma conta do meu colar.
- Karaya é um prisioneiro - esclareceu um dos guerreiros, rindo-se. - Em cada lua, uma conta a menos; quando se acabarem as contas comemo-lo.
...
Pau-Brasil, Jean-Christophe Rufin


Em 1555, à frente de uma armada de 3 navios e 600 homens, entre soldados e colonos, Nicolas Durand de Villegaignon, Vice-almirante da Normandia, parte do Porto Francês de Le Havre rumo ao Brasil. Tem um sonho: fundar uma colónia na América do Sul – a França Antárctica.
Após uma difícil viagem, a armada penetrou na baía de Guanabara, aportou a uma das suas ilhas e aí construiu um forte: Forte Coligny em honra de Gaspar de Coligny, patrocinador da empresa.
Fruto das privações dos colonos, inflamadas pelo carácter rude e autoritário de Villegaignon, a colónia começa a passar por dificuldades. Dois anos depois da chegada um novo carregamento de colonos chega da Europa, essencialmente Calvinistas Suíços.
A colónia é agora uma babel de tendências religiosas: há católicos, luteranos, calvinistas, huguenotes e, até, anabaptistas. Cada grupo vigiava todos os outros que considerava hostis. Estas lutas internas iam desviando os residentes do essencial e a construção da colónia ia sendo negligenciada.
O sonho da França Antárctica não durou mais do que uma dúzia de anos. Em 1567, já Villegaignon tinha regressado a França, os Franceses são, definitivamente, expulsos por Mem de Sá, com a ajuda de seu sobrinho Estácio de Sá, fundador da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, que viria a perder a vida no assalto.
Baseado neste facto histórico pouco conhecido Jean-Christiphe Rufin escreveu Pau-Brasil.
Guiados por duas das crianças embarcadas na expedição para aprenderem a língua dos selvagens e, deste modo, servirem de intérpretes, entre os autóctones e os colonizadores, somos levados a viver uma aventura extraordinária por terras desconhecidas.
Just, o mais velho, chegará a braço direito de Villegagnon depois de iniciado por este na nobre arte da guerra. Colombe, a mais nova, que embarcará disfarçada de rapaz por ser absolutamente proibido o embarque de mulheres, tornar-se-á, por vontade própria, um elemento de uma tribo de canibais: “gostavam dos filhos, dos pais, da tribo, do sol e das árvores favoráveis, gostavam da água das cascatas e do vento tépido das praias, gostavam da terra que satisfaz as necessidades humanas, gostavam da noite e do dia, do fogo e do sal, da avestruz e do tapir. E, nesta trama apertada de amor e medo, não estava previsto que um só ser se apoderasse de tudo em seu benefício”.
Pelo meio assistimos à penosa travessia do Atlântico, à dolorosa construção do Forte Coligny, às intestinas lutas entre facções religiosas, às crueldades de Villegaignon para impor a lei e a ordem na colónia, ao penoso encontro de civilizações até ao desfecho, ainda que um tanto cinematográfico, em que os Portugueses, finalmente, expulsam os Franceses.
Jean-Christiphe Rufin escreveu um belo romance. Em 2001, Pau-Brasil, seria agraciado com o Prémio Goncourt.

29 agosto 2006

BASTA OLHAR O CÉU

A propósito de um post que aqui deixei, onde dava conta da desclassificação de Plutão, o amigo Chico Rocha, dizia que, embora não visse o que pudesse mudar na ciência com esta decisão, não tinha dúvidas que deste modo o Universo perderia um pouco de seu romantismo.
Amigo Xico, não desanime! Desclassifiquem o que quer que seja que a nós basta-nos deitar de barriga para o ar, olhar o céu e sonhar. E olhe que nisso somos bons!
A este propósito vou recordar-lhe um delicioso diálogo do Rei Leão da Disney, entre o Simba, o Timon e o Pumba.
Uma noite sem nuvens, estavam os três deitados, olhando um céu maravilhoso. Com aquele ar sonhador que por vezes mostrava, diz o Pumba:
- Timon...
- Que é?
- Alguma vez imaginaste o que serão aqueles pontos brilhantes lá em cima?
- Pumba, eu não imagino, eu sei!
- Ah! E o que são?
- São pirilampos! Pirilampos que ficaram colados àquela coisa grande azul escura.
- Ah!... Sempre pensei que fossem bolas de gás a arder a milhões de quilómetros daqui...
- Pumba, p’ra ti, tudo é gás.
- Simba, o que é que tu achas?
- Bom, eu não sei...
- Vamos, fala, fala, fala, Simba. Vá, nós já dissemos. Por favor.
- Alguém me disse uma vez: «do alto das estrelas os grandes reis do passado contemplam-nos».
- A sério? Queres dizer que um bando de reis mortos está a olhar lá de cima?

Pois é, amigo Xico, deitados de costas, debaixo de um céu estrelado, até de olhos fechados conseguimos ver pirilampos como o Timon ou bolas de gás como o Pumba ou reis do passado como o Simba…
Basta querermos!

26 agosto 2006

O CÃO DO JOÃO MALHEIRO

De vez em quando a comunidade científica tem a delicadeza de nos assombrar com as mais inverosímeis descobertas.
Alertado por Lloyd Green, um agricultor do condado de Somerset, no sudoeste de Inglaterra, que jurava a pés juntos que o linguajar das sua amadas vaquinhas tinha o sotaque da região “ – Eu passo muito tempo com as minhas vacas, e, definitivamente, elas mugem com um sotaque de Somerset”, dizia –, Jonh Wells, especialista em fonética da Universidade de Londres, debruçou-se sobre o assunto.
O que descobriu deixou meio mundo boquiaberto: diz ele que, em pequenas populações, como rebanhos, é possível encontrar variações no dialecto que são mais afectadas pelos vizinhos mais próximos da mesma espécie. Mais disse que já foram identificadas diferenças no gorjeio de pássaros da mesma espécie mas de diferentes regiões.
Tudo isto me trouxe à memória um apreciador de vinhos que um dia conheci. Bebia um copo de verde branco, dava um estalido com a língua, e anunciava solenemente: “- Este é da encosta de Perre!”. Bebia outro, outro estalido e: “- Terras baixas de Bertiandos!”. Um terceiro: “- Veiga de Mazarefes!”. Lá chegará o dia em que bastará a um boieiro ouvir um mugido para que possa dizer: “- Esta é da vacaria do Ernesto!” ou “ – Esta é do paul de baixo! ” ou então: “- Eh pá, esta não é de cá!”.
Lloyd Green, o nosso lavrador de Somerset disse mais: “- Acontece o mesmo com os cães; quanto mais perto estamos deles, mais facilmente ficam com a nossa pronúncia”.
O que eu daria para ouvir o cão do João Malheiro!

25 agosto 2006

SERMÃO DE S. JERÓNIMO AOS PEIXES

Há duas noites o Jerónimo foi à pesca. Chegou, ainda cedo, com indumentária apropriada: fato e gravata. Como não podia deixar de ser os urubus da imprensa precederam-no. Mas Jerónimo é um rapaz que se dá bem com estes profissionais. Como não tem nada a esconder e muitos recados a enviar serve-se deles. Então, de peito feito e com aquele semblante alegre que põe em Pirescoxe quando encontra os parceiros da sueca, caminha de encontro ao batalhão da informação. Mentalmente, vai revendo as notas que tinha preparado para o momento: a sardinha, a cavala, uma ou outra dourada, o besugo, o robalo, se viesse a talhe de foice – que bela palavra, foice – falaria também das belas carpas que costumava pescar com os amigos nas barragens do Alentejo… só não conseguia lembrar-se por que carga d’água tinha apontado o tubarão, mas, adiante...
- Senhor Secretário-geral pode fazer um comentário sobre o pedido de demissão do Presidente Carlos Sousa?
Jerónimo de Sousa emudeceu – “Onde é que este gajo foi buscar esta pergunta? Vou à sardinha e ele a perguntar-me sobre arenques.” No compasso de espera que se seguiu, Jerónimo, mentalmente, abandonou as notas que tão apropriadas eram à situação e pensou no sermão de Santo António aos peixes. Com aquele semblante estudado com que os políticos atacam os momentos dramáticos atirou:
- Sabe, por vezes os melhores homens não são os homens melhores.
Não me recordo se a conversa com os jornalistas continuou ou terminou logo ali. Esta linguagem hermética que os políticos constantemente utilizam deixa-me sem vontade de continuar a ouvi-los. Invariavelmente, esta gente fala apenas para meia dúzia de iniciados que normalmente os acompanham: pelo menos é o que se depreende dos seus sorrisinhos aquiescentes quando ouvem as tiradas do chefe. E nós, a arraia-miúda, os tontos, os que, religiosamente, ligamos a televisão às oito da noite, olhamos invejosamente para a sapiência espelhada nos seus rostos e pensamos: “- Porque é que o Criador não nos apetrechou também com dois palmos de testa como àqueles senhores?”

24 agosto 2006

DE CAVALO PARA BURRO

O Astrónomo americano Clyde Tombaugh nasceu a 4 de Fevereiro de 1906 em Streator, Illinois. A sua coroa de glória ganhou-a em Fevereiro de 1930, tinha então 24 anos, quando descobriu e fotografou um corpo celeste que viria a ser o nono planeta do Sistema Solar. Seria baptizado com o nome de Plutão. A sua órbita, para lá de Neptuno, demora 248 anos a percorrer.
Quase a completar 91 anos de idade, a 17 de Janeiro de 1997, Tombaugh, morreu em Las Cruces, Novo México. A sua descoberta pouco lhe sobreviveu.
Reunida em Praga, a fina-flor da astronomia mundial, embora ainda que não a uma só voz, decidiu desclassificar Plutão. A sua insignificância, em termos de tamanho, não lhe permitia ser um planeta. Pertence agora à categoria a que já pertenciam o calhau Ceres, perdido na cintura de asteróides entre Marte e Júpiter ou o enigmático 2003UB313, um corpo celeste que “erra” pelo espaço para além da órbita de Plutão, demorando 560 anos a dar uma volta ao Sol.
As nossas criancinhas têm, agora, menos uma palavra na lenga-lenga: Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno!

23 agosto 2006

CAMINHADA EM PAISAGEM PROTEGIDA

Ontem, a família arrastou-me para as Lagoas de Bertiandos, ou, para utilizar o seu nome na forma mais pomposa: Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos. A zona fica na margem direita do rio Lima, já muito próximo da Vila de Ponte de Lima.
Lá chegados toca a escolher o percurso. Como ninguém quisesse dar sinal de fraco, escolhemos o percurso IV, uma jornada com uns extensos 7,5 km.
Como na recepção nos dissessem que os percursos estavam devidamente assinalados, prescindimos de um mapa. Fizemos mal. Pouco ainda tínhamos caminhado e o trilho IV chegava abruptamente a uma estrada camarária. Ficamos sem saber por onde seguir – sabê-lo-íamos mais tarde já no carro e de regresso – pelo que tomamos a decisão que se nos afigurou mais sensata nesta situação: voltamos para trás. Recuamos até uma bifurcação e, entre o I, o II e o III lá fomos andando. Sem saber bem qual o percurso que seguíamos em cada momento, lá regressamos ao ponto de partida.
Confesso que não me esforcei grandemente mas também só vi um sardão, uma rã, três borboletas e meia dúzia de gafanhotos. Ah, e também ouvi alguns chilreios, não conseguindo, no entanto, descortinar a origem.
Embora o tempo esteja quente e, consequentemente, a paisagem, embora húmida, se ressinta disso, o passeio é agradável e recomenda-se. Podiam, é certo, mondar alguns eucaliptos e podar os salgueiros que nos obrigam, não raras vezes, a dobrar a espinha nos passadiços de madeira. E já agora, rever a informação sobre os percursos.Já combinamos voltar às Lagoas mas só depois das primeiras chuvas, já bem entrados no Outono. Nessa altura prometo estar mais atento à natureza e tentar descortinar, mesmo que fugidiamente, qualquer um dos exemplares que na recepção nos dizem passear por aquelas bandas.

EU, PECADOR, ME CONFESSO!

Há uns tempos, a minha amiga Helena, enviou-me por correio electrónico aquilo que seria, talvez na óptica de uma mulher, o banho de uma dama e o banho de um cavalheiro. Confesso que raramente me terei rido tanto ao ler seja o que fosse. Partilhei esse texto com alguns amigos e pensei ficar por aí. Hoje, porém, encorajado pelo amigo Pedro Nelito, resolvi partilhar essa pérola literária com todos os que a quiserem aceitar. Espero, apenas, que ninguém fique chocado com a sua leitura. Então aqui vai:

O BANHO DA MULHER

1. Tira a roupa delicadamente e coloca-a no cesto da roupa suja tendo atenção para não misturar peças de cores diferentes.

2. Vai para a casa de banho embrulhada num roupão. Se vê o marido/namorado, cobre-se bem e dá uma corrida até à casa de banho.

3. Pára em frente ao espelho e observa a sua figura. Espeta a barriga para se poder queixar do "gorda" que está.

4. Entra para a banheira. Pega nas luvas da cara, dos braços, das pernas, das costas e a pedra-pomes.

5. Lava o cabelo com champô de abacate/mel com 83 vitaminas.

6. Volta a lavar o cabelo com o champô de abacate/mel com 83 vitaminas.

7. Põe acondicionador para o cabelo de abacate/mel com 83 vitaminas e espera 15 minutos.

8. Lava a cara com uma mistura de pêssego durante 10 minutos, até que fique vermelha.

9. Lava o resto do corpo com sabonete de nozes e morangos, especial para corpo.

10. Retira o acondicionador da cabeça (este processo leva cerca de 10 minutos porque é preciso assegurar-se que se retirou todo o acondicionador).

11. Corta os pelos das axilas e das pernas. Considera barbear também a zona do bikini mas opta por depilá-la.

12. Grita desesperada quando o marido/namorado puxa o autoclismo e a água perde pressão.

13. Fecha a água do duche.

14. Escorre todas as partes molhadas dentro da banheira.

15. Sai da banheira e seca-se com um toalhão do tamanho de África.

16. Põe uma toalha super absorvente na cabeça.

17. Pesquisa todo o corpo à procura de pontos negros e ataca-os com as unhas ou uma pinça.

18. Regressa ao quarto embrulhada no roupão. Se vê o marido/namorado, cobre-se bem e dá uma corrida até ao quarto.

19. Demora mais uma hora e meia vestindo-se.


O BANHO DO HOMEM

1. Coça os tomates, enquanto decide se toma banho ou não.

2. Diz "Que porra!", dá um peido e, sentado na cama, despe-se atirando a roupa para o chão.

3. Em cuecas vai para a casa de banho. Se vê a mulher/namorada, mostra-lhe a pila e imita o som do elefante.

4. Pára em frente ao espelho para se observar. Encolhe a barriga, admira o tamanho da pila ao espelho, coça os tomates e cheira as mãos antes de tomar banho.

5. Entra na banheira.

6. Lava a cara com sabão azul e branco.

7. Lava a cabeça com sabão azul e branco.

8. Faz um penteado "punk“.

9. Abre a cortina do duche para se ver ao espelho com o penteado "punk“.

10. Farta-se de rir com o barulho que faz dar um peido dentro da banheira

11. Lava as partes privadas e os arredores com sabão azul e branco.

12. Lava o rabo com sabão azul e branco e deixa-o cheio de pêlos.

13. Mija dentro do duche, tentando acertar no ralo.

14. Apercebe-se que o chão está encharcado porque deixou a cortina de fora quando se foi ver ao espelho.

15. Sai do duche e semi-enxuga-se.

16. Vê-se outra vez ao espelho, fazendo músculos e vendo o tamanho da pila.

17. Deixa a cortina aberta, o sabão no chão e o tapete molhado.

18. Deixa a luz da casa de banho acesa.

19. Regressa ao quarto com uma toalha à cintura. Se vê a mulher/namorada, mostra-lhe a pila e volta a imitar o som do elefante.

20. Atira a toalha molhada para a cama e veste-se em 2 minutos.

21 agosto 2006

JOE ROSENTHAL

Em Fevereiro de 1945, trinta mil fuzileiros do exército dos Estados Unidos da América desembarcam nas costas de Iwo Jima, uma ilha Japonesa, defendida por vinte mil soldados. A luta que se segue é encarniçada. No final contam-se seis mil baixas do lado dos Americanas e a quase totalidade dos sitiados. Depois da vitória, seis fuzileiros sobem o monte Suribachi e erguem uma bandeira americana simbolizando a vitória. O fotógrafo Joe Rosenthal estava lá e registou esse momento. A fotografia ganhou o prémio Pulitzer e tornar-se-ia numa das mais conhecidas da segunda Guerra Mundial e de todo o séc. XX, servindo de modelo a uma escultura para o monumento da Infantaria dos EUA no Cemitério Nacional de Arlington, inaugurado em 1954.
Embora os seus detractores sempre o tenham acusado de ter forjado a fotografia, Rosenthal sempre se recusou a aceitar a acusação, afirmando que ela foi o resultado de um momento único não planeado. Numa entrevista, em 1995, explicou que a fotografia foi tirada na segunda vez que os soldados subiram ao monte já que da primeira os oficiais acharam que as dimensões da bandeira eram reduzidas.
Joe Rosenthal nasceu a 9 de Outubro de 1911 em Washington. Durante a Grande Depressão mudou-se para S. Francisco começando a trabalhar no Newspaper Enterprise Association em 1930, seguindo-se o San Francisco News, a Associeted Press – para a qual tirou a famosa fotografia – e, finalmente, o San Francisco Chronicle até se reformar.
Ontem, 20 de Outubro, aos 94 anos, enquanto dormia no asilo para idosos de Novato, Califórnia, Joe Rosenthal morreu. Sua filha Annne diria: “Ele era um homem bom e honesto, uma pessoa realmente íntegra”.
Apesar dos críticos, dos cépticos e dos invejosos “Raising the Flag on Iwo Jima” continuará a ser um ícone.

20 agosto 2006

NÃO FOI POR INVEJA QUE FIQUEI CHORANDO...

Um dia, se for a Marraquexe, reconstituirei – tentarei fazê-lo, pelo menos – os passos de Elias Canetti. Hei-de ir ao mercado de camelos junto do muro de Babel-Khemis, hei-de visitar os souks e apreciar as especiarias e os artigos de couro e os tapetes e as ourivesarias e os artigos de cobre e as lãs coloridas e os cestos e as cordas e os mil cheiros e as mil cores e os mil pregões, hei-de ir a Mellah e a Berrima, hei-de procurar os contadores de histórias e os escribas, hei-de apreciar os contrastes da grande praça Djema el Fna no centro da cidade e hei-de escolher um pão, o melhor que a fila de mulheres tenha para vender. Por fim, rumarei a Sul em direcção às montanhas do Atlas procurando Aghmat, a cerca de uma trintena de quilómetros de Marraquexe, para visitar a tumba de Muhammad ibn 'Abbad al-Mu'tamid, o Rei-Poeta de Sevilha para lhe prestar a minha homenagem.
Al-Mu'tamid, filho do rei Al-Mutadid, nasceu em Beja em 1040. Aos treze anos era já governador de Silves, nomeado após ter comandado uma expedição militar que esmagou uma rebelião na cidade. É nesta altura que conhece Ibn Ammar um poeta que terá nascido na actual Estômbar. Entre os dois cresce, então, uma profunda relação de amizade que, por vezes, se especula ser de natureza homossexual. O seu pai tentará, enquanto viver, afastar o filho daquele que pensa ser uma companhia tão nefasta quanto perigosa para o seu herdeiro.
Com a morte do pai em 1069, Al-Mu'tamid sucede-lhe como rei da taifa de Sevilha. Uma das primeiras decisões que toma é nomear Ibn Ammar, o seu grande amigo, vizir do reino. Este ajuda-o na expansão das suas possessões com a conquista de Múrcia, praça que lhe será entregue para governar.
Por esta altura, a corte de Al-Mu'tamid, fervilha de arte e ciência. Lá se reunem, entre outros, o astrónomo Al-Zarqali, o geógrafo Al-Bakri e os poetas Ibn Hamdis, Ibn Al-Labbana e Ibn Zaydun.
Ibn Ammar, além de brilhante estratego, excelente diplomata e magnífico poeta, era excepcionalmente ambicioso. Muitas vezes conspirou contra o seu senhor, usando, por vezes, a poesia para o ridicularizar, mas a amizade que Al-Mu'tamid sentia pelo seu vizir era tão profunda que, em vez de ficar magoado com a mensagem dos poemas, preferia destacar as qualidades poéticas dos escritos do amigo. Porém, anos depois, acabaria por mandar prendê-lo e, num acesso de raiva, entraria na sua cela e tirar-lhe-ia a vida.
Por esta altura, o Rei Afonso VI de Leão e Castela pressionava o Al Andaluz, chegando a conquistar Toledo em 1085. Vendo que o seu reino começava a correr perigo e privado das qualidades guerreiras e negociais do amigo morto, Al-Mu'tamid, ainda que relutantemente, pede ajuda Yusuf ibn Tashufin, emir dos Almorávidas do norte de África, para lutar contra os Cristãos. O emir dos Almorávidas cede ao seu pedido e envia tropas para a Península que o ajudarão a derrotar Afonso VI, na Batalha de Zalaca, em 1086.
Quatro anos mais tarde, o Rei Cristão volta a investir contra o Reinos Islâmicos e Al-Mu'tamid volta a pedir ajuda. Ibn Tashufin torna a vir em seu auxílio mas desta vez não se limitará a prestar ajuda a Al-Mu'tamid.
Após ter repelido os Cristãos, Ibn Tashufin conquista os reinos islâmicos da Península. Al-Mu'Tamid é feito prisioneiro e desterrado para Aghmat. Por lá passará, penosamente, em cativeiro, os últimos quatro anos da sua vida.
É por esta altura que escreve o mais belo poema que um homem privado de liberdade pode escrever:

Chorei quando vi passar
livre, sobre mim voando,
o bando de cortiçóis.
Nem grades nem grilhetas os detinham.
Não foi por inveja que fiquei chorando...
apenas nostalgia de ser livre,
sem sentir dispersas
as próprias entranhas
e sem filhos mortos
que ao pranto me obrigassem.
Felizes aves:
nunca se apartaram do bando,
não sentem a ausência da família,
nem passam a noite,
como eu, de coração inquieto
ao ranger da porta da cela
ou ao chiar do ferrolho.
Tais sobressaltos não são apenas meus,
fazem parte da humana condição.
Desejo vivamente só a morte.
Outro, quem sabe, se sujeitaria
à vida com grilhetas, mas eu não!
Alá, proteja os cortiçóis
e também as suas crias
pois às minhas, desventuradamente,
abandonaram-nas água e sombra.

15 agosto 2006

COLEGA AHMADINEJAD

Os americanos e os israelitas têm, por estes dias, as orelhas a arder: o colega Ahmadinejad rendeu-se às virtudes da blogosfera. Pena que não deixe grande parte dos seus concidadãos fazer o mesmo.
De qualquer modo não é de aconselhar um grande número de visitas: estaremos expostos a radiação que se pode tornar perigosa.

14 DE AGOSTO DE 1385

A 14 de Agosto de 1385, fez ontem 621 anos, Nuestros Hermanos arrependeram-se de cá ter vindo. Animado pelo seu apetite expansionista, e considerando ser o natural pretendente ao trono de Portugal, em face do seu casamento com D. Beatriz, filha do Rei D. Fernando que não deixou filho varão que lhe sucedesse, D. João de Castela, à frente de um exército de 31 000 homens, invadiu Portugal. Os Castelhanos eram em muito maior número mas os portugueses – seriam cerca de 6 500 –, superiormente liderados por D. João mestre de Aviz e por D. Nuno Álvares Pereira, lograram infligir uma pesada derrota ao inimigo. A contenda teve início pelas seis horas da tarde e ao pôr-do-sol, D. João de Castela, apercebendo-se da impossibilidade de defesa das suas posições, manda retirar. Mais tarde diria que a derrota foi motivada pelo cansaço das suas hostes depois de um dia de marcha sob intenso calor.
O nascer do dia mostrou a dimensão do desastre. Os cadáveres eram tantos que – diz-se –, barravam os cursos de duas ribeiras que flanqueavam a colina onde se desenrolou a contenda.
A Batalha de Aljubarrota encerra, definitivamente, a crise de 1383/1385. O mestre de Aviz torna-se D. João I, dando início à Dinastia de Aviz. Para comemorar a vitória o rei manda construir o mosteiro de Santa Maria da Vitória e funda a vila da Batalha.

COMPRIMIDO-MARAVILHA

O geneticista Hans Hilger-Ropers, investigador do Instituto de Genética Molecular de Berlim, diz a Sky News, está em vias de assombrar o mundo com a descoberta de uma pílula que, literalmente, acabará com a burrice. Embora a investigação ainda não esteja terminada – ainda só entraram ratinhos e moscas-da-fruta –, os resultados já alcançados permitem acalentar as maiores esperanças.
A pílula, actuando sobre as células nervosas do cérebro, ajuda a estabilizar a memória e desenvolve e estimula a atenção.
A comunidade científica, mal soube da iminente descoberta, apressou-se a vir a público desmascarar o pobre investigador. Que não, que embora se possam estimular algumas regiões do cérebro – e para isso existem já químicos que o fazem –, não é possível aumentar o QI. Talvez em maior grau que em qualquer outra, nesta comunidade continua a cultivar-se a inveja!
Cá por mim vou esperar ansiosamente que o Doutor Hilger-Ropers deixe as moscas-da-fruta – encontra facilmente humanos com um cérebro igual –, termine a sua investigação e presenteie o mundo com o comprimido-maravilha.
Os primeiros devem ir directamente para tratamento do secretário Valter, que deve tomar um de seis em seis horas até desaparecerem os sintomas.
E você, caro leitor, quem aconselha? E qual a posologia?

Pelo sim pelo não, vou também encomendar uma caixa. É que há tantas coisas que não entendo…