24 dezembro 2006

FELIZ NATAL


Amanhã, dia de Natal, fará nove meses que atravessei a fronteira. Durante este tempo conheci alguns amigos, visitei outros e, acima de tudo, diverti-me bastante. Para todos os amigos e visitas cá de casa - Marco Aurélio, o primeiro a dar sinal de vida, Pedro Nelito, António, Tozé Franco, Alda Maia, Magui, Joel, São Ponte, Xico Rocha, Helena Guerreiro, Alex Manzi, Andrea, Isadora Lis, Bruno Vieira, José Marques, Manuel Neves, Jofre Alves, Raposa Velha, Cazento, Mikas, Quintanilha, Armanda, Professorinha, Teresa David e João Moutinho - um feliz natal
Empanturrem-se de batatas, abarrotem-se de bacalhau, atestem-se de um bom verdinho, recheiem-se de doçarias e lambuzem-se de amor.

18 dezembro 2006

JOSÉ ESTALINE: NÃO NOS ESQUECEREMOS!

…Estaline […] levanta-se, beija a namorada na face, canta uma canção, ajuda a filha a fazer os trabalhos de casa e depois manda matar 40 mil pessoas…

Entrevista de Simon Sebag Montefiore ao semanário Sol, 26.Nov.2006


Ióssif Vissariónovitch Djugashvili ou, mais prosaicamente, José Estaline, nasceu na cidade Georgiana de Gori, faz hoje precisamente 128 anos. O mundo, viria a sabê-lo mais tarde, passaria bem sem ele, mas na realidade não teve essa sorte.
O pequeno Ióssif, filho de trabalhadores com poucos recursos, teve uma infância difícil. Chegou a frequentar um seminário na capital da Geórgia, Tbilisi, satisfazendo os anseios da mãe, mas cedo se começou a envolver em actividades subversivas, contestando o regime czarista. Estas acções revolucionárias levá-lo-iam à prisão. Uma vez em liberdade aliar-se-ia a Vladímir Ilitch Uliânov, Lenine, ajudando a arquitectar a Revolução Russa de 1917. A sua ascensão dentro do partido foi meteórica. A astúcia de Estaline, que lhe permitiria manter-se no poder até ao dia da sua morte, começava aí a revelar-se.
Antes da Revolução dirigiu o Pravada, jornal oficial do Partido e, em 1922, é eleito Secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. Dois anos depois, após a morte de Lenine, ascende à chefia do governo Russo, cargo que desempenharia com mão de ferro e sem piedade até ao fim dos seus dias, a 5 de Março de 1953.
Neste quarto de século terá feito da Rússia uma super potência mas à custa de muito sofrimento, muitos crimes e muitas mortes. Tantas que os historiadores não conseguem, sequer, pôr-se de acordo. Num recente documento do Conselho da Europa, que visa perpetuar a lembrança de todos os crimes contra a humanidade pode ler-se: "Convém não esquecer os crimes do estalinismo, cujas vítimas estão estimadas em 100 milhões de mortos. O regime estalinista recorria a todas as formas de execução de civis: utilizava o gás ou o veneno, ou então fazia o necessário para que as vítimas morressem de fome. Centenas de milhar de pessoas foram expulsas para os confins da Rússia e povoações de todas as nações foram deslocadas. Nas prisões e gulags, milhares de prisioneiros políticos foram vítimas de uma feroz repressão".
Podem começar a levantar-se vozes que tentem reabilitar o nome deste déspota sanguinário, pode até aparecer um ou outro que nos lembre os afazeres domésticos do ditador, que nada nem ninguém conseguirá calar o murmúrio ensurdecedor dos milhões de inocentes que pereceram às suas mãos.

PS. fui "coagido" pelo Pedro Nelito a escrever este post, que, diga-se em abono da verdade, nasceu de um mal entendido. Uma completíssima lista de algozes pode ser consultada aqui.

12 dezembro 2006

SESSÃO DE POESIA

"Tendo problemas de flatulência [...] de vez em quando descuidava-se [...] em cerimónias oficiais, levando-me a acender, de imediato, um cigarro para disfarçar o odor."
in, Eu, Carolina, Carolina Salgado

Consigo imaginar o ambiente numa das famosas sessões de declamação de poesia em que o homem diz participar. Será cada verso cada peido. E os circunstantes, embevecidos, sem notarem sequer aquela atmosfera espessa e pesada, ovacionam-no no fim. O declamante curva-se perante a assistência e aproveita o ruído para largar mais um, agora ruidoso, que o ambiente permite-o.

05 dezembro 2006

A MINHA HOMENAGEM A FIDEL

Enquanto convalesce da arreliadora avaria do intestino, Fidel é informado que o seu amigo Morales está já em viagem para o confortar e lhe oferecer um bolo de coca. O comandante não o diz, mas no íntimo reza a todas as santinhas pedindo-lhes que despenhem o avião e façam o índio e o bolo desaparecerem nas profundezas do triângulo das Bermudas ou nas brumas do mar dos sargaços.
Pelos vistos as santinhas não ouvem os hereges e, por isso, o andino aterrou em Havana são e salvo com a sua picaresca oferenda.
Anteontem, enquanto escrevia o texto anterior, sobre o bolo de coca que Dom Evo ofereceu ao seu guru, lembrei-me de Juan Manuel de Prada. Fidel, não desmerecendo da ascendência galega, sempre foi apreciador da boa mesa mas abomina bolos. Bolos em geral e bolos de coca em particular. De modo que, depois de ler a notícia da visita do índio, por solidariedade com o velho comandante, decidi procurar um livro de Juan de Prada e deliciar-me com um determinado texto da obra. É a minha homenagem ao cubano nesta hora difícil.
Embora o texto seja de fino recorte literário, cogitei longamente acerca da pertinência de o trazer a lume. Encorajado por algumas coisas que vou lendo na blogosfera, e mesmo correndo o risco de estarrecer algumas mentes mais sensíveis, decidi trazê-lo.



Vou uma vez por ano a Cuba, para fumar com Fidel Castro uns bons charutos e lhe contar uma ou outra anedota picante. Fidel é um bocado manhoso, um pouco paquidérmico e barbudo demais. No fim da visita, dá-me umas palmadas nas costas com aquelas suas mãos de velho sapo, e leva-me para uma saleta decorada com pouco gosto, com pretensões a lupanar das Caraíbas, onde me esperam meia dúzia de pequenas cubanas, risonhas e partidárias do regime castrista. Fidel diz-me que escolha uma e eu decido-me, para o não o deixar mal visto, pela mais rechonchuda. Fidel faz estalar os dedos, ordenando às outras que se retirem; ele faz o mesmo, após cofiar as barbas de patriarca outonal. E eu, ficando ali a sós com a cubanita, pergunto-lhe:
- Como te chamas?
- Gertrudes.
As cubanas são mulheres com uma certa vocação para as curvas, de uma carnalidade que contrasta com os seus nomes, muito ásperos para o gosto ocidental. Na Gertrudes, concretamente, sublinharei o seu riso mulato, os seus braços sedentários e a sua estatura de menina que não cresceu. Vamos à praia (Fidel tem residência de Verão à beira-mar, para espiar com a luneta os viajantes das jangadas que naufragam antes de acostar à Florida) e eu pego-lhe na mão , sentindo entre os meus dedos o calor afável e hospitaleiro das raças mestiças. Fodemos em silêncio, em cima da areia (talvez a luneta de Fidel nos esteja a examinar), com a noite toda a derramar-se sobre nós. Gertrudes tem uma cona avantajada, crioula, e sobre ela gravita o resto do seu corpo, uma cona que, tal como a manigua(1), pode enredar com as suas plantas o viajante descuidado. Vou desbravando o caminho que me há-de levar até ao fundo de Gertrudes, enquanto ela me dá instruções num espanhol rudimentar, fulgurante de americanismos, que me transmite ainda maior tesão. A cona de Gertrudes, liberta por fim de moitas pesarosas sabe-me a ananás e a licores tropicais. Contemplo a cona de Gertrudes recitando-lhe fragmentos de Paradiso, o romance de Lezama Lima que na adolescência me deslumbrou pelas suas conexões insólitas, embora nunca conseguisse entendê-lo completamente (mas a literatura não é para entender, basta que acaricie o ouvido, a alma ou os colhões). Gertrudes confessa-me a meio do coito que Paradiso é a sua obra preferida, e demonstra-mo citando passagens pertinentes. Fidel, homem de pouca leitura, deve estar a alucinar a cores, perante tamanho alarde de erudição literária, caso se não tenha cansado de nos espiar com a luneta. Os meus gostos, em geral, coincidem com os de Gertrudes, e este consenso facilita um orgasmo uníssono, cubano, quase telúrico. Gertrudes, que é um pouco desabrida, vem-se, maldizendo Guillermo Cabrera Infante(2), que considera um James Joyce para mulatos com úlcera gástrica. Acho que é um exagero.

Conos, Juan Manuel de Prada



(1) Expressão da língua nativa taina; bosque tropical pantanoso e impenetrável. (N.E.)
(2) Cabrera Infante, n. em 1929, é sobretudo conhecido pelo seu feérico romance Três Tristes Tigres, aventura da linguagem cubana em que o humor desempenha importante papel. A alusão deve-se aqui ao facto de o escritor se ter exilado de Cuba em 1965. (N.E.)

02 dezembro 2006

UMA FATIA PARA ESQUECER

A rapaziada Andina continua a surpreender-nos: Evo Morales, chegou há dois dias a Cuba para assistir ao dia das forças armadas cubanas e comemorar o aniversário do comandante – na realidade fez anos a 13 de Agosto mas um arreliador desarranjo intestinal não aconselhou festejos – e, a uma pergunta de um jornalista sobre a prenda para o enfermo, respondeu: “como prometi, eis o bolo de cocaína!
Estou em crer que o dito bolo fará habitualmente parte da dieta alimentar de Morales. Assim se compreende como não liga patavina aos protestos que vão tomando conta das ruas do seu país: depois da sobremesa toma os protestos por aplausos.

30 novembro 2006

O DESCOBRIDOR







Pelos vistos desde pequeno que tem uma fixação:
lançar-se à descoberta.
Só nos resta desejar que os ventos estejam de feição.



Descobridor

Um pai gosta de se rever no filho,
não nos defeitos, mas naquilo que,
dentro de uma óptica de adulto, é
considerado qualidade ou virtude. É verdade
que os defeitos, quando em miniaturas,
podem ter graça. O mau génio
dum rapazito “promete”, não
raro, um forte carácter
macho para quando ele for um
homem, e isso tranquiliza
e tem graça. Mas é inegável
que as virtudes brilham e
lisonjeiam mais.


Quando o meu querido
fedelho me anunciou,
arvorando como podia a
solenidade de que os seus
dez anos eram capazes, que
queria ir para descobridor,
eu senti-me surpreso
e, logo, vaidoso. Até que enfim
que aparecia alguém, nas quatro
últimas gerações da família
Soares Picoto, que se propunha
descobrir, que forcejava
por se dedicar à descoberta de
algo
.
– Mas descobrir o quê?
perguntei ao Alvarito.
– Novas terras!, disse o pequeno.


Expliquei-lhe que a grandeza
dos portugueses como
navegadores e descobridores
era um facto incontroverso, mas que
hoje estava tudo descoberto.
O Alvarito ficou pensativo,
Depois, olhou para mim
e disse, meio desencantado:
- Então posso ser engenheiro…

Alexandre O’Neill

21 novembro 2006

A 10 DIAS DO 1.º DE DEZEMBRO

Há uma dúzia de anos a Assembleia-geral da ONU instituiu o dia 21 de Novembro como Dia Mundial da Televisão. Os estados membros foram convidados a comemorar o dia e instados a promoverem, a nível mundial, a troca de programas sobre temas como a paz, a segurança e o desenvolvimento económico e social, reforçando, deste modo, o intercâmbio cultural.
Doze anos volvidos e podemos “contemplar” em toda a sua extensão o fiasco das intenções da ONU.
Hoje, 21 de Novembro, comemora-se o dia Mundial da Televisão. Se a ONU tivesse adiado a comemoração por mais dez dias, tomaria um aparelho, subiria ao 1.º andar e jogá-lo-ia pela janela. Comemoraria, desse modo, a Restauração da Independência.
Como assim não é o meu protesto vai deixar a televisão muda durante todo este dia!

19 novembro 2006

HUMOR NEGRO

Há dois dias a imprensa noticiou as conclusões de um estudo conduzido por investigadores americanos que conseguiram provar – vá lá saber-se como – que participar regularmente na missa aumenta a longevidade.
O estudo foi desenvolvido à roda das fartas mesas de Pitsburg, o que, em termos científicos, é pobre e pode até considerar-se, em certos casos, contraproducente: fosse feito no Lesoto, no Botswana ou na Suazilândia e concluiriam que para alguns nem a missa lhes vale.

PS: esperança de vida, dados de 2005: LESOTO, 34,47 anos; BOTSWANA, 33,87 anos; SUAZILÂNDIA, 33,22 anos...

17 novembro 2006

"EFEITO ATATURK" EM CAMPO MAIOR

O amigo João Moutinho perguntava-me, com alguma ironia, diga-se: Então não há mais Ataturk’s. Dei-lhe uma resposta de acordo com a pergunta mas, pensando melhor, talvez possa dizer-se mais alguma coisa sobre o assunto. Não propriamente sobre o jovem turco, mas sobre uma outra ridicularia, essa bem mais próxima de nós: os grandes portugueses.
A RTP está neste momento a cumprir a “nobre” tarefa de seleccionar os 10 mais famosos portugueses de onde sairá o maior cá do burgo. Confesso que não assisti a nenhum dos programas – penso que teria sido mais do que um – onde se tratou desse tema mas imagino também que não terei perdido grande coisa. O formato não é novo, nem é nosso, foi importado. Noutros países, também aqui mais “adiantados” que nós, já apuraram os dez mais, estando por isso em condições de, a qualquer momento, fazerem soar as trombetas. Por cá dizem-me que para Janeiro – de 5007, espero. Dei uma olhadela à página do programa e verifiquei que os organizadores não terão levado em linha de conta o efeito Ataturk. Se o tivessem feito estaria entre o Manoel de Oliveira, cineasta e o Manuel dos Santos, toureiro, o empresário – ou direi antes o filantropo – Manuel Rui Azinhais Nabeiro. Se os empregados, os amigos da pesca, os afilhados, os amigos da caça, os compadres, os amigos da sueca e pelo menos sete oitavos de Campo Maior se dispuseram a telefonar para votar no benfeitor, o Manuel Rui será eleito ao arrepio de todas as perscrutações, tão só porque a RTP, na sua soberba, não se dignou beber dos ensinamentos deste blog, desconhecendo, por isso, o que, em situações como esta, o efeito Ataturk pode fazer.

Bom, acontecerá o mesmo que noutros países, por exemplo nos Estados Unidos da América. Sabem por acaso quem é a 6.ª personalidade mais importante da história desse grande país? Nem mais: George W. Bush.

13 novembro 2006

DESAFIO DAS MANIAS

Fui arrebanhado para participar neste desafio e não tive qualquer possibilidade de fuga.
O desafio consta do seguinte:
Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogs aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blog.

As minhas manias:
1- Mania de ser optimista;
2- Mania de chegar a horas;
3- Mania de cultivar a "má-língua";
4- Mania que tenho poucas manias;
5- Mania que tenho sempre razão.

Os meus convidados:
- Blog da Mikas
- Fantasias
- Escola Revisitada
- Histórias e Sabores
- Lusíadas

PS: confesso que tenho bastantes dúvidas acerca daquela última mania mas fui coagido a escrevê-la.

INÉS ALLENDE

Para trás ficou Cuzco, coroada pela fortaleza sagrada […], sob um céu azul. Ao sair da cidade, mesmo debaixo dos olhos do governador, do seu séquito, do bispo e da […] cidade que se despedia de nós, Pedro chamou-me para o seu lado com uma voz clara e destemida.
- Junte-se a mim doña Inês Suárez! – exclamou, e quando passei à frente dos seus soldados e oficiais, colocando o meu cavalo ao lado do seu, acrescentou em voz baixa: - Vamos para o Chile, Inês da minha alma…

Isabel Allende, Inês da Minha Alma


O mais recente livro de Isabel Allende, Inês da minha alma, relata a prodigiosa aventura da conquista do Chile.
Naqueles tempos, já não havia lugar para as mais nobres façanhas naquela Europa, corrupta, envelhecida, dilacerada por conspirações políticas […]. O futuro estava do outro lado do Atlântico.
É neste mundo novo que Pedro de Valdivia, contra tudo o que seria de esperar, se lança à conquista do Chile, mesmo sabendo que se conseguisse sobreviver ao deserto do Atacama, o lugar mais inóspito da Terra, dificilmente escaparia aos aguerridos índios Mapuche. Mas Pedro estava convencido que o Chile era o local ideal, bem longe dos cortesãos da Ciudad de los Reyes, para fundar uma sociedade justa baseada no trabalho árduo e na lavoura da terra, sem a riqueza fácil das minas e o recurso à escravatura. De modo que se lança à aventura.
A História nunca foi pródiga no tratamento dado às mulheres e, no séc. XVI, isso era ainda mais evidente, de modo Pedro de Valdivia “arcaria” com todos os louros de tal façanha.
Isabel Allende descobriu que uma mulher, Inês Suárez, nascida numa obscura localidade Andaluza teria tido um papel importantíssimo nessa epopeia. Investigou em todos os locais possíveis e legou-nos a extraordinária história dessa mulher.
Conhecendo a obra da autora, e em especial Paula, não podemos deixar de reparar nas imensas afinidades existentes entre as duas mulheres de modo que por vezes somos levados a pensar que a narradora é, afinal, Inês Allende ou, eventualmente, Isabel Suárez.

12 novembro 2006

VLADIMIR PALAHNUIK, 1919, JACK PALANCE, 2006

Jack Palance, nascido a 18 de Fevereiro de 1919 em Lattimer, no estado da Pensilvânia, no seio de uma modesta família de emigrantes ucranianos, morreu na sexta-feira aos 87 anos de idade, na sua casa de Montecito, na Califórnia, ao que dizem, de causas naturais.
Jack Palance, nascido Vladimir Palahnuik, antes de iniciar a carreira de actor, foi pugilista – Jack Brazzo – e militar.
Os duros vão desaparecendo. Hollywood começa a ser tomada por frouxos.

09 novembro 2006

UM PAI NATAL PARA DON HUGUITO

Hugo Chavez só ouviu falar de Portugal porque em tempos alguém lhe sugeriu que uma fotografia que o mostrava a conversar com um sujeito bem parecido numa qualquer sala de espera de um aeroporto, poderia, eventualmente, servir para mostrar ao mundo que era um líder que se dava com gente de bem. Mas este arremedo de estadista não sabe o que se passa por cá, caso contrário saberia que, tal como não se pode decretar o fim de uma crise, também não se pode proibir por decreto a visita do Pai Natal. E foi isto, pasme-se, o que ele fez: mandou publicar um decreto que proíbe o uso de imagens ou bonecos do Pai Natal, pinheiros enfeitados e, até, botas e meias vermelhas, em todos os edifícios públicos venezuelanos.
E eu a pensar que já nada mais me surpreenderia…

Socorro-me do trabalho poético de um seu colega dos antípodas para dedicar um bom Natal a Don Huguito, com o desejo que o Pai Natal lhe traga um IPod para ouvir os discursos do ianque e o Trópico de Câncer do Henry Miller para aplacar a ira sempre que esta se manifeste. Só peço ao Pai Natal que não lhe traga nada daquilo que ele lhe pediu.

PAI NATAL

Pai Natal, vem, por favor!
Traz zincos prás escolas,
Traz giz, traz quadros,
Cadernos, lápis e livros!
Traz carteiras e armários,
E professores e alegria!

Pai Natal, vem, por favor!
Traz a chuva e verdura,
E frutas, milho e arroz
Nos campos dos nossos pais!
Harmonia entre adultos,
P’ra nós a certeza da paz.

Xanana Gusmão

07 novembro 2006

O EFEITO ATATÜRK

Dealbar de novo milénio.
Numa altura de temor e pânico, exacerbado não sei por quem e consubstanciado no Bug do ano 2000, uma revista estrangeira, da qual não me ocorre o nome, mas com posição na praça e difusão mundial, lembrou-se, no encerramento de um milénio, eleger a personalidade que nos últimos mil anos mais se tenha destacado: “O Homem do Milénio”.
Na era da aldeia global – o Bug foi, afinal, um fiasco – o modo de votação não poderia ser outro: pela Internet.
A votação lá começou e, uns tempos depois, quando a organização se apercebeu da personalidade que iria sair vencedora tratou de, sub-repticiamente, anular a eleição: Atatürk, literalmente, o pai dos Turcos, estava prestes a tornar-se o homem do milénio.
Ninguém duvida da importância que Mustafa Kemal (1881-1938) o Atatürk, tem para a moderna Turquia da qual foi o grande impulsionador mas, daí até ser a personalidade mundial mais importante dos últimos mil anos, digamos que seria necessária muita força de vontade para se aceitar.
Mas então como é que tudo aconteceu? Muito fácil. A revista, que, como já se disse, tinha – e tem, penso – difusão mundial, também chega à Turquia. Ora, algum Otomano se lembrou de encorajar os seus concidadãos a votarem no “Pai” e eles não se fizeram rogados. E, assim, uma iniciativa que no resto do mundo tinha despertado pouco interesse tornou-se, na Turquia, quase numa questão de honra nacional. Setenta milhões de Turcos correram, então, para o computador. O final da história adivinha-se.
Tudo isto, a propósito da ridícula ideia de escolher as Novas Sete Maravilhas do Mundo.
No dia sete de Julho do ano que vem – ainda pensei que o sete era o do George Best, mas afinal não – o mundo ficará a conhecer as novas maravilhas num espectáculo que será transmitido pela televisão para todo o mundo a partir do Estádio da Luz em Lisboa. E pronto, a partir desse dia o romantismo aliado às sete maravilhas desaparecerá. Mas, escolham o que escolherem, nunca conseguirão destronar o Colosso de Rodes, nem os Jardins Suspensos da Babilónia, nem o Farol de Alexandria, nem a Estátua de Zeus, nem o Templo Ártemis, nem o Mausoléu de Halicarnasso. Muito menos as Pirâmides de Gisé.
Os promotores desta ridicularia, liderados pelo suiço Bernard Weber, à qual um antigo director geral da UNESCO emprestou o nome, estão a cair no mesmo erro que há seis anos destruiu a luminosa ideia da revista americana. Ao não terem em conta o “efeito Atatürk” as novas Sete Maravilhas do Mundo serão tudo menos maravilhas ou, sendo-o, não serão, com toda a certeza, do mundo.
A votação já começou e, soube um dia destes, que já começaram também as “jogadas de bastidores”. Os Indianos, alarmados pelo fraco lugar ocupado pelo Taj Mahal, começaram a acorrer em força à votação e já o posicionaram num lugar elegível. Espera-se a resposta dos chineses.
S. Marino, Lichtenstein, Andorra e Belize não têm qualquer hipótese.

24 outubro 2006

ENQUANTO SALAZAR DORMIA...

Mary deu uma gargalhada e Rita desconcentrou-se, rindo. Tirei a venda dos olhos e vi-as, as duas seminuas à minha frente. […] Abracei-as e trocámos beijos os três. Depois caímos sobre a cama, enroscados uns nos outros e amámo-nos a três em desvario. Como se um tremendo cataclismo aí viesse e só nos restassem poucas horas sobre a Terra.



No início dos anos 40 do século passado o mundo era fustigado por uma guerra como a humanidade jamais tinha visto. Com a vizinha Espanha devastada por 3 anos de uma feroz guerra fratricida e o resto da Europa a ferro e fogo, restava Portugal, um oásis de paz e tranquilidade, para onde fugia a Europa que tinha pernas para o fazer. A pastelaria [Suiça], onde a afluência de refugiados obrigara a abrir uma esplanada para a rua, fora baptizada pelos portugueses de «Bompernasse», pois podiam observar-se por lá muitas e belas pernas de mulheres estrangeiras. Francesas, belgas, holandesas, judias da Alemanha ou da Polónia calçavam soquettes, saíam à rua sem meias, luvas ou chapéus, e penteavam o cabelo curto «à refugiada». Aliviadas por terem escapado à guerra, aos black outs, às bombas ou às perseguições da Gestapo, viviam Lisboa como um oásis, um nirvana de paz e felicidade, e mostravam as pernas ao sol, lendo revistas e fumando cigarros, numa animação estranha aos costumes lusitanos.
É nesta Lisboa cosmopolita que se cruzam reis, príncipes, banqueiros, capitalistas, judeus e, enquanto Salazar dorme, guerreiam-se os serviços de inteligências de ambas as facções beligerantes. Se há coisa que não falta no meu hotel é gente famosa. Na semana passada, além dos Gulbenkian, na segunda jantou lá o rei Carol da Roménia, com a sua bailarina Lopescu! Na terça almoçou o Guggenheim! Na quarta, apareceu para jantar a baronesa Rotschild, com o Ricardo Espírito Santo e, na sexta, a grã-duquesa Carlota do Luxemburgo.
O narrador, um luso britânico, filho de pai Inglês e mãe Portuguesa, é um antigo agente dos serviços secretos britânicos que, passados 50 anos, regressa a Lisboa e peregrina pelos locais que guarda na memória, recordando todas as peripécias vividas na altura.
O livro, de Domingos Amaral, é de uma leitura agradável. Recria o ambiente do Portugal dos anos 40, o glamour dos hotéis de luxo de Lisboa e do Estoril e revela algumas situações pitorescas como a da família Gulbenkian: É uma família curiosa.Ele instala-se no Aviz, a mulher no Palácio do Estoril. Depois, almoçam juntos no […] hotel, mas fazem-no em mesas separadas, cada um com os seus convidados.



PS: Quando, pelo menos alguns de nós, chegarmos aos 80 anos, seremos, talvez, como os pescadores quando desatam a contar histórias de pescarias: aumentam sempre três palmos ao peixe. O agente Jack Gil Mascarenhas Deane tinha chegado já aos 80 quando nos relatou a história por si vivida, 50 anos antes. Mesmo que por vezes se tenha entusiasmado a descrever aqueles pormenores mais íntimos e tenha feito como os pescadores, esta é, com efeito, uma bela história.
Enquanto lia as aventuras do agente Jack Gil lembrei-me de outro herói luso britânico: o piloto da RAF Jaime Eduardo de Cook e Alvega. O livro não o revela mas será que os dois não se terão cruzado na Lisboa de 40?

18 outubro 2006

PEDRO CAMACHO

No seu último monólogo da hora de jantar – sua homilia dominical, como já alguém se lhe referiu –, Marcelo Rebelo de Sousa, reportando-se ao último tiro no pé dado pelo tontinho do ministro da Economia, disse que não foi por mal que o governante assim falou e que, de qualquer modo, nem era bem isso que ele queria dizer. Só soou assim porque o ministro em questão possui um vocabulário pobrezinho, fruto das suas parcas leituras quando era pequeno. O professor lá saberá do que fala.
Desconheço a maior ou menor frugalidade das suas primeiras leituras, de qualquer modo, atrever-me-ia a recomendar ao senhor ministro uma deliciosa leitura: nem mais nem menos do que “A Tia Júlia e o Escrevedor” de Mário Vargas Llosa. A obra, ao que me constou, tem muito de autobiográfico, mas o que gostava de chamar a atenção era para uma extraordinária personagem que dá pelo nome de Pedro Camacho. A acção desenrola-se nos anos 50, na época dourada da rádio e das radionovelas. Uma emissora de Lima, para a qual o Varguitas preparava os noticiários nos intervalos dos seus afazeres académicos de aluno na faculdade de Direito da Universidade de Lima, tentando combater a audiência de uma emissora concorrente, contratou a certa altura o novelista Boliviano Pedro Camacho. Este viria a revelar-se de uma extraordinária fecundidade, conseguindo escrever três ou quatro histórias em simultâneo, fazendo-o, praticamente, na hora em que iriam ser transmitidas. O êxito das radionovelas deste homem foi estrondoso. A certo ponto, porém, os ouvintes começaram a notar que as personagens de uma história começavam a aparecer noutra e algumas personagens eram cópias fiéis de pessoas reais.
Não desvendarei mais nada da história. Um eventual leitor poderia perder o interesse pela leitura integral da obra. Direi apenas ao nosso ministro da Economia que, em vez de confundir a realidade com a ficção, melhor fora que, qual Pedro Camacho, confundisse a ficção com a realidade.

14 outubro 2006

A CRISE ACABOU!

Ontem, ao ouvir o ministro Manuel Pinho anunciar uma refinaria do Monteiro de Barros, ainda maior do que a primeira, lembrei-me, não sei porquê, do gato da Whiskas. Num anúncio, que por estes dias vai passando nas televisões, a dona chega das compras e, mal entra em casa, começa a bombardear o sansão – acho que não é bem este o nome do animal, mas, pelo menos por hoje, passará a sê-lo – de verborreia. O bicho, não sei se por fome se por cansaço, interpreta do palavreado da patroa: blá, blá, blá,… whiskas,… blá, blá, blá,… whiskas,… blá, blá, blá…
Nos últimos dias tem sido grande a azáfama que reina nas reuniões do governo. Os últimos protestos de rua parece que foram em grande. Alguns jornais disseram-no com todas as letras: manifestações como Lisboa já não via desde a revolução! – vamos lá a metê-los na ordem! De modo que toca a puxar pelos miolos – temos que anestesiar a populaça!
Já sei! – exclamou o chefe. E todo o grupo, mais embevecido ainda, espera avidamente a ideia iluminada do grande líder -, vamos anunciar uma grande refinaria!
Alguém, timidamente, lembrou que essa tinha sido já anunciada. Então anuncia-se outra muito maior que a primeira! Todos deram vivas e agradeceram a Deus – cada um ao seu, claro! – tê-los presenteado com aquele grande timoneiro. Só mais uma coisa – disse –, como se trata de uma refinaria é o Manel Pinho que o vai anunciar à Nação.


Post Scriptum: tenha ou não acabado a crise – embora, por vezes, possam ajudar, o povo não se alimenta de palavras, alimenta-se com o dinheiro que tem no bolso – este governo continua a ser bafejado pela sorte. Então não é que continua a haver jackpot no euro milhões. Com o pensamento em cem milhões quem é que vai ligar a greves ou manifestações? Até sexta à noite o governo está à vontade para continuar com as suas maquinações.

02 outubro 2006

OS ÁRBITROS E O REI HIERON DE SIRACUSA

Ontem, ao ler a notícia dos presentes, em ouro falsificado, oferecidos aos árbitros, lembrei-me do Rei Hieron de Siracusa.
Conta-se – conta-nos Vitrúvio, arquitecto Romano do séc. I a.C. – que o Rei Hieron II, desejando obsequiar as divindades com um presente à altura da sua real dignidade, decidiu oferecer-lhes uma coroa em ouro maciço. Mandou procurar o melhor ourives do reino e entregou-lhe uma generosa quantidade desse metal.
No dia aprazado o ourives entregou ao soberano uma coroa ricamente cinzelada. Vá lá saber-se porquê, ao espírito do monarca começam a assomar algumas dúvidas acerca da fidelidade do trabalho do artista. A coroa tinha exactamente o peso do ouro que o rei lhe tinha entregue, mas quem lhe garantia que uma parte não foi substituída por outro metal? Por prata, por exemplo. Querendo uma resposta para a dúvida que o atormentava, Hieron confiou a Arquimedes a tarefa de resolver o enigma.
Vitrúvio, que nos conta a história, viveu dois séculos depois de Arquimedes. Talvez que durante todo esse tempo a história tivesse sido, digamos, boleada. Mas é uma bela história.
Estando no balneário público, enquanto ia imergindo no tanque, Arquimedes reparava que a água ia subindo. Na sua mente apareceu, então, a solução do problema do Rei Hieron: “Todo corpo mergulhado total ou parcialmente num líquido sofre um impulso vertical, de baixo para cima, igual ao peso do volume do líquido deslocado."
A sua alegria foi tal que, sem reparar sequer que estava completamente nu, saiu das termas e precipitou-se pelas ruas de Siracusa, exclamando: “- Eureka! Eureka!”.
A história diz-nos que Arquimedes descobriu que o ourives tinha substituído uma parte do ouro pelo mesmo peso em prata e, diz-se, por sua intercessão, o monarca não terá punido o trafulha. Ao fim e ao cabo, não fora ele e essa importante descoberta teria de esperar.
Os nossos corruptos árbitros nunca duvidaram da autenticidade das prendas que lhes ofereciam, e, mesmo que duvidassem, nem conheciam o Arquimedes nem a história do Rei Hieron, por isso é que, sabe-se agora, foram presenteados com prendas de ouro falsificado para comprar os seus favores.
Os nossos corruptos árbitros. Corruptos a simplórios.

26 setembro 2006

BROCANDO O NOSSO CÉREBRO

Há alguns anos, um solidário bebedor, Inglês ou Irlandês, já me não recordo, fez os seus amigos prometerem-lhe que, uma vez morto e incinerado, o punhado de cinzas que restassem iriam para uma pequena ânfora que seria colocada em local de destaque no seu pub de eleição. Ali, à vista dos amigos, ser-lhe-ia menos penosa a jornada para a eternidade. Embora não tenha vertido uma lágrima como o outro quando viu os tanques irromper por Bagdad, confesso que esta notícia me sensibilizou. Todos ganhariam com isso: o morto tinha companhia e os vivos podiam mandar vir outra rodada – erguiam o copo, viravam-se para a urna e exclamavam: - À nossa!
Desconheço se algum dos amigos ainda vive mas, ainda hoje, o morto lá continuará a contemplar os bebedores do alto do escaparate. Por vezes, um ou outro, lá lhe dirigirá a palavra. Serão, fatalmente, frases sem nexo mas que ajudam a passar o tempo.
Tudo isto vem a propósito de uma nova moda que acaba de chegar a Portugal. Alguém teve a ridícula ideia de, por meio de brutais aumentos de pressão e temperatura, num processo em tudo idêntico ao que se utiliza na natureza, transformar em diamante o carbono contido numa madeixa de cabelo de um finado. Deste modo, os entes queridos que cá ficassem, lembrar-se-iam dele. Se não de memória pelo menos pelo tacto.
O diamante, ao que me dizem com certificado e tudo, é idêntico àquele que protege a ponta de qualquer broca para furar pedra. Um material pouco consentâneo com a memória que se quer preservar, mas enfim… é a desmedida criatividade dos homens.

22 setembro 2006

ESTADO DA NAÇÃO: RECOMENDA-SE!

Às segundas-feiras, o principal canal da televisão pública brinda os telespectadores com o Prós e Contras. A dinâmica do programa vive muito à custa da selecção do painel. Por vezes, essa escolha é tudo menos criteriosa e o programa é um longo bocejo, outras vezes, apesar de um painel redondo, propício a duas horas de enfado, o programa prende a atenção do espectador. São insondáveis os caminhos do Senhor.
Na última segunda feira o tema girava à volta de Educação. O assunto era já gasto pelo que se esperaria um miserável share para o canal 1. Tal parece não ter acontecido.
Na mesa da situação, digamos assim, sentava-se a ministra – à Pai Natal, como diria numa das suas habituais tontarias, a condutora do programa. Sobre a senhora ministra, podemos não lhe conhecer as ideias mas conhecemos-lhe o discurso. Até aqui nada de novo.
Ao seu lado direito uma personagem de carinha miúda e corte à Charlie Brown. Apresentar-se-ia como Presidente do Conselho Executivo de uma escola dos arredores de Guimarães. O primeiro mal escolhido. Limitou-se, qual sabujo, a concordar inteiramente com todas as medidas propostas pela equipa da educação. Na sua escola reinava a harmonia. Os professores estavam felizes e contentes e os alunos aprendiam melhor. Lá, no Eldorado, está quase a atingir-se a perfeição. Estaria a pensar num futuro lugar de Director-Geral para cima. Depois daquela prestação o seu sonho terá caído por terra. Ninguém quer tamanho bajulador a trabalhar consigo.
Na mesa da oposição tínhamos um professor universitário ex-governante da área. Punha aquela expressão grave tão natural naqueles que conhecem os meandros do labirinto. Numa introspecção rápida terá avaliado a situação do seu telhado e, na sua linguagem polida, passou o serão a concordar com as medidas da ministra. Havia uma ou outra com que não estava, totalmente, de acordo mas, cortesmente, evitou revelá-las. A linguagem monocórdica com que dizia as coisas também não ajudou. Enfim a segunda má escolha. No final do programa, em parte, redimir-se-ia.
A seu lado outra professora presidente. Agora da escola de uma terra com uma fábrica de cerveja de que não consigo lembrar-me o nome. Nem da terra nem da cerveja. Não trouxe muito para o debate. Na sua zona haverá interesses alheios à escola que chamem os alunos porque, pelos vistos, o abandono escolar não é despiciendo. Abusou dos Cursos de Educação e Formação que o comum dos mortais não sabe bem de que se trata. Outra escolha desacertada, portanto.
Na primeira fila do anfiteatro, a apresentadora costuma sentar alguns convidados cuja função é dinamizar o debate e abanar as consciências. Pensava eu. Vejamos:
Outro dirigente de uma escola, agora do Algarve. No seu estilo de presidente de Associação de Moradores, que sim, que agora é que isto vai p’rá frente, que na sua escola era como no Eldorado, estava tudo bem e havia harmonia.
Ao lado um velhinho. Embora já retirado, continua a encontra-se com colegas ainda no activo. Não vá a senhora ministra lembrar-se de lhe baixar a reforma – ficaram um poucochinho desagradados com todas estas mudanças mas, como é para melhorar, estão a encarar o sacrifício como necessário – limitou-se a aplicar a última pedagogia que conheceu: «Aninhas, quantos são quatro mais oito?». «São dez senhora professora!». «Está certo, mas…». Podiam ter evitado a deslocação do velhinho à capital.
Ao centro dois jovens do décimo segundo ano. Um deles, com o calor e o nervoso, não conseguiu alinhavar uma frase que fosse. Foi-lhe prometido que falaria quando estivesse mais calmo mas, como continuasse a gastar lenços de papel para enxugar a cara, foi mantido calado até ao fim. O outro, que sim senhora, que gostou de todos os professores, que todos o ajudaram a chegar até onde se encontrava, blá, blá, blá. Todos os professores?! Como se todos nós não tivéssemos andado na escola. Enfim, podiam ter poupado este sacrifício aos imberbes. Deitar-se-iam mais cedo e ficariam mais frescos para aturar os queridos professores na manhã seguinte.
Junto deles uma senhora com a pintura esborratada. O adiantado da hora não se compadece com estas coisas e a caracterização também não ajudou. Era uma professora que também era mãe, ou uma mãe que também era professora, bom, já não me recordo muito bem. Praguejou contra a direcção do colégio do filho mais novo que não a deixou, ou deixou relutantemente, visitar as instalações. Não sei se disse mais qualquer coisa mas a dizer teriam sido destas banalidades. Podia ter ficado a contar uma história ao seu filhinho mais novo. A criancinha teria adormecido em paz e o país não teria perdido grande coisa.
Finalmente, um sindicalista. Embora o seu estilo Adriano Correia de Oliveira não o tenha ajudado e estivesse constantemente a responder à antepenúltima pergunta da apresentadora, não ouvindo sequer as duas últimas, foi o único que tentou remar contra a maré. Não é bonita aquela peculiar mania dos agitadores de responderem sem que lhes tenham perguntado, atropelando os outros, mas esteve quase a levar a ministra a utilizar a sua frase mais querida: - Não me deixam falar.
E eis que é chamado um último participante. É um professor da Serra da Estrela que, nas palavras da apresentadora, pediu, insistentemente, para ser convidado. De uma das últimas filas, levanta-se, então, a personagem mais burlesca de todo o programa. Trota pelo anfiteatro abaixo e chega afogueado junto do palco. Parece que tinha vindo de Manteigas a pé. Numa linguagem de vendedor de banha de cobra começa por dizer que tem uma série de perguntas para fazer à ministra. Alarmada, a apresentadora lembra-o do combinado: - Apenas uma pergunta! O troglodita que tinha o discurso preparado para uma dúzia de perguntas não conseguiu resumir tudo numa só e o que disse soou ininteligível. A sua viagem desde a Serra foi em vão.
De vez em quando, em aparições hitchcockianas, viam-se dois marretas sentados no extremo direito da primeira fila. Ora meneavam a cabeça, ora mostravam enfado. Estou ainda por saber quem eram e o que ali faziam.
A montanha teria parido um rato, não fora uma curta afirmação final. O senhor das falinhas mansas que já tinha sido secretário de estado, apelando à sua capacidade de síntese, conseguiu, ainda que, penso eu, não intencionalmente, resumir tudo o que ali se tinha passado. Olhando para o Charlie Brown que tinha sentado à sua frente disse-lhe: - Tenho-o ouvido atentamente desde o início do programa e de tudo o que disse só consigo estar de acordo consigo numa coisa: ambos somos benfiquistas.
Perdemos, pelo menos, duas horas de descanso mas fomos para a cama mais felizes: o país vai bem!