02 agosto 2006

EVOLUÇÃO NA CONTINUIDADE?

No passado dia 31 de Julho – há dois dias, dito de outra forma –, o governo cubano emitia um comunicado oficial, dando conta dos problemas que apoquentavam o seu Presidente, Fidel Castro. Assinado pelo próprio, o comunicado revela que o líder sofreu uma "crise intestinal aguda com hemorragia, que o obriga a ser submetido a delicada intervenção cirúrgica".
Em face disso, Fidel, delega, ainda que com carácter provisório, no seu irmão Raul – segunda figura do regime e actual ministro das Forças Armadas –, os cargos de primeiro secretário do Partido Comunista, de presidente do Conselho de Estado [Governo] e de Comandante-Chefe das Forças Armadas.
Sobre isto, no JN de hoje, dizia David Pontes: "É cruel pedir a morte de alguém, mesmo que seja por velhice. Mas, infelizmente, há povos que parece não terem outro remédio que esperar que o ditador caia da cadeira ou que definhe no leito da doença. Que venha pois a morte, natural e irremissível, e que, com ela, naturalmente, desapareça a ditadura cubana e os sorrisos possam voltar a ser verdadeiros".

29 julho 2006

ORA DI DJUNTA MON TCHIGA



E eu que não sou Deus!
E eu árido de respostas!
E eu vazio de verdades!
E eu que apenas sou África
nos entretantos das minhas
Comodidades!

...

José Luís Carvalhido da Ponte, ora di djunta mon tchiga.
Extracto do poema “é quase noite”



José Luís Carvalhido da Ponte é professor por vocação e poeta por devoção. Ontem assisti ao lançamento da sua mais recente obra: ora di djunta mon tchiga. O título, em crioulo, significa, em língua de branco, é a hora de darmos as mãos.
José Luís, 57 anos de idade – completá-los-á dentro de 19 dias, a 17 de Agosto – cumpriu, no início dos anos 70 do século passado, o serviço militar na então colónia portuguesa da Guiné. Ter-lhe-á ficado algo daquela terra – agarrado não sei se ao corpo se à alma – porque trinta anos depois de lá ter aportado pela primeira vez, regressou. Embora o objectivo tivesse sido trabalhar na formação de professores de Português na Guiné-Bissau, o apelo da terra amada terá sido bem forte. Desde essa altura tem regressado todos os anos.
Ele não o disse mas pareceu-me adivinhar nas suas palavras que a cada novo regresso o seu amor por aquela terra, onde apenas não falta o sorriso, a alegria e a amizade, cresce mais e mais – se desaparecessem as árvores, as plantas, os animais e o Sol, a Guiné não teria mais nada, diria. Fazendo a comparação entre a terra que deixou no regresso da guerra colonial e o país que encontrou no dealbar deste século não se coibiu de afirmar: “- O que vou dizer não será politicamente correcto mas sinto que, mesmo assim, devo dizê-lo: agora é que a Guiné está a ser explorada!” Ainda bem que temos poetas que não se encolhem perante o politicamente correcto! É que dizem as coisas muito melhor que nós dizemos.
Talvez pensando em todas as Djamilas e Marys daquele país Africano, o poeta quer construir uma pequena maternidade no Cacheu. Para ajudar decidiu oferecer a totalidade dos lucros obtidos com a venda deste livro de 36 belos poemas e cerca de duas dúzias de belas fotografias. Embora a sua modéstia o mandasse dizer o contrário, os poemas, as fotografias e a nobreza da ideia que está por detrás deste trabalho, valem bem os 15 euros que se paga por ele. Assim a edição esgote rapidamente.
Ora di djunta mon tchiga.

CLARO QUE TENHO FOME!

Claro que tenho fome!
Claro que tenho medo
de esquecer meu nome
de perder meu segredo!

Claro que não sei ler!
Mas não temo sonhar
que um dia hei-de saciar
o ventre de uma mulher.

Hei-de dizer a meu filho
que as árvores morrem de pé.
Ele vai entender, eu confio,
e quando dermos as mãos,
na gramática do amor,
havemos de construir
uma nova Guiné.
Não vês como sei sorrir?

José Luís Carvalhido da Ponte, ora di djunta mon tchiga, Julho de 2006

27 julho 2006

OS "HACKERS" ESTÃO ENTRE NÓS!

Na sua crónica da última página do JN de ontem, como habitualmente, Manuel António Pina, obsequiou-nos com uma história das arábias – um dia este homem há-de ser lembrado como o Cronista do Entroncamento. A história que nos contou leu-a no Washington Post. Rezava mais ou menos assim: No último fim-de-semana, realizou-se em Nova Iorque uma reunião de hackers – a notícia não o diz, ou, pelo menos, o cronista não o refere, mas imagino a Microsoft como sendo o principal patrocinador deste evento. Bill Gates precisa de dormir com o inimigo. A reunião terá sido aberta ao público, pelo menos a algum, porque a certa altura, um dos elementos pediu a uma pessoa da assistência o nome e o endereço de e-mail. Quatro horas mais tarde o especialista apresentou ao incrédulo assistente 500 páginas de dados a seu respeito que tinha surripiado sabe-se lá a quem ou onde, torneando firewalls, contornando antivírus, circundando anti-spyware, ladeando anti-sniffers, enfim... Dessas páginas constavam informações como: lugares onde vivera, automóveis que conduzira, nomes, moradas e fotos de familiares e amigos, o cadastro do irmão, e, pasme-se, o incrédulo assistente foi ainda informado que, desde 1983, outra pessoa andava a usar o seu número da Segurança Social.
Em tempos deixei aqui um post a que dei o nome de PANOPTICON VIRTUAL. Verifico que cada vez mais, as palavras do Viajante Gabriel ganham actualidade: “As pessoas querem acreditar que há uma ilha tropical ou uma gruta nas montanhas onde se podem esconder, mas hoje em dia isso já não é verdade. Quer gostemos, quer não, estamos todos ligados.”

24 julho 2006

NÃO VÁ, TELEFONE!

O governo continua a porfiar no meritório objectivo de colocar a internet ao serviço da simplificação da vida dos cidadãos e do emagrecimento do estado – das contas do estado, entenda-se –, isto é, continua a cruzada pela implementação do simplex. Pena que nem sempre as infra-estruturas estejam preparadas para tão louváveis propósitos. A recente novela da compra do selo do carro, trouxe-me à memória uma célebre frase publicitária com que nos anos 30 do século passado a APT (Anglo-Portuguese Telephone), antepassada dos TLP/CTT e PT, tentou convencer os portugueses a instalarem telefone: NÃO VÁ, TELEFONE! A campanha, mau grado os óptimos métodos publicitários utilizados, não terá surtido o efeito que os seus responsáveis esperariam: além de outros factores, as condições económicas do país não ajudavam. Algumas décadas mais tarde, por alturas da primavera marcelista, quando as taxas de crescimento económico começaram a ter alguma visibilidade, os telefones começaram, finalmente, a ser instalados. Tal era a procura que os problemas de saturação e, consequentemente, de falhas de comunicação, começaram a atormentar a vida dos utilizadores. Daí até à chegada da frase: NÃO TELEFONE, VÁ! foi um ápice.
Senhor primeiro-ministro, para que não nos voltemos a lembrar desta famigerada frase, não seria de alargar as auto-estradas da informação para que não se congestionem sempre que há um aumento de tráfego?

21 julho 2006

HUMOR FINO

Sempre achei a nossa ministra da educação uma pessoa cinzentona, com aquela sua pelezinha esticada, aquele seu estilo lânguido, empalidecido pelos jejuns e mortificações da virtude – como diria Lobo Antunes, se perdesse tempo com estas coisas –, uma daquelas personagens de que os pais se socorrem em momentos de aflição: “- Se não comes a sopa toda vais passar a tarde a casa da dona Maria de Lurdes!”. Sempre achei, até ontem. Afinal a senhora é dona de um finíssimo sentido de humor, que de tão subtil me tinha passado despercebido: Genericamente, os exames correram bem! Disse a boa senhora, ontem, no Parlamento.

19 julho 2006

MUSEU DE CINEMA DE MELGAÇO

Com uma periodicidade ditada pelos afazeres profissionais e domésticos do grupo, eu, juntamente com a Ana, a Andrea, o Bento, a Helena e o Luís, tiramos um dia, ou, pelo menos, parte dele, para nos reunirmos. Invariavelmente as nossas reuniões são compostas por duas partes.
- A primeira, mais teórica, digamos, é passada à roda de uma mesa que o Bento ou o Luís – os maiores experts em gastronomia que conheço, embora a Ana esteja, já, no bom caminho – escolhem. A agenda é aberta de modo que cabem lá todos os temas – se bem que uns mais confessáveis que outros: livros, viagens, discos, férias, filmes, trabalho, colegas, família, alguma política, muita má-língua, pouco futebol, algum fado, Fátima q.b.…
- A segunda, mais social, tanto pode ser uma visita à Igreja do Marco de Canaveses como um passeio pelas íngremes bancadas do incomparável estádio do Braga.
Ontem reunimo-nos na Vila de Melgaço. A primeira parte foi na Adega do Sossego, uma acolhedora casinha onde fomos simpaticamente recebidos e principescamente servidos. Depois de termos passado em revista todos os habituais temas fomos cumprir a segunda parte da nossa reunião: uma visita ao Museu de Cinema de Melgaço.
Jean-Loup Passek é, desde o início dos anos setenta do século passado, o responsável pelo Festival International du Filme de la Rochelle e conselheiro de Cinema do Centro Georges Pompidou. Um dia, já lá vão cerca de trinta anos, o cineasta realizou um documentário sobre a presença dos imigrantes portugueses em França. Na altura travou conhecimento com um casal de trabalhadores Lusos que por lá labutavam. Daí a ter sido por eles convidado para passar férias em Portugal foi um passo. Passek aceitou o convite e eis que rumam a Portugal à terra dos imigrantes – Melgaço. O cineasta ficou encantado. Comprou casa por cá e não mais se desligou da Vila. Um destes dias, a propósito do cinquentenário da Fundação Calouste Gulbenkian, António Barreto dizia que nunca conheceremos todas as razões que levaram a que um dos homens mais ricos do mundo doasse a sua colossal fortuna a Portugal. Talvez Jean-Loup Passek tenha sentido o mesmo que o velho capitalista sentiu ao cá chegar: a simpatia das pessoas, a beleza da terra, a paz que lhe faltava no seu país… O certo é que o cineasta decidiu doar à pequena vila de Melgaço um dos maiores espólios de artefactos cinematográficos que uma pessoa conseguiu reunir, espólio esse que era disputado por grande parte dos países da Europa.
Com a ajuda da Câmara Municipal de Melgaço, conseguiu arranjar-se um espaço que, apesar de nobre, é já, ao que me dizem, exíguo para expor todos os tesouros deste homem. O museu está instalado numa casinha de dois pisos, literalmente, colada à parede protectora da muralha da vila. O edifício, que já foi Posto da Guarda-fiscal de Melgaço, foi minuciosamente reparado e preparado para o efeito.
Lá estão todas aquelas maquinetas imaginadas e laboriosamente construídas pelos gloriosos malucos das máquinas de sonhos que a partir dos finais do séc. XIX começaram a trilhar o árduo caminho que levaria àquilo a que hoje chamamos cinema.
Se passar por perto aconselho-o vivamente a visitar a este acolhedor museu.
A nossa próxima reunião será para os lados de Trás-os-Montes. A mesa, parte importantíssima, estará já escolhida pelos nossos experts. A parte lúdica será uma peregrinação a uma ou outra fraga que em tempos acolheu Miguel Torga nas suas caçadas pela região.
Passando em revista todas as reuniões que já fizemos e a amizade que se foi alicerçando entre nós não posso deixar de me lembrar do poeta de S. Martinho da Anta quando diz que viver é sobretudo amar e ser amado.
Confesso que tenho vivido!

11 julho 2006

SEM EMENDA

Não temos mesmo emenda! Então não é que o Senhor Madaíl vai pedir ao Governo que isente de IRS o prémio devido aos nossos homens da bola pelo facto de representarem o país no Mundial de Alemanha?
Vê-se que este senhor não entendeu nada do que disse o Presidente da República na Alemanha quando instou todos os Portugueses a aproveitarem a energia gerada pela louvável participação portuguesa no mundial, encaminhando-a para outras batalhas. Senhor Gilberto Madaíl, pagar os impostos que são devidos a qualquer rendimento, é uma obrigação de todos e de cada um! Do atleta fora de série que se esforçou por elevar o nome do seu país e do trabalhador que com o ordenado mínimo luta para dar aos seus filhos um futuro melhor. Com dirigentes como o senhor, jamais sairemos vencedores desta contenda. Por favor, desminta-se ou, então, cale-se!
E já agora, será que os verdadeiros interessados ter-lhe-ão encomendado qualquer sermão? Será que o Figo e companhia concordarão com essa monstruosidade? Gostaria de o saber...
Talvez que um destes dias qualquer um deles diga algo sobre o assunto.

09 julho 2006

ITÁLIA CAMPEÃ

Na sua última crónica, antes da final do mundial, Francisco José Viegas dava-nos a conhecer o seu desejo para o jogo: que perdessem os dois. Eu não iria tão longe mas que gostei de ver aquele senhor vestido de corvo saboreando sozinho a derrota, lá isso gostei.

VICTIS HONOR!

A Selecção Portuguesa de Futebol, que no campeonato do mundo da Alemanha conquistou um honroso 4.º lugar, regressou hoje. O país agradeceu-lhes o feito e eles ficaram sensibilizados com esse gesto. Foi bonito de se ver.
Obrigado rapazes! Ficamos a torcer pela vossa próxima vitória.

08 julho 2006

PROFESSORES DE FRANCÊS

Semanalmente, de segunda à sexta, José Coimbra e Carla Rocha, ajudam, estou certo disso, uma quantidade enorme de portugueses a começar alegremente o seu dia. Apresentam o “café da manhã” na RFM e distribuem alegria, inteligência e boa disposição por todos aqueles que os sintonizam. Ontem promoveram um concurso em que ofereciam uma viagem a Estugarda para assistir ao jogo entre Portugal e Alemanha para atribuição do 3.º lugar do campeonato do Mundo de Futebol, ao concorrente que acertasse numa determinada pergunta, geralmente relacionada com o dito. Chegada a vez do 2.º participante – a comunicação era feita por telefone –, depois dos cumprimentos iniciais, o José Coimbra, antes de fazer a pergunta, fez um comentário acerca do recente Portugal – França, perguntando, de seguida, ao concorrente: “Está triste, não? Foi uma pena aquilo que nos aconteceu!”, ao que o concorrente respondeu: “Bom, nem por isso. Sabe eu naquele jogo estava dividido”. “Sim, mas é português!”. “Sim, sou, mas sabe, sou professor de Francês e naquele caso estava realmente dividido”. O José Coimbra costuma ter as respostas apropriadas na ponta da língua. Notou-se pela inflexão da sua voz que as declarações daquele concorrente o apanharam desprevenido, a ponto de não conseguir reagir apropriadamente, caso contrário ter-lhe-ia dito que o regulamento daquele concurso proibia que portugueses divididos nele participassem. Sorte a de todos nós que o concorrente errou a pergunta e, desse modo, o simpático radialista livrou-se daquela nefasta companhia para a viagem até Estugarda. Ouvindo isto veio-me à memória uma conversa que em tempos tive com um amigo meu. A certo ponto dizia-me ale: “Sabes, o meu filho disse-me que a professora de Francês passa a vida a maltratar tudo que é português e a glorificar tudo que é Francês. Diz ela que somos uns ignorantes, uns mesquinhos e uns atrasados e só não vai definitivamente para a França porque a família não a acompanha, caso contrário não ficaria cá nem mais um dia”. Na altura, embora não o tenha feito sentir ao meu amigo, achei um pouco exagerado tudo aquilo – os miúdos efabulam com demasiada regularidade – mas agora depois de ouvir o senhor professor dividido, questiono-me: será que há muitos professores de Francês a prestarem assim este péssimo serviço ao país?
Senhor professor, há ocasiões em que as circunstâncias não permitem que sejamos neutros. Esta, seguramente, era uma delas.
Senhora professora, permita-me que lhe lembre que uma das mais nobres funções de um professor é incutir no espírito dos seus alunos o sentimento do amor à Pátria. À Pátria deles, entenda-se. O país somos nós todos, se vai mal está na nossa mão mudá-lo!

04 julho 2006

100 DIAS

"- Estás a ver - disse-lhe -, nem sempre os grandes poetas são diarreicos, às vezes são obstipados..."
Umberto Eco, Baudolino
Se me não falha a aritmética faz hoje 100 dias que passei a fronteira. Quando um executivo assume funções governativas, é costume, passados que são os cem primeiros dias de governo, fazer um balanço do trabalho realizado. As mais das vezes apenas para nos atormentar a consciência, diga-se, com todas aquelas encenações balofas, tentando – e por vezes conseguindo – convencer-nos do contrário daquilo que fizeram. Para não ficar atrás, registo também esse marco, embora sem a intenção de fazer um balanço. Apenas registar duas notas:
- Primeira: ao contrário do poeta não tenho ainda qualquer razão para imprecar contra este lado da fronteira: ainda nenhum toco de carrasco se me atravessou na frente, pelo que, a menos que me magoe, continuarei;
- Segunda: parafraseando uma modesta cibernauta que encontrei na rede, por intermédio dos dois ou três meus eventuais leitores, visitei uma quantidade enorme de blogs. Não pude deixar de pensar em Baudolino quando dizia ao seu amigo poeta: "- Estás a ver […], nem sempre os grandes poetas são diarreicos, às vezes são obstipados...". Alguns, eram do género diarreico, tal a quantidade de post’s de que faziam alarde. Outros, pelo contrário, eram do género obstipado. Sabe Deus as dificuldades por que terão passado para obrar cada novo post. O meu, reconheço, é mais do género obstipado. Por vezes por falta de tempo; por vezes por falta de motivação; por vezes por falta de veia; por vezes por falta de coragem; por vezes porque, simplesmente, no pasa nada.

02 julho 2006

CHORA BRASIL!

Que faltou a esta equipa?
Felipão?

VIVA PORTUGAL!

Portugal continua imparável. Após 120 longos minutos de sofrimento mandamos, mais uma vez, os ingleses para casa. Depois do que lhes aconteceu no Euro'2004, tenho a certeza que, por esta altura, o Ricardo é o inimigo público número um de toda a nação britânica. Sabe tão bem mandá-los para casa depois de tudo o que a imprensa de Sua Majestade escreveu nos últimos dias sobre a Selecção, sobre Portugal e sobre os portugueses.
Viva Portugal!

26 junho 2006

HAJA CORAÇÃO!

Ontem em Nuremberga o futebol foi maltratado. O principal culpado foi o árbitro que não soube estar à altuta de um jogo importante como aquele, deixando que se transformasse numa verdadeira batalha campal. Os artistas mereciam um verdadeiro juiz e saiu-lhes um aprendiz que mostrou duas dezenas de cartões, tornando, ao que ouvi, este, o jogo mais "indisciplinado" na história dos Mundiais de Futebol. Quanto à batalha, propriamente dita, teve Portugal como vencedor. Maniche marcou um belo golo a meio da primeira parte que nos põe nos quartos de final do mundial.

18 junho 2006

KALASHNIKOV versus GLOCK

A Venezuela pretende construir a primeira fábrica de Kalashnikov no Hemisfério Sul. Embora as autoridades venezuelanas digam que as armas fabricadas não se destinam à exportação, mas sim à defesa da nação contra “o mais poderoso império na história”, não há modo de não deixarmos de pensar nos amigos bolivianos e cubanos a receberem a sua provisão de Kalash’s. Bom, depois disto é a Bolívia construir uma fábrica de órgãos de Estaline e Cuba uma de roquetes do Hamas e temos a revolução em todo o seu esplendor espalhada abaixo do Equador.
Duvido que sejam as pistolas Glock, que o Brasil quer fabricar - mesmo que invisíveis a detectores de metais -, que consigam fazer frente a este arsenal.

PS: Cuba ainda não está no hemisfério Sul mas, se a Península Ibérica, qual Jangada de Pedra, conseguiu separar-se da Europa - quebrando-se pelos Pirinéus - vogando para Noroeste, também a ilha do comandante facilmente poderá navegar para Sul.

17 junho 2006

PARABÉNS RAPAZES!

A primeira batalha está ganha. Parafraseando o grande Fiori Giglioti, recentemente desaparecido, dá vontade de gritar: «um beijo no seu coração!». Quarta-feira lá estaremos para vos ver bater como sempre o fazem. Para ganhar!

15 junho 2006

CONFERÊNCIAS DE IMPRENSA

Não tenho por hábito assistir a conferências de imprensa de jogadores de futebol, mesmo que antes de grandes jogos, mas nestes tempos de abastança lá fui também arrebanhado. De qualquer modo era difícil escapar a todas, tantas elas são e, de qualquer modo, já que não coloquei bandeirinha na janela, pelo menos oiço os rapazes. Hoje, pela hora de almoço, lá me sentei para ouvir a conferência do Figo e do Tiago – melhor fora ter ficado de pé, teria fugido mais facilmente.
Não raras vezes, os jogadores de futebol são acusados de enxamear cada frase que proferem com as mais disparatadas – asneadas, diria um amigo meu – ideias, servindo-se daquele linguajar mais macarrónico que se possa imaginar. Salvo raras excepções, são acusados com razão. Mas hoje não é dos jogadores que queria falar mas dos jornalistas. Foram eles, ou melhor, as perguntas que faziam, que me obrigaram a “fugir”. Aquelas perguntas foram um chorrilho de imbecilidades: “Figo, o que vão encontrar no jogo frente ao Irão?”; “Tiago, quando soube que tinha sido convocado para jogar contra Angola?”; “Figo, acha que o Cristiano está em forma?”; “Tiago, aquilo contra Angola não lhe correu lá muito bem. Acha que vai ser convocado novamente?”, e outras pérolas como estas. Mais valia terem perguntado: “Figo, e então como vão as meninas lá por casa?” ou, “Tiago, gostaria de ter estado lá na sardinhada da sua terra?”.
Quem faz o favor de dizer aos senhores jornalistas que só se faz perguntas se se quer saber alguma coisa? Caso contrário, moita-carrasco!

12 junho 2006

COMEÇAR BEM

Portugal começou bem. Três pontos era o máximo que se pedia aos pupilos de Luís Filipe. Sábado, novamente, lá estaremos torcendo.

31 maio 2006

TRANS-SIBERIANO GV

Ainda a propósito de um post que em tempos aqui deixei, descobri hoje no sítio da TSF um delicioso Sinal de Fernando Alves que gostaria de partilhar com, como dizia uma colega destas lides, os meus um ou dois leitores.
Depois de aceder à página da TSF, clique em Sinais e de seguida em "O Trans-Siberiano" de 29Mai06. Delicie-se

29 maio 2006

À NOSSA!

Finalmente a confirmação daquilo que quase todos já suspeitávamos: a cerveja faz bem!
E quem o diz não é ninguém da Central de Cervejas mas sim um reputado endocrinologista, Director do Departamento de Nutrição do Instituto Pasteur de Lille Jean-Michel Lecerf, que no passado dia 26 de Maio veio ao Porto participar no Simpósio “Nutrição: Que lugar para a cerveja?” no âmbito do V Congresso de Nutrição e Alimentação 2006 organizado pela Associação Portuguesa de Nutricionistas. Jean-Michel Lecerf é uma voz autorizada. Este médico endocrinologista trabalha no Hospital da Universidade de Lille, especializado em distúrbios alimentares, obesidade e diabetes e autor de numerosos artigos, comunicações e livros sobre nutrição.

"QUEIMAR" PETRÓLEO MATA

Alguém disse um dia, a propósito do mais ou menos próximo esgotamento dos combustíveis fósseis, que a humanidade tinha já passado por situações semelhantes e tinha-se saído airosamente, isto é, o homem tinha já conseguido “evoluir” da lenha para o carvão e deste para o petróleo, fazendo-o harmoniosamente, daí se concluindo que o conseguirá fazer agora para a próxima forma de energia – seja ela qual for –, que há-de substituir o petróleo. Tenho uma enorme confiança nas capacidades da humanidade para se adaptar a novas formas de vida, e comungo da opinião que na altura certa saberemos mudar de rumo, mas reconheço que a cada dia que passa, nos tornámos todos um pouquinho mais cépticos. Oxalá a teoria que aqui estou a citar esteja correcta, já que as premissas não são rigorosamente as mesmas, com efeito, até aqui, sempre que se optou por uma nova forma de energia, a anterior não estava, como agora, em perigo de se esgotar.
Hoje comemora-se o Dia Nacional da Energia. Se não houver outra utilidade para este dia, pelo menos que sirva para reflectirmos sobre a energia, pelo menos aquela que é gasta indevidamente. Mas quando digo reflectirmos, estou a referir-me a todos, até à petrolífera GALP. Embora esteja no mercado para ganhar dinheiro, a GALP, deve assumir uma atitude, senão pedagógica, pelo menos não deseducativa. Vem isto a propósito de um anúncio radiofónico da referida empresa que anuncia a oferta de um “cromo” por uma certa quantidade de combustível adquirido. Até aqui tudo bem mas ridículo vem a seguir. No anúncio um diz: “- Eu todos os dias depois do emprego vou a Bragança só para atestar mais vezes”, o outro não se fica: “-Pois eu vou tantas vezes à bomba que até convidei o empregado para uma festa de aniversário”. Enfim, digamos que a GALP anda com falta de ideias…
A Tabaqueira tem que informar os seus clientes que FUMAR MATA, a GALP devia ensinar aos seus que desperdiçar energia hipoteca o futuro de todos!

24 maio 2006

POR RAZÕES PESSOAIS

Galardoado no passado dia 19 de Maio com o Prémio Camões de 2006, Luandino Vieira vem dizer que não o aceita por "razões pessoais". Estou inteiramente de acordo acerca do direito que o assiste em não querer aceitar o prémio, já sobre as razões por que o faz... O prémio Camões não é propriamente o prémio de uma rifa dos Santos Populares, por isso dizer que não aceita "por razões pessoais", convenhamos que parece menosprezar o galardão. Todos já vimos rejeitar prémios mas dizendo de viva voz por que o fazem (Jean Paul Sartre, Marlon Brando, etc.).
Esperemos que Luandino evoque uma razão plausível. É o mínimo que pode fazer. Se não por respeito ao Prémio Camões, pelo menos, por todos os anteriores galardoados.

Galardoados com o Prémio Camões

1989 - Miguel Torga (Portugal)
1990 - João Cabral de Melo Neto (Brasil)
1991 - José Craveirinha (Moçambique)
1992 - Vergílio Ferreira (Portugal)
1993 - Rachel de Queiroz (Brasil)
1994 - Jorge Amado (Brasil)
1995 - José Saramago (Portugal)
1996 - Eduardo Lourenço (Portugal)
1997 - Artur Carlos M. P. Santos, “Pepetela” (Angola)
1998 - António Cândido (Brasil)
1999 - Sophia de Mello Breyner (Portugal)
2000 - Autran Dourado (Brasil)
2001 - Eugénio de Andrade (Portugal)
2002 - Maria Velho da Costa (Portugal)
2003 - Rubem Fonseca (Brasil)
2004 - Agustina Bessa-Luís (Portugal)
2005 - Lygia Fagundes Telles (Brasil)
2006 - José Luandino Vieira (Angola)

A PRIMEIRA FRASE

Alguém disse um dia que a primeira frase de um livro é a mais importante e a mais difícil de escrever. Se bem escrita, essa única frase, revelará ao leitor o "teor" de toda a obra. Talvez haja, em tudo isto, algum exagero, mas por vezes lembro-me deste dito.
Hoje, num supermercado, não muito longe da secção de verduras, casualmente, peguei no livro “onze minutos” de Paulo Coelho. Abri-o e, como todos fazemos, atirei-me à primeira frase: «Era uma vez uma prostituta chamada Maria. […] Como todas as prostitutas, tinha nascido virgem e inocente...».
Com cuidado, como todos fazemos, fechei-o e voltei a arrumá-lo na prateleira.
Há tempos que ando a prometer a mim próprio ler um livro do Paulo Coelho. Um dia voltarei a tentar…

20 maio 2006

NÃO AS DEFRAUDEM!


Para incentivarem a Selecção, 18 788 mulheres do meu país reuniram-se hoje no Jamor e construíram a mais bela bandeira do mundo.
Não as defraudem!

A AZIA DE MÁRIO SOARES

Em tempos, um conhecido árbitro de futebol, hoje romancista e comentador, protagonizou um episódio que ficou famoso. Na arbitragem de um jogo cometeu um erro que terá prejudicado grandemente uma das equipas. Uns dias depois quando um jornalista lhe pediu para comentar o referido lance, embora não o tivesse afirmado literalmente, reconheceu o erro com uma frase que ainda hoje a tribo do futebol usa e, muitas vezes, abusa. Disse ele: “ao ver as imagens da jogada fiquei cá com uma azia!...”
Vem isto a propósito de Mário Soares. Ontem saiu da lura para ir ao Hotel Pestana Palace receber o prémio Dário de Moreira Castro Alves com que o Clube dos Empresários do Brasil homenageia uma personalidade portuguesa ou brasileira que se destaque no esforço em prol da integração dos imigrantes brasileiros em Portugal. A televisão mostrou e todo o país viu que, após o desastre de 22 de Janeiro que deixou Mário Soares com azia, este, continua a padecer desse azedume. Ao contrário do árbitro, quando o jornalista lhe pediu para comentar o resultado de 22 de Janeiro, disse que perder é normal recusando-se a reconhecer ter ficado com azia.
Esperemos que Mário Soares, homem dado às letras, não se lembre de nos obsequiar – como agora parece estar na moda – com um livro onde explique a derrota e ataque os responsáveis.

17 maio 2006

DIAS DE BRASA

No último número da notícias magazine, Julie Daurel, leva-nos à descoberta do litoral baiano, numa reportagem a que dá o sugestivo nome de "Bahia de todos os sonhos...". O texto é complementado por belas fotos de Nicolas Millet. A viagem começa em Salvador, ou Bahia como os baianos gostam de lhe chamar. A cidade, hoje património da humanidade, a Lisboa dos trópicos, tem a sua origem na colónia fundada por um jovem náufrago Português que aqui aportou no início do século XVI, conseguindo, sabe-se lá por que artes, não ser comido pelos Tupinambás. Até ao século XVIII, a Bahia, centro nevrálgico do comércio da cana-de-açúcar, será a capital do Brasil, perdendo esse título quando o ouro e os diamantes de Minas Gerais começaram a fazer valer a sua importância.
A cidade velha tem sido minuciosamente conservada e renovada e "os turistas serpenteiam as suas ruas calcetadas e íngremes entre a igreja azul do Rosário dos Pretos, construída por e para os escravos, e a igreja de São Francisco, onde os senhores rezavam, sob uma cúpula de ouro, prata, azulejos e jacarandá ". A viagem leva-nos depois ao bairro do Rio Vermelho onde viveu Jorge Amado. Passamos pela Ribeira, saboreamos na sua sorveteria, velha de quase um século, um gelado de noz de coco. Passeamos pela Avenida Beiramar, divisamos, lá ao longe, o arquipélago de Tinharé e acabámos por tomar o barco para Cairu. Deu-se ainda um salto a Boipeba, à lagoa do Cassange, às praias de coqueiros de Saquaíra, aos corais de Taipú de Fora e uma visita à mata atlântica de Ilhéus e Itaceré, que a UNESCO classificou como reserva da biosfera. Finalmente, daremos ainda um pulo à igreja colonial das Descobertas e seguiremos até Santa Cruz de Cabrália, Porto Seguro, Arraial d'Ajuda e Trancoso, frente ao mar que há cinco séculos viu chegar Cabral.
Enquanto vou lendo estas notícias do Paraíso, não posso deixar de pensar nas do Inferno que por estes dias nos vão chegando do mesmo sítio. Como é possível coexistirem Paraíso e Inferno no mesmo local?
Enquanto vou lendo estas notícias do Paraíso, não posso deixar de pensar no riso generoso da Ana, uma baiana de gema, que na grande cozinha da Pousada do Boqueirão prepara as iguarias como só ela sabe... Nestes dias de brasa, o riso generosa da Ana, tê-la-á abandonado...
... Espero que apenas por breves momentos.

16 maio 2006

"I LOVE THIS GAME"

Ontem, às oito horas da noite como se impunha, Scolari falou. Começou por dizer umas tretas que não tinham qualquer razão de ser e, de seguida, passou a anunciar os vinte e três que nos representarão na Alemanha. Se a primeira parte da sua intervenção me causou algum espanto, por totalmente deslocada, já a segunda não trouxe qualquer novidade. Aliás, continuo a não entender como ainda há pessoas que esperavam ver o Ricardo Quaresma na selecção - que os treinadores de bancada tivessem ficado estupefactos e revoltados pela sua não inclusão, ainda vá que não vá, mas os jornalistas senhor?!
O seleccionador fez o que devia ser feito. O futebol é, ao contrário do que muita gente pensa, um desporto colectivo. Como tal, a equipa não vale pelas suas estrelas, individualmente consideradas, mas pelo seu todo. O Ricardo Quaresma, detentor de uma técnica fabulosa que leva ao delírio estádios inteiros, fazendo com que adeptos e adversários se rendam à sua magia, não pode, ainda por cima diante de todo o país, chamar filho da puta a um colega de profissão que, passado menos de um mês, iria encontrar na sua equipa.
Quando no passado dia vinte e dois de Abril, Scolari ligou a TV e viu como na varanda do estádio do Dragão o F. C. Porto festejava a recente vitória no campeonato, terá pegado na lista de convocados e riscado o nome de Ricardo Quaresma.
Espero, esperamos todos, que este triste episódio tenha servido de exemplo ao jovem jogador. Que tenha servido, pelo menos, para o fazer crescer. Se assim for a selecção terá, com certeza, muito a ganhar com ele. Se assim não for... teremos, pelo menos, outra novela!
Os vinte e três do Scolari são os nossos vinte e três!
Viva a Selecção!

11 maio 2006

BLANQUETTE

A nossa ministra da educação tem andado num afã tremendo desde que assumiu a pasta há já mais de um ano.
Uma das criações pela qual será, com certeza, lembrada é a das "famigeradas" aulas de substituição. Tendo tomado posse pouco tempo antes de terminar o ano lectivo de 2004/05, numa altura em que todas as decisões sobre o ano lectivo seguinte estariam já amadurecidas e prontas a serem implementadas, a ministra, decide fazer tábua rasa de tudo isso e num Verão verdadeiramente frenético toca a fazer tudo de novo. A nossa ministra da educação é, não o duvido, uma pessoa trabalhadora, de espírito livre e que não recua perante as dificuldades. Mas nem sempre isso chega. Por vezes, em doses excessivas, pode revelar-se, até, contraproducente. A ministra não terá pesado todas as implicações que a implementação do sistema teria. Desgraçadamente, também não se terá aconselhado com quem devia, de modo que, na ânsia de começar a conferir à educação o seu cunho pessoal lança atabalhoadamente o sistema. Sem uma experimentação prévia e mal pensado, o sistema nunca funcionou. Os professores, sentindo que tudo foi feito contra eles, nunca o adoptaram. Os alunos, não ganhando nada com isso, muito menos. Quase um ano lectivo depois, embora não o admitindo, a ministra vem reconhecer que talvez tenha havido precipitação e decide mudar as regras do jogo. Agora o professor que vai faltar tem de deixar o plano da aula ao professor que o vai substituir. Se o não fizer arrisca-se a levar uma falta injustificada. Enfim, continua a ameaçar-se os professores e a decidir-se em cima do joelho. Não será necessário outro ano lectivo para verificar da nula utilidade das novas mudanças. Então, alegremente, levada pelo instinto, a ministra mudará o rumo. . Temo que daqui a menos de um ano a ministra conclua que este não é, ainda, o sistema ideal e, atabalhoadamente, queira desencantar mais um despacho que mude tudo outra vez. Só que pode ser já demasiado tarde...
Tudo isto me faz lembrar a história da cabra do senhor Seguin, contada por Alphonse Daudet nas "Cartas do meu moinho". Blanquette, era uma bela cabrinha de sedosa pelagem branca que amava a liberdade. Apesar de ter uma bela vida na quinta do senhor Seguin, no verdejante vale do Ródano, olhava para o horizonte e sentia o apelo das montanhas distantes. Até que uma manhã, apesar dos esforços em contrário do dono, Blanquette fugiu. Durante todo o dia andou alegre, correndo pela montanha, guiada pelo instinto, inebriada pelos mil cheiros e sabores das plantas que nunca tinha visto. Ao cair da noite a cabrinha pressente o perigo. Podia ainda regressar à segurança da quinta mas lembrando-se que voltaria a ser amarrada ao poste, atira para longe esse pensamento, vira-se e enfrenta corajosamente o lobo. Lutará com ele toda a noite mas ao alvorecer o lobo lançar-se-á, finalmente, sobre ela e comê-la-á. A tristeza assola a alma do senhor Seguin: como todas as anteriores, também blanquette foi comida pelo lobo.
A história não o diz, mas o senhor Seguin recomeçará tudo. Levará para a quinta outra cabrinha e, como sempre, fará tudo o que pode para que ela lá permaneça. De início pensará: "Finalmente acertei, esta ficará comigo para sempre!"... Mas quem sabe... um dia pode olhar para as montanhas e sentir o seu apelo...

09 maio 2006

EUROPA: À ESPERA DE VISIONÁRIOS.

A Europa é, desde há mais de vinte séculos, o farol do mundo. Perdoem-me aqueles que dizem que essa função se deslocou, definitivamente, para outras paragens. Contraponho que duas gerações de liderança, não são tempo suficiente para que se tirem conclusões definitivas sobre tão importante matéria.
Vinte séculos depois a Europa tem ainda vitalidade suficiente para nos surpreender. Para surpreender o mundo, diria. Ninguém mais no mundo está preparado para se unir como fizeram, há cinquenta anos, seis países da Europa que depois passaram a nove e depois a dez e depois a doze e depois a quinze e depois a vinte e cinco e ninguém sabe ainda quando parará esta jornada.
- Quem mais no mundo estaria preparado para abolir, literalmente, as fronteiras?
- Quem mais no mundo estaria preparado para abdicar da sua moeda em troca de uma moeda única?
- Quem mais no mundo estaria preparado para abdicar da tomada de decisões para as transferir para a união?
- Quem mais no mundo estaria preparado para repartir os seus recursos com os seus vizinhos mais necessitados, ajudando-os no seu desenvolvimento?
Atrevo-me a responder: - Ninguém!
Hoje é o Dia da Europa. Esta é a minha singela homenagem àqueles que tiveram uma certa ideia "utópica" de Europa e que a conseguiram materializar: Robert Schuman, Jacques Delors, François Miterrand, Helmut Kohl,... À sua maneira todos foram visionários e tem sido com eles que esta bela ideia tem avançado.
Talvez que a Europa não avance propriamente em passo de peregrino mas tem alternado as eras de avanço com as de estagnação. Dir-me-ão que são necessárias para assimilar todas as modificações mas do que não restam dúvidas é que a Europa avança quando surgem os visionários.
Hoje todos eles morreram ou estão retirados.
A Europa espera os próximos.

07 maio 2006

EXTRAORDINÁRIO CONGRESSO DO CDS

Felisberta Cabrinha é jornalista. Como todos os jornalistas, Felisberta tem a sua carteira de informadores a que recorre sempre que necessário. Hoje vai escrever sobre o Congresso do CDS mas ainda não decidiu como irá titular o artigo: se "Congresso Extraordinário do CDS" se "Extraordinário Congresso do CDS". A dúvida tem a ver com o que o informador lhe contou: o Congresso, convocado extraordinariamente pelo líder, tinha o seu início marcado para as 10 horas da manhã, mas, a essa hora, apenas tinha chegado um congressista - embora o informador lhe tenha dito que era um betinho com pretensões de liderar o partido, Cabrinha não utilizará essa informação.
Uma hora depois, tinham chegado mais quatro delegados. Eram agora cinco no total, se não nos esquecermos do dito betinho.
Mais uma hora se passa e chegamos ao meio-dia. Agora já são mais alguns congressistas na sala, mas, mesmo assim, ainda não seriam suficientes para ocupar todos os lugares que no parlamento estão destinados aos deputados do PSD. Não há ainda quorum por isso esperarão mais meia hora. Finalmente, às 12,30, com a sala já composta - duzentos e cinquenta delegados ao que consta -, tem início o congresso.
- Mas afinal - pergunta Felisberta -, quantos congressistas estavam na sala ao meio-dia?
- Isso não consegui apurar - respondeu o informador -, apenas consegui saber que a média das idades dos congressistas, que nesse momento se encontravam na sala, era de 45,54 anos.
Há por aí alguém que consiga responder à Felisberta? Caso contrário o seu artigo não será totalmente elucidativo para os leitores.

Em tempos deixei aqui outro problema deste género (PORTUGAL 2025). Como até hoje não obtive qualquer resposta, volto à carga.

06 maio 2006

NAVALHA ROMBA

Periodicamente, Clara Pinto Correia escreve no 24 Horas, mantendo uma coluna a que dá o sugestivo nome de "O fio da navalha". Na última Sexta-feira verteu lá uma prosa que de tão prodigiosa decidi transcrevê-la para que, eventualmente, mais alguns possam ter a oportunidade de lê-la. Dizia assim:

Fui a um congresso ao Algarve. Como a função metia fim-de-semana prolongado em hotel com praia e piscina, além de muitos outros daqueles entretenimentos de que a juventude gosta, incluindo até karaoke, resolvi levar os meus rapazes. E claro que houve outros colegas que tiveram a mesma ideia. Chegámos tarde, noite fechada, mesmo prontos a cair mortos na cama, eu com uma boa dose de vodka e eles com uma boa dose de televisão. No dia seguinte, o cenário não podia ser mais promissor: céu azul, sol a brilhar, mar a perder de vista, voos de gaivotas, a piscina convidativa mesmo debaixo das nossas varandas, as falésias cintilantes na luz da manhã. Eu fui trabalhar e eles atiraram-se com unhas e dentes à tarefa séria de se divertirem até não poderem mais. E assim foi que comecei logo a ouvir umas conversas, cada vez mais intensas, sobre duas meninas que não paravam de olhar para eles. A certa altura, no bar, mostraram-me as tais meninas – e juravam a pés juntos que, de cada vez que eles passavam, elas olhavam. No dia seguinte, dei eu um salto à piscina e às tantas vi as tais meninas a falar com uma colega do congresso. Quando elas se afastaram, não resisti a perguntar-lhe quem elas eram. “São minhas filhas,” disse ela. E depois acrescentou, com um ar divertido: “Por acaso, olhe... estão sempre a dizer que os seus filhos não param de olhar para elas!”

Desculpe, Clara, mas depois de ler esta pérola fiquei deveras curioso:
- Pagam-lhe por escrever estas coisas?

05 maio 2006

PARA TODAS AS MÃES


Socorro-me de quem diz as coisas melhor do que eu digo para desejar a todas as mães 365 dias da mãe em cada ano.


CORREIO

Carta de minha Mãe.
Quando já nenhum Proust sabe de enredos,
A sua letra vem
A tremer-lhe nos dedos.

- "Filho"...
E o que a seguir se lê
É de uma tal pureza e de um tal brilho,
Que até da minha escuridão se vê.

Miguel Torga, Diário II

04 maio 2006

"TIQUES" DE DESENVOLVIMENTO

Em Portugal o mercado de animais de companhia não pára de crescer e representa já um volume de negócios de duzentos milhões de euros anuais. Enquanto a economia desde há três ou quatro anos anda roçando o limiar de recessão, este mercado tem subido acima dos dez por cento ao ano.
Marcas de luxo como "Gucci" e "Ágata Ruiz de la Prada", olham para estes apetecíveis nichos de mercado e criam linhas de acessórios e produtos de beleza especialmente direccionados para animais e acessíveis apenas a pessoas de elevado poder de compra.
Enquanto um cão com pedigree pode custar € 800.00 e um gato com uma árvore genealógica recomendável chega a vender-se a € 1 000.00, uma percentagem considerável de portugueses, vai (sobre)vivendo, indigentemente. Oitenta e cinco por cento dos pensionistas da nossa Segurança Social recebem até € 374.00. Paralelamente, alguns gastam rios de dinheiro em ridículos artefactos para animais...
Senhoras e senhores, eis o verdadeiro mundo cão!

02 maio 2006

SÉRGIO SANTIMANO

O "Norteshoping" tem 3 pisos de estacionamento. Um deles tem a particularidade de se situar, literalmente, na cobertura do edifício. O arquitecto Eduardo Souto Moura imaginou uma peculiar forma de aceder ao referido estacionamento. Idealizou um cilindro com uma dupla hélice na sua superfície lateral: por uma sobe-se; pela outra desce-se. O interior do cilindro foi aproveitado para um espaço cultural: "Silo". Um belo e monumental espaço cultural, diga-se em abono da verdade, premiado - Prémio de Opinião - pela FAD (Foment de les Arts Decoratives) de Barcelona.
As paredes interiores foram cobertas com tijolo burro e o pé direito com cerca de uma dúzia de metros confere-lhe a monumentalidade que atrás referi.
Até ao dia 7 de Maio lá estará patente uma mostra de fotografia de Sérgio Santimano, um fotógrafo que nasceu e cresceu em Moçambique, ainda que com ascendência Goesa, e vive, presentemente, na Suécia.
A mostra retrata diversas facetas da vida em Moçambique: os tempos da guerra, a aprendizagem da paz, a ilha de Moçambique...
A reprodução aqui exibida refere-se a uma das fotografias expostas. Pelo seu significado foi uma das que mais gostei. Melhor que a fotografia só mesmo o título que Sérgio Santimano lhe deu: auto-retrato.

01 maio 2006

DIA DO TRABALHADOR

...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Augusto Gil

30 abril 2006

MOURINHO CAMPEÃO DE INGLATERRA

F. C. do Porto campeão de Portugal;
Barcelona campeão de Espanha;
Lyon campeão de França;
Juventus campeão de Itália;
Bayern de Munique campeão da Alemanha;
...

Mourinho campeão de Inglaterra.

28 abril 2006

PORTUGAL 2025

Roque Marinho é o decano dos professores de História. No início de Abril distribuiu por todos os outros 83 professores da sua escola um inquérito onde fazia apenas uma pergunta:
"- O que é para si o 25 de Abril?".
Muitas das respostas que obteve deixaram-no estarrecido: "- É o 25.º dia do 4.º mês de cada ano", dizia um, "- É o equinócio da primavera", dizia outro, "- É o nome de um filme sobre a Revolução Chilena", dizia ainda outro, "- É a data em que se realizou o primeiro Festival de Woodstock"... enfim, um nunca mais acabar de imbecilidades.
Preocupado pelo desconhecimento da razão de ser de uma data tão importante para a história do país, o professor Roque Marinho decidiu organizar uma conferência subordinada ao tema e aberta a todos os professores da escola que desejassem participar, para a qual convidou um historiador famoso.
Durante a conferência circulou uma lista onde cada participante escreveu o nome e a idade.
A média de idades dos professores participantes foi de 36,425 anos
Quantos professores da escola assistiram à conferência?
Ah! já me esquecia: 6 dos professores da escola não puderam participar na conferência porque foram acompanhar os alunos do 9.º ano numa visita de estudo a Óbidos.

A VITÓRIA DE "ANTÓNIO"

D. António Montes, vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, é, também por inerência do cargo que ocupa, uma voz importante da hierarquia da Igreja. Ontem, ainda que com anos de atraso, veio dizer que a Igreja estaria disposta a considerar o uso do preservativo como um "mal menor". Embora não se compreenda bem como a Igreja contemporiza com o mal, ainda que menor, é de salientar a inversão da opinião da igreja acerca deste tema que motivou em tempos um olhar crítico do cartoonista António. Não sei se com a nova postura da Igreja sobre este assunto se vai passar a usar mais o preservativo, duvido até que isso se venha a verificar, mas o que não posso deixar de dizer era a revolta que me causava a pregação contra o preservativo enquanto quase metade da população da África subsariana se infectava com o vírus da SIDA. A igreja é uma estrutura dinâmica, não há qualquer dúvida, e reconhece os seus erros... embora que por vezes demasiado tarde.

25 abril 2006

MARÇO NUNCA MAIS!


“… e o professor Salazar […] em passinhos delicados de freira, ondulando os dedos transparentes para os vasos a cuidar que as flores o aplaudiam, e quem diz o professor Salazar diz o senhor almirante a cortar fitas de inauguração invisíveis com uma tesoura enorme seguido pelo seu cortejo de Diogos Cães engalanados, e quem diz o senhor almirante diz o cardeal lânguido, empalidecido pelos jejuns e mortificações da virtude, oferecendo o anel a beijar aos apliques e às caixas do correio, e quem diz o cardeal diz o major de Pide, pardo, oblíquo e sozinho como um empregado bancário viúvo, todos reunidos […] a decidirem de milagres com pastorinhos e de campos de concentração…”

in "O Manual dos Inquisidores", António Lobo Antunes

23 abril 2006

PANOPTICON VIRTUAL


“… os computadores […] forçavam a sua entrada em sistemas de dados protegidos. Quais fantasmas digitais, atravessavam paredes e surgiam em salas de armazenamento. O mundo exterior continuava a parecer igual, mas os fantasmas podiam ver as torres e as paredes ocultas do Panopticon virtual.”
in "O Viajante", John Twelve Hawks
Desde sempre o mundo tem sido um lugar perigoso para se viver... Pelo menos para alguns.
Talvez preocupado pela segurança, o jurista e pensador britânico Jeremy Bentham, concebeu, em finais do séc. XVIII, uma estrutura de forma circular, comportando vários andares, a que deu o nome de Panopticon e que funcionaria como uma prisão ideal. Na periferia do círculo situavam-se as celas totalmente abertas para o interior. No centro do anel existia uma torre de vigilância onde os guardas podiam ver os presos sem que estes os vissem. A cela não oferecia ao preso qualquer possibilidade de se esconder. Além do trabalho de vigilância poder ser desempenhado por um número diminuto de guardas, este sistema iria criar no preso a sensação que estava permanentemente sob vigilância, mesmo que isso não fosse verdade. Em última análise, seria o preso a controlar os seus actos.
Baseado no conceito de Panopticon, ainda que virtual, John Twelve Hawks, retrata em "O Viajante" um mundo onde, teoricamente, todos os cidadãos estão permanentemente vigiados, a menos que consigam viver fora da rede. É uma história perturbadora...
Talvez que esse mundo não esteja assim tão longe. Num julgamento mediático que actualmente se desenrola nos tribunais, os passos dos arguidos foram fielmente reconstituídos com a consulta de telemóveis, cartões de crédito, portagens de auto estrada, imagens de câmaras... como diria o viajante Gabriel “As pessoas querem acreditar que há uma ilha tropical ou uma gruta nas montanhas onde se podem esconder, mas hoje em dia isso já não é verdade. Quer gostemos, quer não, estamos todos ligados.”

20 abril 2006

AO PREÇO DA UVA MIJONA

Abriu hoje a Festa do Livro, na Praça da República. Logo que possa passarei por lá. Procurando bem, podemos ter a sorte de encontrar algo interessante. No ano passado, entre outras coisas, encontrei um livro delicioso ao preço da uva mijona: "A vida deste rapaz" de Tobias Wolff. Um livro autobiográfico que retrata a infância e adolescência do autor. As suas deambulações pela América profunda, seguindo a mãe, entretanto separada do pai. A dificuldade em enraizar-se em qualquer lugar. A relação tensa com os ocasionais companheiros da mãe. Enfim, uma pequena maravilha. Há uma versão "em celulóide" com o Robert de Niro e o Leonardo DiCaprio, mas não conheço. Se não leu, aconselho-o vivamente a passar por lá. Parece não ter grande procura por isso talvez encontre ainda um exemplar.

16 abril 2006

NÃO É POETA QUEM QUER...


"Vovó, você já está muito velha e quando eu voltar eu não vou ver você mais, mas eu vou ser cantor de rádio e você poderá ligar o rádio do Céu, se sentir saudades."

(Chico Buarque, com oito anos; bilhete para a avó.)

15 abril 2006

CRÓNICA ZIG-ZAG

Semanalmente, aos Sábados, Rui Reininho escreve no Jornal de Notícias. Não fora o modo peculiar como o músico escreve as suas crónicas e, por si só, isto não seria notícia. Todas as Segundas, talvez ainda moído pelos afazeres do fim de semana, Reininho tem dificuldade em dormir. Então, senta-se na frente do computador, liga-se à net e toca a navegar. Ao sabor do vento, já se vê. Tudo o que lhe soe, vai guardando, e, ao fim de algum tempo, quando acha que tem material suficiente para obrar uma bela coluna, cola tudo e vai cortando aqui e ali até ficar no tamanho conveniente. Agora é só enviar por correio electrónico para a redacção e, com a sensação do dever cumprido, pode, finalmente, dormir.
Estava a brincar. Apenas a primeira frase é verdadeira.
Mas, já agora: - Há por aí alguém que entenda as crónicas que o músico Rui Reininho escreve todos os Sábados no JN? Ou dito de outro modo: - Há aí alguém que consiga ler uma crónica do Rui Reininho até ao fim sem enjoar?

O CASCA-GROSSA

Há um ministro do nosso governo que tem o condão de fazer um grande estardalhaço sempre que se lembra de tomar qualquer decisão. Quem é o elefantinho? Quem é?
Depois, claro, durante umas boas semanas, meio país desbarata energias - essenciais para outras lutas -, insurgindo-se contra o político ou contra as suas políticas.
Nas minhas deambulações pela internet - estarei em pecado? - encontrei algo que talvez ajudasse a resolver o problema. Funcionaria assim: uns dias antes da tomada de qualquer decisão o referido ministro mandava colocar o sinal à porta do ministério e todos nós ficávamos avisados que o casca-grossa ia decidir.

14 abril 2006

O NOVO CATECISMO

Se no Vaticano não seguissem já o novo catecismo do Cardeal Stafford, teria lá chegado a opinião de D. Januário acerca dos novos pecados. Na sua voz desassombrada, como sempre, diz no 24 horas de hoje (não é pecado ler o 24 horas às Sextas porque traz o suplemento Bits e Bytes) que ler, ver televisão ou navegar na Internet não é pecado, é, isso sim, um acto de cultura. E, para quem o quiser ouvir, diz D. Januário Torgal Ferreira: "... a igreja devia ocupar-se de pecados realmente graves, como as barbaridades cometidas no Iraque, o armamento e a exploração de crianças pelo clero americano, esses sim, pecados bárbaros."

P.S. O Cardeal James Francis Stafford já veio desmentir a notícia publicada pela imprensa de todo o mundo. Como não podia deixar de ser, disse que se fez uma interpretação abusiva das suas palavras. Que não senhor, não foi bem isso que quis dizer... Está em pecado! Anda a ler demasiada imprensa portuguesa: ou em papel ou na internet ou, eventualmente, na televisão. Foi desse modo que aprendeu com os nossos políticos: declarar hoje; desmentir amanhã.

12 abril 2006

COZINHAS DA ÁFRICA

Metade da comitiva do Sócrates chegou de Angola com caganeira! Enquanto leio a notícia no Correio da Manhã vem-me à memória, sabe-se lá porquê, uma frase das "Memórias de Adriano" de Marguerite Yourcenar:
"Foi em Roma, durante as longas refeições oficiais, que me aconteceu pensar nas origens relativamente recentes do nosso luxo, nesse povo de cultivadores económicos e soldados frugais, alimentados de alho e cevada, subitamente emporcalhados pela conquista nas cozinhas da Ásia, tragando aquelas comidas complicadas com uma rusticidade de camponeses dominados por fome canina"

11 abril 2006

REGRESSO AO PASSADO

Na sua coluna do JN de ontem, Manuel António Pina dava conta de uma reportagem do The Guardian que denunciava uma verdadeira caça às bruxas nas instituições de ensino norte americanas.
Hoje acusam-se professores por antiamericanismo e suspendem-se por serem proguessistas ou por criticarem Bush.
Exortam-se os alunos a gravarem as aulas e a denunciarem os professores de esquerda ou amigos de gays ou aqueles que usam nas suas aulas textos obcurantistas.
Listas como The dirty thirty ou Os 101 mais perigosos professores da América são periodicamente actualizadas.
Criam-se associações de cidadãos vigilantes como a associação Pais contra os maus livros na escola.
Enfim, a história, afinal, sempre se repete.
A propósito: não se podería dar ordem de despejo ao inquilino da Casa Branca? É que o mundo ficaria, certamente, um lugar mais seguro...

TRABALHADORES DO COMÉRCIO

Na semana passada, um cronista da nossa praça insurgia-se contra os abespinhados portugueses que atendem o público nas lojas deste país. Na sua opinião não chegavam sequer aos calcanhares das eslavas e dos brasileiros.
Discordo!
A senhora da minha padaria, que é portuguesa, tem, nos 365 dias do ano, o sorriso de uma eslava e a boa disposição de um brasileiro.

10 abril 2006

O DINHEIRO SUJO DE JUDAS

Nos anos 70 do século passado, nas areias quentes de El Minya, no Egipto, é descoberto um manuscrito que esteve enterrado durante 1700 anos. Nos 30 anos seguintes circula de antiquário em antiquário até que chega a Zurique, às mãos de Frieda Nussberger-Tchacos. A sua intenção seria negociá-lo, mas, alarmada com a rápida degradação do códice, decide confiá-lo à Fundação Mecenas para a Arte Antiga da Suíça, em Basileia, para ser restaurado e traduzido. Cinco anos de intenso e ininterrupto trabalho e o Evangelho de Judas pode, finalmente, falar: "Este é o relato secreto da revelação que Jesus confiou em segredo a Judas Iscariotes três dias antes da Paixão", assim começa o documento. Judas que na tradição cristã sempre foi apresentado como o vil, o apóstolo maldito, aquele que entregou Jesus Cristo aos Romanos para ser crucificado, afinal pode tê-lo feito em conluio com Cristo. E isso porque Judas seria o favorito de Jesus e, por isso, aquele que Ele escolheu para o denunciar: "Tu excederás todos os outros. Pois tu sacrificarás o homem que me veste".
Depois desta descoberta, que os especialistas já vieram dizer que é autêntica e, além disso, havia já relatos que davam como certa a sua existência, a história não será propriamente reescrita, mas, do que parece não restarem dúvidas, é que abrirá a porta à reabilitação do mal amado Judas.
Enquanto a National Geographic desvendava esta descoberta, o Bispo da Funchal, na homilia do Domingo de Ramos, exortava os jovens a absterem-se de participar no Madeira Paradise Dance Festival 2006 que decorrerá na Sexta-feira Santa na Ponta do Sol. Dizia D. Teodoro de Faria: "Caros jovens, não vos deixeis seduzir em Sexta-feira Santa, por um evento musical que é uma falta de respeito às convicções religiosas do nosso povo. [...] Sexta-feira Santa é um símbolo sagrado, dia da morte de Jesus". Até aqui tudo bem. Compreende-se que D. Teodoro queira retirar os escolhos do caminho das suas ovelhas, mas, mais à frente, continuava D. Teodoro: "seduzir jovens para um megaconcerto em Sexta-feira Santa para negócio é sujar as mãos com o dinheiro de Judas"
D. Teodoro de Faria, Iminência, não seria do mais elementar bom senso ter-se abstido de falar do sujo dinheiro de Judas, pelo menos por agora?