
Com uma periodicidade ditada pelos afazeres profissionais e domésticos do grupo, eu, juntamente com a Ana, a Andrea, o Bento, a Helena e o Luís, tiramos um dia, ou, pelo menos, parte dele, para nos reunirmos. Invariavelmente as nossas reuniões são compostas por duas partes.
- A primeira, mais teórica, digamos, é passada à roda de uma mesa que o Bento ou o Luís – os maiores
experts em gastronomia que conheço, embora a Ana esteja, já, no bom caminho – escolhem. A agenda é aberta de modo que cabem lá todos os temas – se bem que uns mais confessáveis que outros: livros, viagens, discos, férias, filmes, trabalho, colegas, família, alguma política, muita má-língua, pouco futebol, algum fado, Fátima q.b.…
- A segunda, mais social, tanto pode ser uma visita à Igreja do Marco de Canaveses como um passeio pelas íngremes bancadas do incomparável estádio do Braga.
Ontem reunimo-nos na Vila de Melgaço. A primeira parte foi na Adega do Sossego, uma acolhedora casinha onde fomos simpaticamente recebidos e principescamente servidos. Depois de termos passado em revista todos os habituais temas fomos cumprir a segunda parte da nossa reunião: uma visita ao Museu de Cinema de Melgaço.
Jean-Loup Passek é, desde o início dos anos setenta do século passado, o responsável pelo Festival International du Filme de la Rochelle e conselheiro de Cinema do Centro Georges Pompidou. Um dia, já lá vão cerca de trinta anos, o cineasta realizou um documentário sobre a presença dos imigrantes portugueses em França. Na altura travou conhecimento com um casal de trabalhadores Lusos que por lá labutavam. Daí a ter sido por eles convidado para passar férias em Portugal foi um passo. Passek aceitou o convite e eis que rumam a Portugal à terra dos imigrantes – Melgaço. O cineasta ficou encantado. Comprou casa por cá e não mais se desligou da Vila. Um destes dias, a propósito do cinquentenário da Fundação Calouste Gulbenkian, António Barreto dizia que nunca conheceremos todas as razões que levaram a que um dos homens mais ricos do mundo doasse a sua colossal fortuna a Portugal. Talvez Jean-Loup Passek tenha sentido o mesmo que o velho capitalista sentiu ao cá chegar: a simpatia das pessoas, a beleza da terra, a paz que lhe faltava no seu país… O certo é que o cineasta decidiu doar à pequena vila de Melgaço um dos maiores espólios de artefactos cinematográficos que uma pessoa conseguiu reunir, espólio esse que era disputado por grande parte dos países da Europa.
Com a ajuda da Câmara Municipal de Melgaço, conseguiu arranjar-se um espaço que, apesar de nobre, é já, ao que me dizem, exíguo para expor todos os tesouros deste homem. O museu está instalado numa casinha de dois pisos, literalmente, colada à parede protectora da muralha da vila. O edifício, que já foi Posto da Guarda-fiscal de Melgaço, foi minuciosamente reparado e preparado para o efeito.
Lá estão todas aquelas maquinetas imaginadas e laboriosamente construídas pelos gloriosos malucos das máquinas de sonhos que a partir dos finais do séc. XIX começaram a trilhar o árduo caminho que levaria àquilo a que hoje chamamos cinema.
Se passar por perto aconselho-o vivamente a visitar a este acolhedor museu.
A nossa próxima reunião será para os lados de Trás-os-Montes. A mesa, parte importantíssima, estará já escolhida pelos nossos
experts. A parte lúdica será uma peregrinação a uma ou outra fraga que em tempos acolheu Miguel Torga nas suas caçadas pela região.
Passando em revista todas as reuniões que já fizemos e a amizade que se foi alicerçando entre nós não posso deixar de me lembrar do poeta de S. Martinho da Anta quando diz que
viver é sobretudo amar e ser amado.
Confesso que tenho vivido!