06 abril 2007

O PÁSSARO PINTADO

"… após um escrutínio prolongado, escolhia o pássaro mais forte, prendia-o ao seu pulso e preparava tintas […] de diferentes cores. […] virava o pássaro de barriga para cima e pintava-lhe as asas, a cabeça e o peito nos tons do arco-íris até o tornar mais colorido e vívido que um ramo de flores silvestres.
Depois íamos para o coração da floresta. Aí chegados, o Lekl tirava o pássaro pintado e mandava-me segurá-lo na mão e apertá-lo ligeiramente. O pássaro começava a chilrear e atraía um bando da mesma espécie, que voava nervosamente sobre as nossas cabeças. […] Quando um número suficiente de pássaros se reunia [...], o Lekl dava sinal para libertar o prisioneiro. Este elevava-se no ar, feliz e livre, um salpico de arco-íris contra um fundo de nuvens, e mergulhava depois no seio do expectante bando castanho. Por instantes, os pássaros ficavam confusos. O pássaro pintado voava de uma ponta do bando para a outra, tentando em vão convencer os seus parentes que era um deles. Confundidos pelas suas cores brilhantes, os pássaros voavam em seu redor, sem se convencerem. O pássaro pintado era afastado cada vez para mais longe, à medida que tentava zelosamente penetrar nas fileiras do bando. Víamos como, pouco depois, um pássaro após o outro saía da formação num ataque feroz. Em breve, a forma multicolorida perdia o seu lugar no céu e caía no chão.”

O Pássaro Pintado, Jerzy Kosinski

No final de Outono de 1939, na iminência de as tropas Nazis invadirem a Polónia, era muito perigoso para um rapazinho de pele escura, olhos negros e cabelo de azeviche ficar calmamente no seu lugar a vê-las passar, por isso, como milhares de outras crianças, foi enviada para uma aldeia do Leste do país. Aí chegado perde todos os contactos com os pais. Nos cinco anos seguintes, até à chegada do Exército Vermelho, o rapazinho sem nome conhecerá todo o horror de que a espécie humana é capaz. Nas aldeias perdidas do Leste, a vida pouco mudou desde a idade média. A miséria, a ignorância, o medo e a superstição grassam entre as suas populações. É aqui, no meio do ódio, que o rapazinho de seis anos irá conhecer o mundo e interpretá-lo.
O Pássaro Pintado de Jerzy Kosinski é uma bela obra que aconselho vivamente.
Uma última nota: o escritor, naturalizado Americano, nasceu na Polónia. Tinha seis anos aquando da invasão do seu país pelas tropas nazis, era de ascendência judia e foi separado dos pais antes da chegada do invasor. Kozinski, suicidou-se em Nova Iorque a 3 de Maio de 1991, por ter sido, finalmente, apanhado pelos seus fantasmas, diria John Corry.

05 abril 2007

SÃO BURROS!

Periodicamente, em cada Páscoa, os nossos jovens - alguns dos nossos jovens, melhor dizendo, acho que uma pequenina parte dos nossos jovens, assim é que está bem -, atravessam a fronteira e tomam de assalto as praias de Lloret del Mar, nos arredores de Barcelona, para se embebedarem, ininterruptamente, durante cinco dias. Tenho pensado – não muito nem com muita profundidade, confesso – sobre as razões deste ritual mas a conclusão é, invariavelmente, a mesma: estupidez! Não, não pode ser, pensava, deve haver uma qualquer razão mais plausível para esta imbecilidade. Não compreendo como uma horda de imberbes se juntam a mil quilómetros de casa para, apenas, despejarem uma qualquer mistela pelas goelas abaixo até ter de ir para o hospital. Tem de haver outra razão. Até que, um destes dias, pela boca de um deles – o Filipe de Portimão –, fiquei, finalmente, a saber qual a razão do rito, numa reportagem feita pelo JN. Quando em presença de uma multidão de alucinados pelo álcool e pelo fumo, o jornalista vai fazendo perguntas a este e aquele, o Filipe, de uma forma lapidar, resumiu: "Tá tudo muito bêbado e fumado, mas fazem-no apenas porque tem de ser e não por opção deles. São burros".

31 março 2007

A ENERGIA DE UM PEIDO

A comunidade científica, aquilo que comummente designamos por comunidade científica, é um grupo díspar de pessoas, movidas por interesses diversos – uma parte, porventura, uma grande parte deles, inconfessáveis. Lá se cultiva a inveja, a maledicência e a velhacaria – Bill Bryson, na sua deliciosa Breve História de Quase Tudo, relata-nos histórias incríveis de desrespeito pelos pares –, e, de vez em quando, descobrem!
Quanto a descobertas há-as de três tipos: aquelas que resolvem um problema e fazem avançar o mundo; aquelas que ninguém, por qualquer razão, sabe para que servem e, eventualmente, só a prazo, farão avançar o mundo e o terceiro tipo, aquelas que toda a gente sabe que não servem para nada e nunca farão avançar o mundo.
Os jornais, as revistas e a nossa caixa de correio electrónico estão enxameados de exemplos do terceiro tipo. De vez em quando alguém tem a feliz ideia de mostrar em que se gasta o dinheiro do orçamento de estado e, então, todos ficamos mais documentados: se se peidar, ininterruptamente, durante 6 anos e 9 meses, produzirá gás suficiente para criar a energia de uma bomba atómica
Vem isto a propósito de um artigo que, há dias, li. Um investigador da Universidade de Lisboa, num estudo sobre a indisciplina, propôs aos seus alunos a seguinte tarefa: saber, numa determinada escola dos arredores da capital, quantas vezes os professores fizeram participações dos seus alunos. Recolhida e tratada a informação , comparou os resultados com os que tinha obtido em idêntico estudo nos anos oitenta e concluiu que o número de participações feitas, então, durante cerca de meia década, era, sensivelmente, o mesmo que na actualidade se faz num trimestre. Depois de várias considerações e de dizer que hoje tem dificuldade em resumir as causas do mau comportamento, tantas elas são, João Amado, assim se chama o investigador, remata de forma lapidar: “Ultimamente, os professores têm sido vítimas da desvalorização da sua própria condição e do seu estatuto pelo poder político, o que se vai traduzir na representação que a sociedade faz dos professores. E isto tem reflexos na sala de aula”.
Sem querer menosprezar o trabalho do investigador, sou forçado a acrescentar um quarto tipo de descobertas: as não descobertas, aquilo que toda a gente já sabe e por isso não se devia gastar tempo nem dinheiro a investigar. Todos sabemos – parece que, apenas com a excepção da própria e dois senhores que aparecem sempre atrás dela fazendo esgares de desvelo –, que a Senhora Ministra da Educação, nestes dois últimos anos, fez, ou patrocinou, estragos na imagem do professor que levarão muitos anos a corrigir. E isto paga-se caro. E isto pagar-se-á caro.

26 março 2007

TRÉGUAS! ESTÁ A JOGAR O BENFICA

O meu amigo Zé Joaquim é Sportinguista – será um dos seus poucos defeitos, diga-se. Mas também, quem é perfeito? -, no entanto, tal vocação, não o impede de ver no Benfica o melhor clube do mundo. Atento como ele é, descobriu na Visão mais uma prova da grandeza encarnada. De uma entrevista que António Lobo Antunes concedeu à revista, o Zé respigou o seguinte:

Visão: Ainda sonha com a guerra?
Lobo Antunes: […] Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
Visão: Parava a guerra?
Lobo Antunes: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?
Visão: Não vou pôr isso na entrevista.
Lobo Antunes: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?

Pois é, tréguas na guerra só por alturas do Natal e nos jogos do Benfica.
Roam-se de inveja!

25 de MARÇO

O aniversário foi na realidade ontem, mas, para não ofuscar o cinquentenário do tratado de Roma, decidi comemorá-lo apenas hoje.
Fiz alguns arranjos em casa – quase imperceptíveis, diga-se – deixei cair um pouco da minha máscara, ou por outra, arranjei outra, agora mais transparente, deixando perceber o que se encontra por trás. Está claro que não fiz grandes remodelações, isso é só para quem pode – lembro-me por exemplo do Tozé que ainda há pouco tempo fez uma reforma geral, ou do Pedro que fez o mesmo, ou do António, um eterno insatisfeito, que deve ter contratado um decorador tantos são os melhoramentos que faz – e eu, que não me posso meter nessas cavalarias, servi-me, apenas do poeta para construir a minha diáfana máscara: […] Sabe, no fundo eu sou um sentimental […] Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora...
Agora levante a sua taça! Eu cá estarei para acompanhar.

25 março 2007

EUROPA, 50 ANOS DE SONHO

“Por todo o lado, encontrei magníficos sonhadores, homens e mulheres que porfiadamente acreditam nos seus sonhos. Mantêm-nos, cultivam-nos, partilham-nos, multiplicam-nos. Eu, humildemente, à minha maneira, também fiz o mesmo.”

Luís Sepúlveda, O poder dos sonhos


Para todos aqueles que em 1957 sonharam uma Europa de paz e de tolerância e para todos os que desde aí têm dado o melhor de si mesmo para que se cumpra o sonho, o meu respeito, a minha admiração, o meu agradecimento. Eu, humildemente, à minha maneira, continuo a sonhar.

21 março 2007

O MUNDO CONTINUA VÃO


É verdade, este mundo continua vão. E para quem pensasse que as misérias tinham apenas um século, desengane-se, elas sobrevieram no preciso momento que o primeiro homem cá pôs o pé, e, ou muito me engano, ou apenas cessarão quando o último fechar a porta. Uma prova do que digo encontrei-a no “Rosa do Mundo”, num poema indiano do séc. VII. Catorze séculos após sou forçado a concordar inteiramente com o bardo: parece-me que já nem a oração resulta. Assim sendo, o que resta a um homem?

18 março 2007

PAI, SEMPRE

"Cortei o cabelo a meu pai e fiz-lhe a barba. Foi sempre bonito o velhote, na sua esbelta e direita figura, na sua pele branca e fina de nórdico, nos seus olhos azuis, no seu loiro bigode de rapaz. Mas nunca teve coragem, nem tempo, para cuidar destes dons, embora goste que lhos gabem e cultivem. E de vez em quando é toda a família à volta do manjerico. Um aperta-lhe os botões da camisa, outro compõe-lhe o chapéu, outro tira-lhe a terra das orelhas. A mim tocam-me sempre a barba e o cabelo. E eu rapo o melhor que posso aqueles pêlos, com a solenidade que ele rapa as ervas de uma leira para lhe plantar um alfobre."

Miguel Torga, Diário III



14 março 2007

A FÓRMULA DO DESPERDÍCIO

A haver uma grande expansão inicial, os cientistas perceberam que teria de haver uma radiação cósmica de fundo, uma espécie de eco dessa erupção primordial do Universo. […] Mas onde diabo estava o eco? […] Por mais que se procurasse, nada se encontrava. Até que em 1965, dois astrofísicos americanos estavam a levar a cabo trabalho experimental numa grande antena de comunicações […] quando depararam com um irritante barulho de fundo, uma espécie de assobio provocado por vapor. […] Andaram um ano a tentar eliminá-lo. […] Em desespero de causa, decidiram ligar aos cientistas da Universidade de Princeton, a quem relataram o que estava a acontecer e pediram uma explicação. E a explicação veio. Era o eco do Big Bang. […] O que eles estavam a captar era a luz mais antiga que chegou até nós, uma luz que o tempo tinha transformado em microondas. Chama-se a isso radiação de fundo […]
Oiçam, nunca vos aconteceu ligarem um televisor numa frequência em que não há emissão? […] Vemos aqueles pontinhos todos a pulularem no ecrã e um ruído enervante, assim crrrrrrrrr, não é? Pois ficam a saber que um por cento desse efeito é proveniente deste eco. […] Portanto, se um dia estiverem a ver televisão e nada vos interessar, sugiro-vos que sintonizem um canal sem programação e fiquem a ver o nascimento do Universo. Não há melhor reality show que esse.
José Rodrigues dos Santos, A Fórmula de Deus

Não direi que teria sido preferível ligar o aparelho de televisão num canal sem programação e deliciar-me com o nascimento do Universo em vez de ler a Fórmula de Deus de José Rodrigues dos Santos, mas confesso que me desiludiu bastante. Depois do Codex 632 esperava bem mais do que aquilo que me foi oferecido. O livro é, por vezes, um longo e maçador bocejo, entrecortado por uns arreliadores sons guturais de quase todos os personagens: Hu! Das quase seis centenas de páginas do romance, umas boas quatrocentas são de palha, o que é uma pena, além, claro, de um nada ecológico desperdício de papel.
Se o escritor tivesse seguido os ensinamentos do monge Tenzing, teria usado de mais parcimónia no uso das palavras e obraria, certamente, uma obra mais económica. Em vez disso, esbanjou-as a seu bel-prazer, resultando daí um livro, por vezes, entediante e repetitivo.

08 março 2007

PARA TODAS AS MULHERES


Para todas(1) as mulheres: para as minhas, cá de casa, para as dos meus amigos, para as da minha família, para as do meu país, para aquelas que sofrem, para aquelas que todos os dias são vilipendiadas, para aquelas que lutam por um mundo melhor e para aquelas que já desistiram de lutar. Para todas as mulheres do mundo, o meu reconhecimento: sem vocês tudo seria muito mais monótono. Oh, se seria…
Socorro-me do poeta que diz as coisas melhor que eu digo:
ETERNO FEMININO

Voltei, ninfas amigas!
Quem pode resistir a um fresco aceno
De donzelas despidas?
Fiel devoto da nudez da vida,
Tinha sede de ver-vos distraídas
A correr pela terra ressequida.

Serei criança, mas voltei de novo
Ao vosso altar sagrado.
Ou não fosse eu poeta!
Ou não me desse a imagem do passado
Uma esperança secreta…

Vim, e que o mundo murmure,
Ninfas de cada fonte!
Que me importo que digam que enlouqueço
Junto de vós?
Quero é beijar-vos, é beber,
E sentir-me no fim purificado…
Só deusas verdadeiras podem ter
Um corpo tão perfeito e tão lavado.

Miguel Torga
(1) Mesmo para umas que eu cá sei. Que tenham um bom dia e que a caganeira lhes venha só amanhã.

28 fevereiro 2007

NÃO O FAZEMOS POR MAL...

A minha amiga Helena Guerreiro é uma pessoa atenta às fraquezas do género humano, em especial quando as fragilidades se manifestam na parte masculina da questão. Há uns dias presenteou os homens do seu rol de endereços – do qual me dá o prazer de fazer parte –, com uma lista de obscenidades que, confesso, de início me estava a deixar fulo. Devo, no entanto, dizê-lo, que quando cheguei ao fim soltei umas saborosas gargalhadas. Era, claro, uma caricatura, mas, por isso mesmo, havia em tudo aquilo um fundo de verdade pelo que só me resta dizer: Mulheres, perdoem-nos! Fazemo-lo, realmente, mas não o fazemos por mal! É que somos mesmo assim!
Mas vamos às maldades da Helena:


“A cozinha fora de casa”
Talvez porque há um certo risco envolvido na actividade, este é o único tipo decozinha a que um verdadeiro homem se deve dedicar. Contudo, não é tarefa fácil. Quando um homem aceita fazer o Barbecue põe-se em marcha uma cadeia de acções:
1.º A mulher compra os alimentos;
2.º A mulher faz as saladas, prepara as batatas fritas, o arroz e a sobremesa;
3.º A mulher prepara a carne para ser cozinhada, tempera-a, coloca-a numatravessa e leva-a ao homem que já está à espera ao pé do grelhador, de cervejafresca na mão.
Aqui vem a primeira parte realmente importante da questão:
4.º O homem coloca a carne na grelha;
5.º A mulher vai para dentro e põe a mesa;
6.º A mulher apercebe-se que o homem está com os outros homens a contar anedotas e vem cá fora a correr a avisar que a carne se está a queimar;
7.º O homem aproveita e pede-lhe mais uma cervejinha fresquinha;
8.º A mulher vem cá fora trazer a cerveja e uma travessa... e é então que aparece a segunda parte importante do processo:
9.º O homem tira a carne da grelha e entrega-a à mulher;
10.º Depois de comerem, a mulher tira a mesa, lava a louça, arruma a cozinha e lava a grelha;
11.º Toda gente dá os parabéns ao homem pela fantástica refeição que elepreparou;
12.º O homem pergunta à mulher se lhe soube bem o tempo de folga de que usufruiu e, perante o ar chateado dela, conclui que há mulheres que nunca estão satisfeitas com nada.

26 fevereiro 2007

E VAI MAIS UM

Nos anos sessenta e setenta do século passado, sempre que um dos seus pilotos via a bandeira de xadrez ser-lhe mostrada, Colin Chapman, esfuziante de alegria, atirava o boné ao ar. Fê-lo dúzias de vezes.
José Mourinho, personalidade vincada como o inglês mas mais expansivo, quando ganha, atira-se, ele próprio, ao ar. Ontem, pela décima primeira vez na sua ainda curta carreira, Mourinho saltou. A sua equipa, o Chelsea F.C. de Londres ganhou a Taça da Liga.
Parabéns, Mourinho!

23 fevereiro 2007

O PESSOAL DA 3.ª FASE JÁ CHEGOU!

Todos os anos pelo Natal - tempo que se quer de paz e tolerância -, o presidente da República concede alguns indultos a pessoal encarcerado que tenha dado mostras de arrependimento e boa conduta. O Ministério da Justiça, depois de devidamente analisado o processo do preso, propõe a sua soltura ao Presidente.
No último Natal, cumpriu-se o ritual e perdoou-se parte da pena a uma quantidade de engaiolados. Entre os felizardos contava-se um empresário da noite do Alto Alentejo. Até aqui tudo bem. Mas eis que uns chatos do Expresso, na obsessiva procura de cachas descobrem que afinal o indultado não deveria tê-lo sido já que o seu processo era um manancial da ilegalidades das quais se destacam uma condenação anterior a quatro anos e meio de cadeia e o facto de contra ele impenderem vários mandatos de captura nacionais e internacionais por ter fugido do país. Depois desta bomba ter chegado às bancas, o Ministro apressou-se a incumbir a Inspecção-Geral dos Serviços de Justiça a abrir um inquérito de averiguações a este lamentável acontecimento com recomendação expressa de lhe ser facultada uma resposta num curto espaço de tempo. O pessoal do ministério ter-se-á atarefado porque, poucos dias volvidos, e eis que a nação ficou a saber a que se ficou a dever tamanha trapalhada: na instrução do processo do indulto presidencial, a cargo do Tribunal de Execução de Penas de Lisboa, foram reunidos elementos, provenientes da Polícia Judiciária e do Registo Criminal, que não foram tomados em consideração. Tais elementos encontravam-se actualizados mas os «registos em causa não eram de leitura evidente».
Depois desta peça lapidar lembrei-me de um mail sobre as fases do ensino em Portugal que tinha recebido há tempos. Dizia:
1.ª FASE (antes de 1974)
O aluno ao matricular-se ficava automaticamente chumbado. Teria de provar o contrário ao professor.
2.ª FASE (até 1992)
O aluno ao matricular-se arriscava-se a passar.
3.ª FASE (até 2006)
O aluno ao matricular-se já transitou automaticamente de ano, salvo casos excepcionais e devidamente documentados pelo professor, que terá de incluir no processo, obrigatoriamente, um "curriculum vitae" detalhado do aluno e, em alguns casos, da própria família.
4.ª FASE (a partir de 2007)
O professor está proibido de chumbar o aluno. Nesta fase quem é avaliado é o professor, pelo aluno e respectiva família, correndo o risco, quase certo, de chumbar.

É caso para dizer que o pessoal da 3.ª FASE já chegou. Imagine-se o que será quando chegarem os da 4.ª.

18 fevereiro 2007

FEIOS E MAUS, APENAS.

De vez em quando a comunidade científica decide obsequiar-nos com os mais disparatados estudos. Todos nós, em qualquer ocasião, já tomamos conhecimento de estudos que, além de servirem para nos atazanar a cabeça e delapidar o erário público, não servem para mais nada. Não é o caso de um estudo que a insuspeita revista Science publicou recentemente. Se é verdade que as conclusões não serão de molde a tornar o mundo melhor – acho eu –, servirão, pelo menos, para trazer um pouco de justiça à eterna disputa sexo forte vs sexo fraco. Até agora o meu era o lado dos feios porcos e maus. A partir das conclusões deste estudo, que todos nós, de resto, já suspeitávamos, passaremos a ser, tão só, feios e maus.
O estudo, patrocinado pelo professor de Ciências Ambientais da Universidade do Arizona, Charles Gerba, revela que as mulheres acumulam três ou quatro vezes mais germes do que os homens nas suas secretárias, telefones, computadores, teclados, gavetas e objectos pessoais, havendo, regra geral, 400 vezes mais bactérias nas mesas de trabalho do que nos sanitários dos escritórios. O Dr. Gerba diz ainda que os alimentos são a principal fonte de bactérias, assumindo este facto um nível preocupante, já que 75% das mulheres têm algo para debicar nos seus escritórios. "Estava convencido de que os homens gerariam mais germes, mas as mulheres [...] guardam comida nas suas mesas, problema a que se acrescenta a maquilhagem", afirmou o autor do estudo. Nas gavetas, e demais escaninhos dos escritórios, as mulheres armazenam guloseimas, cosméticos e outros produtos, comestíveis ou não, que constituem um agente de primeira grandeza para originar ninhos de germes.
O estudo concluiu que, no caso dos homens, os maiores focos de germes são as carteiras e as agendas electrónicas. No caso das primeiras, se forem guardadas no bolso de trás das calças, os germes estarão no seu elemento natural já que lhes é proporcionado um lugar morno e cómodo(1) para se desenvolverem.

(1) imagino o caldinho bacteriológico presente na carteira de um certo declamador de poesia da nossa praça.

13 fevereiro 2007

O NEW YORK TIMES DO ALBERTO JOÃO

Anteontem, quando as televisões mostraram o Alberto João, à saída da assembleia de voto, vociferar contra os de Lisboa – que estão a roubar a Madeira, que vão ter de responder em tribunal –, lembrei-me de John Rockfeller.
John Davison Rockfeller, nascido em 1839, foi um industrial e filantropo americano que juntou uma fortuna incomensurável – ganhar dinheiro é um dom de Deus, dizia. A cotações actuais, John D. valeria quase tanto como três Bill Gates. Antes de a sua empresa de extracção, refinação e comercialização de petróleo, a Standard Oil, ter sido desmantelada pelo governo com base na Lei Antitrust, recentemente aprovada, era responsável por noventa por cento de todo o petróleo que circulava dos Estados Unidos da América.
Conta-se – conta-o José Saramago n’O Ano da Morte de Ricardo Reis –, que para o fim da vida, Rockfeller morreu em 1937 com a provecta idade de 98 anos, enquanto a América se debatia, ainda, com as sequelas da grande depressão e na Europa os sinais do caos que se avizinhava eram já bem visíveis, o New York Times fazia todos os dias um exemplar único do jornal, falsificado de uma ponta à outra, só com notícias agradáveis e artigos optimistas para que o pobre velho não [tivesse] de sofrer com os terrores do mundo e suas promessas de pior.
O Jornal da Madeira, agraciado com 4,6 milhões de euros pelo Governo Regional do arquipélago, para manter o pluralismo na comunicação social, é o New York Times do Alberto João Jardim. Apenas com uma pequena diferença: na América foi o jornal quem tomou a iniciativa de publicar um número extirpado dos horrores e colorido de quimeras para não ferir os débeis ouvidos nem os baços olhos do ancião, na Madeira é o próprio que o manda fazer para que no dia seguinte, ao pequeno almoço, possa ler um jornal mondado das notícias que falam de uma democracia de opereta onde não há pluralismo ideológico nem pluralismo na comunicação social.

03 fevereiro 2007

A IDADE DAS TREVAS

- Pai […], – que dizem os livros acerca de nós, camponeses?
- Dizem que somos animais, brutos, e que não somos capazes de entender o que é a cortesia. Dizem que somos horríveis, vis e abomináveis, desavergonhados e ignorantes. Dizem que somos cruéis e toscos, que não merecemos nenhuma honra porque não sabemos apreciá-la, e que só somos capazes de entender as coisas à força. Dizem que…

A Catedral do Mar é um romance sobre a ignorância, o medo, o ódio e a intolerância. É um romance sobre a prepotência do feudalismo, a demência da inquisição, a ambição desmedida e o fanatismo religioso. Ponç apresentou a caução que o corregedor lhe solicitara, e este entregou-lhe Joana. Construiu na sua horta um cubículo de dois metros e meio por um metro vinte, fez um buraco para que a mulher pudesse fazer as suas necessidades, abriu aquele janelinha para que Joanet, nascido nove meses após a sentença e nunca reconhecido por Ponç, se deixasse acariciar na cabeça, e emparedou para toda a vida a sua jovem esposa. A Catedral do Mar é um romance sobre as trevas.
Se fosse só sobre isto já seria muito mas A Catedral do Mar, o belo livro de Ildefonso Falcones, é também uma obra sobre o amor, o arrependimento, a honra, a luz e a vitória do bem sobre o mal.
A acção desenrola-se no principado da Catalunha durante o séc. XIV e tem início na quinta de Bernat Estanyol, no dia do seu casamento.
- Estanyol! – gritou Llorenç de Bellera, pondo-se de pé com Francesca agarrada pelo pulso. – Usando do direito que como teu senhor me assiste, decidi deitar-me com a tua mulher na primeira noite.
É este episódio que irá precipitar a prodigiosa aventura de Bernat Estanyol e seu filho Arnau, desde Navarcles, terras do cruel cavaleiro Llorenç de Bellera, até Barcelona, em busca da paz e da liberdade.
Paralelamente ao desenrolar da história assiste-se à construção da bela Catedral de Santa Maria del Mar, uma catedral construída, realmente, pelo povo. Arnau terá um papel importante nesta obra prodigiosa. Começando por carregar pesados blocos de rocha desde as pedreiras reais de Montjuic, chegaria a um verdadeiro mecenas da catedral, acorrendo em seu auxílio sempre que os exauridos cofres da confraria não permitiam a continuação do trabalho.
Não deixa de ser revoltante que a inquisição tenha perseguido tal personagem.

02 fevereiro 2007

O GRITO

Lá, onde se encontrava, não sei se o nosso primeiro-ministro terá ouvido o grito da criança assustada, mas, a avaliar pela mortandade no galinheiro, deve ter sido um grito aterrador.
A história conta-se em duas penadas: na China profunda, um distribuidor de gás foi a uma quinta fazer uma entrega. O seu filho, uma criança ainda, acompanhava-o. O cão de guarda, não tendo visto ainda o petiz por aquelas bandas, desata a ladrar ao intruso, o que o terá assustado. A estridência dos gritos lançados pelo apavorado rapaz foi tal que no aviário as galinhas entraram em pânico, atirando-se, desorientadamente, contra as paredes. No final, a carnificina foi pavorosa. Ao que dizem, terão perecido, naquela confusão medonha, para cima de quatro centenas de galináceos. A notícia dizia mais qualquer coisa sobre a pena aplicada ao prevaricador, mas, nesta altura, já a minha imaginação voava para um outro galinheiro que há para os lados do Bairro Alto, onde em tempos os Beneditinos se recolhiam. Que falta fazia lá o chinezinho para atarantar a maioria das aves que por lá se acoitam…

29 janeiro 2007

E O TIBET: COMO VAI?

Depois de alguns avanços e outros tantos recuos – coisa de somenos ao que nos dizem os organizadores de eventos do Palácio das Necessidades – o primeiro-ministro parece que lá partirá amanhã para a China. Na bagagem leva, com toda a certeza, um sem número de dossiers de natureza económica e comercial e, eventualmente, uma ou outra treta politicamente correcta.
Se lhe sobrasse algum do seu precioso tempo, nestes seis dias em que visita a China, gostaria que indagasse junto das autoridades do país, da sorte que terá cabido às duas monjas tibetanas, Kyzom e Yangdöl, que há 10 anos fugiram do sua pátria ocupada, atravessando, a pé, os Himalaias.
Esta viagem épica é-nos contada por Philippe Broussard no seu livro Os Rebeldes do Himalaia. A prisão das monjas por terem o "atrevimento" de clamarem por liberdade para a sua pátria, as sevícias sofridas no degredo, as privações na travessia dos Himalaias, os problemas com as autoridades Nepalesas, o pânico constante de serem descobertas e enviadas de novo para o cárcere, até à almejada liberdade em Dharamsala, no norte da Índia, junto do dalai-lama, também ele lá exilado.
Gostava de saber como está Ursinho que pouco depois de chegar a Dharamsala tomou a decisão de voltar ao Tibete. Mesmo depois de todos os sacrifícios para lá chegar, não deixou de experimentar um certo sentimento de culpa por saber que a verdadeira luta só podia ser travada do outro lado das montanhas, no seu país. Mesmo arriscando-se a ser de novo presa e torturada, regressou ao Tibete.
Broussard termina o seu livro dizendo: "... ignoro onde se encontra hoje Ursinho, a rebelde de Dharamsala. Sem dúvida numa cela em Gutsa, em Trisam, em Drapchi, culpada de ter querido o impossível: a liberdade".
Mesmo que ao nosso primeiro-ministro sobrasse algum do seu precioso tempo não averiguaria, certamente, a sorte das monjas. Os objectivos da sua viagem são outros e, de qualquer modo, quem se interessa pela luta de um povo, ainda que íntegro, mas que ninguém conhece?

13 janeiro 2007

MÁS-LÍNGUAS

Há alguns anos abriu em Viana um simpático cafezinho a que foi dado o nome de Amarillo. Recordo-me que a primeira vez que vi o nome gravado nas vitrinas me lembrei da Amarillo das revistas e dos filmes de cowboys e dos duelos na rua principal debaixo do sol impiedoso do meio-dia. Isto, numa altura que uma certa família ainda não tinha trazido má fama ao Texas.
Apesar de por vezes a música parecer uma Techno Parade, gosto de, uma vez por outra, sentar-me um pouco e ler o JN ou então o Público que a casa todos os dias põe à disposição dos seus clientes. Ontem, ao fim da tarde, fui ao Amarillo. Peguei no Notícias que estava livre e sentei-me a uma mesa. A música não incomodava – Techno não pode ser sempre – abri o jornal e comecei a ler. Na mesa ao lado, duas criaturas, professoras pelo que se depreendia das suas palavras, mostravam-se chocadas com a atitude de uma terceira, pelos vistos, das suas relações. Trejeito daqui, esgar dali, má-língua dacolá, lá iam apunhalando a amiga ausente.
Eu, ouvinte acidental de toda aquela conversa, lembrei-me de uma anedota que o meu amigo Aires me tinha contado algumas horas antes:
Na altura do Natal dois clítoris passeavam por uma rua da baixa admirando as montras decoradas para a quadra. Então diz um para o outro:
- Ouvi dizer que não consegues atingir o orgasmo?
- Olha filha, más-línguas! Más-línguas, é o que é!
Voltando às professoras. Alguém dizia, algures, que é a conversa das mulheres que faz girar o mundo. Começo a pensar que talvez tenha razão. Depois de um chorrilho de frases incompreensíveis – não porque ciciassem mas, simplesmente, porque falavam em simultâneo –, finalmente, uma começou a dizer algo que teve o condão de emudecer a amiga:
- Então não queres saber que foi para Paris nas férias do Natal e só veio ontem? Quase duas semanas depois de as aulas terem começado? E depois admiram-se da ministra fazer o que faz!
- Uma falta de responsabilidade intolerável! – gania a outra.
Não havia condições para ler. O tempo em que, estudante universitário no Porto, conseguia estudar no meio do ambiente atroador do Café Cenáculo, já passou há décadas. Agora, sem silêncio, tenho dificuldade em concentrar-me na leitura. Dobrei o jornal, voltei a colocá-lo no cesto e saí.
Pela rua ia pensando na conversa que desencaminhou a minha leitura: foi de férias e voltou quase duas semanas após o início das aulas!
Não, só pode ser má-língua das invejosas das amigas!