22 setembro 2006

ESTADO DA NAÇÃO: RECOMENDA-SE!

Às segundas-feiras, o principal canal da televisão pública brinda os telespectadores com o Prós e Contras. A dinâmica do programa vive muito à custa da selecção do painel. Por vezes, essa escolha é tudo menos criteriosa e o programa é um longo bocejo, outras vezes, apesar de um painel redondo, propício a duas horas de enfado, o programa prende a atenção do espectador. São insondáveis os caminhos do Senhor.
Na última segunda feira o tema girava à volta de Educação. O assunto era já gasto pelo que se esperaria um miserável share para o canal 1. Tal parece não ter acontecido.
Na mesa da situação, digamos assim, sentava-se a ministra – à Pai Natal, como diria numa das suas habituais tontarias, a condutora do programa. Sobre a senhora ministra, podemos não lhe conhecer as ideias mas conhecemos-lhe o discurso. Até aqui nada de novo.
Ao seu lado direito uma personagem de carinha miúda e corte à Charlie Brown. Apresentar-se-ia como Presidente do Conselho Executivo de uma escola dos arredores de Guimarães. O primeiro mal escolhido. Limitou-se, qual sabujo, a concordar inteiramente com todas as medidas propostas pela equipa da educação. Na sua escola reinava a harmonia. Os professores estavam felizes e contentes e os alunos aprendiam melhor. Lá, no Eldorado, está quase a atingir-se a perfeição. Estaria a pensar num futuro lugar de Director-Geral para cima. Depois daquela prestação o seu sonho terá caído por terra. Ninguém quer tamanho bajulador a trabalhar consigo.
Na mesa da oposição tínhamos um professor universitário ex-governante da área. Punha aquela expressão grave tão natural naqueles que conhecem os meandros do labirinto. Numa introspecção rápida terá avaliado a situação do seu telhado e, na sua linguagem polida, passou o serão a concordar com as medidas da ministra. Havia uma ou outra com que não estava, totalmente, de acordo mas, cortesmente, evitou revelá-las. A linguagem monocórdica com que dizia as coisas também não ajudou. Enfim a segunda má escolha. No final do programa, em parte, redimir-se-ia.
A seu lado outra professora presidente. Agora da escola de uma terra com uma fábrica de cerveja de que não consigo lembrar-me o nome. Nem da terra nem da cerveja. Não trouxe muito para o debate. Na sua zona haverá interesses alheios à escola que chamem os alunos porque, pelos vistos, o abandono escolar não é despiciendo. Abusou dos Cursos de Educação e Formação que o comum dos mortais não sabe bem de que se trata. Outra escolha desacertada, portanto.
Na primeira fila do anfiteatro, a apresentadora costuma sentar alguns convidados cuja função é dinamizar o debate e abanar as consciências. Pensava eu. Vejamos:
Outro dirigente de uma escola, agora do Algarve. No seu estilo de presidente de Associação de Moradores, que sim, que agora é que isto vai p’rá frente, que na sua escola era como no Eldorado, estava tudo bem e havia harmonia.
Ao lado um velhinho. Embora já retirado, continua a encontra-se com colegas ainda no activo. Não vá a senhora ministra lembrar-se de lhe baixar a reforma – ficaram um poucochinho desagradados com todas estas mudanças mas, como é para melhorar, estão a encarar o sacrifício como necessário – limitou-se a aplicar a última pedagogia que conheceu: «Aninhas, quantos são quatro mais oito?». «São dez senhora professora!». «Está certo, mas…». Podiam ter evitado a deslocação do velhinho à capital.
Ao centro dois jovens do décimo segundo ano. Um deles, com o calor e o nervoso, não conseguiu alinhavar uma frase que fosse. Foi-lhe prometido que falaria quando estivesse mais calmo mas, como continuasse a gastar lenços de papel para enxugar a cara, foi mantido calado até ao fim. O outro, que sim senhora, que gostou de todos os professores, que todos o ajudaram a chegar até onde se encontrava, blá, blá, blá. Todos os professores?! Como se todos nós não tivéssemos andado na escola. Enfim, podiam ter poupado este sacrifício aos imberbes. Deitar-se-iam mais cedo e ficariam mais frescos para aturar os queridos professores na manhã seguinte.
Junto deles uma senhora com a pintura esborratada. O adiantado da hora não se compadece com estas coisas e a caracterização também não ajudou. Era uma professora que também era mãe, ou uma mãe que também era professora, bom, já não me recordo muito bem. Praguejou contra a direcção do colégio do filho mais novo que não a deixou, ou deixou relutantemente, visitar as instalações. Não sei se disse mais qualquer coisa mas a dizer teriam sido destas banalidades. Podia ter ficado a contar uma história ao seu filhinho mais novo. A criancinha teria adormecido em paz e o país não teria perdido grande coisa.
Finalmente, um sindicalista. Embora o seu estilo Adriano Correia de Oliveira não o tenha ajudado e estivesse constantemente a responder à antepenúltima pergunta da apresentadora, não ouvindo sequer as duas últimas, foi o único que tentou remar contra a maré. Não é bonita aquela peculiar mania dos agitadores de responderem sem que lhes tenham perguntado, atropelando os outros, mas esteve quase a levar a ministra a utilizar a sua frase mais querida: - Não me deixam falar.
E eis que é chamado um último participante. É um professor da Serra da Estrela que, nas palavras da apresentadora, pediu, insistentemente, para ser convidado. De uma das últimas filas, levanta-se, então, a personagem mais burlesca de todo o programa. Trota pelo anfiteatro abaixo e chega afogueado junto do palco. Parece que tinha vindo de Manteigas a pé. Numa linguagem de vendedor de banha de cobra começa por dizer que tem uma série de perguntas para fazer à ministra. Alarmada, a apresentadora lembra-o do combinado: - Apenas uma pergunta! O troglodita que tinha o discurso preparado para uma dúzia de perguntas não conseguiu resumir tudo numa só e o que disse soou ininteligível. A sua viagem desde a Serra foi em vão.
De vez em quando, em aparições hitchcockianas, viam-se dois marretas sentados no extremo direito da primeira fila. Ora meneavam a cabeça, ora mostravam enfado. Estou ainda por saber quem eram e o que ali faziam.
A montanha teria parido um rato, não fora uma curta afirmação final. O senhor das falinhas mansas que já tinha sido secretário de estado, apelando à sua capacidade de síntese, conseguiu, ainda que, penso eu, não intencionalmente, resumir tudo o que ali se tinha passado. Olhando para o Charlie Brown que tinha sentado à sua frente disse-lhe: - Tenho-o ouvido atentamente desde o início do programa e de tudo o que disse só consigo estar de acordo consigo numa coisa: ambos somos benfiquistas.
Perdemos, pelo menos, duas horas de descanso mas fomos para a cama mais felizes: o país vai bem!

19 setembro 2006

PASSADO À MEDIDA DO PRESENTE

Félix Ventura vive na baixa de Luanda num velho casarão colonial rodeado de retratos circunspectos e estantes a abarrotar de livros. Quando bebé foi deixado numa caixa de cartão, acondicionado entre vários exemplares d’A Relíquia – Eça foi o meu primeiro berço, costumava, orgulhosamente, dizer – junto da porta de um alfarrabista que, após a revolução, deixaria casa e livros ao filho adoptivo e trocaria a instabilidade de Luanda pela calma de Lisboa.
Diariamente o albino Félix Ventura – Branco, eu?! Não, não! Sou negro. Sou negro puro. Sou um autóctone. Não está a ver que sou negro?... – espiolhava o jornal. Quando encontrava alguma notícia que lhe interessava, recortava-a e arquivava-a. Guardava, religiosamente, centenas de pastas com recortes e centenas de filmes.
Em Angola emerge, por estes tempos, uma conjunto de pessoas cujo venturoso presente não está em consonância com o inconfessável passado.
O albino era uma pessoa atenta aos novos tempos e viu nesta discrepância uma oportunidade de negócio - Dê aos seus filhos um passado melhor. O material que laboriosamente guardava, ajudá-lo-á a construir passados para todos aqueles que reclamarem os seus serviços. Há os que necessitam de sangue nobre na sua árvore genealógica, há os que querem limpar o sangue das mãos e há até aqueles que querem trocar o seu passado porque, simplesmente, é inacreditável – quero trocar esta história inverosímil, a história da minha vida, por outra simples e sólida. A história de um homem comum. Eu dou-lhe uma verdade impossível, você dá-me uma mentira vulgar e convincente, aceita? E fá-lo-á com tal verosimilhança que os próprios se convencerão do seu passado glorioso e sem mácula.
Tudo isto é-nos dado a conhecer por intermédio de uma osga – uma osga, sim, mas de uma espécie muito rara. Está a ver estas listras? Trata-se de uma osga-tigre ou osga-tigrada, um animal tímido, ainda pouco estudado. Os primeiros exemplares foram descobertos há meia dúzia de anos na Namíbia – que, desde sempre, viveu na casa de Félix Ventura. Tal como Félix, também a osga experimenta sérias dificuldades em presença da luz, daí, talvez, a afinidade que se vai criando entre ambos. Por vezes sonha com a sua vida anterior quando era um humano.
N’O Vendedor de Passados, numa linguagem escorreita, José Eduardo Agualusa palmilha os caminhos que o jovem país percorreu após a independência.
Um caminho enxameado de escolhos que tolhem a caminhada.

08 setembro 2006

... MAS SÓ QUANDO FOR VELHA!

A Dona Maria de Jesus faz, no próximo Domingo, 113 anos. É a pessoa mais velha da Europa e uma das mais velhas do Mundo.
Literalmente, atravessou 3 séculos.
Nasceu, corria o séc. XIX, reinava ainda D. Carlos. Assistiu ao regicídio, à implantação da República, às 2 Guerras Mundiais do séc. XX e aos dias de ódio do início do séc. XXI.
Um destes dias, falando sobre o seu futuro, a simpática anciã confidenciava: “Um dia irei para um lar, mas só quando for velha!”.
Gostava de chegar lá perto e ter presença de espírito para dizer tal coisa.
Parabéns, Dona Maria! Para o ano cá estarei, novamente, a desejar-lhe Feliz Aniversário.

03 setembro 2006

DOS 18 AOS 45, MAS...

Ainda este ano, os casais, que por problemas de infertilidade se viam na necessidade de recorrer a clínicas espanholas para tentar solucionar o seu problema, vão poder fazê-lo em Portugal.
O Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto, está a criar o primeiro banco de esperma e óvulos do país. Falando sobre este assunto, Mário Sousa, investigador do ICBAS, realçou que “todos os dadores candidatos serão sujeitos a rigorosos exames de selecção, quer a nível da história clínica pessoal e familiar, quer de análises ao sangue, antes de serem seleccionados par a integrar o banco”. Já a partir de 15 de Setembro começarão as entrevistas a mulheres, potenciais dadoras de óvulos, sendo que as entrevistas aos homens, potenciais dadores de esperma, se iniciarão mais lá para o Outono.
O banco excluirá os voluntários com hábitos tabágicos, alcoólicos ou de toxicodependência ou que tenham contraído vírus como as hepatites B ou C ou o HIV. Os óvulos serão recolhidos em mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 35 anos.
Até aqui tudo bem! Temos que assegurar a qualidade do material genético. Nunca se sabe se o substituto do Engenheiro Sócrates não sairá dali.
O Inverno da notícia vem a seguir: os dadores deverão ter entre 18 e 45 anos! Quem, como eu, estava a pensar doar a sua semente para a posteridade, foi fulminado com esta frase, mesmo que respondendo a todos os outros predicados.
Apenas nos resta agarrarmo-nos a uma pequena nuance de linguagem: quando o Doutor Mário Sousa se referiu às margens de idades dos dadores disse, laconicamente, que estas eram apenas indicativas, não exclusivas, dependendo de cada caso analisado.

01 setembro 2006

SE O RIDÍCULO MATASSE…

De quando em vez, um qualquer manga-de-alpaca de uma qualquer instituição governamental, manda uma imbecilidade cá para fora para nos lembrar que o governo existe e está vigilante.
A imprensa noticia hoje que, no Programa Nacional de Alterações Climáticas (PNAC), está inscrita uma proposta que prevê que a velocidade máxima nas auto-estradas baixe de 120 para 118 km/h. Isso mesmo, leu bem, 118 km/h.
Será que o iluminado estaria a pensar noutras coisas? É que até 118 km/h é Tempestade Tropical mas a partir de 119 km/h é Furacão.

30 agosto 2006

PAU-BRASIL

...
O jovem riu-se e começou a desapertar o colar que usava ao pescoço. Desenfiou, então, uma das conchas, voltou a apertar o colar e lançou para a areia a conta retirada.
- Que estás a fazer? - perguntou Colombe.
- Hoje é dia de lua cheia - respondeu o jovem, com toda a naturalidade -, tenho de tirar uma conta do meu colar.
- Karaya é um prisioneiro - esclareceu um dos guerreiros, rindo-se. - Em cada lua, uma conta a menos; quando se acabarem as contas comemo-lo.
...
Pau-Brasil, Jean-Christophe Rufin


Em 1555, à frente de uma armada de 3 navios e 600 homens, entre soldados e colonos, Nicolas Durand de Villegaignon, Vice-almirante da Normandia, parte do Porto Francês de Le Havre rumo ao Brasil. Tem um sonho: fundar uma colónia na América do Sul – a França Antárctica.
Após uma difícil viagem, a armada penetrou na baía de Guanabara, aportou a uma das suas ilhas e aí construiu um forte: Forte Coligny em honra de Gaspar de Coligny, patrocinador da empresa.
Fruto das privações dos colonos, inflamadas pelo carácter rude e autoritário de Villegaignon, a colónia começa a passar por dificuldades. Dois anos depois da chegada um novo carregamento de colonos chega da Europa, essencialmente Calvinistas Suíços.
A colónia é agora uma babel de tendências religiosas: há católicos, luteranos, calvinistas, huguenotes e, até, anabaptistas. Cada grupo vigiava todos os outros que considerava hostis. Estas lutas internas iam desviando os residentes do essencial e a construção da colónia ia sendo negligenciada.
O sonho da França Antárctica não durou mais do que uma dúzia de anos. Em 1567, já Villegaignon tinha regressado a França, os Franceses são, definitivamente, expulsos por Mem de Sá, com a ajuda de seu sobrinho Estácio de Sá, fundador da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, que viria a perder a vida no assalto.
Baseado neste facto histórico pouco conhecido Jean-Christiphe Rufin escreveu Pau-Brasil.
Guiados por duas das crianças embarcadas na expedição para aprenderem a língua dos selvagens e, deste modo, servirem de intérpretes, entre os autóctones e os colonizadores, somos levados a viver uma aventura extraordinária por terras desconhecidas.
Just, o mais velho, chegará a braço direito de Villegagnon depois de iniciado por este na nobre arte da guerra. Colombe, a mais nova, que embarcará disfarçada de rapaz por ser absolutamente proibido o embarque de mulheres, tornar-se-á, por vontade própria, um elemento de uma tribo de canibais: “gostavam dos filhos, dos pais, da tribo, do sol e das árvores favoráveis, gostavam da água das cascatas e do vento tépido das praias, gostavam da terra que satisfaz as necessidades humanas, gostavam da noite e do dia, do fogo e do sal, da avestruz e do tapir. E, nesta trama apertada de amor e medo, não estava previsto que um só ser se apoderasse de tudo em seu benefício”.
Pelo meio assistimos à penosa travessia do Atlântico, à dolorosa construção do Forte Coligny, às intestinas lutas entre facções religiosas, às crueldades de Villegaignon para impor a lei e a ordem na colónia, ao penoso encontro de civilizações até ao desfecho, ainda que um tanto cinematográfico, em que os Portugueses, finalmente, expulsam os Franceses.
Jean-Christiphe Rufin escreveu um belo romance. Em 2001, Pau-Brasil, seria agraciado com o Prémio Goncourt.

29 agosto 2006

BASTA OLHAR O CÉU

A propósito de um post que aqui deixei, onde dava conta da desclassificação de Plutão, o amigo Chico Rocha, dizia que, embora não visse o que pudesse mudar na ciência com esta decisão, não tinha dúvidas que deste modo o Universo perderia um pouco de seu romantismo.
Amigo Xico, não desanime! Desclassifiquem o que quer que seja que a nós basta-nos deitar de barriga para o ar, olhar o céu e sonhar. E olhe que nisso somos bons!
A este propósito vou recordar-lhe um delicioso diálogo do Rei Leão da Disney, entre o Simba, o Timon e o Pumba.
Uma noite sem nuvens, estavam os três deitados, olhando um céu maravilhoso. Com aquele ar sonhador que por vezes mostrava, diz o Pumba:
- Timon...
- Que é?
- Alguma vez imaginaste o que serão aqueles pontos brilhantes lá em cima?
- Pumba, eu não imagino, eu sei!
- Ah! E o que são?
- São pirilampos! Pirilampos que ficaram colados àquela coisa grande azul escura.
- Ah!... Sempre pensei que fossem bolas de gás a arder a milhões de quilómetros daqui...
- Pumba, p’ra ti, tudo é gás.
- Simba, o que é que tu achas?
- Bom, eu não sei...
- Vamos, fala, fala, fala, Simba. Vá, nós já dissemos. Por favor.
- Alguém me disse uma vez: «do alto das estrelas os grandes reis do passado contemplam-nos».
- A sério? Queres dizer que um bando de reis mortos está a olhar lá de cima?

Pois é, amigo Xico, deitados de costas, debaixo de um céu estrelado, até de olhos fechados conseguimos ver pirilampos como o Timon ou bolas de gás como o Pumba ou reis do passado como o Simba…
Basta querermos!

26 agosto 2006

O CÃO DO JOÃO MALHEIRO

De vez em quando a comunidade científica tem a delicadeza de nos assombrar com as mais inverosímeis descobertas.
Alertado por Lloyd Green, um agricultor do condado de Somerset, no sudoeste de Inglaterra, que jurava a pés juntos que o linguajar das sua amadas vaquinhas tinha o sotaque da região “ – Eu passo muito tempo com as minhas vacas, e, definitivamente, elas mugem com um sotaque de Somerset”, dizia –, Jonh Wells, especialista em fonética da Universidade de Londres, debruçou-se sobre o assunto.
O que descobriu deixou meio mundo boquiaberto: diz ele que, em pequenas populações, como rebanhos, é possível encontrar variações no dialecto que são mais afectadas pelos vizinhos mais próximos da mesma espécie. Mais disse que já foram identificadas diferenças no gorjeio de pássaros da mesma espécie mas de diferentes regiões.
Tudo isto me trouxe à memória um apreciador de vinhos que um dia conheci. Bebia um copo de verde branco, dava um estalido com a língua, e anunciava solenemente: “- Este é da encosta de Perre!”. Bebia outro, outro estalido e: “- Terras baixas de Bertiandos!”. Um terceiro: “- Veiga de Mazarefes!”. Lá chegará o dia em que bastará a um boieiro ouvir um mugido para que possa dizer: “- Esta é da vacaria do Ernesto!” ou “ – Esta é do paul de baixo! ” ou então: “- Eh pá, esta não é de cá!”.
Lloyd Green, o nosso lavrador de Somerset disse mais: “- Acontece o mesmo com os cães; quanto mais perto estamos deles, mais facilmente ficam com a nossa pronúncia”.
O que eu daria para ouvir o cão do João Malheiro!

25 agosto 2006

SERMÃO DE S. JERÓNIMO AOS PEIXES

Há duas noites o Jerónimo foi à pesca. Chegou, ainda cedo, com indumentária apropriada: fato e gravata. Como não podia deixar de ser os urubus da imprensa precederam-no. Mas Jerónimo é um rapaz que se dá bem com estes profissionais. Como não tem nada a esconder e muitos recados a enviar serve-se deles. Então, de peito feito e com aquele semblante alegre que põe em Pirescoxe quando encontra os parceiros da sueca, caminha de encontro ao batalhão da informação. Mentalmente, vai revendo as notas que tinha preparado para o momento: a sardinha, a cavala, uma ou outra dourada, o besugo, o robalo, se viesse a talhe de foice – que bela palavra, foice – falaria também das belas carpas que costumava pescar com os amigos nas barragens do Alentejo… só não conseguia lembrar-se por que carga d’água tinha apontado o tubarão, mas, adiante...
- Senhor Secretário-geral pode fazer um comentário sobre o pedido de demissão do Presidente Carlos Sousa?
Jerónimo de Sousa emudeceu – “Onde é que este gajo foi buscar esta pergunta? Vou à sardinha e ele a perguntar-me sobre arenques.” No compasso de espera que se seguiu, Jerónimo, mentalmente, abandonou as notas que tão apropriadas eram à situação e pensou no sermão de Santo António aos peixes. Com aquele semblante estudado com que os políticos atacam os momentos dramáticos atirou:
- Sabe, por vezes os melhores homens não são os homens melhores.
Não me recordo se a conversa com os jornalistas continuou ou terminou logo ali. Esta linguagem hermética que os políticos constantemente utilizam deixa-me sem vontade de continuar a ouvi-los. Invariavelmente, esta gente fala apenas para meia dúzia de iniciados que normalmente os acompanham: pelo menos é o que se depreende dos seus sorrisinhos aquiescentes quando ouvem as tiradas do chefe. E nós, a arraia-miúda, os tontos, os que, religiosamente, ligamos a televisão às oito da noite, olhamos invejosamente para a sapiência espelhada nos seus rostos e pensamos: “- Porque é que o Criador não nos apetrechou também com dois palmos de testa como àqueles senhores?”

24 agosto 2006

DE CAVALO PARA BURRO

O Astrónomo americano Clyde Tombaugh nasceu a 4 de Fevereiro de 1906 em Streator, Illinois. A sua coroa de glória ganhou-a em Fevereiro de 1930, tinha então 24 anos, quando descobriu e fotografou um corpo celeste que viria a ser o nono planeta do Sistema Solar. Seria baptizado com o nome de Plutão. A sua órbita, para lá de Neptuno, demora 248 anos a percorrer.
Quase a completar 91 anos de idade, a 17 de Janeiro de 1997, Tombaugh, morreu em Las Cruces, Novo México. A sua descoberta pouco lhe sobreviveu.
Reunida em Praga, a fina-flor da astronomia mundial, embora ainda que não a uma só voz, decidiu desclassificar Plutão. A sua insignificância, em termos de tamanho, não lhe permitia ser um planeta. Pertence agora à categoria a que já pertenciam o calhau Ceres, perdido na cintura de asteróides entre Marte e Júpiter ou o enigmático 2003UB313, um corpo celeste que “erra” pelo espaço para além da órbita de Plutão, demorando 560 anos a dar uma volta ao Sol.
As nossas criancinhas têm, agora, menos uma palavra na lenga-lenga: Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno!

23 agosto 2006

CAMINHADA EM PAISAGEM PROTEGIDA

Ontem, a família arrastou-me para as Lagoas de Bertiandos, ou, para utilizar o seu nome na forma mais pomposa: Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos. A zona fica na margem direita do rio Lima, já muito próximo da Vila de Ponte de Lima.
Lá chegados toca a escolher o percurso. Como ninguém quisesse dar sinal de fraco, escolhemos o percurso IV, uma jornada com uns extensos 7,5 km.
Como na recepção nos dissessem que os percursos estavam devidamente assinalados, prescindimos de um mapa. Fizemos mal. Pouco ainda tínhamos caminhado e o trilho IV chegava abruptamente a uma estrada camarária. Ficamos sem saber por onde seguir – sabê-lo-íamos mais tarde já no carro e de regresso – pelo que tomamos a decisão que se nos afigurou mais sensata nesta situação: voltamos para trás. Recuamos até uma bifurcação e, entre o I, o II e o III lá fomos andando. Sem saber bem qual o percurso que seguíamos em cada momento, lá regressamos ao ponto de partida.
Confesso que não me esforcei grandemente mas também só vi um sardão, uma rã, três borboletas e meia dúzia de gafanhotos. Ah, e também ouvi alguns chilreios, não conseguindo, no entanto, descortinar a origem.
Embora o tempo esteja quente e, consequentemente, a paisagem, embora húmida, se ressinta disso, o passeio é agradável e recomenda-se. Podiam, é certo, mondar alguns eucaliptos e podar os salgueiros que nos obrigam, não raras vezes, a dobrar a espinha nos passadiços de madeira. E já agora, rever a informação sobre os percursos.Já combinamos voltar às Lagoas mas só depois das primeiras chuvas, já bem entrados no Outono. Nessa altura prometo estar mais atento à natureza e tentar descortinar, mesmo que fugidiamente, qualquer um dos exemplares que na recepção nos dizem passear por aquelas bandas.

EU, PECADOR, ME CONFESSO!

Há uns tempos, a minha amiga Helena, enviou-me por correio electrónico aquilo que seria, talvez na óptica de uma mulher, o banho de uma dama e o banho de um cavalheiro. Confesso que raramente me terei rido tanto ao ler seja o que fosse. Partilhei esse texto com alguns amigos e pensei ficar por aí. Hoje, porém, encorajado pelo amigo Pedro Nelito, resolvi partilhar essa pérola literária com todos os que a quiserem aceitar. Espero, apenas, que ninguém fique chocado com a sua leitura. Então aqui vai:

O BANHO DA MULHER

1. Tira a roupa delicadamente e coloca-a no cesto da roupa suja tendo atenção para não misturar peças de cores diferentes.

2. Vai para a casa de banho embrulhada num roupão. Se vê o marido/namorado, cobre-se bem e dá uma corrida até à casa de banho.

3. Pára em frente ao espelho e observa a sua figura. Espeta a barriga para se poder queixar do "gorda" que está.

4. Entra para a banheira. Pega nas luvas da cara, dos braços, das pernas, das costas e a pedra-pomes.

5. Lava o cabelo com champô de abacate/mel com 83 vitaminas.

6. Volta a lavar o cabelo com o champô de abacate/mel com 83 vitaminas.

7. Põe acondicionador para o cabelo de abacate/mel com 83 vitaminas e espera 15 minutos.

8. Lava a cara com uma mistura de pêssego durante 10 minutos, até que fique vermelha.

9. Lava o resto do corpo com sabonete de nozes e morangos, especial para corpo.

10. Retira o acondicionador da cabeça (este processo leva cerca de 10 minutos porque é preciso assegurar-se que se retirou todo o acondicionador).

11. Corta os pelos das axilas e das pernas. Considera barbear também a zona do bikini mas opta por depilá-la.

12. Grita desesperada quando o marido/namorado puxa o autoclismo e a água perde pressão.

13. Fecha a água do duche.

14. Escorre todas as partes molhadas dentro da banheira.

15. Sai da banheira e seca-se com um toalhão do tamanho de África.

16. Põe uma toalha super absorvente na cabeça.

17. Pesquisa todo o corpo à procura de pontos negros e ataca-os com as unhas ou uma pinça.

18. Regressa ao quarto embrulhada no roupão. Se vê o marido/namorado, cobre-se bem e dá uma corrida até ao quarto.

19. Demora mais uma hora e meia vestindo-se.


O BANHO DO HOMEM

1. Coça os tomates, enquanto decide se toma banho ou não.

2. Diz "Que porra!", dá um peido e, sentado na cama, despe-se atirando a roupa para o chão.

3. Em cuecas vai para a casa de banho. Se vê a mulher/namorada, mostra-lhe a pila e imita o som do elefante.

4. Pára em frente ao espelho para se observar. Encolhe a barriga, admira o tamanho da pila ao espelho, coça os tomates e cheira as mãos antes de tomar banho.

5. Entra na banheira.

6. Lava a cara com sabão azul e branco.

7. Lava a cabeça com sabão azul e branco.

8. Faz um penteado "punk“.

9. Abre a cortina do duche para se ver ao espelho com o penteado "punk“.

10. Farta-se de rir com o barulho que faz dar um peido dentro da banheira

11. Lava as partes privadas e os arredores com sabão azul e branco.

12. Lava o rabo com sabão azul e branco e deixa-o cheio de pêlos.

13. Mija dentro do duche, tentando acertar no ralo.

14. Apercebe-se que o chão está encharcado porque deixou a cortina de fora quando se foi ver ao espelho.

15. Sai do duche e semi-enxuga-se.

16. Vê-se outra vez ao espelho, fazendo músculos e vendo o tamanho da pila.

17. Deixa a cortina aberta, o sabão no chão e o tapete molhado.

18. Deixa a luz da casa de banho acesa.

19. Regressa ao quarto com uma toalha à cintura. Se vê a mulher/namorada, mostra-lhe a pila e volta a imitar o som do elefante.

20. Atira a toalha molhada para a cama e veste-se em 2 minutos.

21 agosto 2006

JOE ROSENTHAL

Em Fevereiro de 1945, trinta mil fuzileiros do exército dos Estados Unidos da América desembarcam nas costas de Iwo Jima, uma ilha Japonesa, defendida por vinte mil soldados. A luta que se segue é encarniçada. No final contam-se seis mil baixas do lado dos Americanas e a quase totalidade dos sitiados. Depois da vitória, seis fuzileiros sobem o monte Suribachi e erguem uma bandeira americana simbolizando a vitória. O fotógrafo Joe Rosenthal estava lá e registou esse momento. A fotografia ganhou o prémio Pulitzer e tornar-se-ia numa das mais conhecidas da segunda Guerra Mundial e de todo o séc. XX, servindo de modelo a uma escultura para o monumento da Infantaria dos EUA no Cemitério Nacional de Arlington, inaugurado em 1954.
Embora os seus detractores sempre o tenham acusado de ter forjado a fotografia, Rosenthal sempre se recusou a aceitar a acusação, afirmando que ela foi o resultado de um momento único não planeado. Numa entrevista, em 1995, explicou que a fotografia foi tirada na segunda vez que os soldados subiram ao monte já que da primeira os oficiais acharam que as dimensões da bandeira eram reduzidas.
Joe Rosenthal nasceu a 9 de Outubro de 1911 em Washington. Durante a Grande Depressão mudou-se para S. Francisco começando a trabalhar no Newspaper Enterprise Association em 1930, seguindo-se o San Francisco News, a Associeted Press – para a qual tirou a famosa fotografia – e, finalmente, o San Francisco Chronicle até se reformar.
Ontem, 20 de Outubro, aos 94 anos, enquanto dormia no asilo para idosos de Novato, Califórnia, Joe Rosenthal morreu. Sua filha Annne diria: “Ele era um homem bom e honesto, uma pessoa realmente íntegra”.
Apesar dos críticos, dos cépticos e dos invejosos “Raising the Flag on Iwo Jima” continuará a ser um ícone.

20 agosto 2006

NÃO FOI POR INVEJA QUE FIQUEI CHORANDO...

Um dia, se for a Marraquexe, reconstituirei – tentarei fazê-lo, pelo menos – os passos de Elias Canetti. Hei-de ir ao mercado de camelos junto do muro de Babel-Khemis, hei-de visitar os souks e apreciar as especiarias e os artigos de couro e os tapetes e as ourivesarias e os artigos de cobre e as lãs coloridas e os cestos e as cordas e os mil cheiros e as mil cores e os mil pregões, hei-de ir a Mellah e a Berrima, hei-de procurar os contadores de histórias e os escribas, hei-de apreciar os contrastes da grande praça Djema el Fna no centro da cidade e hei-de escolher um pão, o melhor que a fila de mulheres tenha para vender. Por fim, rumarei a Sul em direcção às montanhas do Atlas procurando Aghmat, a cerca de uma trintena de quilómetros de Marraquexe, para visitar a tumba de Muhammad ibn 'Abbad al-Mu'tamid, o Rei-Poeta de Sevilha para lhe prestar a minha homenagem.
Al-Mu'tamid, filho do rei Al-Mutadid, nasceu em Beja em 1040. Aos treze anos era já governador de Silves, nomeado após ter comandado uma expedição militar que esmagou uma rebelião na cidade. É nesta altura que conhece Ibn Ammar um poeta que terá nascido na actual Estômbar. Entre os dois cresce, então, uma profunda relação de amizade que, por vezes, se especula ser de natureza homossexual. O seu pai tentará, enquanto viver, afastar o filho daquele que pensa ser uma companhia tão nefasta quanto perigosa para o seu herdeiro.
Com a morte do pai em 1069, Al-Mu'tamid sucede-lhe como rei da taifa de Sevilha. Uma das primeiras decisões que toma é nomear Ibn Ammar, o seu grande amigo, vizir do reino. Este ajuda-o na expansão das suas possessões com a conquista de Múrcia, praça que lhe será entregue para governar.
Por esta altura, a corte de Al-Mu'tamid, fervilha de arte e ciência. Lá se reunem, entre outros, o astrónomo Al-Zarqali, o geógrafo Al-Bakri e os poetas Ibn Hamdis, Ibn Al-Labbana e Ibn Zaydun.
Ibn Ammar, além de brilhante estratego, excelente diplomata e magnífico poeta, era excepcionalmente ambicioso. Muitas vezes conspirou contra o seu senhor, usando, por vezes, a poesia para o ridicularizar, mas a amizade que Al-Mu'tamid sentia pelo seu vizir era tão profunda que, em vez de ficar magoado com a mensagem dos poemas, preferia destacar as qualidades poéticas dos escritos do amigo. Porém, anos depois, acabaria por mandar prendê-lo e, num acesso de raiva, entraria na sua cela e tirar-lhe-ia a vida.
Por esta altura, o Rei Afonso VI de Leão e Castela pressionava o Al Andaluz, chegando a conquistar Toledo em 1085. Vendo que o seu reino começava a correr perigo e privado das qualidades guerreiras e negociais do amigo morto, Al-Mu'tamid, ainda que relutantemente, pede ajuda Yusuf ibn Tashufin, emir dos Almorávidas do norte de África, para lutar contra os Cristãos. O emir dos Almorávidas cede ao seu pedido e envia tropas para a Península que o ajudarão a derrotar Afonso VI, na Batalha de Zalaca, em 1086.
Quatro anos mais tarde, o Rei Cristão volta a investir contra o Reinos Islâmicos e Al-Mu'tamid volta a pedir ajuda. Ibn Tashufin torna a vir em seu auxílio mas desta vez não se limitará a prestar ajuda a Al-Mu'tamid.
Após ter repelido os Cristãos, Ibn Tashufin conquista os reinos islâmicos da Península. Al-Mu'Tamid é feito prisioneiro e desterrado para Aghmat. Por lá passará, penosamente, em cativeiro, os últimos quatro anos da sua vida.
É por esta altura que escreve o mais belo poema que um homem privado de liberdade pode escrever:

Chorei quando vi passar
livre, sobre mim voando,
o bando de cortiçóis.
Nem grades nem grilhetas os detinham.
Não foi por inveja que fiquei chorando...
apenas nostalgia de ser livre,
sem sentir dispersas
as próprias entranhas
e sem filhos mortos
que ao pranto me obrigassem.
Felizes aves:
nunca se apartaram do bando,
não sentem a ausência da família,
nem passam a noite,
como eu, de coração inquieto
ao ranger da porta da cela
ou ao chiar do ferrolho.
Tais sobressaltos não são apenas meus,
fazem parte da humana condição.
Desejo vivamente só a morte.
Outro, quem sabe, se sujeitaria
à vida com grilhetas, mas eu não!
Alá, proteja os cortiçóis
e também as suas crias
pois às minhas, desventuradamente,
abandonaram-nas água e sombra.

15 agosto 2006

COLEGA AHMADINEJAD

Os americanos e os israelitas têm, por estes dias, as orelhas a arder: o colega Ahmadinejad rendeu-se às virtudes da blogosfera. Pena que não deixe grande parte dos seus concidadãos fazer o mesmo.
De qualquer modo não é de aconselhar um grande número de visitas: estaremos expostos a radiação que se pode tornar perigosa.

14 DE AGOSTO DE 1385

A 14 de Agosto de 1385, fez ontem 621 anos, Nuestros Hermanos arrependeram-se de cá ter vindo. Animado pelo seu apetite expansionista, e considerando ser o natural pretendente ao trono de Portugal, em face do seu casamento com D. Beatriz, filha do Rei D. Fernando que não deixou filho varão que lhe sucedesse, D. João de Castela, à frente de um exército de 31 000 homens, invadiu Portugal. Os Castelhanos eram em muito maior número mas os portugueses – seriam cerca de 6 500 –, superiormente liderados por D. João mestre de Aviz e por D. Nuno Álvares Pereira, lograram infligir uma pesada derrota ao inimigo. A contenda teve início pelas seis horas da tarde e ao pôr-do-sol, D. João de Castela, apercebendo-se da impossibilidade de defesa das suas posições, manda retirar. Mais tarde diria que a derrota foi motivada pelo cansaço das suas hostes depois de um dia de marcha sob intenso calor.
O nascer do dia mostrou a dimensão do desastre. Os cadáveres eram tantos que – diz-se –, barravam os cursos de duas ribeiras que flanqueavam a colina onde se desenrolou a contenda.
A Batalha de Aljubarrota encerra, definitivamente, a crise de 1383/1385. O mestre de Aviz torna-se D. João I, dando início à Dinastia de Aviz. Para comemorar a vitória o rei manda construir o mosteiro de Santa Maria da Vitória e funda a vila da Batalha.

COMPRIMIDO-MARAVILHA

O geneticista Hans Hilger-Ropers, investigador do Instituto de Genética Molecular de Berlim, diz a Sky News, está em vias de assombrar o mundo com a descoberta de uma pílula que, literalmente, acabará com a burrice. Embora a investigação ainda não esteja terminada – ainda só entraram ratinhos e moscas-da-fruta –, os resultados já alcançados permitem acalentar as maiores esperanças.
A pílula, actuando sobre as células nervosas do cérebro, ajuda a estabilizar a memória e desenvolve e estimula a atenção.
A comunidade científica, mal soube da iminente descoberta, apressou-se a vir a público desmascarar o pobre investigador. Que não, que embora se possam estimular algumas regiões do cérebro – e para isso existem já químicos que o fazem –, não é possível aumentar o QI. Talvez em maior grau que em qualquer outra, nesta comunidade continua a cultivar-se a inveja!
Cá por mim vou esperar ansiosamente que o Doutor Hilger-Ropers deixe as moscas-da-fruta – encontra facilmente humanos com um cérebro igual –, termine a sua investigação e presenteie o mundo com o comprimido-maravilha.
Os primeiros devem ir directamente para tratamento do secretário Valter, que deve tomar um de seis em seis horas até desaparecerem os sintomas.
E você, caro leitor, quem aconselha? E qual a posologia?

Pelo sim pelo não, vou também encomendar uma caixa. É que há tantas coisas que não entendo…

11 agosto 2006

NEM QUE SEJA UMA GAROA

Desgraçadamente, o país continua a arder!
A natureza não ajuda: as temperaturas continuam altíssimas e a humidade baixíssima;
Os homens também não: por negligência ou por maldade continuam a atear fogos.
Somando todos os hectares que anualmente vão sendo consumidos pelas chamas, temo que as nossas florestas não consigam aguentar por muito mais tempo. Duvido que a mãe natureza tenha capacidade de regeneração que permita acudir a todas estas perdas.
Ou será que estarei enganado? Será que desde sempre, durante o Verão, aconteceu esta desgraça só que as notícias demoravam muito mais tempo a chegar – quando chegavam – levando-nos a pensar que os fogos eram apenas aqueles que queimavam os montes que se divisavam da nossa janela? Hoje, o fogo e o desespero das pessoas entram-nos em directo pelas casas adentro e o horror é repetido até à exaustão, com todas as televisões a competir pelos pelas melhores imagens – pelo maior pavor, entenda-se.
Lembro-me de em tempos ouvir o director de uma estação de televisão Japonesa, afirmar, a propósito do poder imenso da televisão: “Se a televisão não mostrou o incêndio na floresta, será que ela, realmente, ardeu?”. Tenho pensado bastante nisso. Será que a floresta sempre ardeu como agora só que como a televisão não mostrou...
Gostava de ouvir algumas opiniões.
Entretanto, socorro-me de um poema de Geraldo Azevedo, pedindo a S. Pedro que mande alguma chuva - nem que seja uma garoa - aqui para o nosso sertão, e já agora para os Galegos nossos vizinhos que não estão nada melhor do que nós:



Meu São Pedro me ajude
Mande chuva, chuva boa
Chuvisquinho, chuvisquinho
Nem que seja uma garoa


Geraldo Azevedo, Balão de Garoa

07 agosto 2006

REPÓRTER DE GUERRA

Num destes dias, na abertura das notícias da noite de um dos canais, as sacrossantas notícias do horror. O repórter, não sei já se do Norte de Israel se do Sul do Líbano, dá-nos a sua visão dos acontecimentos. Mostra os estragos, grita impropérios para os do outro lado, põe aquela carinha de choque que tinha já posto na reportagem sobre o Mark Dutroux, dá-nos uma prelecção sobre armamento pesado, menos pesado e ligeiro, mostra um grande plano da família que perdeu tudo e despede-se dos telespectadores agradecidos. Amanhã, fará uma incursão ao outro lado e a reportagem será de lá. Mas só a geografia mudará, o directo será, penosamente, o mesmo: os estragos, os impropérios, o semblante, a prelecção, o grande plano.
Não me recordo se consegui assistir à totalidade da reportagem, mas lembro-me de na altura ter pensado em Miguel Torga quando visitou Rio de Onor. Dizia ele: “Ao cabo de oito dias de permanência num mundo destes, com sua língua própria, seus costumes e suas leis, nada escrevi sobre ele, nem sinto que venha a escrever grande coisa. Qualquer jornalista apressado, sem as sete horas de caminho que eu fiz sobre um macho para aqui chegar, faria melhor do que eu. Instalado num hotel de Bragança, com três informações e duas anedotas teria assunto para uma reportagem sensacional.
Pois é, enquanto que os nossos repórteres não conseguirem deslocar-se sobre um macho continuarão a fazer reportagens incolores, inodoras, insípidas e, as mais das vezes, imbecis.

02 agosto 2006

SABER OUVIR

Ao visitante que percorre o souk, nada o separa dos objectos, sejam portas, sejam vidros. E o comerciante, que se rodeia dos seus artigos, nunca os identifica, podendo sempre alcançar quanto tem à venda. Seja o que for, tudo se entrega ao visitante, espontaneamente, sem reservas. Assim, pode ele conservar pelo tempo que quiser, este ou aquele objecto. Pode apreciá-los calmamente, fazer perguntas, levantar dúvidas e até, se a sua disposição lho permitir, contar a sua história, a história dos seus antepassados, ou a história de toda a humanidade, sem que isso o obrigue a comprar seja o que for.
Elias Canetti, As Vozes de Marraquexe

Nascido em 1905 em Rutschuck, uma cidade que hoje pertence à Bulgária mas que à época integrava o império Austro-Húngaro, Elias Canetti, de ascendência Judia, viria a falecer em 1994. Com apenas 6 anos de idade, em 1911, a família parte para Inglaterra, instalando-se em Manchester onde o pai se dedica, com bastante sucesso, ao comércio têxtil, mas um ano depois, em 1912, o seu desaparecimento abalá-lo-á enormemente a ponto de, continuamente, meditar sobre a falta de sentido da morte. “A mais alta e mais formosa tarefa do ser humano é lutar contra a morte”, dizia. No ano seguinte viaja entre Zurique, Viena e Frankfurt. É nesta altura que aprende o alemão que virá a ser a sua língua literária. Na segunda metade dos anos trinta, talvez incomodado com a barbárie que, a pouco e pouco se ia instalando na Alemanha, parte para Inglaterra. Aí produz parte substancial da sua obra que lhe valerá, em 1981, o prémio Nobel da Literatura.
Não sei bem porquê, nestes dias de ódio, lembrei-me de Elias Canetti. Em tempos li “As vozes de Marraquexe”, um belo relato de uma viagem que o autor fez a Marrocos, acompanhando um grupo de amigos cineastas que aí foram filmar. O livro relata as suas deambulações por toda a cidade e a incessante busca do conhecimento de todas as facetas do povo autóctone – fosse árabe ou judeu – e do seu modo de vida, tentando – e conseguindo-o, diga-se – escutar as mil vozes da grande cidade. Fá-lo com tanta sensibilidade, respeito pelas tradições locais e humanismo que toda a obra é um apelo à sã convivência entre os povos.
Vou relê-lo! É uma verdadeira lição para todos nós. Ensina a ouvir e, não tenhamos ilusões, nem todos nós o sabemos fazer.

EVOLUÇÃO NA CONTINUIDADE?

No passado dia 31 de Julho – há dois dias, dito de outra forma –, o governo cubano emitia um comunicado oficial, dando conta dos problemas que apoquentavam o seu Presidente, Fidel Castro. Assinado pelo próprio, o comunicado revela que o líder sofreu uma "crise intestinal aguda com hemorragia, que o obriga a ser submetido a delicada intervenção cirúrgica".
Em face disso, Fidel, delega, ainda que com carácter provisório, no seu irmão Raul – segunda figura do regime e actual ministro das Forças Armadas –, os cargos de primeiro secretário do Partido Comunista, de presidente do Conselho de Estado [Governo] e de Comandante-Chefe das Forças Armadas.
Sobre isto, no JN de hoje, dizia David Pontes: "É cruel pedir a morte de alguém, mesmo que seja por velhice. Mas, infelizmente, há povos que parece não terem outro remédio que esperar que o ditador caia da cadeira ou que definhe no leito da doença. Que venha pois a morte, natural e irremissível, e que, com ela, naturalmente, desapareça a ditadura cubana e os sorrisos possam voltar a ser verdadeiros".

29 julho 2006

ORA DI DJUNTA MON TCHIGA



E eu que não sou Deus!
E eu árido de respostas!
E eu vazio de verdades!
E eu que apenas sou África
nos entretantos das minhas
Comodidades!

...

José Luís Carvalhido da Ponte, ora di djunta mon tchiga.
Extracto do poema “é quase noite”



José Luís Carvalhido da Ponte é professor por vocação e poeta por devoção. Ontem assisti ao lançamento da sua mais recente obra: ora di djunta mon tchiga. O título, em crioulo, significa, em língua de branco, é a hora de darmos as mãos.
José Luís, 57 anos de idade – completá-los-á dentro de 19 dias, a 17 de Agosto – cumpriu, no início dos anos 70 do século passado, o serviço militar na então colónia portuguesa da Guiné. Ter-lhe-á ficado algo daquela terra – agarrado não sei se ao corpo se à alma – porque trinta anos depois de lá ter aportado pela primeira vez, regressou. Embora o objectivo tivesse sido trabalhar na formação de professores de Português na Guiné-Bissau, o apelo da terra amada terá sido bem forte. Desde essa altura tem regressado todos os anos.
Ele não o disse mas pareceu-me adivinhar nas suas palavras que a cada novo regresso o seu amor por aquela terra, onde apenas não falta o sorriso, a alegria e a amizade, cresce mais e mais – se desaparecessem as árvores, as plantas, os animais e o Sol, a Guiné não teria mais nada, diria. Fazendo a comparação entre a terra que deixou no regresso da guerra colonial e o país que encontrou no dealbar deste século não se coibiu de afirmar: “- O que vou dizer não será politicamente correcto mas sinto que, mesmo assim, devo dizê-lo: agora é que a Guiné está a ser explorada!” Ainda bem que temos poetas que não se encolhem perante o politicamente correcto! É que dizem as coisas muito melhor que nós dizemos.
Talvez pensando em todas as Djamilas e Marys daquele país Africano, o poeta quer construir uma pequena maternidade no Cacheu. Para ajudar decidiu oferecer a totalidade dos lucros obtidos com a venda deste livro de 36 belos poemas e cerca de duas dúzias de belas fotografias. Embora a sua modéstia o mandasse dizer o contrário, os poemas, as fotografias e a nobreza da ideia que está por detrás deste trabalho, valem bem os 15 euros que se paga por ele. Assim a edição esgote rapidamente.
Ora di djunta mon tchiga.

CLARO QUE TENHO FOME!

Claro que tenho fome!
Claro que tenho medo
de esquecer meu nome
de perder meu segredo!

Claro que não sei ler!
Mas não temo sonhar
que um dia hei-de saciar
o ventre de uma mulher.

Hei-de dizer a meu filho
que as árvores morrem de pé.
Ele vai entender, eu confio,
e quando dermos as mãos,
na gramática do amor,
havemos de construir
uma nova Guiné.
Não vês como sei sorrir?

José Luís Carvalhido da Ponte, ora di djunta mon tchiga, Julho de 2006

27 julho 2006

OS "HACKERS" ESTÃO ENTRE NÓS!

Na sua crónica da última página do JN de ontem, como habitualmente, Manuel António Pina, obsequiou-nos com uma história das arábias – um dia este homem há-de ser lembrado como o Cronista do Entroncamento. A história que nos contou leu-a no Washington Post. Rezava mais ou menos assim: No último fim-de-semana, realizou-se em Nova Iorque uma reunião de hackers – a notícia não o diz, ou, pelo menos, o cronista não o refere, mas imagino a Microsoft como sendo o principal patrocinador deste evento. Bill Gates precisa de dormir com o inimigo. A reunião terá sido aberta ao público, pelo menos a algum, porque a certa altura, um dos elementos pediu a uma pessoa da assistência o nome e o endereço de e-mail. Quatro horas mais tarde o especialista apresentou ao incrédulo assistente 500 páginas de dados a seu respeito que tinha surripiado sabe-se lá a quem ou onde, torneando firewalls, contornando antivírus, circundando anti-spyware, ladeando anti-sniffers, enfim... Dessas páginas constavam informações como: lugares onde vivera, automóveis que conduzira, nomes, moradas e fotos de familiares e amigos, o cadastro do irmão, e, pasme-se, o incrédulo assistente foi ainda informado que, desde 1983, outra pessoa andava a usar o seu número da Segurança Social.
Em tempos deixei aqui um post a que dei o nome de PANOPTICON VIRTUAL. Verifico que cada vez mais, as palavras do Viajante Gabriel ganham actualidade: “As pessoas querem acreditar que há uma ilha tropical ou uma gruta nas montanhas onde se podem esconder, mas hoje em dia isso já não é verdade. Quer gostemos, quer não, estamos todos ligados.”

24 julho 2006

NÃO VÁ, TELEFONE!

O governo continua a porfiar no meritório objectivo de colocar a internet ao serviço da simplificação da vida dos cidadãos e do emagrecimento do estado – das contas do estado, entenda-se –, isto é, continua a cruzada pela implementação do simplex. Pena que nem sempre as infra-estruturas estejam preparadas para tão louváveis propósitos. A recente novela da compra do selo do carro, trouxe-me à memória uma célebre frase publicitária com que nos anos 30 do século passado a APT (Anglo-Portuguese Telephone), antepassada dos TLP/CTT e PT, tentou convencer os portugueses a instalarem telefone: NÃO VÁ, TELEFONE! A campanha, mau grado os óptimos métodos publicitários utilizados, não terá surtido o efeito que os seus responsáveis esperariam: além de outros factores, as condições económicas do país não ajudavam. Algumas décadas mais tarde, por alturas da primavera marcelista, quando as taxas de crescimento económico começaram a ter alguma visibilidade, os telefones começaram, finalmente, a ser instalados. Tal era a procura que os problemas de saturação e, consequentemente, de falhas de comunicação, começaram a atormentar a vida dos utilizadores. Daí até à chegada da frase: NÃO TELEFONE, VÁ! foi um ápice.
Senhor primeiro-ministro, para que não nos voltemos a lembrar desta famigerada frase, não seria de alargar as auto-estradas da informação para que não se congestionem sempre que há um aumento de tráfego?

21 julho 2006

HUMOR FINO

Sempre achei a nossa ministra da educação uma pessoa cinzentona, com aquela sua pelezinha esticada, aquele seu estilo lânguido, empalidecido pelos jejuns e mortificações da virtude – como diria Lobo Antunes, se perdesse tempo com estas coisas –, uma daquelas personagens de que os pais se socorrem em momentos de aflição: “- Se não comes a sopa toda vais passar a tarde a casa da dona Maria de Lurdes!”. Sempre achei, até ontem. Afinal a senhora é dona de um finíssimo sentido de humor, que de tão subtil me tinha passado despercebido: Genericamente, os exames correram bem! Disse a boa senhora, ontem, no Parlamento.

19 julho 2006

MUSEU DE CINEMA DE MELGAÇO

Com uma periodicidade ditada pelos afazeres profissionais e domésticos do grupo, eu, juntamente com a Ana, a Andrea, o Bento, a Helena e o Luís, tiramos um dia, ou, pelo menos, parte dele, para nos reunirmos. Invariavelmente as nossas reuniões são compostas por duas partes.
- A primeira, mais teórica, digamos, é passada à roda de uma mesa que o Bento ou o Luís – os maiores experts em gastronomia que conheço, embora a Ana esteja, já, no bom caminho – escolhem. A agenda é aberta de modo que cabem lá todos os temas – se bem que uns mais confessáveis que outros: livros, viagens, discos, férias, filmes, trabalho, colegas, família, alguma política, muita má-língua, pouco futebol, algum fado, Fátima q.b.…
- A segunda, mais social, tanto pode ser uma visita à Igreja do Marco de Canaveses como um passeio pelas íngremes bancadas do incomparável estádio do Braga.
Ontem reunimo-nos na Vila de Melgaço. A primeira parte foi na Adega do Sossego, uma acolhedora casinha onde fomos simpaticamente recebidos e principescamente servidos. Depois de termos passado em revista todos os habituais temas fomos cumprir a segunda parte da nossa reunião: uma visita ao Museu de Cinema de Melgaço.
Jean-Loup Passek é, desde o início dos anos setenta do século passado, o responsável pelo Festival International du Filme de la Rochelle e conselheiro de Cinema do Centro Georges Pompidou. Um dia, já lá vão cerca de trinta anos, o cineasta realizou um documentário sobre a presença dos imigrantes portugueses em França. Na altura travou conhecimento com um casal de trabalhadores Lusos que por lá labutavam. Daí a ter sido por eles convidado para passar férias em Portugal foi um passo. Passek aceitou o convite e eis que rumam a Portugal à terra dos imigrantes – Melgaço. O cineasta ficou encantado. Comprou casa por cá e não mais se desligou da Vila. Um destes dias, a propósito do cinquentenário da Fundação Calouste Gulbenkian, António Barreto dizia que nunca conheceremos todas as razões que levaram a que um dos homens mais ricos do mundo doasse a sua colossal fortuna a Portugal. Talvez Jean-Loup Passek tenha sentido o mesmo que o velho capitalista sentiu ao cá chegar: a simpatia das pessoas, a beleza da terra, a paz que lhe faltava no seu país… O certo é que o cineasta decidiu doar à pequena vila de Melgaço um dos maiores espólios de artefactos cinematográficos que uma pessoa conseguiu reunir, espólio esse que era disputado por grande parte dos países da Europa.
Com a ajuda da Câmara Municipal de Melgaço, conseguiu arranjar-se um espaço que, apesar de nobre, é já, ao que me dizem, exíguo para expor todos os tesouros deste homem. O museu está instalado numa casinha de dois pisos, literalmente, colada à parede protectora da muralha da vila. O edifício, que já foi Posto da Guarda-fiscal de Melgaço, foi minuciosamente reparado e preparado para o efeito.
Lá estão todas aquelas maquinetas imaginadas e laboriosamente construídas pelos gloriosos malucos das máquinas de sonhos que a partir dos finais do séc. XIX começaram a trilhar o árduo caminho que levaria àquilo a que hoje chamamos cinema.
Se passar por perto aconselho-o vivamente a visitar a este acolhedor museu.
A nossa próxima reunião será para os lados de Trás-os-Montes. A mesa, parte importantíssima, estará já escolhida pelos nossos experts. A parte lúdica será uma peregrinação a uma ou outra fraga que em tempos acolheu Miguel Torga nas suas caçadas pela região.
Passando em revista todas as reuniões que já fizemos e a amizade que se foi alicerçando entre nós não posso deixar de me lembrar do poeta de S. Martinho da Anta quando diz que viver é sobretudo amar e ser amado.
Confesso que tenho vivido!

11 julho 2006

SEM EMENDA

Não temos mesmo emenda! Então não é que o Senhor Madaíl vai pedir ao Governo que isente de IRS o prémio devido aos nossos homens da bola pelo facto de representarem o país no Mundial de Alemanha?
Vê-se que este senhor não entendeu nada do que disse o Presidente da República na Alemanha quando instou todos os Portugueses a aproveitarem a energia gerada pela louvável participação portuguesa no mundial, encaminhando-a para outras batalhas. Senhor Gilberto Madaíl, pagar os impostos que são devidos a qualquer rendimento, é uma obrigação de todos e de cada um! Do atleta fora de série que se esforçou por elevar o nome do seu país e do trabalhador que com o ordenado mínimo luta para dar aos seus filhos um futuro melhor. Com dirigentes como o senhor, jamais sairemos vencedores desta contenda. Por favor, desminta-se ou, então, cale-se!
E já agora, será que os verdadeiros interessados ter-lhe-ão encomendado qualquer sermão? Será que o Figo e companhia concordarão com essa monstruosidade? Gostaria de o saber...
Talvez que um destes dias qualquer um deles diga algo sobre o assunto.

09 julho 2006

ITÁLIA CAMPEÃ

Na sua última crónica, antes da final do mundial, Francisco José Viegas dava-nos a conhecer o seu desejo para o jogo: que perdessem os dois. Eu não iria tão longe mas que gostei de ver aquele senhor vestido de corvo saboreando sozinho a derrota, lá isso gostei.

VICTIS HONOR!

A Selecção Portuguesa de Futebol, que no campeonato do mundo da Alemanha conquistou um honroso 4.º lugar, regressou hoje. O país agradeceu-lhes o feito e eles ficaram sensibilizados com esse gesto. Foi bonito de se ver.
Obrigado rapazes! Ficamos a torcer pela vossa próxima vitória.

08 julho 2006

PROFESSORES DE FRANCÊS

Semanalmente, de segunda à sexta, José Coimbra e Carla Rocha, ajudam, estou certo disso, uma quantidade enorme de portugueses a começar alegremente o seu dia. Apresentam o “café da manhã” na RFM e distribuem alegria, inteligência e boa disposição por todos aqueles que os sintonizam. Ontem promoveram um concurso em que ofereciam uma viagem a Estugarda para assistir ao jogo entre Portugal e Alemanha para atribuição do 3.º lugar do campeonato do Mundo de Futebol, ao concorrente que acertasse numa determinada pergunta, geralmente relacionada com o dito. Chegada a vez do 2.º participante – a comunicação era feita por telefone –, depois dos cumprimentos iniciais, o José Coimbra, antes de fazer a pergunta, fez um comentário acerca do recente Portugal – França, perguntando, de seguida, ao concorrente: “Está triste, não? Foi uma pena aquilo que nos aconteceu!”, ao que o concorrente respondeu: “Bom, nem por isso. Sabe eu naquele jogo estava dividido”. “Sim, mas é português!”. “Sim, sou, mas sabe, sou professor de Francês e naquele caso estava realmente dividido”. O José Coimbra costuma ter as respostas apropriadas na ponta da língua. Notou-se pela inflexão da sua voz que as declarações daquele concorrente o apanharam desprevenido, a ponto de não conseguir reagir apropriadamente, caso contrário ter-lhe-ia dito que o regulamento daquele concurso proibia que portugueses divididos nele participassem. Sorte a de todos nós que o concorrente errou a pergunta e, desse modo, o simpático radialista livrou-se daquela nefasta companhia para a viagem até Estugarda. Ouvindo isto veio-me à memória uma conversa que em tempos tive com um amigo meu. A certo ponto dizia-me ale: “Sabes, o meu filho disse-me que a professora de Francês passa a vida a maltratar tudo que é português e a glorificar tudo que é Francês. Diz ela que somos uns ignorantes, uns mesquinhos e uns atrasados e só não vai definitivamente para a França porque a família não a acompanha, caso contrário não ficaria cá nem mais um dia”. Na altura, embora não o tenha feito sentir ao meu amigo, achei um pouco exagerado tudo aquilo – os miúdos efabulam com demasiada regularidade – mas agora depois de ouvir o senhor professor dividido, questiono-me: será que há muitos professores de Francês a prestarem assim este péssimo serviço ao país?
Senhor professor, há ocasiões em que as circunstâncias não permitem que sejamos neutros. Esta, seguramente, era uma delas.
Senhora professora, permita-me que lhe lembre que uma das mais nobres funções de um professor é incutir no espírito dos seus alunos o sentimento do amor à Pátria. À Pátria deles, entenda-se. O país somos nós todos, se vai mal está na nossa mão mudá-lo!

04 julho 2006

100 DIAS

"- Estás a ver - disse-lhe -, nem sempre os grandes poetas são diarreicos, às vezes são obstipados..."
Umberto Eco, Baudolino
Se me não falha a aritmética faz hoje 100 dias que passei a fronteira. Quando um executivo assume funções governativas, é costume, passados que são os cem primeiros dias de governo, fazer um balanço do trabalho realizado. As mais das vezes apenas para nos atormentar a consciência, diga-se, com todas aquelas encenações balofas, tentando – e por vezes conseguindo – convencer-nos do contrário daquilo que fizeram. Para não ficar atrás, registo também esse marco, embora sem a intenção de fazer um balanço. Apenas registar duas notas:
- Primeira: ao contrário do poeta não tenho ainda qualquer razão para imprecar contra este lado da fronteira: ainda nenhum toco de carrasco se me atravessou na frente, pelo que, a menos que me magoe, continuarei;
- Segunda: parafraseando uma modesta cibernauta que encontrei na rede, por intermédio dos dois ou três meus eventuais leitores, visitei uma quantidade enorme de blogs. Não pude deixar de pensar em Baudolino quando dizia ao seu amigo poeta: "- Estás a ver […], nem sempre os grandes poetas são diarreicos, às vezes são obstipados...". Alguns, eram do género diarreico, tal a quantidade de post’s de que faziam alarde. Outros, pelo contrário, eram do género obstipado. Sabe Deus as dificuldades por que terão passado para obrar cada novo post. O meu, reconheço, é mais do género obstipado. Por vezes por falta de tempo; por vezes por falta de motivação; por vezes por falta de veia; por vezes por falta de coragem; por vezes porque, simplesmente, no pasa nada.

02 julho 2006

CHORA BRASIL!

Que faltou a esta equipa?
Felipão?

VIVA PORTUGAL!

Portugal continua imparável. Após 120 longos minutos de sofrimento mandamos, mais uma vez, os ingleses para casa. Depois do que lhes aconteceu no Euro'2004, tenho a certeza que, por esta altura, o Ricardo é o inimigo público número um de toda a nação britânica. Sabe tão bem mandá-los para casa depois de tudo o que a imprensa de Sua Majestade escreveu nos últimos dias sobre a Selecção, sobre Portugal e sobre os portugueses.
Viva Portugal!

26 junho 2006

HAJA CORAÇÃO!

Ontem em Nuremberga o futebol foi maltratado. O principal culpado foi o árbitro que não soube estar à altuta de um jogo importante como aquele, deixando que se transformasse numa verdadeira batalha campal. Os artistas mereciam um verdadeiro juiz e saiu-lhes um aprendiz que mostrou duas dezenas de cartões, tornando, ao que ouvi, este, o jogo mais "indisciplinado" na história dos Mundiais de Futebol. Quanto à batalha, propriamente dita, teve Portugal como vencedor. Maniche marcou um belo golo a meio da primeira parte que nos põe nos quartos de final do mundial.

18 junho 2006

KALASHNIKOV versus GLOCK

A Venezuela pretende construir a primeira fábrica de Kalashnikov no Hemisfério Sul. Embora as autoridades venezuelanas digam que as armas fabricadas não se destinam à exportação, mas sim à defesa da nação contra “o mais poderoso império na história”, não há modo de não deixarmos de pensar nos amigos bolivianos e cubanos a receberem a sua provisão de Kalash’s. Bom, depois disto é a Bolívia construir uma fábrica de órgãos de Estaline e Cuba uma de roquetes do Hamas e temos a revolução em todo o seu esplendor espalhada abaixo do Equador.
Duvido que sejam as pistolas Glock, que o Brasil quer fabricar - mesmo que invisíveis a detectores de metais -, que consigam fazer frente a este arsenal.

PS: Cuba ainda não está no hemisfério Sul mas, se a Península Ibérica, qual Jangada de Pedra, conseguiu separar-se da Europa - quebrando-se pelos Pirinéus - vogando para Noroeste, também a ilha do comandante facilmente poderá navegar para Sul.

17 junho 2006

PARABÉNS RAPAZES!

A primeira batalha está ganha. Parafraseando o grande Fiori Giglioti, recentemente desaparecido, dá vontade de gritar: «um beijo no seu coração!». Quarta-feira lá estaremos para vos ver bater como sempre o fazem. Para ganhar!

15 junho 2006

CONFERÊNCIAS DE IMPRENSA

Não tenho por hábito assistir a conferências de imprensa de jogadores de futebol, mesmo que antes de grandes jogos, mas nestes tempos de abastança lá fui também arrebanhado. De qualquer modo era difícil escapar a todas, tantas elas são e, de qualquer modo, já que não coloquei bandeirinha na janela, pelo menos oiço os rapazes. Hoje, pela hora de almoço, lá me sentei para ouvir a conferência do Figo e do Tiago – melhor fora ter ficado de pé, teria fugido mais facilmente.
Não raras vezes, os jogadores de futebol são acusados de enxamear cada frase que proferem com as mais disparatadas – asneadas, diria um amigo meu – ideias, servindo-se daquele linguajar mais macarrónico que se possa imaginar. Salvo raras excepções, são acusados com razão. Mas hoje não é dos jogadores que queria falar mas dos jornalistas. Foram eles, ou melhor, as perguntas que faziam, que me obrigaram a “fugir”. Aquelas perguntas foram um chorrilho de imbecilidades: “Figo, o que vão encontrar no jogo frente ao Irão?”; “Tiago, quando soube que tinha sido convocado para jogar contra Angola?”; “Figo, acha que o Cristiano está em forma?”; “Tiago, aquilo contra Angola não lhe correu lá muito bem. Acha que vai ser convocado novamente?”, e outras pérolas como estas. Mais valia terem perguntado: “Figo, e então como vão as meninas lá por casa?” ou, “Tiago, gostaria de ter estado lá na sardinhada da sua terra?”.
Quem faz o favor de dizer aos senhores jornalistas que só se faz perguntas se se quer saber alguma coisa? Caso contrário, moita-carrasco!

12 junho 2006

COMEÇAR BEM

Portugal começou bem. Três pontos era o máximo que se pedia aos pupilos de Luís Filipe. Sábado, novamente, lá estaremos torcendo.

31 maio 2006

TRANS-SIBERIANO GV

Ainda a propósito de um post que em tempos aqui deixei, descobri hoje no sítio da TSF um delicioso Sinal de Fernando Alves que gostaria de partilhar com, como dizia uma colega destas lides, os meus um ou dois leitores.
Depois de aceder à página da TSF, clique em Sinais e de seguida em "O Trans-Siberiano" de 29Mai06. Delicie-se

29 maio 2006

À NOSSA!

Finalmente a confirmação daquilo que quase todos já suspeitávamos: a cerveja faz bem!
E quem o diz não é ninguém da Central de Cervejas mas sim um reputado endocrinologista, Director do Departamento de Nutrição do Instituto Pasteur de Lille Jean-Michel Lecerf, que no passado dia 26 de Maio veio ao Porto participar no Simpósio “Nutrição: Que lugar para a cerveja?” no âmbito do V Congresso de Nutrição e Alimentação 2006 organizado pela Associação Portuguesa de Nutricionistas. Jean-Michel Lecerf é uma voz autorizada. Este médico endocrinologista trabalha no Hospital da Universidade de Lille, especializado em distúrbios alimentares, obesidade e diabetes e autor de numerosos artigos, comunicações e livros sobre nutrição.

"QUEIMAR" PETRÓLEO MATA

Alguém disse um dia, a propósito do mais ou menos próximo esgotamento dos combustíveis fósseis, que a humanidade tinha já passado por situações semelhantes e tinha-se saído airosamente, isto é, o homem tinha já conseguido “evoluir” da lenha para o carvão e deste para o petróleo, fazendo-o harmoniosamente, daí se concluindo que o conseguirá fazer agora para a próxima forma de energia – seja ela qual for –, que há-de substituir o petróleo. Tenho uma enorme confiança nas capacidades da humanidade para se adaptar a novas formas de vida, e comungo da opinião que na altura certa saberemos mudar de rumo, mas reconheço que a cada dia que passa, nos tornámos todos um pouquinho mais cépticos. Oxalá a teoria que aqui estou a citar esteja correcta, já que as premissas não são rigorosamente as mesmas, com efeito, até aqui, sempre que se optou por uma nova forma de energia, a anterior não estava, como agora, em perigo de se esgotar.
Hoje comemora-se o Dia Nacional da Energia. Se não houver outra utilidade para este dia, pelo menos que sirva para reflectirmos sobre a energia, pelo menos aquela que é gasta indevidamente. Mas quando digo reflectirmos, estou a referir-me a todos, até à petrolífera GALP. Embora esteja no mercado para ganhar dinheiro, a GALP, deve assumir uma atitude, senão pedagógica, pelo menos não deseducativa. Vem isto a propósito de um anúncio radiofónico da referida empresa que anuncia a oferta de um “cromo” por uma certa quantidade de combustível adquirido. Até aqui tudo bem mas ridículo vem a seguir. No anúncio um diz: “- Eu todos os dias depois do emprego vou a Bragança só para atestar mais vezes”, o outro não se fica: “-Pois eu vou tantas vezes à bomba que até convidei o empregado para uma festa de aniversário”. Enfim, digamos que a GALP anda com falta de ideias…
A Tabaqueira tem que informar os seus clientes que FUMAR MATA, a GALP devia ensinar aos seus que desperdiçar energia hipoteca o futuro de todos!

24 maio 2006

POR RAZÕES PESSOAIS

Galardoado no passado dia 19 de Maio com o Prémio Camões de 2006, Luandino Vieira vem dizer que não o aceita por "razões pessoais". Estou inteiramente de acordo acerca do direito que o assiste em não querer aceitar o prémio, já sobre as razões por que o faz... O prémio Camões não é propriamente o prémio de uma rifa dos Santos Populares, por isso dizer que não aceita "por razões pessoais", convenhamos que parece menosprezar o galardão. Todos já vimos rejeitar prémios mas dizendo de viva voz por que o fazem (Jean Paul Sartre, Marlon Brando, etc.).
Esperemos que Luandino evoque uma razão plausível. É o mínimo que pode fazer. Se não por respeito ao Prémio Camões, pelo menos, por todos os anteriores galardoados.

Galardoados com o Prémio Camões

1989 - Miguel Torga (Portugal)
1990 - João Cabral de Melo Neto (Brasil)
1991 - José Craveirinha (Moçambique)
1992 - Vergílio Ferreira (Portugal)
1993 - Rachel de Queiroz (Brasil)
1994 - Jorge Amado (Brasil)
1995 - José Saramago (Portugal)
1996 - Eduardo Lourenço (Portugal)
1997 - Artur Carlos M. P. Santos, “Pepetela” (Angola)
1998 - António Cândido (Brasil)
1999 - Sophia de Mello Breyner (Portugal)
2000 - Autran Dourado (Brasil)
2001 - Eugénio de Andrade (Portugal)
2002 - Maria Velho da Costa (Portugal)
2003 - Rubem Fonseca (Brasil)
2004 - Agustina Bessa-Luís (Portugal)
2005 - Lygia Fagundes Telles (Brasil)
2006 - José Luandino Vieira (Angola)

A PRIMEIRA FRASE

Alguém disse um dia que a primeira frase de um livro é a mais importante e a mais difícil de escrever. Se bem escrita, essa única frase, revelará ao leitor o "teor" de toda a obra. Talvez haja, em tudo isto, algum exagero, mas por vezes lembro-me deste dito.
Hoje, num supermercado, não muito longe da secção de verduras, casualmente, peguei no livro “onze minutos” de Paulo Coelho. Abri-o e, como todos fazemos, atirei-me à primeira frase: «Era uma vez uma prostituta chamada Maria. […] Como todas as prostitutas, tinha nascido virgem e inocente...».
Com cuidado, como todos fazemos, fechei-o e voltei a arrumá-lo na prateleira.
Há tempos que ando a prometer a mim próprio ler um livro do Paulo Coelho. Um dia voltarei a tentar…

20 maio 2006

NÃO AS DEFRAUDEM!


Para incentivarem a Selecção, 18 788 mulheres do meu país reuniram-se hoje no Jamor e construíram a mais bela bandeira do mundo.
Não as defraudem!

A AZIA DE MÁRIO SOARES

Em tempos, um conhecido árbitro de futebol, hoje romancista e comentador, protagonizou um episódio que ficou famoso. Na arbitragem de um jogo cometeu um erro que terá prejudicado grandemente uma das equipas. Uns dias depois quando um jornalista lhe pediu para comentar o referido lance, embora não o tivesse afirmado literalmente, reconheceu o erro com uma frase que ainda hoje a tribo do futebol usa e, muitas vezes, abusa. Disse ele: “ao ver as imagens da jogada fiquei cá com uma azia!...”
Vem isto a propósito de Mário Soares. Ontem saiu da lura para ir ao Hotel Pestana Palace receber o prémio Dário de Moreira Castro Alves com que o Clube dos Empresários do Brasil homenageia uma personalidade portuguesa ou brasileira que se destaque no esforço em prol da integração dos imigrantes brasileiros em Portugal. A televisão mostrou e todo o país viu que, após o desastre de 22 de Janeiro que deixou Mário Soares com azia, este, continua a padecer desse azedume. Ao contrário do árbitro, quando o jornalista lhe pediu para comentar o resultado de 22 de Janeiro, disse que perder é normal recusando-se a reconhecer ter ficado com azia.
Esperemos que Mário Soares, homem dado às letras, não se lembre de nos obsequiar – como agora parece estar na moda – com um livro onde explique a derrota e ataque os responsáveis.

17 maio 2006

DIAS DE BRASA

No último número da notícias magazine, Julie Daurel, leva-nos à descoberta do litoral baiano, numa reportagem a que dá o sugestivo nome de "Bahia de todos os sonhos...". O texto é complementado por belas fotos de Nicolas Millet. A viagem começa em Salvador, ou Bahia como os baianos gostam de lhe chamar. A cidade, hoje património da humanidade, a Lisboa dos trópicos, tem a sua origem na colónia fundada por um jovem náufrago Português que aqui aportou no início do século XVI, conseguindo, sabe-se lá por que artes, não ser comido pelos Tupinambás. Até ao século XVIII, a Bahia, centro nevrálgico do comércio da cana-de-açúcar, será a capital do Brasil, perdendo esse título quando o ouro e os diamantes de Minas Gerais começaram a fazer valer a sua importância.
A cidade velha tem sido minuciosamente conservada e renovada e "os turistas serpenteiam as suas ruas calcetadas e íngremes entre a igreja azul do Rosário dos Pretos, construída por e para os escravos, e a igreja de São Francisco, onde os senhores rezavam, sob uma cúpula de ouro, prata, azulejos e jacarandá ". A viagem leva-nos depois ao bairro do Rio Vermelho onde viveu Jorge Amado. Passamos pela Ribeira, saboreamos na sua sorveteria, velha de quase um século, um gelado de noz de coco. Passeamos pela Avenida Beiramar, divisamos, lá ao longe, o arquipélago de Tinharé e acabámos por tomar o barco para Cairu. Deu-se ainda um salto a Boipeba, à lagoa do Cassange, às praias de coqueiros de Saquaíra, aos corais de Taipú de Fora e uma visita à mata atlântica de Ilhéus e Itaceré, que a UNESCO classificou como reserva da biosfera. Finalmente, daremos ainda um pulo à igreja colonial das Descobertas e seguiremos até Santa Cruz de Cabrália, Porto Seguro, Arraial d'Ajuda e Trancoso, frente ao mar que há cinco séculos viu chegar Cabral.
Enquanto vou lendo estas notícias do Paraíso, não posso deixar de pensar nas do Inferno que por estes dias nos vão chegando do mesmo sítio. Como é possível coexistirem Paraíso e Inferno no mesmo local?
Enquanto vou lendo estas notícias do Paraíso, não posso deixar de pensar no riso generoso da Ana, uma baiana de gema, que na grande cozinha da Pousada do Boqueirão prepara as iguarias como só ela sabe... Nestes dias de brasa, o riso generosa da Ana, tê-la-á abandonado...
... Espero que apenas por breves momentos.

16 maio 2006

"I LOVE THIS GAME"

Ontem, às oito horas da noite como se impunha, Scolari falou. Começou por dizer umas tretas que não tinham qualquer razão de ser e, de seguida, passou a anunciar os vinte e três que nos representarão na Alemanha. Se a primeira parte da sua intervenção me causou algum espanto, por totalmente deslocada, já a segunda não trouxe qualquer novidade. Aliás, continuo a não entender como ainda há pessoas que esperavam ver o Ricardo Quaresma na selecção - que os treinadores de bancada tivessem ficado estupefactos e revoltados pela sua não inclusão, ainda vá que não vá, mas os jornalistas senhor?!
O seleccionador fez o que devia ser feito. O futebol é, ao contrário do que muita gente pensa, um desporto colectivo. Como tal, a equipa não vale pelas suas estrelas, individualmente consideradas, mas pelo seu todo. O Ricardo Quaresma, detentor de uma técnica fabulosa que leva ao delírio estádios inteiros, fazendo com que adeptos e adversários se rendam à sua magia, não pode, ainda por cima diante de todo o país, chamar filho da puta a um colega de profissão que, passado menos de um mês, iria encontrar na sua equipa.
Quando no passado dia vinte e dois de Abril, Scolari ligou a TV e viu como na varanda do estádio do Dragão o F. C. Porto festejava a recente vitória no campeonato, terá pegado na lista de convocados e riscado o nome de Ricardo Quaresma.
Espero, esperamos todos, que este triste episódio tenha servido de exemplo ao jovem jogador. Que tenha servido, pelo menos, para o fazer crescer. Se assim for a selecção terá, com certeza, muito a ganhar com ele. Se assim não for... teremos, pelo menos, outra novela!
Os vinte e três do Scolari são os nossos vinte e três!
Viva a Selecção!