16 junho 2007

EAU DE FRANCE

Há uns tempos atrás, uma organização de defesa do consumidor, penso que americana, fez um estudo comparativo acerca das águas engarrafadas, à venda no país. A bitola seria a insuspeita Perrier – e quem mais poderia alcandorar-se a esse título? Tomando por padrão, a inatingível qualidade da famosa água gaulesa, nenhuma outra poderia lá chegar. Venceria aquela que mais próximo conseguisse ficar. O estudo foi-se desenvolvendo e, na hora de ordenar os concorrentes, o impensável aconteceu. A água Perrier, a de inatingível pureza, a que estava no estudo apenas para servir de referência, aquela que era vendida, a preços proibitivos, em garrafinhas bojudas de vidro com 20 centilitros de capacidade, tinha ficado a meio da tabela, vergonhosamente ultrapassada por águas vendidas em garrafões de plástico. A culpa, disse-se na altura, foi de uma arreliadora fuga de hidrocarbonetos no asséptico sistema de lavagem das garrafas, que terá conferido à bebida um agradável travo a petróleo.
Foi um rude golpe na imagem – e nas finanças, claro – da Perrier. Embora nenhum cliente se tenha queixado – razão pela qual somos levados a concluir que o travo a petróleo seria agradável –, a empresa pediu desculpas públicas pelo sucedido e retirou do mercado todos os milhões de garrafas com resquícios de hidrocarbonetos, que lá se encontravam. Levou anos a recuperar a imagem mas hoje este arreliador incidente está esquecido e a Perrier voltaria a ser seleccionada para termo de comparação num estudo sobre águas engarrafadas.
Ontem, ao ver os esgares aflitos do Presidente Sarkozy depois de ter bebido água, lembrei-me deste episódio. Será que voltaram a lavar as garrafas com petróleo?

02 junho 2007

DESERTO DE IDEIAS

Toda a gente dá por sabido que no dito deserto vivem muitos espíritos que produzem nos viajantes grandes e surpreendentes ilusões para os fazerem perecer […] e muitos, não tendo sido avisados da existência destes espíritos, perecem de mala morte
Marco Pólo, O Livro das Maravilhas, 1298
Citado por ABC dos Desertos, Público

Estava para não falar disto mas, depois de tantas atoardas, decidi-me. Um dia destes, o ministro das obras públicas foi à televisão – pelos vistos desdobrou-se pelos canais todos, ou quase todos. Com aquele ar rústico e aquela forma bronca de dizer as coisas, que o caracteriza, foi explicar as últimas embrulhadas em que se meteu. Foi uma perda de tempo. Deveria saber que não é possível explicar o inexplicável.
Começou pelo deserto. Basicamente quis dizer que um aeroporto deve ser construído o mais próximo possível do maior número dos futuros potenciais utilizadores. Todos estaremos de acordo. Desgraçadamente, o ministro não quis dizer essa verdade insofismável de um modo assim tão cru e toca a florear o texto. Para arruinar ainda mais as coisas teve a infeliz ideia de pelo meio, fazendo lembrar uma personagem misógina da nossa praça, bradar alto e bom som “na margem sul jamais!”. Como ninguém o ensinou que texto com flores não é para quem quer, mas para quem pode, o ministro Lino tem sido, após essa infeliz intervenção, alvo da chacota da nossa classe política de todo o espectro Este-Oeste, essa sim, vivendo num deserto de ideias, para não falar dos autarcas da margem Sul que, afivelando a sua melhor cara de despeito, têm vindo a terreiro exigir as desculpas do ministro. Enfim, um regabofe. Cabe aqui dizer que seria criminoso construir um aeroporto num local que estudos sérios não aconselhassem mas, reduzir a discussão ao deserto da outra margem.
A outra embrulhada que teve de explicar foi a da sua inscrição na ordem. Aqui, amigo Mário Lino, pode dizer que foi o bastonário que, na primeira fila lhe fazia olhinhos, o levou a dizer o que disse, que eu não acredito. O senhor disse que era engenheiro inscrito na ordem porque o país andava há dias a divertir-se com a novela do percurso académico de um outro engenheiro - gostaria era de ver a cara desse outro ao ouvir isso. Diga o que disser, nem Freud me convenceria do contrário.

19 maio 2007

SEREMOS DIGNOS DELES?

Ouvi ontem que Nicolas Sarkozy, quer que se institucionalize o acto de ler a todos os estudantes franceses, no início de cada ano lectivo, a carta que Guy Môquet, escreveu na véspera da sua morte. Fez bem. Isto, está claro, descontando qualquer eventual propósito inconfessável do populista Sarkozy. Talvez ponha alguns jovens a pensar, e isso é sempre bom.
Adivinham-se as razões pelas quais o novel presidente francês tomou esta decisão. Môquet, um jovem de dezassete anos, é um exemplo de coragem e amor à pátria.
Guy Môquet, filho de um deputado comunista, nasceu em 1924. Era um membro activo da Juventude Comunista, ao tempo da ocupação da França pela Alemanha Nazi. A 13 de Outubro de 1940, enquanto distribuía propaganda anti-Nazi numa estação de metro de Paris, Guy é preso pelos alemães e enviado para o campo de internamento de Châteaubriant onde se encontram detidos outros militantes comunistas. A 22 de Outubro de 1941, em represália pela execução, dois dias antes, de Karl Hotz, comandante das tropas de ocupação, às mãos de três jovens comunistas de Nantes, Guy, e outros 26 companheiros, é fuzilado em Paris. Môquet, o mais jovem dos 27 cai, diz-se, às dezasseis horas.
Na véspera da sua morte, denotando uma presença de espírito impressionante para quem tem pouco mais de dezasseis anos escreve:


Minha querida mãezinha, meu adorado irmãozinho, meu amado paizinho
Vou morrer! O que vos peço, sobretudo a ti, mãezinha, é que sejais valentes. Eu sou-o e quero sê-lo, assim como todos os que morreram antes de mim. Sem dúvida, gostaria de viver. Mas o que desejo de todo o coração é que a minha morte sirva para alguma coisa. Não terei tempo de abraçar Jean. Abracei os meus dois irmãos Roger e Rino. Não o pude fazer com o verdadeiro, lamentavelmente. Espero que te entreguem toda a minha roupa, porque poderá servir para Serge; dou por certo que estará feliz por poder usá-la algum dia. Paizinho, sei que, tal como à mãezinha, te causei bastantes desgostos e saúdo-te pela última vez. Quero que saibas que fiz todo o possível para seguir o caminho que me indicastes.
Um último adeus a todos os meus amigos, e ao meu irmão, a quem quero muito. Que estude para que seja um homem.

Dezasseis anos e meio. A minha vida foi curta, não lamento nada, apenas deixar-vos. Vou morrer com Tintin e Michels. Mamã, peço-te, quero que me prometas que serás valente e ultrapassarás os desgostos. Não posso escrever mais. Deixo-vos a todos, a todas. A ti, mamã, ao Serge, ao papá, abraçando-vos com todo o meu coração de menino. Força!
O vosso Guy, que vos quer.

P.S. Aos que ficam, sede dignos de nós, dos 27 que vamos morrer.

11 maio 2007

NÃO VÁ...

A minha amiga Helena Guerreiro, sempre atenta às inovações que vão acontecendo por esse mundo cão, descobriu uma que, a ser implementada cá, evitaria, com toda a certeza, muitas idas ao psiquiatra e ao otorrino. Então o que descobriu a Helena? Descobriu que na América, tal como cá, os chatos dos paizinhos dos alunos fazem trinta por uma linha aos professores dos seus rebentos. Vai daí, numa escola secundária da Califórnia, os professores sugeriram que, para poupar a comunidade escolar a incómodos vários, deveriam ser gravadas no atendedor de chamadas da Escola uma série de mensagens que funcionariam assim como que um sistema de Manchester. Desconheço se a sugestão foi, ou não, aceite e implementada, mas, não tenho dúvidas que se o foi, será um êxito.
Vamos então às mensagens gravadas:

Olá! Foi direccionado para o atendedor automático da escola. De forma a podermos ajudá-lo a falar com a pessoa certa, por favor ouça todas as opções antes de fazer a sua selecção:
– Para mentir sobre a justificação das faltas do seu filho, pressione a tecla 1
– Para inventar uma desculpa sobre porque é que o seu filho não fez o seu trabalho, tecla 2
– Para se queixar sobre o que nós fazemos, tecla 3
– Para insultar os professores, tecla 4
– Para saber por que razão não recebeu determinada informação que já estava referida no boletim informativo ou em diversos documentos que lhe enviámos, tecla 5
– Se quiser que lhe criemos a sua criança, tecla 6
– Se quiser agarrar, tocar, esbofetear ou agredir alguém, tecla 7
– Para pedir um professor novo, pela terceira vez este ano, tecla 8
– Para se queixar dos transportes escolares, tecla 9
– Para se queixar dos almoços fornecidos pela escola, tecla 0
– Se já compreendeu que este é o mundo real e que a sua criança deve ser responsabilizada e responsável pelo seu comportamento, pelo seu trabalho na aula, pelos seus TPC’s, e que a culpa da falta de esforço do seu filho não é culpa do professor, desligue e tenha um bom dia!

05 maio 2007

ARBEIT MACHT FREI

"A viagem não durou mais de vinte minutos. Depois o camião parou, viu-se uma grande porta, encimada por umas palavras fortemente iluminadas (a lembrança dessas palavras ainda me assalta nos sonhos): ARBEIT MACHT FREI, o trabalho liberta"

Primo Levi, Se isto é um homem


A fazer fé nas notícias que me chegaram, Paulo Portas foi passar o 1.º de Maio à Madeira. Dito deste modo, até parece que o homem foi em lazer, mas não, a visita teve como objectivo apoiar o CDS da ilha na campanha eleitoral para as legislativas antecipadas. Não sei se arengando às massa, ou instado por algum jornalista, Paulo Portas – Paulinho dos mercados, para os mais chegados –, lá foi dizendo, presume-se que naquele seu jeitinho populista, sobre o dia que se comemorava: “para nós, CDS/PP, trata-se de um festejo que acarinhamos”. Até aqui tudo bem. Embora dito desta forma soe, como diria o outro, esquisito, todos nós, por qualquer razão, acarinhamos o Primeiro de Maio. Mas Portas continuou: “Nós acreditamos no valor do trabalho”. Sim, de acordo, também nós! “Nós acreditamos que o trabalho liberta”.
Nós, que nos lembramos, ainda, o que aconteceu a todos aqueles a quem um dia foi dito que “o trabalho liberta”, não gostamos de ouvir, naquelas circunstâncias, repetidas essas palavras por um político da nossa praça.
Paulo Portas, a par de muitos defeitos – que os terá, naturalmente –, é uma pessoa inteligente. Sabe a conotação daquelas palavras e, se o quisesse, teria encontrado outras que dissessem o mesmo. Mas não o fez. Porquê? Terá sido porque quaisquer outras que arranjasse nunca teriam a mesma força? Ou porque só com aquelas conseguia expressar o seu pensamento, em toda a sua plenitude?

25 abril 2007

DIA LEVANTADO E PRINCIPAL

“E olhando nós de mais longe, de mais alto, da altura do milhano, podemos ver Augusto Pintéu, o que morreu com as mulas na noite do temporal, e atrás dele, quase a agarrá-lo, a sua mulher Cipriana, e também o guarda José Calmedo, vindo doutras terras e vestido à paisana, e outros de quem não sabemos os nomes, mas conhecemos as vidas. Vão todos, os vivos e os mortos. E à frente, dando os saltos e as corridas da sua condição, vai o cão Constante, podia lá faltar, neste dia levantado e principal.”

José Saramago, Levantado do Chão

23 abril 2007

PARA O LEANDRO


“Lembro-me […] das tempestuosas prelecções que o Leandro recebia do tio, que terminavam em bofetadas […] de cada vez que topavam com uma palavra abstrusa que o pobre moço […] nunca conseguiu dizer correctamente. A aziaga palavra era «acelga», que ele pronunciava «a cega». Berrava-lhe o tio: «acelga, meu burro, acelga!», e o Leandro, já à espera da estalada, repetia: «A cega.» Nem a agressão de um nem a penosa angústia do outro valiam a pena, o pobre rapaz, ainda que o matassem, sempre haveria de dizer «a cega».”

As Pequenas Memórias, José Saramago


Para todos os Leandros que, apesar de terem aprendido a ler à bofetada, não perderam o amor aos livros.

21 abril 2007

O DIA EM QUE O GOVERNO SE BORROU DE MEDO

“Nós viemos – disseram – porque toda a gente vem”
Gabriel Garcia Marquez, "Cem Anos de Solidão"

De vez em quando, os nossos jovens, aqueles que ainda se sentam nos bancos das escola secundárias mas que hão-de, um dia, governar-nos, decidem “meter o dia”. Não é que não tenham o direito! Outros antes deles o fizeram e hoje são doutores – ou engenheiros, já não sei – e ocupam cargos importantes, mas quando se lhes pergunta a razão do protesto, as respostas são, invariavelmente, de uma pobreza confrangedora. Anteontem, pelos vistos, foi dia de luta dos estudantes do básico e do secundário do Distrito de Viana do Castelo. Não dei por nada. Soube-o apenas porque me chegou às mãos um papelinho amarelo onde os imberbes tinham alinhado uma série de palavras de ordem com que contariam levar o governo a borrar-se de medo.
Imagino a azáfama da rapaziada. O núcleo duro, aquele que de megafone em riste, vociferando as palavras de ordem, comandará a romaria, chega cedo. Munido de corrente e cadeado comprados na véspera, dirigem-se ao portão da escola e prendem-no. Ficam para ali a aquecer-se como podem que as madrugadas ainda estão frias e, quando o Sol já vai alto, e os manifestantes estão em número que se veja, partem para a baixa da cidade. Vão para a Praça da República que é onde se sentem bem, mas, de caminho, berrarão ao Governador Civil.
- Ai Não Exames Não!
- E quem não salta é do Governo!

- A Luta Continua!
- Governo escuta! Estudantes estão em luta!
Desgraçadamente, ainda nem sequer saíram da escola e já o pessoal está desmobilizado.
- Por que veio à manifestação?
- Eu vim porque todos vieram!
Invariavelmente, nos seus protestos, os alunos do secundário clamam por educação sexual e querem ver banidos os exames e as aulas de substituição. Não saímos desta pobreza franciscana.
Embora comecem a escassear, ainda há professores que, enquanto alunos, travaram verdadeiras batalhas e as venceram. Não seria altura de os nossos jovens pedirem a sua ajuda e aprenderem com eles?

18 abril 2007

QUASE TUDO FLORIDO

Ligo a televisão: Na América um celerado entra pelo dormitório da Universidade da Virgínia e assassina trinta e dois inocentes, suicidando-se de seguida. Fecho a televisão.
Abro o jornal: O único trabalho escrito que o aluno José Sócrates apresentou na disciplina de Inglês Técnico na Universidade Independente, foi um texto dactilografado em duas folhas A4, enviadas por fax para o Reitor e acompanhadas de uma mensagem escrita em papel timbrado da Secretaria de Estado do Ambiente. Tudo isto já depois de ter o diploma do curso. Fecho o jornal.
Abro a porta e saio. Ao deliciar-me com todos os aromas que, por estes dias, a Primavera, em todo o seu esplendor, traz até mim, vem-me à memória a prosa de Miguel Torga: "Tudo florido. Aqui, na verdade, as coisas renascem. Se não fosse o coração da minha mãe, a teimar que não, dir-se-ia que a vida não tem fim nestas alturas."


P.S. O Pedro voltou. Ainda bem, pois estávamos com saudade da sua prosa. De qualquer modo nenhum dos seus indefectíveis acreditaria que ele se conseguia manter por mais de 15 dias longe do teclado - e dos amigos, já agora!

06 abril 2007

O PÁSSARO PINTADO

"… após um escrutínio prolongado, escolhia o pássaro mais forte, prendia-o ao seu pulso e preparava tintas […] de diferentes cores. […] virava o pássaro de barriga para cima e pintava-lhe as asas, a cabeça e o peito nos tons do arco-íris até o tornar mais colorido e vívido que um ramo de flores silvestres.
Depois íamos para o coração da floresta. Aí chegados, o Lekl tirava o pássaro pintado e mandava-me segurá-lo na mão e apertá-lo ligeiramente. O pássaro começava a chilrear e atraía um bando da mesma espécie, que voava nervosamente sobre as nossas cabeças. […] Quando um número suficiente de pássaros se reunia [...], o Lekl dava sinal para libertar o prisioneiro. Este elevava-se no ar, feliz e livre, um salpico de arco-íris contra um fundo de nuvens, e mergulhava depois no seio do expectante bando castanho. Por instantes, os pássaros ficavam confusos. O pássaro pintado voava de uma ponta do bando para a outra, tentando em vão convencer os seus parentes que era um deles. Confundidos pelas suas cores brilhantes, os pássaros voavam em seu redor, sem se convencerem. O pássaro pintado era afastado cada vez para mais longe, à medida que tentava zelosamente penetrar nas fileiras do bando. Víamos como, pouco depois, um pássaro após o outro saía da formação num ataque feroz. Em breve, a forma multicolorida perdia o seu lugar no céu e caía no chão.”

O Pássaro Pintado, Jerzy Kosinski

No final de Outono de 1939, na iminência de as tropas Nazis invadirem a Polónia, era muito perigoso para um rapazinho de pele escura, olhos negros e cabelo de azeviche ficar calmamente no seu lugar a vê-las passar, por isso, como milhares de outras crianças, foi enviada para uma aldeia do Leste do país. Aí chegado perde todos os contactos com os pais. Nos cinco anos seguintes, até à chegada do Exército Vermelho, o rapazinho sem nome conhecerá todo o horror de que a espécie humana é capaz. Nas aldeias perdidas do Leste, a vida pouco mudou desde a idade média. A miséria, a ignorância, o medo e a superstição grassam entre as suas populações. É aqui, no meio do ódio, que o rapazinho de seis anos irá conhecer o mundo e interpretá-lo.
O Pássaro Pintado de Jerzy Kosinski é uma bela obra que aconselho vivamente.
Uma última nota: o escritor, naturalizado Americano, nasceu na Polónia. Tinha seis anos aquando da invasão do seu país pelas tropas nazis, era de ascendência judia e foi separado dos pais antes da chegada do invasor. Kozinski, suicidou-se em Nova Iorque a 3 de Maio de 1991, por ter sido, finalmente, apanhado pelos seus fantasmas, diria John Corry.

05 abril 2007

SÃO BURROS!

Periodicamente, em cada Páscoa, os nossos jovens - alguns dos nossos jovens, melhor dizendo, acho que uma pequenina parte dos nossos jovens, assim é que está bem -, atravessam a fronteira e tomam de assalto as praias de Lloret del Mar, nos arredores de Barcelona, para se embebedarem, ininterruptamente, durante cinco dias. Tenho pensado – não muito nem com muita profundidade, confesso – sobre as razões deste ritual mas a conclusão é, invariavelmente, a mesma: estupidez! Não, não pode ser, pensava, deve haver uma qualquer razão mais plausível para esta imbecilidade. Não compreendo como uma horda de imberbes se juntam a mil quilómetros de casa para, apenas, despejarem uma qualquer mistela pelas goelas abaixo até ter de ir para o hospital. Tem de haver outra razão. Até que, um destes dias, pela boca de um deles – o Filipe de Portimão –, fiquei, finalmente, a saber qual a razão do rito, numa reportagem feita pelo JN. Quando em presença de uma multidão de alucinados pelo álcool e pelo fumo, o jornalista vai fazendo perguntas a este e aquele, o Filipe, de uma forma lapidar, resumiu: "Tá tudo muito bêbado e fumado, mas fazem-no apenas porque tem de ser e não por opção deles. São burros".

31 março 2007

A ENERGIA DE UM PEIDO

A comunidade científica, aquilo que comummente designamos por comunidade científica, é um grupo díspar de pessoas, movidas por interesses diversos – uma parte, porventura, uma grande parte deles, inconfessáveis. Lá se cultiva a inveja, a maledicência e a velhacaria – Bill Bryson, na sua deliciosa Breve História de Quase Tudo, relata-nos histórias incríveis de desrespeito pelos pares –, e, de vez em quando, descobrem!
Quanto a descobertas há-as de três tipos: aquelas que resolvem um problema e fazem avançar o mundo; aquelas que ninguém, por qualquer razão, sabe para que servem e, eventualmente, só a prazo, farão avançar o mundo e o terceiro tipo, aquelas que toda a gente sabe que não servem para nada e nunca farão avançar o mundo.
Os jornais, as revistas e a nossa caixa de correio electrónico estão enxameados de exemplos do terceiro tipo. De vez em quando alguém tem a feliz ideia de mostrar em que se gasta o dinheiro do orçamento de estado e, então, todos ficamos mais documentados: se se peidar, ininterruptamente, durante 6 anos e 9 meses, produzirá gás suficiente para criar a energia de uma bomba atómica
Vem isto a propósito de um artigo que, há dias, li. Um investigador da Universidade de Lisboa, num estudo sobre a indisciplina, propôs aos seus alunos a seguinte tarefa: saber, numa determinada escola dos arredores da capital, quantas vezes os professores fizeram participações dos seus alunos. Recolhida e tratada a informação , comparou os resultados com os que tinha obtido em idêntico estudo nos anos oitenta e concluiu que o número de participações feitas, então, durante cerca de meia década, era, sensivelmente, o mesmo que na actualidade se faz num trimestre. Depois de várias considerações e de dizer que hoje tem dificuldade em resumir as causas do mau comportamento, tantas elas são, João Amado, assim se chama o investigador, remata de forma lapidar: “Ultimamente, os professores têm sido vítimas da desvalorização da sua própria condição e do seu estatuto pelo poder político, o que se vai traduzir na representação que a sociedade faz dos professores. E isto tem reflexos na sala de aula”.
Sem querer menosprezar o trabalho do investigador, sou forçado a acrescentar um quarto tipo de descobertas: as não descobertas, aquilo que toda a gente já sabe e por isso não se devia gastar tempo nem dinheiro a investigar. Todos sabemos – parece que, apenas com a excepção da própria e dois senhores que aparecem sempre atrás dela fazendo esgares de desvelo –, que a Senhora Ministra da Educação, nestes dois últimos anos, fez, ou patrocinou, estragos na imagem do professor que levarão muitos anos a corrigir. E isto paga-se caro. E isto pagar-se-á caro.

26 março 2007

TRÉGUAS! ESTÁ A JOGAR O BENFICA

O meu amigo Zé Joaquim é Sportinguista – será um dos seus poucos defeitos, diga-se. Mas também, quem é perfeito? -, no entanto, tal vocação, não o impede de ver no Benfica o melhor clube do mundo. Atento como ele é, descobriu na Visão mais uma prova da grandeza encarnada. De uma entrevista que António Lobo Antunes concedeu à revista, o Zé respigou o seguinte:

Visão: Ainda sonha com a guerra?
Lobo Antunes: […] Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
Visão: Parava a guerra?
Lobo Antunes: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?
Visão: Não vou pôr isso na entrevista.
Lobo Antunes: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?

Pois é, tréguas na guerra só por alturas do Natal e nos jogos do Benfica.
Roam-se de inveja!

25 de MARÇO

O aniversário foi na realidade ontem, mas, para não ofuscar o cinquentenário do tratado de Roma, decidi comemorá-lo apenas hoje.
Fiz alguns arranjos em casa – quase imperceptíveis, diga-se – deixei cair um pouco da minha máscara, ou por outra, arranjei outra, agora mais transparente, deixando perceber o que se encontra por trás. Está claro que não fiz grandes remodelações, isso é só para quem pode – lembro-me por exemplo do Tozé que ainda há pouco tempo fez uma reforma geral, ou do Pedro que fez o mesmo, ou do António, um eterno insatisfeito, que deve ter contratado um decorador tantos são os melhoramentos que faz – e eu, que não me posso meter nessas cavalarias, servi-me, apenas do poeta para construir a minha diáfana máscara: […] Sabe, no fundo eu sou um sentimental […] Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora...
Agora levante a sua taça! Eu cá estarei para acompanhar.

25 março 2007

EUROPA, 50 ANOS DE SONHO

“Por todo o lado, encontrei magníficos sonhadores, homens e mulheres que porfiadamente acreditam nos seus sonhos. Mantêm-nos, cultivam-nos, partilham-nos, multiplicam-nos. Eu, humildemente, à minha maneira, também fiz o mesmo.”

Luís Sepúlveda, O poder dos sonhos


Para todos aqueles que em 1957 sonharam uma Europa de paz e de tolerância e para todos os que desde aí têm dado o melhor de si mesmo para que se cumpra o sonho, o meu respeito, a minha admiração, o meu agradecimento. Eu, humildemente, à minha maneira, continuo a sonhar.

21 março 2007

O MUNDO CONTINUA VÃO


É verdade, este mundo continua vão. E para quem pensasse que as misérias tinham apenas um século, desengane-se, elas sobrevieram no preciso momento que o primeiro homem cá pôs o pé, e, ou muito me engano, ou apenas cessarão quando o último fechar a porta. Uma prova do que digo encontrei-a no “Rosa do Mundo”, num poema indiano do séc. VII. Catorze séculos após sou forçado a concordar inteiramente com o bardo: parece-me que já nem a oração resulta. Assim sendo, o que resta a um homem?

18 março 2007

PAI, SEMPRE

"Cortei o cabelo a meu pai e fiz-lhe a barba. Foi sempre bonito o velhote, na sua esbelta e direita figura, na sua pele branca e fina de nórdico, nos seus olhos azuis, no seu loiro bigode de rapaz. Mas nunca teve coragem, nem tempo, para cuidar destes dons, embora goste que lhos gabem e cultivem. E de vez em quando é toda a família à volta do manjerico. Um aperta-lhe os botões da camisa, outro compõe-lhe o chapéu, outro tira-lhe a terra das orelhas. A mim tocam-me sempre a barba e o cabelo. E eu rapo o melhor que posso aqueles pêlos, com a solenidade que ele rapa as ervas de uma leira para lhe plantar um alfobre."

Miguel Torga, Diário III



14 março 2007

A FÓRMULA DO DESPERDÍCIO

A haver uma grande expansão inicial, os cientistas perceberam que teria de haver uma radiação cósmica de fundo, uma espécie de eco dessa erupção primordial do Universo. […] Mas onde diabo estava o eco? […] Por mais que se procurasse, nada se encontrava. Até que em 1965, dois astrofísicos americanos estavam a levar a cabo trabalho experimental numa grande antena de comunicações […] quando depararam com um irritante barulho de fundo, uma espécie de assobio provocado por vapor. […] Andaram um ano a tentar eliminá-lo. […] Em desespero de causa, decidiram ligar aos cientistas da Universidade de Princeton, a quem relataram o que estava a acontecer e pediram uma explicação. E a explicação veio. Era o eco do Big Bang. […] O que eles estavam a captar era a luz mais antiga que chegou até nós, uma luz que o tempo tinha transformado em microondas. Chama-se a isso radiação de fundo […]
Oiçam, nunca vos aconteceu ligarem um televisor numa frequência em que não há emissão? […] Vemos aqueles pontinhos todos a pulularem no ecrã e um ruído enervante, assim crrrrrrrrr, não é? Pois ficam a saber que um por cento desse efeito é proveniente deste eco. […] Portanto, se um dia estiverem a ver televisão e nada vos interessar, sugiro-vos que sintonizem um canal sem programação e fiquem a ver o nascimento do Universo. Não há melhor reality show que esse.
José Rodrigues dos Santos, A Fórmula de Deus

Não direi que teria sido preferível ligar o aparelho de televisão num canal sem programação e deliciar-me com o nascimento do Universo em vez de ler a Fórmula de Deus de José Rodrigues dos Santos, mas confesso que me desiludiu bastante. Depois do Codex 632 esperava bem mais do que aquilo que me foi oferecido. O livro é, por vezes, um longo e maçador bocejo, entrecortado por uns arreliadores sons guturais de quase todos os personagens: Hu! Das quase seis centenas de páginas do romance, umas boas quatrocentas são de palha, o que é uma pena, além, claro, de um nada ecológico desperdício de papel.
Se o escritor tivesse seguido os ensinamentos do monge Tenzing, teria usado de mais parcimónia no uso das palavras e obraria, certamente, uma obra mais económica. Em vez disso, esbanjou-as a seu bel-prazer, resultando daí um livro, por vezes, entediante e repetitivo.

08 março 2007

PARA TODAS AS MULHERES


Para todas(1) as mulheres: para as minhas, cá de casa, para as dos meus amigos, para as da minha família, para as do meu país, para aquelas que sofrem, para aquelas que todos os dias são vilipendiadas, para aquelas que lutam por um mundo melhor e para aquelas que já desistiram de lutar. Para todas as mulheres do mundo, o meu reconhecimento: sem vocês tudo seria muito mais monótono. Oh, se seria…
Socorro-me do poeta que diz as coisas melhor que eu digo:
ETERNO FEMININO

Voltei, ninfas amigas!
Quem pode resistir a um fresco aceno
De donzelas despidas?
Fiel devoto da nudez da vida,
Tinha sede de ver-vos distraídas
A correr pela terra ressequida.

Serei criança, mas voltei de novo
Ao vosso altar sagrado.
Ou não fosse eu poeta!
Ou não me desse a imagem do passado
Uma esperança secreta…

Vim, e que o mundo murmure,
Ninfas de cada fonte!
Que me importo que digam que enlouqueço
Junto de vós?
Quero é beijar-vos, é beber,
E sentir-me no fim purificado…
Só deusas verdadeiras podem ter
Um corpo tão perfeito e tão lavado.

Miguel Torga
(1) Mesmo para umas que eu cá sei. Que tenham um bom dia e que a caganeira lhes venha só amanhã.