como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.
…
…
Pedro Homem de Mello
Ao casamento [de Gauss] vieram poucos convidados […] Uma hora mais tarde os últimos convidados já tinham partido e ele e Johanna iam a caminho de casa. […] No quarto ele fechou os cortinados e aproximou-se dela […] Quando a mão dele lhe percorreu os seios e depois a barriga, e a seguir ele se atreveu a continuar, […] a lua cheia surgiu pálida e baça por entre os cortinados e ele sentiu vergonha por precisamente nesse momento lhe ter ocorrido a maneira de corrigir por aproximação os erros de medição das órbitas dos planetas. Gostaria de ir anotá-la, mas agora a mão dela deslizava pelas costas dele abaixo. […] enroscou as pernas em torno do corpo dele, mas ele pediu desculpa, levantou-se, foi aos tropeções até à mesa, mergulhou a pena no tinteiro e escreveu, sem acender a luz: soma do quadr. da diferença entre observ. e calc. – min.
"Nas duas grandes horas da Vida – a nascer e a morrer – o homem bebe sozinho o seu cálix. No trajecto entre os dois pólos, acovardado pela maior consciência da espessura da bruma, arregimenta amigos e companheiros. Mas a sua unidade é ele. Mesmo que consiga ter à sua volta uma multidão – vai só."
Em 1951 o Exército Chinês passa a fronteira do Tibete para tomar de assalto um território que, diziam, lhes pertencia por direito próprio. Durante anos foram lá cometidas as maiores atrocidades. Centenas de templos são destruídos, milhares de habitantes são massacrados. Promove-se a aculturação forçada dos tibetanos ao estilo de vida do invasor. Mas uma parte importante daquele povo resiste ainda.
E a vida, por mais que se queira, não é canónica.
Periodicamente, a Junta de Freguesia da Meadela, atenta às coisas da cultura, põe uns dinheiros de parte para a promoção de autores autóctones. Neste ano publicou três livros: um de poesia, um estudo sobre os cinquenta anos das festas da freguesia e um romance, todos eles de autores nados, ou, pelo menos, criados cá. O romance, Carolina, um louco sonho de infância, relata a história de um daqueles amores impossíveis com final feliz. Apesar de uma trama um tanto ou quanto naif, o romance reproduz de uma forma fiel e minuciosa a vida difícil nas aldeias do Alto Minho durante a segunda grande guerra e os anos que se lhe seguiram. A sua leitura, agradável, diga-se, em abono da verdade, teve o condão de me recordar muitos episódios que conheci de perto, na minha aldeia minhota em tempos de grandes privações. Não sei porquê, lembrei-me de um amigo de infância que, quando pela primeira vez foi à cidade e viu uma mulher de beleza ofuscante, ficou com a firme certeza que a dita não cagava. Podia lá ser. Aquele cabelo sedoso, aquela pele de marfim, aquelas mãos de porcelana, aquelas roupas que julgava impossíveis… Pode lá ser, cagar, cagamos nós que somos feios e porcos!
Hoje, à hora de almoço, quando as televisões mostraram o primeiro-ministro australiano John Howard, subindo “a quatro” a escadaria de uma estação de rádio, eu, que não sou aborígene, ri-me desbragadamente. Quando o vi naquela posição confrangedora, lembrei-me de todas as maldades que fizeram e continuam a fazer àquele povo.
Há que puxar pela imaginação porque a notícia vinha extirpada de uma parte importante para a cabal compreensão do sucedido – o busto de Deborah.
Ontem foi um dia mau. Não bastando já ter de gramar com a ideia imbecil da eleição das novas sete maravilhas do mundo ainda tivemos de arcar com o resultado de um tonto estudo científico, com honras de publicação na Science – esta vetusta revista começa a aceitar de tudo –, levado a cabo por investigadores das Universidades do Texas e do Arizona, onde se concluiu que, afinal, as mulheres não falam mais do que os homens. Em cada dia que passa, os homens pronunciam 15669 palavras – assim mesmo, nem 15668 nem 15670, precisamente 15669 palavras – e as mulheres 16215. A ínfima diferença de 546 palavras é, dizem-no os investigadores, estatisticamente insignificante, pelo que acabamos de perder mais uma das nossas bandeiras. A partir de agora quando nos atrevermos a dizer, “ – Estás a falar demais!”, estamos sujeitos a que nos lembrem este famigerado estudo.
O dia estava a romper quando saí do metro. Estava a tossir e a espirrar, tinha os olhos a doer-me, os joelhos tremiam-me, estava com mais fome que uma loba, e tinha exactamente oito cêntimos no bolso. Pouco me importava. A minha história tinha aumentado de onze mil palavras novinhas em folha, e nesse momento aposto que não havia um único Presidente do Conselho de Administração em toda a Nova Iorque tão feliz como eu.
Há uns tempos atrás, uma organização de defesa do consumidor, penso que americana, fez um estudo comparativo acerca das águas engarrafadas, à venda no país. A bitola seria a insuspeita Perrier – e quem mais poderia alcandorar-se a esse título? Tomando por padrão, a inatingível qualidade da famosa água gaulesa, nenhuma outra poderia lá chegar. Venceria aquela que mais próximo conseguisse ficar. O estudo foi-se desenvolvendo e, na hora de ordenar os concorrentes, o impensável aconteceu. A água Perrier, a de inatingível pureza, a que estava no estudo apenas para servir de referência, aquela que era vendida, a preços proibitivos, em garrafinhas bojudas de vidro com 20 centilitros de capacidade, tinha ficado a meio da tabela, vergonhosamente ultrapassada por águas vendidas em garrafões de plástico. A culpa, disse-se na altura, foi de uma arreliadora fuga de hidrocarbonetos no asséptico sistema de lavagem das garrafas, que terá conferido à bebida um agradável travo a petróleo.
“Toda a gente dá por sabido que no dito deserto vivem muitos espíritos que produzem nos viajantes grandes e surpreendentes ilusões para os fazerem perecer […] e muitos, não tendo sido avisados da existência destes espíritos, perecem de mala morte”
Ouvi ontem que Nicolas Sarkozy, quer que se institucionalize o acto de ler a todos os estudantes franceses, no início de cada ano lectivo, a carta que Guy Môquet, escreveu na véspera da sua morte. Fez bem. Isto, está claro, descontando qualquer eventual propósito inconfessável do populista Sarkozy. Talvez ponha alguns jovens a pensar, e isso é sempre bom.
A minha amiga Helena Guerreiro, sempre atenta às inovações que vão acontecendo por esse mundo cão, descobriu uma que, a ser implementada cá, evitaria, com toda a certeza, muitas idas ao psiquiatra e ao otorrino. Então o que descobriu a Helena? Descobriu que na América, tal como cá, os chatos dos paizinhos dos alunos fazem trinta por uma linha aos professores dos seus rebentos. Vai daí, numa escola secundária da Califórnia, os professores sugeriram que, para poupar a comunidade escolar a incómodos vários, deveriam ser gravadas no atendedor de chamadas da Escola uma série de mensagens que funcionariam assim como que um sistema de Manchester. Desconheço se a sugestão foi, ou não, aceite e implementada, mas, não tenho dúvidas que se o foi, será um êxito.
"A viagem não durou mais de vinte minutos. Depois o camião parou, viu-se uma grande porta, encimada por umas palavras fortemente iluminadas (a lembrança dessas palavras ainda me assalta nos sonhos): ARBEIT MACHT FREI, o trabalho liberta"
“E olhando nós de mais longe, de mais alto, da altura do milhano, podemos ver Augusto Pintéu, o que morreu com as mulas na noite do temporal, e atrás dele, quase a agarrá-lo, a sua mulher Cipriana, e também o guarda José Calmedo, vindo doutras terras e vestido à paisana, e outros de quem não sabemos os nomes, mas conhecemos as vidas. Vão todos, os vivos e os mortos. E à frente, dando os saltos e as corridas da sua condição, vai o cão Constante, podia lá faltar, neste dia levantado e principal.”
Para todos os Leandros que, apesar de terem aprendido a ler à bofetada, não perderam o amor aos livros.
“Nós viemos – disseram – porque toda a gente vem”
Ligo a televisão: Na América um celerado entra pelo dormitório da Universidade da Virgínia e assassina trinta e dois inocentes, suicidando-se de seguida. Fecho a televisão.