07 março 2008

PARA TODAS... MENOS PARA UMA!


Por vezes, no meio dos montes de mensagens cretinas que os meus queridos amigos enviam para a minha caixa de correio electrónico, lá vem uma ou outra que me desperta a atenção. O Carlos Pires, um amigo que vejo apenas uma vez por ano quando, à mesa, recordamos os bons velhos tempos de estudante, enviou-me, atrevo-me a dizer, uma das mais belas loas que um homem pode tecer a uma mulher. Talvez que há vinte anos – se já houvesse correio electrónico, claro está –, o Pires não ma tivesse enviado ou eu não a tivesse apreciado sobremaneira, mas hoje, quando a idade já me permite apreciar o mundo em todos – ou quase todos – os seus matizes, reconheço: gostei e faço minhas as palavras do anónimo que as escreveu.
Neste dia oito de Março, partilho com todas as mulheres esse texto de que tanto gostei… com todas não, com todas menos uma! Só não digo quem porque teria logo a polícia à perna a fazer-me perguntas a que, talvez, nem soubesse responder.




CUIDEM-NO! CUIDEM-SE! AMEM-SE!



Não importa quanto pesa.
É fascinante tocar, abraçar e acariciar o corpo de uma mulher.
Saber o seu peso não nos proporciona nenhuma emoção.

Não temos a menor ideia de qual seja o seu manequim.
A nossa avaliação é visual. Isso quer dizer: se tem forma de guitarra... está bem!
Não nos importa quanto medem em centímetros – é uma questão de proporções, não de medidas.

As proporções ideais do corpo de uma mulher são: curvilíneas, cheiinhas, femininas....
Essa classe de corpo que, sem dúvida, se nota numa fracção de segundo.
As muito magrinhas que desfilam nas passereles seguem a tendência desenhada por estilistas que, diga-se de passagem, são todos gays, odeiam as mulheres, e competem com elas .
As suas modas são rectas e sem formas. Agridem o corpo que eles odeiam porque não podem tê-los.

Não há beleza mais irresistível na mulher do que a feminilidade e a doçura.
A elegância e o bom trato são equivalentes a mil viagras.

A maquilhagem foi inventada para que as mulheres a usem. Usem!
Para andar de cara lavada, basta a nossa.
Os cabelos, quanto mais tratados, melhor.

As saias foram inventadas para mostrar as suas magníficas pernas.
Por que razão as cobrem com calças longas? Para que as confundam connosco?
Uma onda é uma onda, as cadeiras são cadeiras, e pronto!
Se a natureza lhes deu estas formas curvilíneas, foi por alguma razão, e eu reitero: nós gostamos assim!
Ocultar essas formas é como ter o melhor sofá embalado no sótão.

É essa a lei da natureza... que todo aquele que se casa com uma modelo magra, anoréctica, bulímica e nervosa logo procura uma amante cheiinha, simpática, tranquila e cheia de saúde.

Entendam de uma vez! Tratem de agradar a nós, e não a vocês, porque nunca terão uma referência objectiva, do quanto são lindas, dita por uma mulher.
Nenhuma mulher vai reconhecer jamais, diante de um homem, com sinceridade, que outra mulher é linda.

As jovens são lindas... mas as de 30 para cima, são verdadeiros pratos fortes.
Por Karina Mazzocco, Eva Longaria, Angelina Jolie ou Demi Moore - ou Jessica Alba, digo eu -, somos capazes de atravessar o Atlântico a nado.
O corpo muda... cresce.
Não podem pensar, sem ficarem psicóticas, que podem entrar no mesmo vestido que usavam aos 18.
Entretanto, uma mulher de 45, na qual entre na roupa que usou aos 18 anos, ou tem problemas de desenvolvimento, ou está-se autodestruindo.

Nós gostamos das mulheres que sabem conduzir a sua vida com equilíbrio e sabem controlar a sua natural tendência à culpa.
Ou seja, aquela que quando tem que comer, come com vontade – a dieta virá em Maio, não antes –; quando tem que fazer dieta, faz dieta com vontade - não se sabota e não sofre -; quando tem que ter intimidade com o parceiro, tem com vontade; quando tem que comprar algo que goste, compra; quando tem que economizar, economiza.

Algumas linhas no rosto, algumas cicatrizes no ventre, algumas marcas de estrias não lhes tiram a beleza.
São feridas de guerra, testemunhas de que fizeram algo em suas vidas, não estiveram anos em formol, nem em SPA’s. Viveram!
O corpo da mulher é a prova de que Deus existe. É o sagrado recinto da gestação de todos os homens, onde foram alimentados, mimados e nós, sem querer, enchemo-los de estrias, de esárias e demais coisas que tiveram que acontecer para estarmos vivos.

Cuidem-no! Cuidem-se! Amem-se!
A beleza é tudo isto. Tudo junto!

02 março 2008

COM A MINHA MELHOR VOZ DE BARÍTONO

Ao arrepio da opinião dos entendidos, são as óperas de cariz popular que eu aprecio na vasta obra de Guiseppe Verdi. Confesso que os meus rudes ouvidos apreciam muito mais A Traviata que as eleitas dos eruditos. Pela obra perpassa uma bela história de amor. Fala de amizade, de dignidade, de perdão, de arrependimento, enfim, de tudo o que os meus incultos ouvidos gostam de ouvir. A história conta-se em duas penadas. Violeta, uma mulher mundana, vive faustosamente a expensas de um barão. Um dia, durante uma festa em sua casa, Alfredo Germont é-lhe apresentado por um amigo comum. Num momento a sós, Alfredo confessa-lhe o grande amor que sente por ela. Violeta promete-lhe, tão só, a sua amizade mas, uma vez a sós, é fustigada pela imagem do jovem galanteador e pelas suas palavras que não consegue esquecer. Pouco depois os amantes iniciarão uma vida em comum que escandalizará a família de Alfredo. O pai fará tudo para afastar o filho daquela relação adúltera e, por fim, consegui-lo-á. Um dia, ao chegar a casa, Alfredo encontra uma carta da sua amada. Abre-a e basta ler a primeira frase para saber que Violeta o abandonou. A sua tristeza é pungente. Entretanto, Giorgio Germont, pai de Alfredo, entra, e ao ver o seu filho naquela melancolia, tenta fazê-lo esquecer-se daquele amor que tantas contrariedades tinha trazido à família. Fala-lhe, então, das belezas da sua Provença natal, tentando que deste modo o filho esqueça o seu amor contrariado e regresse ao lar. A beleza da melodia aliada à mágoa do filho e ao desespero do pai fazem de “Di Provenza il mar, il suol” a minha ária preferida d’A Traviata. Na última Segunda-feira, depois das enormidades do “Prós e Contras”, tive alguma dificuldade em adormecer. Cheguei os phones aos ouvidos e liguei o leitor de mp3. Tenho sempre esta ópera à mão. Contra o que é habitual, desta vez, nem com o desespero de Giorgio no fim do 2.º acto consegui adormecer.
Ao que me dizem a ministra da educação terá alguma ligação ao Alto-Minho. Então – dei por mim a pensar –, e se alguém lhe cantasse as belezas da sua terra? O rio Minho correndo entre margens verdejantes, as searas de centeio ondulando aos ventos da Primavera, os vinhedos escarlates das vertentes viradas a Sul, os picos alvos da serra Amarela, os carvalhos da floresta primordial conservados no parque natural da Peneda-Gerês... será que esquecia os dissabores da grande cidade e fugia deste povo ignorante e mal agradecido que a não merece, refugiando-se lá para as terras da raia? Ah, se assim fosse! Até eu punha a minha melhor voz de barítono e cantava para ela.

29 fevereiro 2008

TALVEZ O DN

Durante as vinte e quatro horas de um dia, se atentarmos um pouco (um pouco basta) nas notícias que nos bombardeiam, ouvimos coisas extraordinárias. Anteontem de manhãzinha, na televisão, falava-se de avaliação dos professores. A ministra da educação e uma roda de jornalistas. Três milhões de euros p’ráqui, providência cautelar p’ráli, decisão favorável dos tribunais p’rácolá, por fim lá vem a pergunta: “E quanto à avaliação dos professores, em que pé estão as coisas?”. Dos lábios finos da ministra sai esta coisa extraordinária: “A avaliação dos professores é um processo que está a decorrer em todo o país em absoluta normalidade”. Alguns segundos depois, as imagens que ilustravam a notícia seguinte davam conta das manobras nocturnas de mais de dois mil e quinhentos professores de Coimbra que marchavam em protesto pelas trapalhadas do ministério da educação. Ouvi isto e fiquei estuporado. Dei por mim a pensar no New York Times do David Rockfeller. Conta-se – conta-o José Saramago n’O Ano da Morte de Ricardo Reis –, que para o fim da vida, Rockfeller morreu em 1937 com a provecta idade de 98 anos, enquanto a América se debatia, ainda, com as sequelas da grande depressão e na Europa os sinais do caos que se avizinhava eram já bem visíveis, o New York Times fazia todos os dias um exemplar único do jornal, falsificado de uma ponta à outra, só com notícias agradáveis e artigos optimistas para que o pobre velho não [tivesse] de sofrer com os terrores do mundo e suas promessas de pior.
Será que o Público edita diariamente uma edição extirpada de todas as desgraças para que a ministra da educação não se sinta amargurada com as banalidades do povo? Não, o Público não! O Público é mais do género Washington Post. Deve ser o Diário de Notícias. É, deve ser o DN. Correio da Manhã ou 24 horas não podem ser: extirpados de desgraças sobrariam, apenas, classificados.
O Doutor Monteiro anda assoberbado com trabalho. Tivesse um tempinho livre e pedíamos-lhe que investigasse.

24 fevereiro 2008

QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COM GATO!


No meio das toneladas de lixo com que os meus amigos entendem por bem atafulhar a minha caixa de correio, aparecem, ainda que raramente, algumas pérolas pelas quais vale a pena ter o trabalho de enviar todas as outras direitinhas para o lixo. A última foi a foto que acompanha este texto. Confesso que me ri a bandeiras despregadas.
Lembrei-me, ao vê-la, de um episódio rocambolesco que metia também uma cadeira. Há muito tempo, tanto que já lhe perdi a conta, no meu círculo de amigos havia um que tinha o infeliz hábito – infeliz e irritante, diga-se – de distribuir cumprimentos. Fazia-o, dando-nos arreliadoras palmadas nas costas, tal como hoje, estupidamente, o fazem os jogadores de futebol, nas cabeças dos colegas bem sucedidos. Enfim, o regresso às cavernas. Voltemos ao abusador. Talvez porque o seu estatuto económico fosse bem mais elevado que o dos restantes – na altura tinha já um emprego especializado que lhe rendia um ordenado acima da média, ao passo que os outros ou frequentavam ainda a escola, ou tinham um emprego mais precário, ou nem uma coisa nem outra – achava ele, que nós, os tesos, devíamos prestar-lhe vassalagem. O vil metal a isso nos obrigava e, se bem que não apreciássemos aquele peculiar modo de cumprimentar, lá o íamos aturando, afastando, sempre que possível, os nossos prezados espinhaços das suas manápulas. Mas lá chegou a altura em que a sua sorte mudou. Um dia, estávamos nós calmamente conversando – sobre a vida, quem sabe – quando chegou o nosso amigo capitalista, começando, de imediato, a distribuir cumprimentos. Mas, ou porque não estivesse em dia sim ou porque estivesse já saturado de cumprimentos tão efusivos, um dos da roda, tão logo recebeu a palmada no costado, levantou-se, como que impulsionado por uma mola, amarrou na cadeira que em que estava sentado e, com incontida raiva, fê-la voar de encontro às espáduas do amigo. Naquele momento o destemido foi o nosso herói. Fez o que todos, há muito, desejávamos fazer. Quanto ao abusador, foi remédio santo: mudou de cumprimento e, paulatinamente, foi-se afastando do grupo. Enfim, digamos que se mataram dois coelhos de uma cajadada só ou, melhor dizendo, de uma cadeirada.
Agora, vendo a fotografia, sou levado a concluir que a serventia de uma cadeira pode ser bem menos prosaica do que descansar o traseiro ou assestá-la na lombada de um amigo abusador: traçar, com rigor, o gráfico de uma função afim.

05 fevereiro 2008

... E O BURRO SOU EU?

Um destes dias uma cadeia britânica de televisão resolveu fazer um estudo – à escala nacional, diz-se – sobre os conhecimentos da juventude britânica em matéria de História. Entrevistaram uma amostra de três mil jovens com menos de 20 anos e, tratados os dados, obtiveram resultados preocupantes. Bem, melhor dizendo, preocupantes para eles, para mim foram hilariantes. Algumas pérolas saídas do dito: Winston Churchill, que a gente pensava ter sido Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha durante a II Guerra Mundial e o Rei Ricardo I, Coração de Leão, que tínhamos como um dos líderes da terceira cruzada, o terror dos infiéis na Terra Santa, são, afinal, figuras de ficção. Sherlock Homes, o metódico investigador, criado pelo escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle e Robin Hood, o príncipe dos ladrões, um fora-da-lei que roubava dos ricos para dar aos pobres, esses sim, ao contrário do que pensávamos, foram personagens com uma existência real.
Parafraseando Luiz Felipe Scolari: então Artur, o da Távola Redonda, foi rei de Inglaterra? E Charles Dickens é uma personagem da banda desenhada? E o burro sou eu? E o ruim sou eu?

30 dezembro 2007

FAÇA FIGA E PEÇA GRAÇA


Este está-se esvaindo. Lembro-me agora que há um ano dizia que o próximo é que seria! Humildemente, reconheço-o, enganei-me. Na realidade estava a referir-me ao que está a chegar. Sim, estava referir-me a 2008. Este é que vai ser. Para mim, para a Maria e para o João. Para Viana, para a Bahia e para o Japão. Entretanto uma taça e um abraço.

29 dezembro 2007

PARECIA COISA SONHADA

Neste ano, o défice orçamental ficará abaixo dos 3% o que significa que as contas públicas estão finalmente controladas e que vencemos a crise orçamental dos últimos anos. […] Este ano Portugal saiu também da lista dos países de alto risco na segurança social. […] Temos este ano mais alunos no ensino secundário. Temos mais 17% de alunos no ensino superior. E temos, finalmente, 360.000 portugueses que estando a trabalhar ou à procura de emprego decidiram inscrever-se no programa Novas Oportunidades para melhorarem as suas qualificações. […] a nossa economia já está a criar mais empregos do que aqueles que se perdem. Segundo os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística, nestes últimos dois anos e meio a economia criou em termos líquidos 106.000 novos empregos. […] este ano Portugal viu reforçado também o seu prestígio internacional. A Presidência Portuguesa da União Europeia foi uma das presidências mais bem sucedidas dos últimos anos. O Tratado da União Europeia chama-se agora Tratado de Lisboa […] fizemos também a Cimeira com o Brasil e a Cimeira com África o que ficará como um contributo português para o enriquecimento da política externa europeia. […] E terminámos a nossa presidência celebrando o melhor da Europa: abolindo as fronteiras internas a leste em nove Estados membros. […] este ano lançámos pela primeira vez políticas de apoio aos jovens casais e à natalidade. As mulheres grávidas passaram a ter direito a um abono pré-natal desde o terceiro mês e as famílias verão duplicado o abono de família para o segundo filho e triplicado para o terceiro filho.[…] A todos os portugueses quero desejar Feliz Natal e Feliz Ano Novo. Boas Festas.

Quando, na última Terça-feira, ouvi o primeiro-ministro na habitual mensagem ao país por alturas do Natal, lembrei-me, vá saber-se porquê, de Fausto, mais propriamente de “A guerra é a guerra” do inolvidável “Por este rio acima” :


...
Diz-nos adeus o pirata
O labrego
De cima daquele mastro
Trocista e airoso
Mostrando o traseiro cafre
Preto escuro de um negro
Levando-nos coiro e tesouro
Rindo de gozo
...

Fausto, A guerra é a guerra (extracto)

23 dezembro 2007

FELIZ NATAL... mesmo que chova!


Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que anda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e o Natal não.

Deixo sentir a quem a quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa

02 dezembro 2007

DIVINAS PROPORÇÕES

O arquitecto Phídeas usou-o profusamente na sua obra. O mundo, talvez em reconhecimento, decidiu que para todo o sempre o número de ouro, um número irracional de propriedades misteriosas, seria representado pela inicial do seu nome: phi.
Um século antes dele, uma seita, também ela enigmática, a escola pitagórica, tinha descoberto esse número extraordinário. A escola era representada por uma estrela de cinco pontas, o pentagrama, construído a partir de um pentágono regular no qual são traçadas as suas cinco diagonais. Tomando uma qualquer, por exemplo a diagonal [BV] da figura, verifica-se que ao ser intersectada pela diagonal consecutiva, fica dividida em dois segmentos, [BE] e [EV] com invulgares propriedades. Com efeito, o ponto E está situado num local tal que a razão entre a diagonal [BV] e a parte maior [EV] é igual à razão entre a parte maior [EV] e a parte menor [BE]. Estava descoberta a Divina Proporção, a constante matemática da harmonia universal, 1,618 com três casas decimais. A razão entre o comprimento e a largura de um vulgar cartão de crédito ou da fachada do edifício sede das Nações Unidas em Nova Iorque de Le Corbusier, é o número de ouro.
Há uns dias, quase vinte e cinco séculos depois de Phídeas, cientistas da Universidade de Cambridge, presume-se que após aturados estudos científicos, conseguiram determinar o índice do corpo harmonioso que definiria a mulher ideal. Aplicaram-no a várias mulheres e chegaram à definitiva conclusão: a mulher ideal, a dona do corpo completamente harmonioso, era Jessica Alba.
Desconheço quais as variáveis consideradas pelos cientistas mas, convenhamos, até Phídeas concordaria com a escolha.

18 novembro 2007

ATÉ PODIA SER DOUTOR

No passado Domingo foi dia de S. Martinho. Para assinalar a data, no serviço de notícias da hora de almoço, um dos canais de televisão mandou um repórter procurar um vendedor de castanhas assadas. Sempre seria mais castiço. Ilustrava-se a notícia com um fóssil e, com toda a certeza, os telespectadores gostariam. Parece que com alguma dificuldade – será mesmo um fóssil –, o repórter lá conseguiu encontrar um ali para os lados da Boavista. Gostei de ouvi-lo. Depois de tanta queixa – irrita-me sobremaneira esta moda nacional do queixume –, deleitei-me ouvindo uma pessoa que, tendo, talvez, razões de sobra para os lamentos, lá foi dizendo, convictamente, que a vida corria bem. Contente com o que faço e feliz com o que ganho porque não sei ler nem escrever. Não tenho exame nenhum senão podia ir para Doutor.
Desconheço em quê ou em quem estaria a pensar – ou se estaria a pensar algo – quando disse tal coisa mas por mim veio-me à memória um certo senhor de uma estirpe, senão fóssil, pelo menos à beira da extinção, que nunca tem dúvidas e raramente se engana.
Gostei de ouvi-lo. Falou por mim. Pelo sim, pelo não, quando for ao Porto tentarei passar pela Boavista. Procurarei o vendedor e, entre duas castanhas, falaremos daquela casta de homens que já se não encontram... com facilidade.

27 outubro 2007

DE BUDAPESTE - MARTE, COM AMOR...

Todas as semanas, a TSF convida uma figura pública para partilhar com os ouvintes as músicas que, de qualquer maneira, a tenham marcado, à figura, entenda-se. O programa tem um nome modernaço, bem ao nível do choque tecnológico: “A playlist de…”. De quando em vez, durante qualquer um dos meus pequeninos trajectos da hora do almoço – o programa é transmitido durante a semana a partir da uma da tarde –, ligo a TSF e “espreito” os gostos musicais do pessoal que “conta”. Algumas vezes delicio-me com as justificações do convidado pela escolha da música que se vai seguir, outras, fico a pensar que a personagem deveria divulgar tão só o nome da música, calar-se muito caladinho e carregar no botão sem mais delongas. O convidado desta semana é a metralhadora falante, também conhecido por Rogério Alves. Pelo genérico do programa vê-se que o causídico é do género Pink Floyd / Dire Straits, mas foi sobre um outro grupo musical que contou uma história extraordinária. Foi, mais ou menos assim: quando viu um disco, já não sei qual, dos Renaissance foi amor à primeira vista e, vá lá saber-se porquê, disse para os seus botões: “Tenho de possuir este disco, dê por onde der!”. E então começa uma verdadeira aventura. Procurou-o por cá, por tudo quanto é sítio e não o encontrou, procurou-o em Nova Iorque e não o encontrou, procurou-o em Londres e não o encontrou, procurou-o em Roma e não o encontrou – o programa não permite interactividade com os ouvintes já que nem sequer é em directo se não, naquele momento, contactava a TSF e aconselhava-o a procurar em Ouagadougou, encontrava-o de certeza –, até que um dia, estando em Budapeste, passou por uma loja daquelas que vende de tudo, livros e outras quinquilharias e diz-lhe a Joana – a Joana é a senhora sua esposa e ele diz Joana como se eu e todos os ouvintes a conhecêssemos desde sempre e todos os dias privássemos com ela –, “Devias procurar aqui, nunca se sabe…”. Claro que o jurisconsulto não deu ouvidos à pobre da Joana – era mesmo em Budapeste, e ainda por cima no meio de quinquilharia, que ia encontra a banda dos meus sonhos. Num dos dias seguintes, o destino – bom, não me recordo já se foi o destino ou outra coisa qualquer mas para o desenrolar da história isso é um pormenor de somenos – fê-lo passar novamente pela tal loja. Aí, achou que algo o guiou por esse caminho e entrou. E não é que no meio dos budas e dos relógios contrafeitos encontrou o disco dos Renaissance que tinha já procurado em meio mundo!
A história do Doutor Alves teve um final feliz e tenha a certeza que, naquela hora, todos os ouvintes, solidariamente, respiraram de alívio por, finalmente, ter encontrado o disco dos Renaissance mas o que mais me impressionou no letrado foi ele dizer que encontrou o disco em Budapeste como se o tivesse realmente encontrado em Marte, numa qualquer loja de esquina. Depois desta história lúgubre fiquei sem vontade de ouvir os Renaissance e mudei de estação.
Agora, sempre que passar por uma loja de chineses, vou-me lembrar da loja de Budapeste e não conseguirei entrar, ainda que na montra anunciem um Rolex ao preço da uva mijona e sempre que o disc jockey anunciar os Renaissance vou-me lembrar da história triste do Rogério Alves e ficarei sem vontade de os ouvir.

15 outubro 2007

ESTAVAS MESMO A PEDI-LAS!

O bronco do Gordon Brown andava a pedi-las. Tanto acirrou o pessoal lá de baixo que ouviu das boas dos torcionários do Zimbabué. Em entrevista a uma rádio portuguesa, um ministro de Mugabe, não se coibiu de dizer alto e bom som que Brown não tinha legitimidade para falar em democracia e em direitos humanos, ele que não tinha sequer sido eleito pelo povo britânico. Pois é, mister Brown, os carniceiros lá de baixo estão bem informados. Por cá aconteceu, em tempos, o mesmo. Um primeiro-ministro saiu e ficou o número dois do partido cujo mandato não tinha sido sufragado pelo povo. Aguentou-se pouco mais de um mês. O presidente tratou de o pôr no lugar.

25 setembro 2007

JURO QUE NÃO FUI EU!

Não fosse a máscara que a oculta e teria, naturalmente, qualquer Margarida Moreira à perna.
Continuo a encontrar ratazanas do rio quando a noite cai. São sempre três e estão sempre no mesmo local. Já me lembrei que, se calhar, são sempre as mesmas ratazanas que, num gesto de cortesia, me querem cumprimentar. Se tivesse coragem aproximava-me das terríveis bichas e dizia-lhes assim “Em vez de me atazanarem os treinos ide para a zona ocidental da cidade. Lá atentai num homem de plástico, que parece quase humano, de boa figura, que corre sempre com dois seguranças. Quando o virdes, mordei-lhe as canelas com fúria, tasquinhai-lhe as carnes macias, que é para ver se perde aquele sorriso de tolo e deixa de fazer corridinhas para aparecer nos jornais.”

09 setembro 2007

E SE ESCREVESSE LIVROS?

Há uns anos a esta parte, desde que foi viver para aquela paisagem lunar de Lanzarote – teria Pilar algo com esta estapafúrdica decisão? -, Saramago tem-se batido pela ridícula ideia de uma Península unida, a Ibéria dos seus sonhos. Embora por cá quase ninguém o leve a sério, e agora, depois do Nobel, com aquela sua mania de emitir opiniões definitivas sobre tudo, ou quase tudo, confesso que já me irritava aquela sua cruzada pela grande Ibéria. No início desta semana, em pleno Parlamento Europeu, a uma pergunta de uma jornalista espanhola - os únicos que ainda fingem levar a sério o escritor -, o Presidente de República respondeu-lhe por mim: "Basta conhecer a história de Portugal para dizer que essa hipótese é um total absurdo!"

19 agosto 2007

ALGUM CHEIRINHO DE ALECRIM


Em especial para o grande amigo Pedro Nelito, que não conseguiu estar presente, mando urgentemente algum cheirinho de alecrim.

14 agosto 2007

LÁ ESTAREI!


Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.

Pedro Homem de Mello

1+2+3+...+99+100=5050

Ao casamento [de Gauss] vieram poucos convidados […] Uma hora mais tarde os últimos convidados já tinham partido e ele e Johanna iam a caminho de casa. […] No quarto ele fechou os cortinados e aproximou-se dela […] Quando a mão dele lhe percorreu os seios e depois a barriga, e a seguir ele se atreveu a continuar, […] a lua cheia surgiu pálida e baça por entre os cortinados e ele sentiu vergonha por precisamente nesse momento lhe ter ocorrido a maneira de corrigir por aproximação os erros de medição das órbitas dos planetas. Gostaria de ir anotá-la, mas agora a mão dela deslizava pelas costas dele abaixo. […] enroscou as pernas em torno do corpo dele, mas ele pediu desculpa, levantou-se, foi aos tropeções até à mesa, mergulhou a pena no tinteiro e escreveu, sem acender a luz: soma do quadr. da diferença entre observ. e calc. – min.




Ainda enquanto ele lhe perguntava de onde vinha, o que desejava e em que poderia ajudá-la, ela abriu-lhe as calças com desembaraço. Quando […] lhe arrancou a camisa pela cabeça soltou-se um botão e rolou pelo chão. Humboldt seguiu-o com os olhos, até ele esbarrar contra a parede e tombar. Ela passou-lhe os braços em volta do pescoço e puxou-o para o meio do quarto [arrastando-o] para cima do tapete e por qualquer motivo ele permitiu que ela o fizesse deitar-se de costas e que as suas mãos fossem descendo ao longo do corpo […] Ele olhava as suas costas arqueadas, o tecto do quarto, a janela onde se viam as folhas das palmeiras agitadas pelo vento. […] As folhas eram curtas e aguçadas, ele nunca tinha estudado aquela árvore. Quis levantar-se, mas ela pousou-lhe a mão no rosto e empurrou-o para baixo […] Não tem importância, disse em voz baixa, a culpa era dela. Bonpland foi encontrá-lo sentado à secretária, no meio dos cronómetros, do higrómetro, do termómetro e do sextante […] Com a lupa presa no olho, observava as folhas de palmeira. Uma estrutura interessante.

A Medida do Mundo, Daniel Kehlmann


Alexander von Humboldt, nasceu em Berlim, a 14 de Setembro de 1769, e faleceu a 6 de Maio de 1859 na mesma cidade. Carl Friedrich Gauss nasceu em Braunschweig, a 30 de Abril de 1777, e faleceu a 23 de Fevereiro de 1855, em Götingen. Foram duas das mentes mais extraordinárias que a Alemanha e o mundo já conheceram.
O primeiro foi etnógrafo, antropólogo, físico, geógrafo, geólogo, mineralogista, botânico e vulcanólogo, o segundo, matemático, astrónomo e físico.
Humboldt, um explorador, criou o essencial da sua obra através das expedições que realizou em diversas partes do mundo – são famosas as expedições à América do Sul e à Ásia Central –, Gauss, essencialmente um pensador, quase nunca saiu da sua cidade.
O livro de Daniel Kehlmann começa precisamente por explorar esta faceta da vida de Gauss, o seu horror a viagens, quando tinha de se deslocar a Berlim para participar na reunião de estudiosos de Ciências Naturais onde encontraria Humboldt. Alternadamente, capítulo para um, capítulo para o outro, o autor revisita as vidas destes dois gigantes do Iluminismo alemão. Além das descobertas fantásticas que se aliam aos nomes destes dois investigadores, Daniel Kehlmann dá-nos a conhecer – de uma forma por vezes hilariante –, as suas idiossincrasias.
Um livro que, vivamente, se recomenda. Se não for por mais, pelo menos para nos lembrar que todos os grandes homens são, antes de mais, homens, com todas as suas fraquezas que, normalmente, as biografias oficiais não contemplam.

12 agosto 2007

MIGUEL TORGA

"Nas duas grandes horas da Vida – a nascer e a morrer – o homem bebe sozinho o seu cálix. No trajecto entre os dois pólos, acovardado pela maior consciência da espessura da bruma, arregimenta amigos e companheiros. Mas a sua unidade é ele. Mesmo que consiga ter à sua volta uma multidão – vai só."

Miguel Torga, Diário I [coimbra, 6 de novembro de 1937]

09 agosto 2007

REENCARNAÇÃO NÃO AUTORIZADA!

Em 1951 o Exército Chinês passa a fronteira do Tibete para tomar de assalto um território que, diziam, lhes pertencia por direito próprio. Durante anos foram lá cometidas as maiores atrocidades. Centenas de templos são destruídos, milhares de habitantes são massacrados. Promove-se a aculturação forçada dos tibetanos ao estilo de vida do invasor. Mas uma parte importante daquele povo resiste ainda.
Tensing Gyatso, o décimo quarto Dalai Lama, é o líder espiritual dos tibetanos. Obrigado a fugir do seu país em 1959, refugia-se na cidade indiana de Dharamsala, no sopé dos Himalaias, onde, até hoje, como líder do governo tibetano no exílio, tem conduzido a luta pela libertação do seu país. Pelo reconhecimento desse combate o Comité Nobel decidiu, em 1989, atribuir-lhe o prémio Nobel da Paz.
O Dalai Lama é a reencarnação de Buda na Terra, segundo a tradição tibetana. Ainda não há muito tempo a insuspeita Der Spiegel dizia que o líder espiritual dos tibetanos era mais popular que o Papa Bento XVI. O governo chinês sabe disso e sabe também a mossa que essa popularidade pode causar nos seus propósitos de anexação do Tibete – veja-se a pressão imensa que o império do meio exerce sobre qualquer governo para que o não receba, pelo menos a nível oficial –, de modo que, para limitar a sua influência, fez aprovar um decreto que só não é hilariante porque é perturbador: O chamado "Buda vivente" reencarnado é ilegal e inválido sem a aprovação governamental. Este decreto, ao melhor estilo das trevas medievais da Santa Inquisição, entrará em vigor no próximo dia 1 de Setembro.

E assim, um país que exige, já, tratamento de super potência e que organizará no próximo ano os Jogo Olímpicos na sua capital, não se coíbe de cercear a todo um povo o inalienável direito à sua espiritualidade. Todos estamos lembrados que por muito menos os jogos olímpicos de Moscovo foram boicotados em 1984 e 4 anos depois o mesmo aconteceria em Los Ângeles. Se os tiver no sítio, o mundo saberá fazer ver à China que não aprova todas as selvajarias que, impunemente, tem feito, dentro e fora das suas fronteiras.

Esperarei para ver!

08 agosto 2007

RAPAZ POBRE, RAPARIGA RICA

E a vida, por mais que se queira, não é canónica.
Miguel Torga

Nasci em Santa Marta de Portuzelo. Hoje a aldeia está pegada à cidade mas naquele tempo “ficava a léguas”. Ali sentia-se o peso da interioridade de modo que com atenção ouvia-se, aos mais velhos, expressões que hoje estão completamente arredadas do nosso modo de falar. Por isso, foi com um indescritível prazer que as encontrei todas no livro de João Cavalheiro, Carolina, um louco sonho de infância. Embora já há muitos anos as não ouvisse, aconteceu-me achá-las tão naturais como se as utilizasse no dia-a-dia. Aconteceu como quando encontramos um amigo da escola que já não víamos há vinte anos. Falamos com ele como se estivéssemos a continuar a conversa do dia anterior. Além do linguajar de antanho pode apreciar-se a mesa tradicional, tanto da gente remediada como da rica. Utilizando uma expressão que vai atravessando o tempo: de comer e chorar por mais. O romance conta a história de um amor impossível entre João Miguel, um rapazinho pobre de uma aldeia perdida da ribeira Lima e Carolina, a herdeira da família de maiores pergaminhos, lá da terra. Ao longo de mais de quinhentas páginas os protagonistas viverão aventuras indescritíveis até ao feliz desenlace. Corin Tellado, ou até Gilberto Tumscitz Braga, roer-se-iam de inveja se um dia tivessem oportunidade de ler o livro. Passado a episódios de trinta minutos poderia figurar na grelha de programação de qualquer estação de televisão, no seu horário nobre. Apenas um reparo: para dar à história a direcção pretendida, juntando os protagonistas, o autor não hesita em fazer cair um avião com a mulher e os sogros ou fazer sair da estrada o automóvel com a mulher e o homem em que, miraculosamente, só este se fina. Para a história isso é providencial mas na vida real os acontecimentos não se desenrolam a pedido porque a vida, por mais que se queira, não é canónica.