24 novembro 2008

FOSSEM ASSIM TODOS...

«O meu pai não é um assassino e também não é um herói. É apenas um homem, desesperadamente humano, capaz do pior e do melhor.»
Nicolas D’Estienne D’Orves, "Os Órfãos do Mal"
Fossem assim todos os pais e o mundo seria, certamente, melhor.

21 novembro 2008

LIÇÃO DE ZOOLOGIA

invertebrado, adj. (zool.) diz-se dos animais desprovidos de endosqueleto desenvolvido (com vértebras) e crânio propriamente dito, em oposição aos vertebrados ou craniotas.
Dicionário da Língua Portuguesa, 6.ª Edição, Porto Editora

Foram necessárias 120 000 vozes, gritando em uníssono, para que a ministra, finalmente, entendesse, embora que apenas um bocadinho, aquilo que todos os professores lhe vêm dizendo há meses: «Tenho de reconhecer que a forma como estávamos a concretizar a dimensão relativa aos resultados escolares não era confortável, nem razoável, mas excessiva, desajustada e com erros técnicos» disse. Entretanto perderam-se meses de trabalho, o ambiente nas escolas degradou-se, a paciência dos professores esgotou-se, as aprendizagens, fatalmente, ressentiram-se. E tudo porquê? Ora, porque é caprichosa e teima em ouvir sempre uns figurões que ainda a confundem mais. Um deles, aquele do “bamos promober um encôuntro” que sempre louvou as virtualidades do modelo, secundando incessantemente as palavras de tudo quanto era ministro ou secretário, hostilizando sempre os professores, vem agora dizer, depois do recuo, que agora é que sim “cremos que estom criadas as condições para no aprofundamento de uma escuta atiba e dum diálogo consequente seja possíbel lebar a cabo a abaliação do desempenho dos docentes num quadro de serenidade num quadro de serenidade e tranquilidade que as escolas precisam e portanto faz falta que todos nós atrabés da cominicaçom social possamos dizer que o ministério reconhece que deberia ter sido mais generoso em matéria daquilo que eram as questões que tinham sido lebantadas de dificuldades objectibas de aplicaçom do modelo o que foi feito hoje foi o lebantamento exaustivo dessas questões e foram imbentariadas soluções para todos os casos”.
É, convenhamos, uma nítida evolução do seu pensamento acerca do processo de avaliação do pessoal docente... pensamento, disse eu? Parece que não interiorizei bem a lição de hoje. De qualquer modo, honra lhe seja feita, nem um contorcionista conseguiria tal proeza… a coluna vertebral não o permitiria.

18 novembro 2008

SÓ PARA OS AMIGOS

Senhor primeiro-ministro, eu sei que o senhor é visita assídua deste blog e, perdoe-me a imodéstia, sei, até, que o tem em boa conta. Como sei tudo isso vou esclarecê-lo sobre um assunto porque, por mais do que uma vez, já o vi meter os pés pelas mãos. É sobre a avaliação dos professores. Ainda um dia destes, em Ponte de Lima, enquando distribuía autógrafos pelos alvoroçados alunos – é campeão! dizia o senhor com a mesma convicção com que eu diria que este ano, finalmente, os políticos vão deixar de mentir ao povo – e prantava uma série de Magalhães – duzentos e sessenta ao que me dizem - na frente das criancinhas que os receberam com “um brilhozinho nos olhos” como reconheceu junto do seu staff, que recolheria, depois das fotografias da praxe, para continuar o seu reclame noutra escola, dizia aos jornalistas, com aquele seu ar de homem providencial: “Eu não quero que os professores passem mais trinta anos sem serem avaliados!” Cometeu, como vem cometendo desde há tempos, um erro grosseiro. Na realidade, aquilo que o senhor vem dizendo, é uma grande mentira. Compreendo que uma pessoa não pode saber tudo. Nem mesmo sendo o primeiro-ministro. Sei também que não arranjou uma grande equipa para o elucidar. Começando pela doutora Maria de Lurdes, sempre a humedecer aqueles lábios finos antes de cada frase. Deve ser intragável – refiro-me, claro está, às suas qualidades de conversadora –, sempre a martelar as suas ideias sem dar qualquer oportunidade ao interlocutor. E eu sei que, tal como eu, também o senhor primeiro-ministro gosta de uma boa cavaqueira. E cavaqueira pressupõe diálogo! Tenho quase a certeza que também o senhor não apreciará nada a sua companhia. Podia perguntar àquele senhor da carapinha que fala sempre com aquela falta de voz como se tivesse passado metade da noite a puxar pela equipa. Mas, para lhe ser franco, parece que também por aí não ganharia grande coisa. A sensação que dá ao ouvi-lo é que diz sempre a mesma coisa, independentemente dos assuntos, e isso pode tornar-se perigoso. É que, normalmente, não acerta. Temos depois o senhor da careca, aquele que quando é apanhado em falso, e é-o muitas vezes, fica com a moleirinha brilhante de suor e desata a dizer que a culpa é dos adversários e dos manobradores. Também parece faltar-lhe aquele distanciamento essencial a uma pessoa sensata. Sobra aquele senhor que costuma dizer: “bamos promober um encôuntro” e que tenho visto, juntamente com vossa excelência, a distribuir Magalhães e a lambuzar as criancinhas com beijos mas, também por aí, basta o dito senhor abrir a boca para ficarmos a saber o que dele se pode esperar. De modo que, tirando a ministra, subtraindo o da carapinha, deduzindo o da careca e descontando o do encôuntro, quem resta?
Então vamos lá: para dar cumprimento ao art. 42.º do ECD o docente terá de, até sessenta dias antes do prazo legal para mudança de escalão apresentar um relatório que incida sobre toda a actividade desenvolvida, individualmente ou em grupo, no plano da educação e do ensino e da prestação de outros serviços à comunidade, durante o período de tempo a que diz respeito.
De acordo com o estipulado no art. 6.º do Dec. Reg. n.º 14/92 e salvaguardando outra informação que o docente ache por bem fornecer, o relatório deverá, obrigatoriamente, considerar os seguintes itens: a) Serviço distribuído b) Relação pedagógica com os alunos c) Cumprimento de programas curriculares d) Desempenho de cargos directivos e pedagógicos e) Participação em projectos e actividades desenvolvidas no âmbito da comunidade educativa f) Acções de formação frequentadas e unidades de crédito obtidas nas mesmas g) Contributos inovadores no processo de ensino/aprendizagem h) Estudos realizados e trabalhos publicados i) Níveis de assiduidade j) Eventuais sanções disciplinares k) Possíveis louvores e distinções.
No fim o relatório é analisado por uma comissão de avaliação que propõe uma nota final que tanto pode ser negativa como positiva. Está a ver senhor primeiro-ministro, e não me venha com figuras de retórica, se a apreciação pressupõe uma nota quer dizer que houve uma avaliação. Pena é que em vez de se melhorar aquela que se já conhecia se tenha ido copiar a primeira que apareceu. [A propósito: ouvi a senhora ministra da educação há dias dizer que trabalharam “naquilo” durante dois anos. Será verdade senhor primeiro-ministro? É que estou em crer que, mesmo com o meu castelhano hesitante, não demoraria mais do que quinze dias a traduzir aquela trapalhada toda].
Bom, será o tempo do senhor cá vir e tenho a certeza que mais uns dias e passará a falar claro sobre a avaliação dos professores. Passe muito bem e, se lhe for possível, mande a ministra p’rá terra.

13 novembro 2008

OVAÇÃO [2]

Os vândalos do Secundário – ou adversários da política educativa, no dizer do secretário Pedreira –, voltaram a manifestar-se. Agora em Lisboa, na Secundária de D. Dinis, os alunos voltaram a atacar uma equipa ministerial. Embora tivessem diversificado as munições, além dos ovos tinham também tomates, o seu objectivo não foi inteiramente atingido: a equipa de intervenção rápida da PSP foi chamada à escola para pôr na ordem a chusma dos perigosos desordeiros e, segundo declarações dos responsáveis pelas forças da ordem, apesar de ter havido arremesso de alguns ovos, nenhum acertou nas viaturas nem em ninguém da comitiva.
E ainda não foi desta que o país viu, na abertura dos Telejornais, a carapinha do secretário Valter salteada com ketchup ou a careca do colega Pedreira a escorrer gema de ovo.

12 novembro 2008

OVAÇÃO [1]

Ontem, em Fafe, os alunos do Secundário presentearam a ministra da educação – ou o seu automóvel, para sermos mais precisos – com uma monumental chuva de ovos, que só não tomou ainda maiores proporções porque, chamada a intervir, a GNR confiscou uma parte considerável das munições. “Foi a única maneira de nos fazermos ouvir!”, diriam os adolescentes. Pouco tempo depois, o primeiro-ministro, naquela sua vozinha de cana rachada, afivelando a costumeira expressão de quem acaba de assistir à lapidação de uma virgem, bufa por cima do ombro para os jornalistas que não conseguem acompanhar a sua passada atlética: “Lamentável, absolutamente lamentável!” À parte a opinião de cada um, acerca do sucedido, há duas notas a reter de todo este imbróglio. A primeira é que, analisando com rigor o comportamento da ministra, somos levados a concluir que, pelo menos em parte, os alunos têm razão: por meios civilizados a ministra não ouve ninguém. Já a segunda é de molde a descansar os nossos espíritos inquietos: a geração que aí vem continua interventiva. À noite, ligo a televisão e um peralta com uns ridículos óculozinhos de aros grená pedia desculpa à ministra pelo sucedido. De repente ainda pensei que era um dos mariolas que tinha atacado a senhora e agora demonstrava o seu arrependimento, mas não, era tão-somente o presidente da câmara reprovando com veemência a atitude dos seus munícipes e lamentando a sua pouca sorte: tinha posto o maior dos empenhos naquela visita da governante, tinha posto uns óculos à Sarah Palin e uma gravatinha de seda a condizer e, de repente, vê uma camada de energúmenos a rapinarem-lhe esse gosto. “Esta atitude envergonha-me” diria.
Tenha cuidado senhor presidente. Olhe que os imberbes já votarão nas próximas eleições e na hora de votar pode ser que se lembrem do que acaba de dizer.

10 novembro 2008

ESTAMOS FODIDOS!


Quando o último manifestante mal tinha, ainda, abandonado a Rotunda já um jornalista, comentando a jornada, dizia do alto da sua sapiência: «Os professores têm de ser avaliados! Nós aqui também somos avaliados. Todas as organizações avaliam o seu pessoal.» Mais tarde diria ainda: «A ministra não pode ceder. Se o fizesse teria outras classes profissionais a encher as ruas reclamando cinco por cento de aumento.». No recato do meu lar, depois de ouvir isto, lembrei-me de Millôr Fernandes: Estamos fodidos!
A opinião pública não entende patavina do que se passa. Com pouca capacidade de analisar o mundo, não conseguiu, ainda, desembaraçar-se daquela ideia simples que um dia lhe transmitiram: “Os professores não querem é trabalhar!” Aqueles que têm por missão informar, separando o trigo do joio, afinal, vemos agora, também não perceberam nada do que realmente se está a passar – recuso-me, até ver, a aceitar aquela hipótese mais maquiavélica de, “não quererem” perceber – e continuam a sua cruzada de imbecilidades que em nada contribui para a resolução deste gravíssimo problema. Se não vejamos: Partindo do princípio que o jornalista não tinha qualquer inconfessável interesse em deturpar as coisas, erra quando diz que os professores têm de ser avaliados. Na realidade os professores sempre foram avaliados e querem continuar a sê-lo só não querem é este sistema de avaliação arbitrário, incoerente e injusto que o senhor jornalista, ainda para mais no papel de comentador de temas de educação, de todo, não conhece. No item “Preparação para o desenvolvimento dos temas a tratar” poderia ter um dez (excelente), ou um oito (muito bom), ou um sete (bom) ou, até um seis (regular), mas como mostrou uma total impreparação terá, tão só, um três (insuficiente). No item “Conhecimento dos temas tratados” continua a não poder levar mais do que um três (insuficiente). Pensava que os professores estavam lá a reclamar o aumento de ordenado. Finalmente, no item “Percepções do público ouvinte” levará outro três. Enganou-o. Disse-lhe que os professores têm de ser avaliados [porque] nós aqui [na estação] também somos avaliados [e] todas as organizações avaliam o seu pessoal. Disse-lhe que a ministra não pode ceder [porque] se o fizesse teria outras classes profissionais a encher as ruas reclamando cinco por cento de aumento. Disse-lhe tudo isto e o público ouvinte, com a sua capacidade de síntese, interpretou: “Os professores não querem é trabalhar!” O jornalista comentador de quem falo tem nome, ouvi-o ontem de manhã na RTPN mas o nosso drama, é que me poderia estar a referir a um comentador em abstracto que não seria necessário alterar nem uma vírgula, tal é a homogeneidade de pensamento que patenteiam.
E enquanto este estado de coisas não se alterar todos perdemos. Mesmo que artificialmente, se apresentem belas estatísticas sobre a melhoria do ensino no país – o público não sabe que é impossível melhorar em apenas um ano os resultados escolares em mais de vinte por cento mas abre a boca de espanto –, o nosso ensino público continuará a definhar. E a quem me disser que a criação das elites dirigentes está assegurada pelas selectivas escolas privadas dir-lhe-ei que nunca uma batalha foi ganha apenas pelos generais.

11 outubro 2008

UM PRÉMIO DE MERDA

A notícia, ainda que envergonhada, lá estava entre as novas que naquele dia pontificavam na secção local de um diário nacional. Ali para os lados de Paredes de Coura – em Castanheira, assim é que é –, tinha-se realizado um sorteio peculiar. O campo da bola lá da terra, com a mesma cal que Domingo sim, Domingo não, se fazem as marcações para o futebol, foi dividido aos quadradinhos, devidamente numerados. Depois do almoço, os castanheirenses tomam o caminho do campo. Lá chegados, quem quisesse experimentar a sua sorte, e tivesse posses para tal, escolhia o número da sua predilecção e “comprava” o quadradinho. Depois do campo “vendido”, passava-se, então, ao sorteio. E é aqui que está o caricato do processo. A organização solta uma vaca no campo da bola. O bicho lá vai “ruminando” a sua pouca sorte, alheio à populaça que ao redor do campo parece querer dizer-lhe algo e, quando acometido de uma maior pressão intestinal, pára e, literalmente, defeca sobre um número. A algazarra do povo atinge o clímax: o vencedor do primeiro prémio está encontrado. A vaca, essa, continua em campo: terá de cagar ainda o segundo e o terceiro prémios. Findo o jogo, na hora de pagar aos vencedores, o primeiro pode levar o dinheiro para casa, ou, se assim o preferir, a vaca.
Depois de ler a notícia dei por mim a pensar: se fosse a Paredes de Coura jogar o que poderia eu fazer para aumentar a minha probabilidade de ganhar? Todos os apostadores que se acotovelam ao redor do campo terão feito a mesma pergunta. Alguns terão até as suas mezinhas mas, modestamente, direi que nenhuma chegará à infalibilidade do meu processo. E não precisei de ruminar[1] muito. Quando o bicho estivesse com o rabo bem sobre o meu quadradindo, desenrolava um poster que levava bem enroladinho e mostrava-lhe uma certa figurona. À vista de tal personagem, ainda que o bicho fosse dos obstipados, haveria de lhe dar tal volta ao estômago que cagaria, pela certa, o prémio na minha casa.


[1] Esta é a minha pequena homenagem ao bicho que não tem culpa nenhuma da tontaria dos homens

06 outubro 2008

PERDOAI-LHES SENHOR...

Chegou-me hoje à caixa do correio, encaminhado já me não lembro por quem, um link que remetia para uma notícia do Correio da Manhã de há meia dúzia de dias onde Mário Nogueira, secretário-geral da Frenprof, respondia a algumas questões e, entre outras coisas, se insurgia contra as arbitrariedades e injustiças que, por estes dias, vão atazanando a vida dos professores. Embora o mail chamasse a atenção para a entrevista, confesso que esta pouco interesse me despertou – para mal do país este estado de coisas começa a eternizar-se –, antes me chamaram a atenção os comentários que a dita entrevista mereceu dos leitores. De um modo geral as opiniões iam, monotonamente, no sentido de dizerem que os malandros dos professores não querem é ser avaliados, enfim, a ladainha que lhes vêm ensinando há tempos e eles, sem qualquer capacidade de discernimento – não diria análise –, vão repetindo. De todos esses comentários elegi um que antecipa, na perfeição, aquilo que os nossos alunos, aqueles que hoje se sentam nos bancos da escola, poderão vir a fazer no futuro se rapidamente não se arrepiar caminho. O Jorge, diante do monitor, como se enfrentasse uma turba imensa de indolentes e odiosos, disse de sua justiça:

02 Outubro 2008 – 11h06 JORGEÈU ACHO QUE TODA A GENTE QUE TRABALHA PARA O ESTADO SEJA AVALIDO E QUEM NAO PRESTA RUA.NÒS PUDEMOS VÈR POR EZEMPLO O NOTÀRIO HOJE E HA DEZ ANOS,POR EZEMPLO OS PREFESSORES, SAO ULGUNS!ÈU SEI O QUE PASSEI NA ESCOLA( HOJE TENHO ÒDIO AOS PROFESSORES TODOS.JORGE DA RIBEIRA DE JOAO DE LAGOS.

O Jorge lá terá as suas razões para odiar os professores – mas os professores todos Jorge? Então o Jorge não sabe que em todas as profissões há inconscientes e malandros mas também trabalhadores e responsáveis? Não sabe Jorge? Nem a escola da vida lhe ensinou isso? Que raio anda o senhor a fazer que passa pela vida e não consegue sequer aperceber-se destas coisas? - e os professores, olhando às circunstâncias, até lhe podem perdoar, mas o que hoje está a ser feito à escola, isso, nem os professores nem o país perdoarão porque, neste caso, quem o faz “sabe o que faz”.

01 outubro 2008

É O FIM!

Profeta é, por definição, aquele que profetiza, que prevê acontecimentos futuros por dedução ou intuição. O ministro Manuel Pinho ainda lá não chegou. Até agora ainda só consegue identificar com precisão o momento em que as coisas acontecem. Sejam boas, como quando, vai para dois anos, anunciou o terminus da crise, sejam das mais penosas como a que nos deu a conhecer há dois dias: “O mundo de prosperidade acabou!”.
O ministro Manuel Pinho ainda lá não chegou. Mas estou profundamente convencido que lá chegará. Ao contrário de poeta, profeta faz-se, não nasce. E o ministro Pinho trilha, seguramente, o bom caminho.

28 setembro 2008

PODIAM SER AS MINHAS

Um dia, acompanhei um fotojornalista até Arja, onde se removiam os escombros de uma escola feminina. Quando uma retro-escavadora pôs a descoberto muitos corpos de meninas, ele olhou-me emocionado: «Daqui a meia hora, esta foto estaria a circular o mundo. Mas tenho duas filhas desta idade...» E não fotografou.
ÚNICA, n.º 1873, 20 Setembro 2008

É em momentos como este que deposito as maiores esperanças no futuro da humanidade... Pena que logo as perca ao virar da página.

27 setembro 2008

"...O TEMPO ESTÁ PERTO"

Ninguém tem consciência de nada […] O mais incrível para mim é esta indiferença geral que está instalada. […] Quando confrontado com uma grande mudança, o público tende a ficar muito mais alarmado do que os peritos. […] Mas aqui é ao contrário. O público parece muito descontraído com a questão do aquecimento global, enquanto os peritos estão em pânico. […] Quando os cientistas do painel da ONU vieram a público e confirmaram que, nas próximas décadas, as tempestades vão ficar mais violentas, o deserto irá alastrar para mais de metade do planeta e o nível do mar vai subir uma dezena de metros ou mais, […] só faltou ver as pessoas bocejarem de tédio. […] E os políticos, que deviam ter juízo na cabeça, estão na mesma […] com aquela filosofia do deixa andar e o raciocínio de que os que vêm a seguir que desliguem a luz e paguem a conta.
José Rodrigues dos Santos, “O Sétimo Selo”
Depois da estafa que foi ler a Fórmula de Deus, confesso fiquei sem grande vontade de me aventurar no Sétimo Selo. Condicionantes várias fizeram-mo, no entanto, chegar às mãos com algumas notas abonatórias.
Comecemos, então, pelo princípio. Pela capa, mais propriamente. Logo abaixo do título, em letrinhas pequeninas, como que envergonhadas, pode ler-se “Romance”. Mas, como diria um figurão da nossa praça que por estes dias lançará a sua última obra, este não me parece um romance. Não sendo também um conto é, isso sim, um longo texto panfletário que, com dados irrefutáveis, anuncia o apocalipse. Umas alusões piegas à mãe do Tomás Noronha, o Gordiano Descobridor do José Rodrigues dos Santos, uma velhinha que só à força entrou no lar, literalmente, ao empurrão, algumas cenas escaldantes com a Russa no Transiberiano e, de romance, ficamos por aqui.
Não se deduza, no entanto, que este é um daqueles livros que devemos ter o mais afastado possível da estante lá de casa, não. Tal como aqueloutro disco, também este livro devia ser lido por todos os garotos da escola. Talvez tomassem consciência do que aí virá e conseguissem explicar aos pais.

15 setembro 2008

DIA DO RIDÍCULO

Nestes dias de brasa em que molhadas de ministros se desdobram pelas escolas do país a dizer barbaridades e a distribuir cheques de 500 euros, lembrei-me de um recente estudo sobre as profissões que inspiravam mais confiança aos portugueses.
As conclusões não podiam ser mais elucidativas: os professores, a par dos bombeiros e dos carteiros, constituem uma das classes profissionais em quem os portugueses mais confiam. Pormenor elucidativo, os políticos, os publicitários, os empresários e os banqueiros obtiveram as notas mais negativas entre as 20 profissões consideradas pelo estudo.
Depois deste espectáculo deprimente só me ocorre dizer: continuam a tentar desacreditar o trabalho dos professores mas, parafraseando uma desassossegada do lado de lá da fronteira, “Não conseguirão!”

A propósito, quem é aquele senhor ao lado do primeiro-ministro que distribui beijos e diplomas às crianças, fala com uma vozinha de cana rachada e diz, com ar afectado, imbecilidades que ninguém entende? Alguém sabe?

15 agosto 2008

ADEUS ATÉ AO MEU REGRESSO

Nos tempos da guerra colonial, chegados que éramos ao Natal, lá tínhamos a monopolista RTP exibindo durante a quadra os filmezinhos que previamente tinha gravado no teatro de operações. Tudo se passava mais ou menos assim: no meio da mata, uma câmara fixa, um arremedo de jornalista empunhado um microfone e uma fila enorme de militares. Iniciada a coisa, o primeiro da fila avançava, dizia o que tinha a dizer – normalmente: “para os meus pais, irmãos, madrinha de guerra e restante família, desejo um feliz natal e um ano novo cheio de propriedades. Eu estou bem. Adeus até ao meu regresso” – e saía em passo de corrida para dar o lugar ao seguinte que, com uma ou outra nuance, diria o mesmo. Lembrei-me disto, a primeira vez que vi aquelas fotos ridículas que a SIC insiste em mostrar-nos no fim de cada Jornal da noite. Agora que não temos guerra e as reportagens da quadra natalícia são feitas nos Centros Comerciais, a dita estação teve a infeliz ideia de pedir aos espectadores que mandassem fotografias das suas férias de verão para serem exibidas em horário nobre. Além da imbecilidade da ideia – quem teria sido o iluminado? -, a ver pela qualidade das obras, não deve haver qualquer trabalho prévio de selecção, isto é, tudo o que chega vai para o ar. E então é ver toda a sorte de figuras grotescas que vamos fazendo pelas sete partidas do imaginário da nossa classe média, das Caraíbas ao Pacífico Sul. A Alta Autoridade para a Comunicação Social devia admoestar os autores.

22 junho 2008

ENCONTRO DE LEGIONÁRIOS

Ontem, ao almoço, enquanto apreciava os comensais reunidos à volta da mesa, lembrei-me dos legionários da American Legion que no longínquo ano de 1976 se reuniram na sala de Congressos de um hotel de Filadélfia para, entre outras coisas, falar das proezas do passado.
Tal como os legionários, também o curso de Engenharia Mecânica de 1983 do ISEP se reúne, quase religiosamente, todos os anos. Contam-se histórias de ontem e de hoje, pergunta-se pelos filhos e pelas mulheres – o curso de 83 foi, exclusivamente, masculino –, fala-se do trabalho e dos achaques que, fatalmente, começam a bater à porta, inflacionam-se as proezas e apoucam-se os desaires. Entretanto, desanca-se, a meias, no governo e na oposição.
Ontem foi dia de comemorar os 25 anos do curso. O Pires achou que era uma data demasiado importante para passar em claro e toca a organizar o convívio. Mais uma vez, à roda da mesa, passamos em revista o último ano e no fim, quando do leitão não restavam mais do que uns ossinhos limpos, despedimo-nos. No próximo ano, voltaremos a encontrar-nos e, prerrogativa da amizade que nos une, continuaremos a nossa conversa como se tivesse sido interrompida, apenas, no dia anterior.
Ontem, ao almoço, enquanto apreciava os comensais reunidos à volta da mesa lembrei-me dos legionários da American Legion que em 1976 se reuniram em Filadélfia. Pelo calor que passamos ao almoço, concluí que o ar condicionado não tinha sido ligado. Ainda bem que assim foi! Aumentou a probabilidade de nos reunirmos daqui a 25 anos para comemorar o cinquentenário o que, diga-se em abono da verdade, todos estão apostados em fazer.
À amizade que nos une, levanto a minha taça. Acompanhem-me!

14 junho 2008

O FANTASMA DE MOURINHO

Uns dias antes do início do Euro’2008, a SIC decidiu “presentear-nos” com reportagens sobre o que cada um dos elementos da rapaziada que nos representaria na Suiça e, eventualmente, na Áustria, é, na intimidade, ou, no aconchego do lar, digamos. Talvez por falta de assunto, as reportagens revelaram-se, de um modo geral, pobrezinhas. Giravam sempre pelo trinómio: casas; carros; calinadas, – este pessoal da bola não deixa os créditos por mãos alheias: é pontapé na bola e na gramática. Por vezes, no meio de toda aquela mediocridade, lá vinha um pormenor um pouquinho mais interessante como aquele das flores para a senhora Scolari. Luís Felipe, ao que me consta, mora ali para os lados de Sintra. Um dia, durante as suas lides domésticas, parou na frutaria. Depois de receber pelos tomates e pelas cebolas, a dona da frutaria entregou um ramo de flores ao técnico: - são para oferecer à sua senhora! – disse. O sargentão ficou visivelmente agradado com o gesto, agradeceu, e, meio a brincar, foi dizendo que diria à esposa que tinha sido ele a comprá-las.
Vem este episódio a propósito das últimas notícias que dizem que Luís Felipe Scolari vai, já no início de Julho, para o Chelsea. Faz mal! Faz mal por duas razões: primeiro porque sobre aquele clube continua – e continuará por muitos anos, espero – a pairar o fantasma de Mourinho (aquela colectividade está no bom caminho para se tornar um cemitério de treinadores) e em segundo lugar porque no chique bairro de Chelsea, por certo, não encontrará ninguém que lhe ofereça flores para levar à esposa.

10 maio 2008

A FILHA DE RASPUTINE

- Dizem que o seu pai foi primeiro envenenado, depois alvejado a tiro, depois apunhalado. Mas que ainda vivia e, desesperados por matá-lo, lançaram-no por um buraco no gelo e
[…]
- Não consegue melhor do que acreditar nas histórias dos inimigos de um homem?

Robert Alexander, A Filha de Rasputine

Grigori Rasputine é, e sempre o será, uma personagem dúbia da história Russa. Introduzido na corte do último czar, Nicolau II – … na verdade não faço ideia de como Rasputine foi apresentado à antiga família imperial –, este homem disporá de um poder imenso na condução dos destinos da nação Russa.
Desde novo este “monge louco” e analfabeto, originário dos confins da Sibéria, mostrou possuir sobrenaturais dotes de cura: “o cavalo com a perna aleijada – a primeira criatura que ele tinha curada –, [a velhota], em tempos dobrada com a artrite e agora a andar direita […], o rapaz atropelado pela carruagem, agora a viver feliz e com boa saúde. E também Madame Virubova, que sobreviveu ao acidente ferroviário quando os médicos já a davam como perdida. O Papá tinha curado centenas, se não milhares.
Os que têm o dom da cura, dizia [a minha própria mãe], sempre existiram ao longo da nossa vasta nação, homens e mulheres que conseguiram colocar a natureza sob o seu controlo. […] Tal como Cristo, eram pessoas especiais que podiam fazer os cegos verem e os estropiados andarem. Foi só recentemente que os pensamentos modernos – pensamentos modernos ocidentais, acrescentava a minha mãe com grande desdém – rasgaram o tecido das nossas antigas crenças russas, lançando dúvidas e perguntas por todo o lado.
Segundo ele, os seus poderes provinham das grandes quantidades de peixe que consumia. “O peixe é parte de um caminho, um caminho iluminado pelos apóstolos, que nos mostraram que comendo peixe os seus corpos nunca enegreciam. […] os apóstolos comiam tanto peixe, de manhã, à tarde e à noite, que a luz começou a sair dos seus corpos”. “O papá gostava mais de bacalhau[1] do que qualquer outro peixe e comíamo-lo não uma vez, não duas, mas em todos e em cada um dos dias”.
O livro de Robert Alexander retrata a alucinante última semana da vida de Rasputine contada pela sua filha mais velha, Maria, falecida em 1977 com 78 anos, na Califórnia, depois de passar fora do seu país os últimos 58 anos de vida.



[1] Estará aqui a explicação para a nossa estóica paciência para aturar todos os desgraçados que nos atormentam: o anafado consumo de bacalhau. Estará, com certeza, a deixar-nos a todos com uma aura de santidade. Se olharmos com atenção veremos o halo de luz em torno das nossas cabeças.

13 abril 2008

EUROPA: À ESPERA DE VISIONÁRIOS II

Ontem, em Idanha-a-Nova, por alturas da sessão de encerramento do 6.º Seminário Luso-Espanhol de Jornalistas, Mário Soares falou da Europa. Falou sobre os novos desafios que a União terá de enfrentar, sobre o Tratado de Lisboa – um longuíssimo e difícil tratado “à alemã” – e, em especial, sobre o impasse que, neste momento, a Europa vive. Ao ouvir hoje as palavras de Soares, não podemos deixar de nos congratular pelo facto de verificar-mos que anda a consultar o blogEVENTUAL. Mário Soares fez notar que faltam à Europa líderes com “peso” suficiente para resolver as dificuldades que se nos vão colocando.

05 abril 2008

I LOVE THIS COUNTRY

Por cá, por este imenso Entroncamento, continuam a acontecer coisas extraordinárias. Ontem duas notícias prenderam a minha atenção.
Primeira: Valter Lemos, questionado por jornalistas, à margem IX Fórum da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo, afirmou que «há uma campanha orquestrada contra a escola pública». Quando lhe foi perguntado quem estaria por detrás dessa campanha, lacónico como convém, respondeu: «Eu só vejo as vossas notícias, é isso que eu vejo, vocês é que saberão[1]».
Reparo agora que, além da tsf, parece que mais ninguém deu relevo às palavras do secretário. Será que começam a não o levar a sério?
Segunda: Arredores de Lisboa. Num estabelecimento comercial com mini-mercado e café contíguos, o proprietário, no café, ouve um ruído estranho no mini-mercado que, àquela hora, se encontrava já fechado. Pé ante pé, caminha para a fonte de ruído e, qual não é o seu espanto, apanhou o ladrão com a mão na caixa registadora. Manietou-o e chamou a polícia que o levou preso. O insólito da história viria uns dias depois em forma de intimação do tribunal. O assaltante processou o assaltado por ofensas corporais.
Por hoje chega. Estas coisas são extraordinárias mas exigem muito da gente. Vou-me entreter com algo mais “leve”. Vou ver se encontro o novo livro da Marta Crowford. Pela amostra promete.

[1] Espero que os “patifes” dos jornalistas deitem cá para fora tudo o que sabem.