Nos tempos da guerra colonial, chegados que éramos ao Natal, lá tínhamos a monopolista RTP exibindo durante a quadra os filmezinhos que previamente tinha gravado no teatro de operações. Tudo se passava mais ou menos assim: no meio da mata, uma câmara fixa, um arremedo de jornalista empunhado um microfone e uma fila enorme de militares. Iniciada a coisa, o primeiro da fila avançava, dizia o que tinha a dizer – normalmente: “para os meus pais, irmãos, madrinha de guerra e restante família, desejo um feliz natal e um ano novo cheio de propriedades. Eu estou bem. Adeus até ao meu regresso” – e saía em passo de corrida para dar o lugar ao seguinte que, com uma ou outra nuance, diria o mesmo. Lembrei-me disto, a primeira vez que vi aquelas fotos ridículas que a SIC insiste em mostrar-nos no fim de cada Jornal da noite. Agora que não temos guerra e as reportagens da quadra natalícia são feitas nos Centros Comerciais, a dita estação teve a infeliz ideia de pedir aos espectadores que mandassem fotografias das suas férias de verão para serem exibidas em horário nobre. Além da imbecilidade da ideia – quem teria sido o iluminado? -, a ver pela qualidade das obras, não deve haver qualquer trabalho prévio de selecção, isto é, tudo o que chega vai para o ar. E então é ver toda a sorte de figuras grotescas que vamos fazendo pelas sete partidas do imaginário da nossa classe média, das Caraíbas ao Pacífico Sul. A Alta Autoridade para a Comunicação Social devia admoestar os autores.
15 agosto 2008
ADEUS ATÉ AO MEU REGRESSO
Nos tempos da guerra colonial, chegados que éramos ao Natal, lá tínhamos a monopolista RTP exibindo durante a quadra os filmezinhos que previamente tinha gravado no teatro de operações. Tudo se passava mais ou menos assim: no meio da mata, uma câmara fixa, um arremedo de jornalista empunhado um microfone e uma fila enorme de militares. Iniciada a coisa, o primeiro da fila avançava, dizia o que tinha a dizer – normalmente: “para os meus pais, irmãos, madrinha de guerra e restante família, desejo um feliz natal e um ano novo cheio de propriedades. Eu estou bem. Adeus até ao meu regresso” – e saía em passo de corrida para dar o lugar ao seguinte que, com uma ou outra nuance, diria o mesmo. Lembrei-me disto, a primeira vez que vi aquelas fotos ridículas que a SIC insiste em mostrar-nos no fim de cada Jornal da noite. Agora que não temos guerra e as reportagens da quadra natalícia são feitas nos Centros Comerciais, a dita estação teve a infeliz ideia de pedir aos espectadores que mandassem fotografias das suas férias de verão para serem exibidas em horário nobre. Além da imbecilidade da ideia – quem teria sido o iluminado? -, a ver pela qualidade das obras, não deve haver qualquer trabalho prévio de selecção, isto é, tudo o que chega vai para o ar. E então é ver toda a sorte de figuras grotescas que vamos fazendo pelas sete partidas do imaginário da nossa classe média, das Caraíbas ao Pacífico Sul. A Alta Autoridade para a Comunicação Social devia admoestar os autores.
22 junho 2008
ENCONTRO DE LEGIONÁRIOS
Ontem, ao almoço, enquanto apreciava os comensais reunidos à volta da mesa, lembrei-me dos legionários da American Legion que no longínquo ano de 1976 se reuniram na sala de Congressos de um hotel de Filadélfia para, entre outras coisas, falar das proezas do passado.Tal como os legionários, também o curso de Engenharia Mecânica de 1983 do ISEP se reúne, quase religiosamente, todos os anos. Contam-se histórias de ontem e de hoje, pergunta-se pelos filhos e pelas mulheres – o curso de 83 foi, exclusivamente, masculino –, fala-se do trabalho e dos achaques que, fatalmente, começam a bater à porta, inflacionam-se as proezas e apoucam-se os desaires. Entretanto, desanca-se, a meias, no governo e na oposição.
Ontem foi dia de comemorar os 25 anos do curso. O Pires achou que era uma data demasiado importante para passar em claro e toca a organizar o convívio. Mais uma vez, à roda da mesa, passamos em revista o último ano e no fim, quando do leitão não restavam mais do que uns ossinhos limpos, despedimo-nos. No próximo ano, voltaremos a encontrar-nos e, prerrogativa da amizade que nos une, continuaremos a nossa conversa como se tivesse sido interrompida, apenas, no dia anterior.
Ontem, ao almoço, enquanto apreciava os comensais reunidos à volta da mesa lembrei-me dos legionários da American Legion que em 1976 se reuniram em Filadélfia. Pelo calor que passamos ao almoço, concluí que o ar condicionado não tinha sido ligado. Ainda bem que assim foi! Aumentou a probabilidade de nos reunirmos daqui a 25 anos para comemorar o cinquentenário o que, diga-se em abono da verdade, todos estão apostados em fazer.
À amizade que nos une, levanto a minha taça. Acompanhem-me!
14 junho 2008
O FANTASMA DE MOURINHO
Uns dias antes do início do Euro’2008, a SIC decidiu “presentear-nos” com reportagens sobre o que cada um dos elementos da rapaziada que nos representaria na Suiça e, eventualmente, na Áustria, é, na intimidade, ou, no aconchego do lar, digamos. Talvez por falta de assunto, as reportagens revelaram-se, de um modo geral, pobrezinhas. Giravam sempre pelo trinómio: casas; carros; calinadas, – este pessoal da bola não deixa os créditos por mãos alheias: é pontapé na bola e na gramática. Por vezes, no meio de toda aquela mediocridade, lá vinha um pormenor um pouquinho mais interessante como aquele das flores para a senhora Scolari. Luís Felipe, ao que me consta, mora ali para os lados de Sintra. Um dia, durante as suas lides domésticas, parou na frutaria. Depois de receber pelos tomates e pelas cebolas, a dona da frutaria entregou um ramo de flores ao técnico: - são para oferecer à sua senhora! – disse. O sargentão ficou visivelmente agradado com o gesto, agradeceu, e, meio a brincar, foi dizendo que diria à esposa que tinha sido ele a comprá-las.Vem este episódio a propósito das últimas notícias que dizem que Luís Felipe Scolari vai, já no início de Julho, para o Chelsea. Faz mal! Faz mal por duas razões: primeiro porque sobre aquele clube continua – e continuará por muitos anos, espero – a pairar o fantasma de Mourinho (aquela colectividade está no bom caminho para se tornar um cemitério de treinadores) e em segundo lugar porque no chique bairro de Chelsea, por certo, não encontrará ninguém que lhe ofereça flores para levar à esposa.
10 maio 2008
A FILHA DE RASPUTINE
- Dizem que o seu pai foi primeiro envenenado, depois alvejado a tiro, depois apunhalado. Mas que ainda vivia e, desesperados por matá-lo, lançaram-no por um buraco no gelo e…[…]
- Não consegue melhor do que acreditar nas histórias dos inimigos de um homem?
Robert Alexander, A Filha de Rasputine
Grigori Rasputine é, e sempre o será, uma personagem dúbia da história Russa. Introduzido na corte do último czar, Nicolau II – … na verdade não faço ideia de como Rasputine foi apresentado à antiga família imperial –, este homem disporá de um poder imenso na condução dos destinos da nação Russa.
Desde novo este “monge louco” e analfabeto, originário dos confins da Sibéria, mostrou possuir sobrenaturais dotes de cura: “o cavalo com a perna aleijada – a primeira criatura que ele tinha curada –, [a velhota], em tempos dobrada com a artrite e agora a andar direita […], o rapaz atropelado pela carruagem, agora a viver feliz e com boa saúde. E também Madame Virubova, que sobreviveu ao acidente ferroviário quando os médicos já a davam como perdida. O Papá tinha curado centenas, se não milhares.
Os que têm o dom da cura, dizia [a minha própria mãe], sempre existiram ao longo da nossa vasta nação, homens e mulheres que conseguiram colocar a natureza sob o seu controlo. […] Tal como Cristo, eram pessoas especiais que podiam fazer os cegos verem e os estropiados andarem. Foi só recentemente que os pensamentos modernos – pensamentos modernos ocidentais, acrescentava a minha mãe com grande desdém – rasgaram o tecido das nossas antigas crenças russas, lançando dúvidas e perguntas por todo o lado.
Segundo ele, os seus poderes provinham das grandes quantidades de peixe que consumia. “O peixe é parte de um caminho, um caminho iluminado pelos apóstolos, que nos mostraram que comendo peixe os seus corpos nunca enegreciam. […] os apóstolos comiam tanto peixe, de manhã, à tarde e à noite, que a luz começou a sair dos seus corpos”. “O papá gostava mais de bacalhau[1] do que qualquer outro peixe e comíamo-lo não uma vez, não duas, mas em todos e em cada um dos dias”.
O livro de Robert Alexander retrata a alucinante última semana da vida de Rasputine contada pela sua filha mais velha, Maria, falecida em 1977 com 78 anos, na Califórnia, depois de passar fora do seu país os últimos 58 anos de vida.
[1] Estará aqui a explicação para a nossa estóica paciência para aturar todos os desgraçados que nos atormentam: o anafado consumo de bacalhau. Estará, com certeza, a deixar-nos a todos com uma aura de santidade. Se olharmos com atenção veremos o halo de luz em torno das nossas cabeças.
25 abril 2008
13 abril 2008
EUROPA: À ESPERA DE VISIONÁRIOS II
Ontem, em Idanha-a-Nova, por alturas da sessão de encerramento do 6.º Seminário Luso-Espanhol de Jornalistas, Mário Soares falou da Europa. Falou sobre os novos desafios que a União terá de enfrentar, sobre o Tratado de Lisboa – um longuíssimo e difícil tratado “à alemã” – e, em especial, sobre o impasse que, neste momento, a Europa vive. Ao ouvir hoje as palavras de Soares, não podemos deixar de nos congratular pelo facto de verificar-mos que anda a consultar o blogEVENTUAL. Mário Soares fez notar que faltam à Europa líderes com “peso” suficiente para resolver as dificuldades que se nos vão colocando.
05 abril 2008
I LOVE THIS COUNTRY
Por cá, por este imenso Entroncamento, continuam a acontecer coisas extraordinárias. Ontem duas notícias prenderam a minha atenção.Primeira: Valter Lemos, questionado por jornalistas, à margem IX Fórum da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo, afirmou que «há uma campanha orquestrada contra a escola pública». Quando lhe foi perguntado quem estaria por detrás dessa campanha, lacónico como convém, respondeu: «Eu só vejo as vossas notícias, é isso que eu vejo, vocês é que saberão[1]».
Reparo agora que, além da tsf, parece que mais ninguém deu relevo às palavras do secretário. Será que começam a não o levar a sério?
Segunda: Arredores de Lisboa. Num estabelecimento comercial com mini-mercado e café contíguos, o proprietário, no café, ouve um ruído estranho no mini-mercado que, àquela hora, se encontrava já fechado. Pé ante pé, caminha para a fonte de ruído e, qual não é o seu espanto, apanhou o ladrão com a mão na caixa registadora. Manietou-o e chamou a polícia que o levou preso. O insólito da história viria uns dias depois em forma de intimação do tribunal. O assaltante processou o assaltado por ofensas corporais.
Por hoje chega. Estas coisas são extraordinárias mas exigem muito da gente. Vou-me entreter com algo mais “leve”. Vou ver se encontro o novo livro da Marta Crowford. Pela amostra promete.
[1] Espero que os “patifes” dos jornalistas deitem cá para fora tudo o que sabem.
01 abril 2008
SAIU-ME A TALUDA!

Hoje, quando for para as aulas, irei, ainda, com mais vontade. Se os alunos me perguntarem as razões da minha súbita alegria, dir-lhes-ei que me saiu o euro-milhões.
31 março 2008
29 março 2008
QUEM FICA PARA FECHAR A PORTA?
Desconheço se a ministra da Educação lê jornais. Talvez, por absoluta impossibilidade, o não o faça. Na sua vidinha atarefada não lhe sobrará tempo para essas minudências. Deve ter uma súcia de assessores que lhe peneiram as notícias e, todas as manhãs, como em tempos faziam àqueleoutro, lhe entregam o seu diário, expurgado de desastres. Desgraçadamente, a malha da joeira é fina em demasia e, além de todo o farelo, retém, também, muita da farinha.Pelo crivo dos yes-men não passou, com toda a certeza, a notícia “Mais professores querem trocar a sala de aula pela reforma antecipada”, inserta no Público de ontem. Se tivesse passado, a senhora ministra ficaria a saber que:
Ana Maria Brito Jorge, professora de Matemática com 58 anos de idade, vai-se embora porque lhe “falta motivação para enfrentar mais um ciclo que, até pode acabar bem, mas que está a ser muito mal gerido”. Ela, que durante 18 anos foi co-autora de manuais escolares da editora Areal, e hoje é professora titular, até se podia acomodar e ver passar as coisas mas isso era se aceitasse as novas regras “e tivesse estômago para calar a discordância”, o que não pode fazer porque “esta avaliação é completamente desfocada e desajustada da realidade das escolas. Tem uma tal sofisticação burocrática que a torna completamente inexequível”. Chegou a uma altura em que sente escaparem-se-lhe as forças para enfrentar um “atípico e nebuloso ciclo”;
Maria Augusta Jorge Mendes, de 59 anos, é professora de Físico-Química. Esta professora, que foi um dos sete membros nomeados pelo governo para a comissão eleitoral do Conselho das Escolas, diz que reconhece à ministra, “boas intenções” e, até, “vontade de dialogar”, no entanto lá vai dizendo que “boas intenções não chegam e a tendência é para que o ambiente das escolas se degrade ainda mais”. Sente-se “cansada” e “desencantada”. Se num dia fazia parte do “unido” e ”solidário” corpo docente da prestigiada Escola Secundária Infanta D. Maria, no dia seguinte “passou a ser mais um entre os malandros dos professores que nem trabalham nem querem trabalhar”. Por tudo isto, apesar de sair penalizada com nove por cento na sua pensão, apresta-se para deixar o ensino;
Isabel Gaspar Lopes, 61 anos de idade e 37 de profissão, professora de Português na Secundária de D. Duarte, em Coimbra, ainda que com uma penalização de 4,5 por cento na sua pensão, bateu com a porta em Dezembro. Saiu, “a tempo de ter algumas saudades”, mas, “a degradação do ambiente na escola era tal que mais um pouco e já não as teria”;
Carlos Afonso, 57 anos, professor de História, requisitado pela Direcção Regional de Educação do Algarve, na iminência de voltar à escola, sente-se deslocado e abandona a profissão, ainda que isso lhe custe uma penalização de 22,5 por cento na sua reforma. “Já não tenho idade para aguentar este barco”, diz;
Lurdes Brito, 56 anos, os últimos 34 a leccionar Português e Francês, mesmo que com uma penalização de 22,5 por cento, também conta os dias para se vir embora. “O que acontece é que perdi a esperança”, diz. A carga burocrática que assoberba hoje em dia os professores está a deixá-los sem tempo para preparar as aulas. “Todos os papéis que é preciso preencher sem que isso contribua para a qualidade do ensino…”;
José Campinho, 60 anos, professor de Latim e Português na Secundária de Barcelos, tem os papéis preenchidos. No dia 22 de Abril, quando fizer 60 anos e meio, avança com o pedido de aposentação. Ainda que esse passo lhe leve 4,5 por cento da reforma, vai-se embora porque, diz, “ninguém consegue ser bom professor se não estiver motivado”, não se coibindo de afirmar que “o Ministério da Educação não deixa que os professores sejam exigentes e cria mecanismos sub-reptícios a pensar no sucesso estatístico”.
Se a notícia chegasse aos olhos ou aos ouvidos da ministra, diria, como sempre o diz, aliás, que são casos pontuais sem qualquer significado. Mas quem, como ela, se move com enorme desenvoltura pelos meandros das estatísticas saberá que esta é uma amostra significativa do desencanto que vai tomando conta do corpo docente das nossas escolas. Desgraçadamente, aqueles que, desiludidos, saem quando tinham ainda muito para dar à educação, são, porventura, os melhores dentre os melhores. Quem prefere perder uma parte considerável das suas reformas e sair são aqueles que não arranjam coragem para ficar a assistir ao esboroar da obra que durante décadas, dedicadamente, ajudaram a construir.
22 março 2008
21 março 2008
EDUCAÇÃO HOJE
Sinal dos tempos, ontem, as televisões, abriram os noticiários do horário nobre com um filme de telemóvel. Pelo décor apercebemo-nos que tudo se passava numa sala de aula de uma qualquer escola do país. A filmagem, feita por um dos alunos da turma, mostrava uma encolerizada aluna do 9.º ano gritando para a professora e arrastando-a pela sala, enquanto esta tentava chegar à porta para, naturalmente, pedir ajuda. As imagens eram degradantes, mas o que mais me horrorizou foi não ver aparecerem os restantes alunos da turma para porem cobro àquele espectáculo aviltante, antes proferindo frases de regozijo e aprovação pelo que se passava.15 março 2008
UMA CRÓNICA DE MERDA!
Há tempos, numa das minhas habituais rondas pelos blogs “amigos” descobri um comentário que um energúmeno achou por bem deixar em vários deles. Dizia mais ou menos isto: “Blog de merda, este. Quem não sabe dizer mais nada, põe fotografias”. Se bem que o comentário fosse injusto para muito dos destinatários, confesso que me deu uma enorme vontade de rir ao ler tal coisa. Penso que o intuito do endemoninhado era chocar, o que, em parte, terá conseguido. Quem visitasse o seu poiso podia ver toda a sorte de impropérios com que os ofendidos acharam por bem obsequiá-lo.Lembrei-me deste episódio quando um amigo meu me enviou um artigo de opinião com que Emídio Rangel “valorizou” as páginas do novel jornal Correio da Manhã: “Hooligans em Lisboa”.
Comecemos pelo princípio. Parafraseando o arreliador dos blogs: “Crónica de merda esta. Por estes dias quem não tem mais nada para dizer escreve sobre os professores”. Depois, analisando-a em mais pormenor, descobre-se um chorrilho de imbecilidades. Vejamos algumas: Emídio Rangel, não poupa elogios aos seus professores que “não tinham nada que ver com esta gente” a quem agradece por tudo o que lhe ensinaram. Não duvido que assim seja, só que talvez o aluno não tenha aprendido o que lhe era ensinado. Os seus professores não teriam, certamente aprovado os seus métodos, quando, utilizando os melhores modos de tasca, se refere a “um tal Mário Sequeira”, fazendo lembrar aqueloutro que se referia a um tal Pinto de Sousa. Linguagem de quem pouco aprendeu nos bancos da escola.
Rangel coloca no mesmo saco todos os “professores travestidos de operários da Lisnave”. Continua a não aplicar os conhecimentos que os seus professores lhe transmitiram. Se o fizesse nunca poderia dizer que os dois terços dos professores que desceram a Lisboa eram “pseudoprofessores que trabalham pouco, ensinam menos, não aceitam avaliações e transformaram-se em soldados do Partido Comunista para todo o serviço”. De seguida mete os pés pelas mãos e diz que “felizmente ainda há milhares de professores, talvez a maioria, que exercem com toda a dignidade a sua profissão”. Repa-se: os dois terços que “vestem de preto e gritam desalmadamente” são todos uns “madraceirões” e foram urrar para Lisboa, o terço que ficou, talvez a maioria, afinal são dos bons. Esperamos todos que o seu venerável professor de matemática não tenha lido o artigo. Envergonhar-se-ia.
Na parábola dos cegos, quando um deles apalpou a tromba ao elefante, jurou a pés juntos que um elefante é uma enorme serpente que se enrola. Emídio Rangel, que “deu aulas”, não sabe que dar aulas não é, longe disso, o mesmo que ser professor. Rangel não o sabe e talvez não o venha já a aprender – demonstrou ser um fraco aluno ainda que com bons professores –, por isso, tal e qual como os cegos, continuará a bater-se pela defesa da sua visão parcial do problema. Entretanto, os nossos alunos continuarão a experimentar soluções de mentes providenciais que, um dia, “deram aulas”
Outra evidência que esta é uma verdadeira crónica de merda é o facto de Emídio Rangel repetir, sem que ao menos tenha introduzido um arabesco de sua lavra, o discurso que a Ministra da Educação, “uma ministra sábia, tranquila, dialogante, que fala com uma clareza tal que só os inúmeros boatos, a manipulação e a leitura distorcida do que propõe podem beliscar o que de boa fé pretende para Portugal”, se tem esfalfado a fazer passar: “introduziu um sistema de avaliação de professores, chamou os pais a intervir, fechou as escolas sem alunos, prolongou os horários e criou as aulas de substituição, resolveu os problemas de colocação de professores, introduziu o Inglês, levou a informática aos lugares mais recônditos do País”. E continua dizendo que estas e outras medidas já deram frutos. Outra intrujice. Se tivesse ouvido os seus saudosos professores saberia que em educação não se pode dizer, passado que foi apenas um ano, que as reformas já dão frutos.
Enfim, por todo o texto perpassam duas coisas: a primeira, uma estranha animosidade para com os professores e a segunda uma enorme ignorância do que é hoje a educação.
Quando chegar a ministro, se algum lambe-botas escrever algo deste género, darei instruções aos serviços para que jamais seja admitido no ministério.
07 março 2008
PARA TODAS... MENOS PARA UMA!

Neste dia oito de Março, partilho com todas as mulheres esse texto de que tanto gostei… com todas não, com todas menos uma! Só não digo quem porque teria logo a polícia à perna a fazer-me perguntas a que, talvez, nem soubesse responder.
CUIDEM-NO! CUIDEM-SE! AMEM-SE!
Não importa quanto pesa.
É fascinante tocar, abraçar e acariciar o corpo de uma mulher.
Saber o seu peso não nos proporciona nenhuma emoção.
Não temos a menor ideia de qual seja o seu manequim.
A nossa avaliação é visual. Isso quer dizer: se tem forma de guitarra... está bem!
Não nos importa quanto medem em centímetros – é uma questão de proporções, não de medidas.
As proporções ideais do corpo de uma mulher são: curvilíneas, cheiinhas, femininas....
Essa classe de corpo que, sem dúvida, se nota numa fracção de segundo.
As muito magrinhas que desfilam nas passereles seguem a tendência desenhada por estilistas que, diga-se de passagem, são todos gays, odeiam as mulheres, e competem com elas .
As suas modas são rectas e sem formas. Agridem o corpo que eles odeiam porque não podem tê-los.
Não há beleza mais irresistível na mulher do que a feminilidade e a doçura.
A elegância e o bom trato são equivalentes a mil viagras.
A maquilhagem foi inventada para que as mulheres a usem. Usem!
Para andar de cara lavada, basta a nossa.
Os cabelos, quanto mais tratados, melhor.
As saias foram inventadas para mostrar as suas magníficas pernas.
Por que razão as cobrem com calças longas? Para que as confundam connosco?
Uma onda é uma onda, as cadeiras são cadeiras, e pronto!
Se a natureza lhes deu estas formas curvilíneas, foi por alguma razão, e eu reitero: nós gostamos assim!
Ocultar essas formas é como ter o melhor sofá embalado no sótão.
É essa a lei da natureza... que todo aquele que se casa com uma modelo magra, anoréctica, bulímica e nervosa logo procura uma amante cheiinha, simpática, tranquila e cheia de saúde.
Entendam de uma vez! Tratem de agradar a nós, e não a vocês, porque nunca terão uma referência objectiva, do quanto são lindas, dita por uma mulher.
Nenhuma mulher vai reconhecer jamais, diante de um homem, com sinceridade, que outra mulher é linda.
As jovens são lindas... mas as de 30 para cima, são verdadeiros pratos fortes.
Por Karina Mazzocco, Eva Longaria, Angelina Jolie ou Demi Moore - ou Jessica Alba, digo eu -, somos capazes de atravessar o Atlântico a nado.
O corpo muda... cresce.
Não podem pensar, sem ficarem psicóticas, que podem entrar no mesmo vestido que usavam aos 18.
Entretanto, uma mulher de 45, na qual entre na roupa que usou aos 18 anos, ou tem problemas de desenvolvimento, ou está-se autodestruindo.
Nós gostamos das mulheres que sabem conduzir a sua vida com equilíbrio e sabem controlar a sua natural tendência à culpa.
Ou seja, aquela que quando tem que comer, come com vontade – a dieta virá em Maio, não antes –; quando tem que fazer dieta, faz dieta com vontade - não se sabota e não sofre -; quando tem que ter intimidade com o parceiro, tem com vontade; quando tem que comprar algo que goste, compra; quando tem que economizar, economiza.
Algumas linhas no rosto, algumas cicatrizes no ventre, algumas marcas de estrias não lhes tiram a beleza.
São feridas de guerra, testemunhas de que fizeram algo em suas vidas, não estiveram anos em formol, nem em SPA’s. Viveram!
O corpo da mulher é a prova de que Deus existe. É o sagrado recinto da gestação de todos os homens, onde foram alimentados, mimados e nós, sem querer, enchemo-los de estrias, de esárias e demais coisas que tiveram que acontecer para estarmos vivos.
Cuidem-no! Cuidem-se! Amem-se!
A beleza é tudo isto. Tudo junto!
02 março 2008
COM A MINHA MELHOR VOZ DE BARÍTONO
Ao arrepio da opinião dos entendidos, são as óperas de cariz popular que eu aprecio na vasta obra de Guiseppe Verdi. Confesso que os meus rudes ouvidos apreciam muito mais A Traviata que as eleitas dos eruditos. Pela obra perpassa uma bela história de amor. Fala de amizade, de dignidade, de perdão, de arrependimento, enfim, de tudo o que os meus incultos ouvidos gostam de ouvir. A história conta-se em duas penadas. Violeta, uma mulher mundana, vive faustosamente a expensas de um barão. Um dia, durante uma festa em sua casa, Alfredo Germont é-lhe apresentado por um amigo comum. Num momento a sós, Alfredo confessa-lhe o grande amor que sente por ela. Violeta promete-lhe, tão só, a sua amizade mas, uma vez a sós, é fustigada pela imagem do jovem galanteador e pelas suas palavras que não consegue esquecer. Pouco depois os amantes iniciarão uma vida em comum que escandalizará a família de Alfredo. O pai fará tudo para afastar o filho daquela relação adúltera e, por fim, consegui-lo-á. Um dia, ao chegar a casa, Alfredo encontra uma carta da sua amada. Abre-a e basta ler a primeira frase para saber que Violeta o abandonou. A sua tristeza é pungente. Entretanto, Giorgio Germont, pai de Alfredo, entra, e ao ver o seu filho naquela melancolia, tenta fazê-lo esquecer-se daquele amor que tantas contrariedades tinha trazido à família. Fala-lhe, então, das belezas da sua Provença natal, tentando que deste modo o filho esqueça o seu amor contrariado e regresse ao lar. A beleza da melodia aliada à mágoa do filho e ao desespero do pai fazem de “Di Provenza il mar, il suol” a minha ária preferida d’A Traviata. Na última Segunda-feira, depois das enormidades do “Prós e Contras”, tive alguma dificuldade em adormecer. Cheguei os phones aos ouvidos e liguei o leitor de mp3. Tenho sempre esta ópera à mão. Contra o que é habitual, desta vez, nem com o desespero de Giorgio no fim do 2.º acto consegui adormecer.Ao que me dizem a ministra da educação terá alguma ligação ao Alto-Minho. Então – dei por mim a pensar –, e se alguém lhe cantasse as belezas da sua terra? O rio Minho correndo entre margens verdejantes, as searas de centeio ondulando aos ventos da Primavera, os vinhedos escarlates das vertentes viradas a Sul, os picos alvos da serra Amarela, os carvalhos da floresta primordial conservados no parque natural da Peneda-Gerês... será que esquecia os dissabores da grande cidade e fugia deste povo ignorante e mal agradecido que a não merece, refugiando-se lá para as terras da raia? Ah, se assim fosse! Até eu punha a minha melhor voz de barítono e cantava para ela.
29 fevereiro 2008
TALVEZ O DN
Durante as vinte e quatro horas de um dia, se atentarmos um pouco (um pouco basta) nas notícias que nos bombardeiam, ouvimos coisas extraordinárias. Anteontem de manhãzinha, na televisão, falava-se de avaliação dos professores. A ministra da educação e uma roda de jornalistas. Três milhões de euros p’ráqui, providência cautelar p’ráli, decisão favorável dos tribunais p’rácolá, por fim lá vem a pergunta: “E quanto à avaliação dos professores, em que pé estão as coisas?”. Dos lábios finos da ministra sai esta coisa extraordinária: “A avaliação dos professores é um processo que está a decorrer em todo o país em absoluta normalidade”. Alguns segundos depois, as imagens que ilustravam a notícia seguinte davam conta das manobras nocturnas de mais de dois mil e quinhentos professores de Coimbra que marchavam em protesto pelas trapalhadas do ministério da educação. Ouvi isto e fiquei estuporado. Dei por mim a pensar no New York Times do David Rockfeller. Conta-se – conta-o José Saramago n’O Ano da Morte de Ricardo Reis –, que para o fim da vida, Rockfeller morreu em 1937 com a provecta idade de 98 anos, enquanto a América se debatia, ainda, com as sequelas da grande depressão e na Europa os sinais do caos que se avizinhava eram já bem visíveis, o New York Times fazia todos os dias um exemplar único do jornal, falsificado de uma ponta à outra, só com notícias agradáveis e artigos optimistas para que o pobre velho não [tivesse] de sofrer com os terrores do mundo e suas promessas de pior.Será que o Público edita diariamente uma edição extirpada de todas as desgraças para que a ministra da educação não se sinta amargurada com as banalidades do povo? Não, o Público não! O Público é mais do género Washington Post. Deve ser o Diário de Notícias. É, deve ser o DN. Correio da Manhã ou 24 horas não podem ser: extirpados de desgraças sobrariam, apenas, classificados.
O Doutor Monteiro anda assoberbado com trabalho. Tivesse um tempinho livre e pedíamos-lhe que investigasse.
24 fevereiro 2008
QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COM GATO!

Lembrei-me, ao vê-la, de um episódio rocambolesco que metia também uma cadeira. Há muito tempo, tanto que já lhe perdi a conta, no meu círculo de amigos havia um que tinha o infeliz hábito – infeliz e irritante, diga-se – de distribuir cumprimentos. Fazia-o, dando-nos arreliadoras palmadas nas costas, tal como hoje, estupidamente, o fazem os jogadores de futebol, nas cabeças dos colegas bem sucedidos. Enfim, o regresso às cavernas. Voltemos ao abusador. Talvez porque o seu estatuto económico fosse bem mais elevado que o dos restantes – na altura tinha já um emprego especializado que lhe rendia um ordenado acima da média, ao passo que os outros ou frequentavam ainda a escola, ou tinham um emprego mais precário, ou nem uma coisa nem outra – achava ele, que nós, os tesos, devíamos prestar-lhe vassalagem. O vil metal a isso nos obrigava e, se bem que não apreciássemos aquele peculiar modo de cumprimentar, lá o íamos aturando, afastando, sempre que possível, os nossos prezados espinhaços das suas manápulas. Mas lá chegou a altura em que a sua sorte mudou. Um dia, estávamos nós calmamente conversando – sobre a vida, quem sabe – quando chegou o nosso amigo capitalista, começando, de imediato, a distribuir cumprimentos. Mas, ou porque não estivesse em dia sim ou porque estivesse já saturado de cumprimentos tão efusivos, um dos da roda, tão logo recebeu a palmada no costado, levantou-se, como que impulsionado por uma mola, amarrou na cadeira que em que estava sentado e, com incontida raiva, fê-la voar de encontro às espáduas do amigo. Naquele momento o destemido foi o nosso herói. Fez o que todos, há muito, desejávamos fazer. Quanto ao abusador, foi remédio santo: mudou de cumprimento e, paulatinamente, foi-se afastando do grupo. Enfim, digamos que se mataram dois coelhos de uma cajadada só ou, melhor dizendo, de uma cadeirada.
05 fevereiro 2008
... E O BURRO SOU EU?
Um destes dias uma cadeia britânica de televisão resolveu fazer um estudo – à escala nacional, diz-se – sobre os conhecimentos da juventude britânica em matéria de História. Entrevistaram uma amostra de três mil jovens com menos de 20 anos e, tratados os dados, obtiveram resultados preocupantes. Bem, melhor dizendo, preocupantes para eles, para mim foram hilariantes. Algumas pérolas saídas do dito: Winston Churchill, que a gente pensava ter sido Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha durante a II Guerra Mundial e o Rei Ricardo I, Coração de Leão, que tínhamos como um dos líderes da terceira cruzada, o terror dos infiéis na Terra Santa, são, afinal, figuras de ficção. Sherlock Homes, o metódico investigador, criado pelo escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle e Robin Hood, o príncipe dos ladrões, um fora-da-lei que roubava dos ricos para dar aos pobres, esses sim, ao contrário do que pensávamos, foram personagens com uma existência real.Parafraseando Luiz Felipe Scolari: então Artur, o da Távola Redonda, foi rei de Inglaterra? E Charles Dickens é uma personagem da banda desenhada? E o burro sou eu? E o ruim sou eu?
30 dezembro 2007
FAÇA FIGA E PEÇA GRAÇA

29 dezembro 2007
PARECIA COISA SONHADA
Neste ano, o défice orçamental ficará abaixo dos 3% o que significa que as contas públicas estão finalmente controladas e que vencemos a crise orçamental dos últimos anos. […] Este ano Portugal saiu também da lista dos países de alto risco na segurança social. […] Temos este ano mais alunos no ensino secundário. Temos mais 17% de alunos no ensino superior. E temos, finalmente, 360.000 portugueses que estando a trabalhar ou à procura de emprego decidiram inscrever-se no programa Novas Oportunidades para melhorarem as suas qualificações. […] a nossa economia já está a criar mais empregos do que aqueles que se perdem. Segundo os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística, nestes últimos dois anos e meio a economia criou em termos líquidos 106.000 novos empregos. […] este ano Portugal viu reforçado também o seu prestígio internacional. A Presidência Portuguesa da União Europeia foi uma das presidências mais bem sucedidas dos últimos anos. O Tratado da União Europeia chama-se agora Tratado de Lisboa […] fizemos também a Cimeira com o Brasil e a Cimeira com África o que ficará como um contributo português para o enriquecimento da política externa europeia. […] E terminámos a nossa presidência celebrando o melhor da Europa: abolindo as fronteiras internas a leste em nove Estados membros. […] este ano lançámos pela primeira vez políticas de apoio aos jovens casais e à natalidade. As mulheres grávidas passaram a ter direito a um abono pré-natal desde o terceiro mês e as famílias verão duplicado o abono de família para o segundo filho e triplicado para o terceiro filho.[…] A todos os portugueses quero desejar Feliz Natal e Feliz Ano Novo. Boas Festas.Quando, na última Terça-feira, ouvi o primeiro-ministro na habitual mensagem ao país por alturas do Natal, lembrei-me, vá saber-se porquê, de Fausto, mais propriamente de “A guerra é a guerra” do inolvidável “Por este rio acima” :
...
Diz-nos adeus o pirata
O labrego
De cima daquele mastro
Trocista e airoso
Mostrando o traseiro cafre
Preto escuro de um negro
Levando-nos coiro e tesouro
Rindo de gozo
...
Fausto, A guerra é a guerra (extracto)
23 dezembro 2007
FELIZ NATAL... mesmo que chova!

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que anda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e o Natal não.
Deixo sentir a quem a quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
Fernando Pessoa
02 dezembro 2007
DIVINAS PROPORÇÕES
ão, a constante matemática da harmonia universal, 1,618 com três casas decimais. A razão entre o comprimento e a largura de um vulgar cartão de crédito ou da fachada do edifício sede das Nações Unidas em Nova Iorque de Le Corbusier, é o número de ouro.Há uns dias, quase vinte e cinco séculos depois de Phídeas, cientistas da Universidade de Cambridge, presume-se que após aturados estudos científicos, conseguiram determinar o índice do corpo harmonioso que definiria a mulher ideal. Aplicaram-no a várias mulheres e chegaram à definitiva conclusão: a mulher ideal, a dona do corpo completamente harmonioso, era Jessica Alba.
Desconheço quais as variáveis consideradas pelos cientistas mas, convenhamos, até Phídeas concordaria com a escolha.
18 novembro 2007
ATÉ PODIA SER DOUTOR
No passado Domingo foi dia de S. Martinho. Para assinalar a data, no serviço de notícias da hora de almoço, um dos canais de televisão mandou um repórter procurar um vendedor de castanhas assadas. Sempre seria mais castiço. Ilustrava-se a notícia com um fóssil e, com toda a certeza, os telespectadores gostariam. Parece que com alguma dificuldade – será mesmo um fóssil –, o repórter lá conseguiu encontrar um ali para os lados da Boavista. Gostei de ouvi-lo. Depois de tanta queixa – irrita-me sobremaneira esta moda nacional do queixume –, deleitei-me ouvindo uma pessoa que, tendo, talvez, razões de sobra para os lamentos, lá foi dizendo, convictamente, que a vida corria bem. Contente com o que faço e feliz com o que ganho porque não sei ler nem escrever. Não tenho exame nenhum senão podia ir para Doutor. Desconheço em quê ou em quem estaria a pensar – ou se estaria a pensar algo – quando disse tal coisa mas por mim veio-me à memória um certo senhor de uma estirpe, senão fóssil, pelo menos à beira da extinção, que nunca tem dúvidas e raramente se engana.
Gostei de ouvi-lo. Falou por mim. Pelo sim, pelo não, quando for ao Porto tentarei passar pela Boavista. Procurarei o vendedor e, entre duas castanhas, falaremos daquela casta de homens que já se não encontram... com facilidade.
27 outubro 2007
DE BUDAPESTE - MARTE, COM AMOR...
Todas as semanas, a TSF convida uma figura pública para partilhar com os ouvintes as músicas que, de qualquer maneira, a tenham marcado, à figura, entenda-se. O programa tem um nome modernaço, bem ao nível do choque tecnológico: “A playlist de…”. De quando em vez, durante qualquer um dos meus pequeninos trajectos da hora do almoço – o programa é transmitido durante a semana a partir da uma da tarde –, ligo a TSF e “espreito” os gostos musicais do pessoal que “conta”. Algumas vezes delicio-me com as justificações do convidado pela escolha da música que se vai seguir, outras, fico a pensar que a personagem deveria divulgar tão só o nome da música, calar-se muito caladinho e carregar no botão sem mais delongas. O convidado desta semana é a metralhadora falante, também conhecido por Rogério Alves. Pelo genérico do programa vê-se que o causídico é do género Pink Floyd / Dire Straits, mas foi sobre um outro grupo musical que contou uma história extraordinária. Foi, mais ou menos assim: quando viu um disco, já não sei qual, dos Renaissance foi amor à primeira vista e, vá lá saber-se porquê, disse para os seus botões: “Tenho de possuir este disco, dê por onde der!”. E então começa uma verdadeira aventura. Procurou-o por cá, por tudo quanto é sítio e não o encontrou, procurou-o em Nova Iorque e não o encontrou, procurou-o em Londres e não o encontrou, procurou-o em Roma e não o encontrou – o programa não permite interactividade com os ouvintes já que nem sequer é em directo se não, naquele momento, contactava a TSF e aconselhava-o a procurar em Ouagadougou, encontrava-o de certeza –, até que um dia, estando em Budapeste, passou por uma loja daquelas que vende de tudo, livros e outras quinquilharias e diz-lhe a Joana – a Joana é a senhora sua esposa e ele diz Joana como se eu e todos os ouvintes a conhecêssemos desde sempre e todos os dias privássemos com ela –, “Devias procurar aqui, nunca se sabe…”. Claro que o jurisconsulto não deu ouvidos à pobre da Joana – era mesmo em Budapeste, e ainda por cima no meio de quinquilharia, que ia encontra a banda dos meus sonhos. Num dos dias seguintes, o destino – bom, não me recordo já se foi o destino ou outra coisa qualquer mas para o desenrolar da história isso é um pormenor de somenos – fê-lo passar novamente pela tal loja. Aí, achou que algo o guiou por esse caminho e entrou. E não é que no meio dos budas e dos relógios contrafeitos encontrou o disco dos Renaissance que tinha já procurado em meio mundo!A história do Doutor Alves teve um final feliz e tenha a certeza que, naquela hora, todos os ouvintes, solidariamente, respiraram de alívio por, finalmente, ter encontrado o disco dos Renaissance mas o que mais me impressionou no letrado foi ele dizer que encontrou o disco em Budapeste como se o tivesse realmente encontrado em Marte, numa qualquer loja de esquina. Depois desta história lúgubre fiquei sem vontade de ouvir os Renaissance e mudei de estação.
Agora, sempre que passar por uma loja de chineses, vou-me lembrar da loja de Budapeste e não conseguirei entrar, ainda que na montra anunciem um Rolex ao preço da uva mijona e sempre que o disc jockey anunciar os Renaissance vou-me lembrar da história triste do Rogério Alves e ficarei sem vontade de os ouvir.
15 outubro 2007
ESTAVAS MESMO A PEDI-LAS!
O bronco do Gordon Brown andava a pedi-las. Tanto acirrou o pessoal lá de baixo que ouviu das boas dos torcionários do Zimbabué. Em entrevista a uma rádio portuguesa, um ministro de Mugabe, não se coibiu de dizer alto e bom som que Brown não tinha legitimidade para falar em democracia e em direitos humanos, ele que não tinha sequer sido eleito pelo povo britânico. Pois é, mister Brown, os carniceiros lá de baixo estão bem informados. Por cá aconteceu, em tempos, o mesmo. Um primeiro-ministro saiu e ficou o número dois do partido cujo mandato não tinha sido sufragado pelo povo. Aguentou-se pouco mais de um mês. O presidente tratou de o pôr no lugar.
25 setembro 2007
JURO QUE NÃO FUI EU!
Não fosse a máscara que a oculta e teria, naturalmente, qualquer Margarida Moreira à perna.09 setembro 2007
E SE ESCREVESSE LIVROS?
Há uns anos a esta parte, desde que foi viver para aquela paisagem lunar de Lanzarote – teria Pilar algo com esta estapafúrdica decisão? -, Saramago tem-se batido pela ridícula ideia de uma Península unida, a Ibéria dos seus sonhos. Embora por cá quase ninguém o leve a sério, e agora, depois do Nobel, com aquela sua mania de emitir opiniões definitivas sobre tudo, ou quase tudo, confesso que já me irritava aquela sua cruzada pela grande Ibéria. No início desta semana, em pleno Parlamento Europeu, a uma pergunta de uma jornalista espanhola - os únicos que ainda fingem levar a sério o escritor -, o Presidente de República respondeu-lhe por mim: "Basta conhecer a história de Portugal para dizer que essa hipótese é um total absurdo!"
19 agosto 2007
ALGUM CHEIRINHO DE ALECRIM

14 agosto 2007
LÁ ESTAREI!
…
Pedro Homem de Mello
1+2+3+...+99+100=5050
Ao casamento [de Gauss] vieram poucos convidados […] Uma hora mais tarde os últimos convidados já tinham partido e ele e Johanna iam a caminho de casa. […] No quarto ele fechou os cortinados e aproximou-se dela […] Quando a mão dele lhe percorreu os seios e depois a barriga, e a seguir ele se atreveu a continuar, […] a lua cheia surgiu pálida e baça por entre os cortinados e ele sentiu vergonha por precisamente nesse momento lhe ter ocorrido a maneira de corrigir por aproximação os erros de medição das órbitas dos planetas. Gostaria de ir anotá-la, mas agora a mão dela deslizava pelas costas dele abaixo. […] enroscou as pernas em torno do corpo dele, mas ele pediu desculpa, levantou-se, foi aos tropeções até à mesa, mergulhou a pena no tinteiro e escreveu, sem acender a luz: soma do quadr. da diferença entre observ. e calc. – min.…
Ainda enquanto ele lhe perguntava de onde vinha, o que desejava e em que poderia ajudá-la, ela abriu-lhe as calças com desembaraço. Quando […] lhe arrancou a camisa pela cabeça soltou-se um botão e rolou pelo chão. Humboldt seguiu-o com os olhos, até ele esbarrar contra a parede e tombar. Ela passou-lhe os braços em volta do pescoço e puxou-o para o meio do quarto [arrastando-o] para cima do tapete e por qualquer motivo ele permitiu que ela o fizesse deitar-se de costas e que as suas mãos fossem descendo ao longo do corpo […] Ele olhava as suas costas arqueadas, o tecto do quarto, a janela onde se viam as folhas das palmeiras agitadas pelo vento. […] As folhas eram curtas e aguçadas, ele nunca tinha estudado aquela árvore. Quis levantar-se, mas ela pousou-lhe a mão no rosto e empurrou-o para baixo […] Não tem importância, disse em voz baixa, a culpa era dela. Bonpland foi encontrá-lo sentado à secretária, no meio dos cronómetros, do higrómetro, do termómetro e do sextante […] Com a lupa presa no olho, observava as folhas de palmeira. Uma estrutura interessante.
A Medida do Mundo, Daniel Kehlmann
O primeiro foi etnógrafo, antropólogo, físico, geógrafo, geólogo, mineralogista, botânico e vulcanólogo, o segundo, matemático, astrónomo e físico.
Humboldt, um explorador, criou o essencial da sua obra através das expedições que realizou em diversas partes do mundo – são famosas as expedições à América do Sul e à Ásia Central –, Gauss, essencialmente um pensador, quase nunca saiu da sua cidade.
O livro de Daniel Kehlmann começa precisamente por explorar esta faceta da vida de Gauss, o seu horror a viagens, quando tinha de se deslocar a Berlim para participar na reunião de estudiosos de Ciências Naturais onde encontraria Humboldt. Alternadamente, capítulo para um, capítulo para o outro, o autor revisita as vidas destes dois gigantes do Iluminismo alemão. Além das descobertas fantásticas que se aliam aos nomes destes dois investigadores, Daniel Kehlmann dá-nos a conhecer – de uma forma por vezes hilariante –, as suas idiossincrasias.
12 agosto 2007
MIGUEL TORGA
"Nas duas grandes horas da Vida – a nascer e a morrer – o homem bebe sozinho o seu cálix. No trajecto entre os dois pólos, acovardado pela maior consciência da espessura da bruma, arregimenta amigos e companheiros. Mas a sua unidade é ele. Mesmo que consiga ter à sua volta uma multidão – vai só."Miguel Torga, Diário I [coimbra, 6 de novembro de 1937]
09 agosto 2007
REENCARNAÇÃO NÃO AUTORIZADA!
Em 1951 o Exército Chinês passa a fronteira do Tibete para tomar de assalto um território que, diziam, lhes pertencia por direito próprio. Durante anos foram lá cometidas as maiores atrocidades. Centenas de templos são destruídos, milhares de habitantes são massacrados. Promove-se a aculturação forçada dos tibetanos ao estilo de vida do invasor. Mas uma parte importante daquele povo resiste ainda.Tensing Gyatso, o décimo quarto Dalai Lama, é o líder espiritual dos tibetanos. Obrigado a fugir do seu país em 1959, refugia-se na cidade indiana de Dharamsala, no sopé dos Himalaias, onde, até hoje, como líder do governo tibetano no exílio, tem conduzido a luta pela libertação do seu país. Pelo reconhecimento desse combate o Comité Nobel decidiu, em 1989, atribuir-lhe o prémio Nobel da Paz.
O Dalai Lama é a reencarnação de Buda na Terra, segundo a tradição tibetana. Ainda não há muito tempo a insuspeita Der Spiegel dizia que o líder espiritual dos tibetanos era mais popular que o Papa Bento XVI. O governo chinês sabe disso e sabe também a mossa que essa popularidade pode causar nos seus propósitos de anexação do Tibete – veja-se a pressão imensa que o império do meio exerce sobre qualquer governo para que o não receba, pelo menos a nível oficial –, de modo que, para limitar a sua influência, fez aprovar um decreto que só não é hilariante porque é perturbador: O chamado "Buda vivente" reencarnado é ilegal e inválido sem a aprovação governamental. Este decreto, ao melhor estilo das trevas medievais da Santa Inquisição, entrará em vigor no próximo dia 1 de Setembro.
08 agosto 2007
RAPAZ POBRE, RAPARIGA RICA
E a vida, por mais que se queira, não é canónica.Miguel Torga
Nasci em Santa Marta de Portuzelo. Hoje a aldeia está pegada à cidade mas naquele tempo “ficava a léguas”. Ali sentia-se o peso da interioridade de modo que com atenção ouvia-se, aos mais velhos, expressões que hoje estão completamente arredadas do nosso modo de falar. Por isso, foi com um indescritível prazer que as encontrei todas no livro de João Cavalheiro, Carolina, um louco sonho de infância. Embora já há muitos anos as não ouvisse, aconteceu-me achá-las tão naturais como se as utilizasse no dia-a-dia. Aconteceu como quando encontramos um amigo da escola que já não víamos há vinte anos. Falamos com ele como se estivéssemos a continuar a conversa do dia anterior. Além do linguajar de antanho pode apreciar-se a mesa tradicional, tanto da gente remediada como da rica. Utilizando uma expressão que vai atravessando o tempo: de comer e chorar por mais. O romance conta a história de um amor impossível entre João Miguel, um rapazinho pobre de uma aldeia perdida da ribeira Lima e Carolina, a herdeira da família de maiores pergaminhos, lá da terra. Ao longo de mais de quinhentas páginas os protagonistas viverão aventuras indescritíveis até ao feliz desenlace. Corin Tellado, ou até Gilberto Tumscitz Braga, roer-se-iam de inveja se um dia tivessem oportunidade de ler o livro. Passado a episódios de trinta minutos poderia figurar na grelha de programação de qualquer estação de televisão, no seu horário nobre. Apenas um reparo: para dar à história a direcção pretendida, juntando os protagonistas, o autor não hesita em fazer cair um avião com a mulher e os sogros ou fazer sair da estrada o automóvel com a mulher e o homem em que, miraculosamente, só este se fina. Para a história isso é providencial mas na vida real os acontecimentos não se desenrolam a pedido porque a vida, por mais que se queira, não é canónica.
31 julho 2007
FEIOS E PORCOS, PELO MENOS
Periodicamente, a Junta de Freguesia da Meadela, atenta às coisas da cultura, põe uns dinheiros de parte para a promoção de autores autóctones. Neste ano publicou três livros: um de poesia, um estudo sobre os cinquenta anos das festas da freguesia e um romance, todos eles de autores nados, ou, pelo menos, criados cá. O romance, Carolina, um louco sonho de infância, relata a história de um daqueles amores impossíveis com final feliz. Apesar de uma trama um tanto ou quanto naif, o romance reproduz de uma forma fiel e minuciosa a vida difícil nas aldeias do Alto Minho durante a segunda grande guerra e os anos que se lhe seguiram. A sua leitura, agradável, diga-se, em abono da verdade, teve o condão de me recordar muitos episódios que conheci de perto, na minha aldeia minhota em tempos de grandes privações. Não sei porquê, lembrei-me de um amigo de infância que, quando pela primeira vez foi à cidade e viu uma mulher de beleza ofuscante, ficou com a firme certeza que a dita não cagava. Podia lá ser. Aquele cabelo sedoso, aquela pele de marfim, aquelas mãos de porcelana, aquelas roupas que julgava impossíveis… Pode lá ser, cagar, cagamos nós que somos feios e porcos!Algumas décadas depois descubro, com agrado, que continua a haver pessoas que mostram as mesmas dúvidas.
24 julho 2007
BOBO HOWARD
Hoje, à hora de almoço, quando as televisões mostraram o primeiro-ministro australiano John Howard, subindo “a quatro” a escadaria de uma estação de rádio, eu, que não sou aborígene, ri-me desbragadamente. Quando o vi naquela posição confrangedora, lembrei-me de todas as maldades que fizeram e continuam a fazer àquele povo.
23 julho 2007
TRABALHO É TRABALHO! CONHAQUE É CONHAQUE!
Há que puxar pela imaginação porque a notícia vinha extirpada de uma parte importante para a cabal compreensão do sucedido – o busto de Deborah.A história conta-se em duas penadas. Numa obscura cidadezinha do interior da Alemanha, Deborah Moscone, assistente de vendas de 20 anos de idade, subiu para o autocarro e instalou-se num dos bancos da frente. Quando, passados instantes, o condutor procurou o espelho retrovisor o que lá encontrou foi uma imagem que faria as delícias de qualquer mortal cá das bordas do mediterrâneo, mas não as dele: o formoso busto de Deborah, alegremente decotado, enchia o espelho. O motorista parou o autocarro, dirigiu-se à atónita passageira e fez-lhe ver que a dita imagem do espelho o incomodava e que, com aquela atitude, estava a pôr em perigo a segurança dos restantes passageiros do autocarro. Desconheço se a despeitada passageira aconchegou o vestuário, saiu na próxima paragem ou mudou de lugar, a notícia não o dizia, mas apresentou queixa da situação. E se estava à espera que a companhia tivesse dado um puxão de orelhas ao assalariado, desengane-se, a decisão do condutor foi louvada pela entidade patronal, alegando que, em nenhuma circunstância, os motoristas podem ser distraídos durante o exercício da função.
Pois é, meus caros, lá para cima, a linha que separa o trabalho do conhaque é um muro intransponível mas mais cá para baixo essa linha é tão ténue, mas tão ténue, que, as mais das vezes conseguimos coexistir dos dois lados.
08 julho 2007
DE QUALQUER MODO GOSTAMOS DE OUVI-LAS
Ontem foi um dia mau. Não bastando já ter de gramar com a ideia imbecil da eleição das novas sete maravilhas do mundo ainda tivemos de arcar com o resultado de um tonto estudo científico, com honras de publicação na Science – esta vetusta revista começa a aceitar de tudo –, levado a cabo por investigadores das Universidades do Texas e do Arizona, onde se concluiu que, afinal, as mulheres não falam mais do que os homens. Em cada dia que passa, os homens pronunciam 15669 palavras – assim mesmo, nem 15668 nem 15670, precisamente 15669 palavras – e as mulheres 16215. A ínfima diferença de 546 palavras é, dizem-no os investigadores, estatisticamente insignificante, pelo que acabamos de perder mais uma das nossas bandeiras. A partir de agora quando nos atrevermos a dizer, “ – Estás a falar demais!”, estamos sujeitos a que nos lembrem este famigerado estudo.Antes desta pérola da moderna investigação, empiricamente, tinha-se chegado a valores que, penso, estariam mais próximos da verdade: 20000 palavras por dia para as mulheres e 7000 para os homens, mas os ianques, com a mania dos estudos científicos para tudo e mais alguma coisa, decidiram meter a colherada e foi o que se viu. Esperemos que noutra parte do mundo alguém venha repor a verdade.
28 junho 2007
A NOVA HISTÓRIA ORAL
O dia estava a romper quando saí do metro. Estava a tossir e a espirrar, tinha os olhos a doer-me, os joelhos tremiam-me, estava com mais fome que uma loba, e tinha exactamente oito cêntimos no bolso. Pouco me importava. A minha história tinha aumentado de onze mil palavras novinhas em folha, e nesse momento aposto que não havia um único Presidente do Conselho de Administração em toda a Nova Iorque tão feliz como eu.Joseph Mitchell, O Segredo de Joe Gould
Lá para o Outono o Museu da Pessoa, com sede na Universidade do Minho, abrirá oficialmente a Lifepedia, uma ferramenta virtual, espécie de Wikipedia, que permitirá recolher histórias e testemunhos de vida de todos aqueles que tiverem vontade de as partilhar. Neste momento cerca de uma dezena de funcionários, desde profissionais de design, a editores e investigadores trabalham a tempo inteiro numa estrutura museológica peculiar que já compilou mais de 500 testemunhos por todo o país. Jorge Rocha, responsável por este projecto, revelou que o objectivo primordial é reforçar auto-estimas e incentivar laços colectivos e identidades culturais. Em sua opinião o projecto será um êxito pois todos gostam de ser autores, vendo-se isso pelo fenómeno dos blogues que, por vezes, nem são lidos, mas há em cada um de nós uma vontade enorme de criar que nos impele a continuar.
Esta ferramenta virtual, que deverá funcionar nos moldes do sistema de registo e password, permitirá o registo on-line das histórias individuais. Neste momento estão já registadas conversas com tanoeiros, alfaiates, tecedeiras e uma panóplia infindável de rostos e vozes que corporizam a preservação das recordações. Ainda segundo Jorge Rocha, a criação de uma ferramenta deste tipo reveste-se da maior importância visto a tradição oral que no passado se desenvolvia em volta da lareira onde se transmitiam histórias, princípios e valores estar hoje, definitivamente, arredada para junto da televisão.
Confesso que a ideia é sedutora e auguro-lhe grandes sucessos mas, reconheçamos, não é virgem. Na primeira metade do século passado, Joe Gould, passou a maior parte da vida no cumprimento da tarefa de escrever a História Oral. Gould costumava contar que numa manhã do Verão de 1917, era ele repórter há cerca de um ano no Evening Mail, lhe veio à mente a ideia da História Oral. Imediatamente, abandonou o emprego e começou a escrever. Desde essa manhã fatídica a História Oral tem sido a minha corda e o meu cadafalso, a minha cama e a minha escrivaninha, a minha mulher e a minha amásia a minha ferida e o sal em cima dela, o meu whisky e a minha aspirina, o meu refúgio e a minha salvação. É a única coisa que ainda tem alguma importância para mim. Tudo o resto é lixo.
Tal como o pai e o avô, Joe Gould diplomou-se por Harvard. Quando os limites da sua terra se lhe tornaram sufocantes, Joe partiu para a grande cidade. Na minha cidade natal nunca me senti em casa. Em Nova Iorque, especialmente em Greenwich Village, no meio dos marados, dos marginais, dos tísicos, os que já foram alguém, os que podiam ter sido, os que queriam ser, os que nunca hão-de ser e os sabe Deus o quê, sempre me senti em casa.
16 junho 2007
EAU DE FRANCE
Há uns tempos atrás, uma organização de defesa do consumidor, penso que americana, fez um estudo comparativo acerca das águas engarrafadas, à venda no país. A bitola seria a insuspeita Perrier – e quem mais poderia alcandorar-se a esse título? Tomando por padrão, a inatingível qualidade da famosa água gaulesa, nenhuma outra poderia lá chegar. Venceria aquela que mais próximo conseguisse ficar. O estudo foi-se desenvolvendo e, na hora de ordenar os concorrentes, o impensável aconteceu. A água Perrier, a de inatingível pureza, a que estava no estudo apenas para servir de referência, aquela que era vendida, a preços proibitivos, em garrafinhas bojudas de vidro com 20 centilitros de capacidade, tinha ficado a meio da tabela, vergonhosamente ultrapassada por águas vendidas em garrafões de plástico. A culpa, disse-se na altura, foi de uma arreliadora fuga de hidrocarbonetos no asséptico sistema de lavagem das garrafas, que terá conferido à bebida um agradável travo a petróleo.Foi um rude golpe na imagem – e nas finanças, claro – da Perrier. Embora nenhum cliente se tenha queixado – razão pela qual somos levados a concluir que o travo a petróleo seria agradável –, a empresa pediu desculpas públicas pelo sucedido e retirou do mercado todos os milhões de garrafas com resquícios de hidrocarbonetos, que lá se encontravam. Levou anos a recuperar a imagem mas hoje este arreliador incidente está esquecido e a Perrier voltaria a ser seleccionada para termo de comparação num estudo sobre águas engarrafadas.
Ontem, ao ver os esgares aflitos do Presidente Sarkozy depois de ter bebido água, lembrei-me deste episódio. Será que voltaram a lavar as garrafas com petróleo?
02 junho 2007
DESERTO DE IDEIAS
“Toda a gente dá por sabido que no dito deserto vivem muitos espíritos que produzem nos viajantes grandes e surpreendentes ilusões para os fazerem perecer […] e muitos, não tendo sido avisados da existência destes espíritos, perecem de mala morte”Citado por ABC dos Desertos, Público
Estava para não falar disto mas, depois de tantas atoardas, decidi-me. Um dia destes, o ministro das obras públicas foi à televisão – pelos vistos desdobrou-se pelos canais todos, ou quase todos. Com aquele ar rústico e aquela forma bronca de dizer as coisas, que o caracteriza, foi explicar as últimas embrulhadas em que se meteu. Foi uma perda de tempo. Deveria saber que não é possível explicar o inexplicável.
Começou pelo deserto. Basicamente quis dizer que um aeroporto deve ser construído o mais próximo possível do maior número dos futuros potenciais utilizadores. Todos estaremos de acordo. Desgraçadamente, o ministro não quis dizer essa verdade insofismável de um modo assim tão cru e toca a florear o texto. Para arruinar ainda mais as coisas teve a infeliz ideia de pelo meio, fazendo lembrar uma personagem misógina da nossa praça, bradar alto e bom som “na margem sul jamais!”. Como ninguém o ensinou que texto com flores não é para quem quer, mas para quem pode, o ministro Lino tem sido, após essa infeliz intervenção, alvo da chacota da nossa classe política de todo o espectro Este-Oeste, essa sim, vivendo num deserto de ideias, para não falar dos autarcas da margem Sul que, afivelando a sua melhor cara de despeito, têm vindo a terreiro exigir as desculpas do ministro. Enfim, um regabofe. Cabe aqui dizer que seria criminoso construir um aeroporto num local que estudos sérios não aconselhassem mas, reduzir a discussão ao deserto da outra margem.
19 maio 2007
SEREMOS DIGNOS DELES?
Ouvi ontem que Nicolas Sarkozy, quer que se institucionalize o acto de ler a todos os estudantes franceses, no início de cada ano lectivo, a carta que Guy Môquet, escreveu na véspera da sua morte. Fez bem. Isto, está claro, descontando qualquer eventual propósito inconfessável do populista Sarkozy. Talvez ponha alguns jovens a pensar, e isso é sempre bom.Adivinham-se as razões pelas quais o novel presidente francês tomou esta decisão. Môquet, um jovem de dezassete anos, é um exemplo de coragem e amor à pátria.
Guy Môquet, filho de um deputado comunista, nasceu em 1924. Era um membro activo da Juventude Comunista, ao tempo da ocupação da França pela Alemanha Nazi. A 13 de Outubro de 1940, enquanto distribuía propaganda anti-Nazi numa estação de metro de Paris, Guy é preso pelos alemães e enviado para o campo de internamento de Châteaubriant onde se encontram detidos outros militantes comunistas. A 22 de Outubro de 1941, em represália pela execução, dois dias antes, de Karl Hotz, comandante das tropas de ocupação, às mãos de três jovens comunistas de Nantes, Guy, e outros 26 companheiros, é fuzilado em Paris. Môquet, o mais jovem dos 27 cai, diz-se, às dezasseis horas.
Na véspera da sua morte, denotando uma presença de espírito impressionante para quem tem pouco mais de dezasseis anos escreve:
Minha querida mãezinha, meu adorado irmãozinho, meu amado paizinho
Vou morrer! O que vos peço, sobretudo a ti, mãezinha, é que sejais valentes. Eu sou-o e quero sê-lo, assim como todos os que morreram antes de mim. Sem dúvida, gostaria de viver. Mas o que desejo de todo o coração é que a minha morte sirva para alguma coisa. Não terei tempo de abraçar Jean. Abracei os meus dois irmãos Roger e Rino. Não o pude fazer com o verdadeiro, lamentavelmente. Espero que te entreguem toda a minha roupa, porque poderá servir para Serge; dou por certo que estará feliz por poder usá-la algum dia. Paizinho, sei que, tal como à mãezinha, te causei bastantes desgostos e saúdo-te pela última vez. Quero que saibas que fiz todo o possível para seguir o caminho que me indicastes.
Um último adeus a todos os meus amigos, e ao meu irmão, a quem quero muito. Que estude para que seja um homem.
11 maio 2007
NÃO VÁ...
A minha amiga Helena Guerreiro, sempre atenta às inovações que vão acontecendo por esse mundo cão, descobriu uma que, a ser implementada cá, evitaria, com toda a certeza, muitas idas ao psiquiatra e ao otorrino. Então o que descobriu a Helena? Descobriu que na América, tal como cá, os chatos dos paizinhos dos alunos fazem trinta por uma linha aos professores dos seus rebentos. Vai daí, numa escola secundária da Califórnia, os professores sugeriram que, para poupar a comunidade escolar a incómodos vários, deveriam ser gravadas no atendedor de chamadas da Escola uma série de mensagens que funcionariam assim como que um sistema de Manchester. Desconheço se a sugestão foi, ou não, aceite e implementada, mas, não tenho dúvidas que se o foi, será um êxito.Vamos então às mensagens gravadas:
Olá! Foi direccionado para o atendedor automático da escola. De forma a podermos ajudá-lo a falar com a pessoa certa, por favor ouça todas as opções antes de fazer a sua selecção:
05 maio 2007
ARBEIT MACHT FREI
"A viagem não durou mais de vinte minutos. Depois o camião parou, viu-se uma grande porta, encimada por umas palavras fortemente iluminadas (a lembrança dessas palavras ainda me assalta nos sonhos): ARBEIT MACHT FREI, o trabalho liberta"Nós, que nos lembramos, ainda, o que aconteceu a todos aqueles a quem um dia foi dito que “o trabalho liberta”, não gostamos de ouvir, naquelas circunstâncias, repetidas essas palavras por um político da nossa praça.
25 abril 2007
DIA LEVANTADO E PRINCIPAL
“E olhando nós de mais longe, de mais alto, da altura do milhano, podemos ver Augusto Pintéu, o que morreu com as mulas na noite do temporal, e atrás dele, quase a agarrá-lo, a sua mulher Cipriana, e também o guarda José Calmedo, vindo doutras terras e vestido à paisana, e outros de quem não sabemos os nomes, mas conhecemos as vidas. Vão todos, os vivos e os mortos. E à frente, dando os saltos e as corridas da sua condição, vai o cão Constante, podia lá faltar, neste dia levantado e principal.”José Saramago, Levantado do Chão
23 abril 2007
PARA O LEANDRO

As Pequenas Memórias, José Saramago
Para todos os Leandros que, apesar de terem aprendido a ler à bofetada, não perderam o amor aos livros.



