26 março 2007

25 de MARÇO

O aniversário foi na realidade ontem, mas, para não ofuscar o cinquentenário do tratado de Roma, decidi comemorá-lo apenas hoje.
Fiz alguns arranjos em casa – quase imperceptíveis, diga-se – deixei cair um pouco da minha máscara, ou por outra, arranjei outra, agora mais transparente, deixando perceber o que se encontra por trás. Está claro que não fiz grandes remodelações, isso é só para quem pode – lembro-me por exemplo do Tozé que ainda há pouco tempo fez uma reforma geral, ou do Pedro que fez o mesmo, ou do António, um eterno insatisfeito, que deve ter contratado um decorador tantos são os melhoramentos que faz – e eu, que não me posso meter nessas cavalarias, servi-me, apenas do poeta para construir a minha diáfana máscara: […] Sabe, no fundo eu sou um sentimental […] Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora...
Agora levante a sua taça! Eu cá estarei para acompanhar.

25 março 2007

EUROPA, 50 ANOS DE SONHO

“Por todo o lado, encontrei magníficos sonhadores, homens e mulheres que porfiadamente acreditam nos seus sonhos. Mantêm-nos, cultivam-nos, partilham-nos, multiplicam-nos. Eu, humildemente, à minha maneira, também fiz o mesmo.”

Luís Sepúlveda, O poder dos sonhos


Para todos aqueles que em 1957 sonharam uma Europa de paz e de tolerância e para todos os que desde aí têm dado o melhor de si mesmo para que se cumpra o sonho, o meu respeito, a minha admiração, o meu agradecimento. Eu, humildemente, à minha maneira, continuo a sonhar.

21 março 2007

O MUNDO CONTINUA VÃO


É verdade, este mundo continua vão. E para quem pensasse que as misérias tinham apenas um século, desengane-se, elas sobrevieram no preciso momento que o primeiro homem cá pôs o pé, e, ou muito me engano, ou apenas cessarão quando o último fechar a porta. Uma prova do que digo encontrei-a no “Rosa do Mundo”, num poema indiano do séc. VII. Catorze séculos após sou forçado a concordar inteiramente com o bardo: parece-me que já nem a oração resulta. Assim sendo, o que resta a um homem?

18 março 2007

PAI, SEMPRE

"Cortei o cabelo a meu pai e fiz-lhe a barba. Foi sempre bonito o velhote, na sua esbelta e direita figura, na sua pele branca e fina de nórdico, nos seus olhos azuis, no seu loiro bigode de rapaz. Mas nunca teve coragem, nem tempo, para cuidar destes dons, embora goste que lhos gabem e cultivem. E de vez em quando é toda a família à volta do manjerico. Um aperta-lhe os botões da camisa, outro compõe-lhe o chapéu, outro tira-lhe a terra das orelhas. A mim tocam-me sempre a barba e o cabelo. E eu rapo o melhor que posso aqueles pêlos, com a solenidade que ele rapa as ervas de uma leira para lhe plantar um alfobre."

Miguel Torga, Diário III



14 março 2007

A FÓRMULA DO DESPERDÍCIO

A haver uma grande expansão inicial, os cientistas perceberam que teria de haver uma radiação cósmica de fundo, uma espécie de eco dessa erupção primordial do Universo. […] Mas onde diabo estava o eco? […] Por mais que se procurasse, nada se encontrava. Até que em 1965, dois astrofísicos americanos estavam a levar a cabo trabalho experimental numa grande antena de comunicações […] quando depararam com um irritante barulho de fundo, uma espécie de assobio provocado por vapor. […] Andaram um ano a tentar eliminá-lo. […] Em desespero de causa, decidiram ligar aos cientistas da Universidade de Princeton, a quem relataram o que estava a acontecer e pediram uma explicação. E a explicação veio. Era o eco do Big Bang. […] O que eles estavam a captar era a luz mais antiga que chegou até nós, uma luz que o tempo tinha transformado em microondas. Chama-se a isso radiação de fundo […]
Oiçam, nunca vos aconteceu ligarem um televisor numa frequência em que não há emissão? […] Vemos aqueles pontinhos todos a pulularem no ecrã e um ruído enervante, assim crrrrrrrrr, não é? Pois ficam a saber que um por cento desse efeito é proveniente deste eco. […] Portanto, se um dia estiverem a ver televisão e nada vos interessar, sugiro-vos que sintonizem um canal sem programação e fiquem a ver o nascimento do Universo. Não há melhor reality show que esse.
José Rodrigues dos Santos, A Fórmula de Deus

Não direi que teria sido preferível ligar o aparelho de televisão num canal sem programação e deliciar-me com o nascimento do Universo em vez de ler a Fórmula de Deus de José Rodrigues dos Santos, mas confesso que me desiludiu bastante. Depois do Codex 632 esperava bem mais do que aquilo que me foi oferecido. O livro é, por vezes, um longo e maçador bocejo, entrecortado por uns arreliadores sons guturais de quase todos os personagens: Hu! Das quase seis centenas de páginas do romance, umas boas quatrocentas são de palha, o que é uma pena, além, claro, de um nada ecológico desperdício de papel.
Se o escritor tivesse seguido os ensinamentos do monge Tenzing, teria usado de mais parcimónia no uso das palavras e obraria, certamente, uma obra mais económica. Em vez disso, esbanjou-as a seu bel-prazer, resultando daí um livro, por vezes, entediante e repetitivo.

08 março 2007

PARA TODAS AS MULHERES


Para todas(1) as mulheres: para as minhas, cá de casa, para as dos meus amigos, para as da minha família, para as do meu país, para aquelas que sofrem, para aquelas que todos os dias são vilipendiadas, para aquelas que lutam por um mundo melhor e para aquelas que já desistiram de lutar. Para todas as mulheres do mundo, o meu reconhecimento: sem vocês tudo seria muito mais monótono. Oh, se seria…
Socorro-me do poeta que diz as coisas melhor que eu digo:
ETERNO FEMININO

Voltei, ninfas amigas!
Quem pode resistir a um fresco aceno
De donzelas despidas?
Fiel devoto da nudez da vida,
Tinha sede de ver-vos distraídas
A correr pela terra ressequida.

Serei criança, mas voltei de novo
Ao vosso altar sagrado.
Ou não fosse eu poeta!
Ou não me desse a imagem do passado
Uma esperança secreta…

Vim, e que o mundo murmure,
Ninfas de cada fonte!
Que me importo que digam que enlouqueço
Junto de vós?
Quero é beijar-vos, é beber,
E sentir-me no fim purificado…
Só deusas verdadeiras podem ter
Um corpo tão perfeito e tão lavado.

Miguel Torga
(1) Mesmo para umas que eu cá sei. Que tenham um bom dia e que a caganeira lhes venha só amanhã.

28 fevereiro 2007

NÃO O FAZEMOS POR MAL...

A minha amiga Helena Guerreiro é uma pessoa atenta às fraquezas do género humano, em especial quando as fragilidades se manifestam na parte masculina da questão. Há uns dias presenteou os homens do seu rol de endereços – do qual me dá o prazer de fazer parte –, com uma lista de obscenidades que, confesso, de início me estava a deixar fulo. Devo, no entanto, dizê-lo, que quando cheguei ao fim soltei umas saborosas gargalhadas. Era, claro, uma caricatura, mas, por isso mesmo, havia em tudo aquilo um fundo de verdade pelo que só me resta dizer: Mulheres, perdoem-nos! Fazemo-lo, realmente, mas não o fazemos por mal! É que somos mesmo assim!
Mas vamos às maldades da Helena:


“A cozinha fora de casa”
Talvez porque há um certo risco envolvido na actividade, este é o único tipo decozinha a que um verdadeiro homem se deve dedicar. Contudo, não é tarefa fácil. Quando um homem aceita fazer o Barbecue põe-se em marcha uma cadeia de acções:
1.º A mulher compra os alimentos;
2.º A mulher faz as saladas, prepara as batatas fritas, o arroz e a sobremesa;
3.º A mulher prepara a carne para ser cozinhada, tempera-a, coloca-a numatravessa e leva-a ao homem que já está à espera ao pé do grelhador, de cervejafresca na mão.
Aqui vem a primeira parte realmente importante da questão:
4.º O homem coloca a carne na grelha;
5.º A mulher vai para dentro e põe a mesa;
6.º A mulher apercebe-se que o homem está com os outros homens a contar anedotas e vem cá fora a correr a avisar que a carne se está a queimar;
7.º O homem aproveita e pede-lhe mais uma cervejinha fresquinha;
8.º A mulher vem cá fora trazer a cerveja e uma travessa... e é então que aparece a segunda parte importante do processo:
9.º O homem tira a carne da grelha e entrega-a à mulher;
10.º Depois de comerem, a mulher tira a mesa, lava a louça, arruma a cozinha e lava a grelha;
11.º Toda gente dá os parabéns ao homem pela fantástica refeição que elepreparou;
12.º O homem pergunta à mulher se lhe soube bem o tempo de folga de que usufruiu e, perante o ar chateado dela, conclui que há mulheres que nunca estão satisfeitas com nada.

26 fevereiro 2007

E VAI MAIS UM

Nos anos sessenta e setenta do século passado, sempre que um dos seus pilotos via a bandeira de xadrez ser-lhe mostrada, Colin Chapman, esfuziante de alegria, atirava o boné ao ar. Fê-lo dúzias de vezes.
José Mourinho, personalidade vincada como o inglês mas mais expansivo, quando ganha, atira-se, ele próprio, ao ar. Ontem, pela décima primeira vez na sua ainda curta carreira, Mourinho saltou. A sua equipa, o Chelsea F.C. de Londres ganhou a Taça da Liga.
Parabéns, Mourinho!

23 fevereiro 2007

O PESSOAL DA 3.ª FASE JÁ CHEGOU!

Todos os anos pelo Natal - tempo que se quer de paz e tolerância -, o presidente da República concede alguns indultos a pessoal encarcerado que tenha dado mostras de arrependimento e boa conduta. O Ministério da Justiça, depois de devidamente analisado o processo do preso, propõe a sua soltura ao Presidente.
No último Natal, cumpriu-se o ritual e perdoou-se parte da pena a uma quantidade de engaiolados. Entre os felizardos contava-se um empresário da noite do Alto Alentejo. Até aqui tudo bem. Mas eis que uns chatos do Expresso, na obsessiva procura de cachas descobrem que afinal o indultado não deveria tê-lo sido já que o seu processo era um manancial da ilegalidades das quais se destacam uma condenação anterior a quatro anos e meio de cadeia e o facto de contra ele impenderem vários mandatos de captura nacionais e internacionais por ter fugido do país. Depois desta bomba ter chegado às bancas, o Ministro apressou-se a incumbir a Inspecção-Geral dos Serviços de Justiça a abrir um inquérito de averiguações a este lamentável acontecimento com recomendação expressa de lhe ser facultada uma resposta num curto espaço de tempo. O pessoal do ministério ter-se-á atarefado porque, poucos dias volvidos, e eis que a nação ficou a saber a que se ficou a dever tamanha trapalhada: na instrução do processo do indulto presidencial, a cargo do Tribunal de Execução de Penas de Lisboa, foram reunidos elementos, provenientes da Polícia Judiciária e do Registo Criminal, que não foram tomados em consideração. Tais elementos encontravam-se actualizados mas os «registos em causa não eram de leitura evidente».
Depois desta peça lapidar lembrei-me de um mail sobre as fases do ensino em Portugal que tinha recebido há tempos. Dizia:
1.ª FASE (antes de 1974)
O aluno ao matricular-se ficava automaticamente chumbado. Teria de provar o contrário ao professor.
2.ª FASE (até 1992)
O aluno ao matricular-se arriscava-se a passar.
3.ª FASE (até 2006)
O aluno ao matricular-se já transitou automaticamente de ano, salvo casos excepcionais e devidamente documentados pelo professor, que terá de incluir no processo, obrigatoriamente, um "curriculum vitae" detalhado do aluno e, em alguns casos, da própria família.
4.ª FASE (a partir de 2007)
O professor está proibido de chumbar o aluno. Nesta fase quem é avaliado é o professor, pelo aluno e respectiva família, correndo o risco, quase certo, de chumbar.

É caso para dizer que o pessoal da 3.ª FASE já chegou. Imagine-se o que será quando chegarem os da 4.ª.

18 fevereiro 2007

FEIOS E MAUS, APENAS.

De vez em quando a comunidade científica decide obsequiar-nos com os mais disparatados estudos. Todos nós, em qualquer ocasião, já tomamos conhecimento de estudos que, além de servirem para nos atazanar a cabeça e delapidar o erário público, não servem para mais nada. Não é o caso de um estudo que a insuspeita revista Science publicou recentemente. Se é verdade que as conclusões não serão de molde a tornar o mundo melhor – acho eu –, servirão, pelo menos, para trazer um pouco de justiça à eterna disputa sexo forte vs sexo fraco. Até agora o meu era o lado dos feios porcos e maus. A partir das conclusões deste estudo, que todos nós, de resto, já suspeitávamos, passaremos a ser, tão só, feios e maus.
O estudo, patrocinado pelo professor de Ciências Ambientais da Universidade do Arizona, Charles Gerba, revela que as mulheres acumulam três ou quatro vezes mais germes do que os homens nas suas secretárias, telefones, computadores, teclados, gavetas e objectos pessoais, havendo, regra geral, 400 vezes mais bactérias nas mesas de trabalho do que nos sanitários dos escritórios. O Dr. Gerba diz ainda que os alimentos são a principal fonte de bactérias, assumindo este facto um nível preocupante, já que 75% das mulheres têm algo para debicar nos seus escritórios. "Estava convencido de que os homens gerariam mais germes, mas as mulheres [...] guardam comida nas suas mesas, problema a que se acrescenta a maquilhagem", afirmou o autor do estudo. Nas gavetas, e demais escaninhos dos escritórios, as mulheres armazenam guloseimas, cosméticos e outros produtos, comestíveis ou não, que constituem um agente de primeira grandeza para originar ninhos de germes.
O estudo concluiu que, no caso dos homens, os maiores focos de germes são as carteiras e as agendas electrónicas. No caso das primeiras, se forem guardadas no bolso de trás das calças, os germes estarão no seu elemento natural já que lhes é proporcionado um lugar morno e cómodo(1) para se desenvolverem.

(1) imagino o caldinho bacteriológico presente na carteira de um certo declamador de poesia da nossa praça.

13 fevereiro 2007

O NEW YORK TIMES DO ALBERTO JOÃO

Anteontem, quando as televisões mostraram o Alberto João, à saída da assembleia de voto, vociferar contra os de Lisboa – que estão a roubar a Madeira, que vão ter de responder em tribunal –, lembrei-me de John Rockfeller.
John Davison Rockfeller, nascido em 1839, foi um industrial e filantropo americano que juntou uma fortuna incomensurável – ganhar dinheiro é um dom de Deus, dizia. A cotações actuais, John D. valeria quase tanto como três Bill Gates. Antes de a sua empresa de extracção, refinação e comercialização de petróleo, a Standard Oil, ter sido desmantelada pelo governo com base na Lei Antitrust, recentemente aprovada, era responsável por noventa por cento de todo o petróleo que circulava dos Estados Unidos da América.
Conta-se – conta-o José Saramago n’O Ano da Morte de Ricardo Reis –, que para o fim da vida, Rockfeller morreu em 1937 com a provecta idade de 98 anos, enquanto a América se debatia, ainda, com as sequelas da grande depressão e na Europa os sinais do caos que se avizinhava eram já bem visíveis, o New York Times fazia todos os dias um exemplar único do jornal, falsificado de uma ponta à outra, só com notícias agradáveis e artigos optimistas para que o pobre velho não [tivesse] de sofrer com os terrores do mundo e suas promessas de pior.
O Jornal da Madeira, agraciado com 4,6 milhões de euros pelo Governo Regional do arquipélago, para manter o pluralismo na comunicação social, é o New York Times do Alberto João Jardim. Apenas com uma pequena diferença: na América foi o jornal quem tomou a iniciativa de publicar um número extirpado dos horrores e colorido de quimeras para não ferir os débeis ouvidos nem os baços olhos do ancião, na Madeira é o próprio que o manda fazer para que no dia seguinte, ao pequeno almoço, possa ler um jornal mondado das notícias que falam de uma democracia de opereta onde não há pluralismo ideológico nem pluralismo na comunicação social.

03 fevereiro 2007

A IDADE DAS TREVAS

- Pai […], – que dizem os livros acerca de nós, camponeses?
- Dizem que somos animais, brutos, e que não somos capazes de entender o que é a cortesia. Dizem que somos horríveis, vis e abomináveis, desavergonhados e ignorantes. Dizem que somos cruéis e toscos, que não merecemos nenhuma honra porque não sabemos apreciá-la, e que só somos capazes de entender as coisas à força. Dizem que…

A Catedral do Mar é um romance sobre a ignorância, o medo, o ódio e a intolerância. É um romance sobre a prepotência do feudalismo, a demência da inquisição, a ambição desmedida e o fanatismo religioso. Ponç apresentou a caução que o corregedor lhe solicitara, e este entregou-lhe Joana. Construiu na sua horta um cubículo de dois metros e meio por um metro vinte, fez um buraco para que a mulher pudesse fazer as suas necessidades, abriu aquele janelinha para que Joanet, nascido nove meses após a sentença e nunca reconhecido por Ponç, se deixasse acariciar na cabeça, e emparedou para toda a vida a sua jovem esposa. A Catedral do Mar é um romance sobre as trevas.
Se fosse só sobre isto já seria muito mas A Catedral do Mar, o belo livro de Ildefonso Falcones, é também uma obra sobre o amor, o arrependimento, a honra, a luz e a vitória do bem sobre o mal.
A acção desenrola-se no principado da Catalunha durante o séc. XIV e tem início na quinta de Bernat Estanyol, no dia do seu casamento.
- Estanyol! – gritou Llorenç de Bellera, pondo-se de pé com Francesca agarrada pelo pulso. – Usando do direito que como teu senhor me assiste, decidi deitar-me com a tua mulher na primeira noite.
É este episódio que irá precipitar a prodigiosa aventura de Bernat Estanyol e seu filho Arnau, desde Navarcles, terras do cruel cavaleiro Llorenç de Bellera, até Barcelona, em busca da paz e da liberdade.
Paralelamente ao desenrolar da história assiste-se à construção da bela Catedral de Santa Maria del Mar, uma catedral construída, realmente, pelo povo. Arnau terá um papel importante nesta obra prodigiosa. Começando por carregar pesados blocos de rocha desde as pedreiras reais de Montjuic, chegaria a um verdadeiro mecenas da catedral, acorrendo em seu auxílio sempre que os exauridos cofres da confraria não permitiam a continuação do trabalho.
Não deixa de ser revoltante que a inquisição tenha perseguido tal personagem.

02 fevereiro 2007

O GRITO

Lá, onde se encontrava, não sei se o nosso primeiro-ministro terá ouvido o grito da criança assustada, mas, a avaliar pela mortandade no galinheiro, deve ter sido um grito aterrador.
A história conta-se em duas penadas: na China profunda, um distribuidor de gás foi a uma quinta fazer uma entrega. O seu filho, uma criança ainda, acompanhava-o. O cão de guarda, não tendo visto ainda o petiz por aquelas bandas, desata a ladrar ao intruso, o que o terá assustado. A estridência dos gritos lançados pelo apavorado rapaz foi tal que no aviário as galinhas entraram em pânico, atirando-se, desorientadamente, contra as paredes. No final, a carnificina foi pavorosa. Ao que dizem, terão perecido, naquela confusão medonha, para cima de quatro centenas de galináceos. A notícia dizia mais qualquer coisa sobre a pena aplicada ao prevaricador, mas, nesta altura, já a minha imaginação voava para um outro galinheiro que há para os lados do Bairro Alto, onde em tempos os Beneditinos se recolhiam. Que falta fazia lá o chinezinho para atarantar a maioria das aves que por lá se acoitam…

29 janeiro 2007

E O TIBET: COMO VAI?

Depois de alguns avanços e outros tantos recuos – coisa de somenos ao que nos dizem os organizadores de eventos do Palácio das Necessidades – o primeiro-ministro parece que lá partirá amanhã para a China. Na bagagem leva, com toda a certeza, um sem número de dossiers de natureza económica e comercial e, eventualmente, uma ou outra treta politicamente correcta.
Se lhe sobrasse algum do seu precioso tempo, nestes seis dias em que visita a China, gostaria que indagasse junto das autoridades do país, da sorte que terá cabido às duas monjas tibetanas, Kyzom e Yangdöl, que há 10 anos fugiram do sua pátria ocupada, atravessando, a pé, os Himalaias.
Esta viagem épica é-nos contada por Philippe Broussard no seu livro Os Rebeldes do Himalaia. A prisão das monjas por terem o "atrevimento" de clamarem por liberdade para a sua pátria, as sevícias sofridas no degredo, as privações na travessia dos Himalaias, os problemas com as autoridades Nepalesas, o pânico constante de serem descobertas e enviadas de novo para o cárcere, até à almejada liberdade em Dharamsala, no norte da Índia, junto do dalai-lama, também ele lá exilado.
Gostava de saber como está Ursinho que pouco depois de chegar a Dharamsala tomou a decisão de voltar ao Tibete. Mesmo depois de todos os sacrifícios para lá chegar, não deixou de experimentar um certo sentimento de culpa por saber que a verdadeira luta só podia ser travada do outro lado das montanhas, no seu país. Mesmo arriscando-se a ser de novo presa e torturada, regressou ao Tibete.
Broussard termina o seu livro dizendo: "... ignoro onde se encontra hoje Ursinho, a rebelde de Dharamsala. Sem dúvida numa cela em Gutsa, em Trisam, em Drapchi, culpada de ter querido o impossível: a liberdade".
Mesmo que ao nosso primeiro-ministro sobrasse algum do seu precioso tempo não averiguaria, certamente, a sorte das monjas. Os objectivos da sua viagem são outros e, de qualquer modo, quem se interessa pela luta de um povo, ainda que íntegro, mas que ninguém conhece?

13 janeiro 2007

MÁS-LÍNGUAS

Há alguns anos abriu em Viana um simpático cafezinho a que foi dado o nome de Amarillo. Recordo-me que a primeira vez que vi o nome gravado nas vitrinas me lembrei da Amarillo das revistas e dos filmes de cowboys e dos duelos na rua principal debaixo do sol impiedoso do meio-dia. Isto, numa altura que uma certa família ainda não tinha trazido má fama ao Texas.
Apesar de por vezes a música parecer uma Techno Parade, gosto de, uma vez por outra, sentar-me um pouco e ler o JN ou então o Público que a casa todos os dias põe à disposição dos seus clientes. Ontem, ao fim da tarde, fui ao Amarillo. Peguei no Notícias que estava livre e sentei-me a uma mesa. A música não incomodava – Techno não pode ser sempre – abri o jornal e comecei a ler. Na mesa ao lado, duas criaturas, professoras pelo que se depreendia das suas palavras, mostravam-se chocadas com a atitude de uma terceira, pelos vistos, das suas relações. Trejeito daqui, esgar dali, má-língua dacolá, lá iam apunhalando a amiga ausente.
Eu, ouvinte acidental de toda aquela conversa, lembrei-me de uma anedota que o meu amigo Aires me tinha contado algumas horas antes:
Na altura do Natal dois clítoris passeavam por uma rua da baixa admirando as montras decoradas para a quadra. Então diz um para o outro:
- Ouvi dizer que não consegues atingir o orgasmo?
- Olha filha, más-línguas! Más-línguas, é o que é!
Voltando às professoras. Alguém dizia, algures, que é a conversa das mulheres que faz girar o mundo. Começo a pensar que talvez tenha razão. Depois de um chorrilho de frases incompreensíveis – não porque ciciassem mas, simplesmente, porque falavam em simultâneo –, finalmente, uma começou a dizer algo que teve o condão de emudecer a amiga:
- Então não queres saber que foi para Paris nas férias do Natal e só veio ontem? Quase duas semanas depois de as aulas terem começado? E depois admiram-se da ministra fazer o que faz!
- Uma falta de responsabilidade intolerável! – gania a outra.
Não havia condições para ler. O tempo em que, estudante universitário no Porto, conseguia estudar no meio do ambiente atroador do Café Cenáculo, já passou há décadas. Agora, sem silêncio, tenho dificuldade em concentrar-me na leitura. Dobrei o jornal, voltei a colocá-lo no cesto e saí.
Pela rua ia pensando na conversa que desencaminhou a minha leitura: foi de férias e voltou quase duas semanas após o início das aulas!
Não, só pode ser má-língua das invejosas das amigas!

11 janeiro 2007

BEM-VINDO A CASA!

O Presidente da República já aterrou na Índia. Com o seu séquito – esperemos que não de Diogos Cães engalanados – o país regressa ao Oriente. Antes ainda de partir, o Presidente lembrou que esta viagem tinha, apenas, motivações políticas e económicas e não seria nunca uma peregrinação pelas memórias do império. Fez muito bem em proferir tais palavras – nem se esperaria outra coisa de um Presidente da República de um país soberano e civilizado que parte para uma visita a outro estado soberano e civilizado –, mas no mais recôndito do seu ser ter-lhe-á vindo à memória a extraordinária aventura protagonizada pelos portugueses de quinhentos. Disso não tenho dúvidas.
A mim, que o vejo partir, vem-me à memória uma admirável crónica de um atento espectador da alma lusa: Fernando Alves. Há 10 anos, fá-los-á lá mais para Setembro, o cronista foi também à Índia. De uma crónica dessa vagem respiguei o seguinte excerto:
A ventoinha está sempre a rodar, no restaurante do Hotel Venite, na Rua 31 de Janeiro em Pangim. Há uma velha rabeca pendurada na parede e há também um retrato do Sagrado Coração de Jesus. […] Alguém escreveu num português sem mácula, em letras toscas, na parede mais larga da sala: «A nossa especialidade é galinha assada com batatas fritas». Há vinhos de distintas proveniências, há o inevitável xarope Mateus Rosé, mas o melhor é pedir Kingfisher muito fresca e esperar que a ventoinha não pare de rodar. […] a varanda do restaurante do Hotel Venite, em Pangim, não dando, é certo, para o Rio Mandovi, não respondendo aos desejos dos que procuram Forte Aguada e as mais belas praias do mundo, não dando senão para os telhados da 31 de Janeiro onde pousam os corvos negros da Índia, dá, todavia, para o mais íntimo da andarilha alma portuguesa. […] Sentado a essa varanda de Pangim escutei uma inesperada canção de Né Ladeiras que o jovem Raghu Gadhi foi pôr a girar num leitor de cassetes quando percebeu uma lusitana melancolia nos meus olhos. E foi nessa varanda de Pangim que vislumbrei o símbolo do Sporting pintado na parede da loja de Bento Miguel Fernandes. Bento Fernandes havia de me abrir os braços e as histórias e havia de me mostrar as fotografias com Eusébio, Toni, Damas e outros veteranos, que há pouco mais de um ano foram jogar futebol a Goa. Ao contar as tardes de petiscos portugueses no Clube Vasco da Gama, o senhor Bento abraçou-me como se eu fosse do Sporting e mostrou-me os retratos autografados de Eusébio e Toni como se eles fossem do Sporting, que é o mais popular clube do mundo, em Goa. E eu percebi que no abraço emocionado de Bento Fernandes, na alegria de poder falar uma língua diariamente agredida por ministros e outros doutores, ele dizia Sporting como se dissesse uma secreta ideia de pátria comum. E nesse fim de tarde na rua 31 de Janeiro em Pangim, durante uma hora, eu fui, com orgulho, do Sporting.”
Uma última nota: nos antípodas de Pangim, do imenso Brasil chegam-me também sinais da alma lusitana. O Pedro Nelito e os amigos estão compondo um fado. Querido amigo – permita-me que o trate desta forma – bem-vindo a casa!

28 dezembro 2006

NÃO PRECISA BEBER CHAMPANHE...


RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

27 dezembro 2006

THIS IS AMERICA!

Da América continuam a chegar novas que têm, ainda, o condão de nos surpreender. Final do último Super Bowl, um “desporto” esquisito e, pelo menos para mim, intragável e incompreensível, em que uma cambada de embuçados tenta por todos os meios atropelar outra cáfila dos mesmos embuçados. Os ianques, a avaliar pelos níveis de audiência televisiva, são doidos por essa trapalhada. No intervalo da última final, como ia dizendo, actuou a cantora Janet Jackson e o cantor Justin Timberland. Durante a performance, talvez num trejeito mais arrojado, a mama direita da mulata libertou-se do espartilho e mostrou-se ao mundo. Ao que me dizem, a puritana América tê-la-á visto por menos do que um segundo, mas este foi tempo suficiente para que a estação de televisão que transmitiu o espectáculo, a CBS, suponho, tenha sido multada em cerca de meio milhão de dólares.
Ah América, és capaz do melhor e do pior.

SABEDORIA DE CASERNA

Hoje, num dos telejornais da hora do almoço, ouvi uma afirmação extraordinária. Extraordinária por duas razões: em primeiro lugar porque foi proferida por um elemento – graduado, suponho – da GNR e em segundo porque passados todas estas décadas e todos estes milhares de mortos e centenas de milhar de estropiados lá concluíram que a culpa das mortes na estrada era da má educação dos automobilistas. Mas, note-se que esta opinião é apenas daquele militar, o governo continua a dizer que os portugueses – e as portuguesas, como eles gostam de dizer, especialmente quando querem pedir algo, por exemplo, um voto – são pessoas educadas, sensatas, inteligentes, ajuizadas, enfim um chorrilho de imbecilidades que qualquer mortal sabe que soam a falso. Deixem-se disso senhores governantes, “ataquem” já as criancinhas desde o pré-escolar se não vamos continuar a ter gerações de cretinos ao volante. E agora já não temos a desculpa das estradas más e do parque automóvel envelhecido. Ambos estão ao nível do que existe no primeiro mundo. A senhora ministra da educação que, de repente, emudeceu, que se deixe de trapalhadas e que olhe para a situação desastrosa do primeiro ciclo, que é, não tenhamos dúvidas disso, a etapa mais importante da escolaridade do indivíduo. Mas por favor, rodeie-se de pessoas que saibam o que deve ser feito.

24 dezembro 2006

FELIZ NATAL


Amanhã, dia de Natal, fará nove meses que atravessei a fronteira. Durante este tempo conheci alguns amigos, visitei outros e, acima de tudo, diverti-me bastante. Para todos os amigos e visitas cá de casa - Marco Aurélio, o primeiro a dar sinal de vida, Pedro Nelito, António, Tozé Franco, Alda Maia, Magui, Joel, São Ponte, Xico Rocha, Helena Guerreiro, Alex Manzi, Andrea, Isadora Lis, Bruno Vieira, José Marques, Manuel Neves, Jofre Alves, Raposa Velha, Cazento, Mikas, Quintanilha, Armanda, Professorinha, Teresa David e João Moutinho - um feliz natal
Empanturrem-se de batatas, abarrotem-se de bacalhau, atestem-se de um bom verdinho, recheiem-se de doçarias e lambuzem-se de amor.

18 dezembro 2006

JOSÉ ESTALINE: NÃO NOS ESQUECEREMOS!

…Estaline […] levanta-se, beija a namorada na face, canta uma canção, ajuda a filha a fazer os trabalhos de casa e depois manda matar 40 mil pessoas…

Entrevista de Simon Sebag Montefiore ao semanário Sol, 26.Nov.2006


Ióssif Vissariónovitch Djugashvili ou, mais prosaicamente, José Estaline, nasceu na cidade Georgiana de Gori, faz hoje precisamente 128 anos. O mundo, viria a sabê-lo mais tarde, passaria bem sem ele, mas na realidade não teve essa sorte.
O pequeno Ióssif, filho de trabalhadores com poucos recursos, teve uma infância difícil. Chegou a frequentar um seminário na capital da Geórgia, Tbilisi, satisfazendo os anseios da mãe, mas cedo se começou a envolver em actividades subversivas, contestando o regime czarista. Estas acções revolucionárias levá-lo-iam à prisão. Uma vez em liberdade aliar-se-ia a Vladímir Ilitch Uliânov, Lenine, ajudando a arquitectar a Revolução Russa de 1917. A sua ascensão dentro do partido foi meteórica. A astúcia de Estaline, que lhe permitiria manter-se no poder até ao dia da sua morte, começava aí a revelar-se.
Antes da Revolução dirigiu o Pravada, jornal oficial do Partido e, em 1922, é eleito Secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. Dois anos depois, após a morte de Lenine, ascende à chefia do governo Russo, cargo que desempenharia com mão de ferro e sem piedade até ao fim dos seus dias, a 5 de Março de 1953.
Neste quarto de século terá feito da Rússia uma super potência mas à custa de muito sofrimento, muitos crimes e muitas mortes. Tantas que os historiadores não conseguem, sequer, pôr-se de acordo. Num recente documento do Conselho da Europa, que visa perpetuar a lembrança de todos os crimes contra a humanidade pode ler-se: "Convém não esquecer os crimes do estalinismo, cujas vítimas estão estimadas em 100 milhões de mortos. O regime estalinista recorria a todas as formas de execução de civis: utilizava o gás ou o veneno, ou então fazia o necessário para que as vítimas morressem de fome. Centenas de milhar de pessoas foram expulsas para os confins da Rússia e povoações de todas as nações foram deslocadas. Nas prisões e gulags, milhares de prisioneiros políticos foram vítimas de uma feroz repressão".
Podem começar a levantar-se vozes que tentem reabilitar o nome deste déspota sanguinário, pode até aparecer um ou outro que nos lembre os afazeres domésticos do ditador, que nada nem ninguém conseguirá calar o murmúrio ensurdecedor dos milhões de inocentes que pereceram às suas mãos.

PS. fui "coagido" pelo Pedro Nelito a escrever este post, que, diga-se em abono da verdade, nasceu de um mal entendido. Uma completíssima lista de algozes pode ser consultada aqui.

12 dezembro 2006

SESSÃO DE POESIA

"Tendo problemas de flatulência [...] de vez em quando descuidava-se [...] em cerimónias oficiais, levando-me a acender, de imediato, um cigarro para disfarçar o odor."
in, Eu, Carolina, Carolina Salgado

Consigo imaginar o ambiente numa das famosas sessões de declamação de poesia em que o homem diz participar. Será cada verso cada peido. E os circunstantes, embevecidos, sem notarem sequer aquela atmosfera espessa e pesada, ovacionam-no no fim. O declamante curva-se perante a assistência e aproveita o ruído para largar mais um, agora ruidoso, que o ambiente permite-o.

05 dezembro 2006

A MINHA HOMENAGEM A FIDEL

Enquanto convalesce da arreliadora avaria do intestino, Fidel é informado que o seu amigo Morales está já em viagem para o confortar e lhe oferecer um bolo de coca. O comandante não o diz, mas no íntimo reza a todas as santinhas pedindo-lhes que despenhem o avião e façam o índio e o bolo desaparecerem nas profundezas do triângulo das Bermudas ou nas brumas do mar dos sargaços.
Pelos vistos as santinhas não ouvem os hereges e, por isso, o andino aterrou em Havana são e salvo com a sua picaresca oferenda.
Anteontem, enquanto escrevia o texto anterior, sobre o bolo de coca que Dom Evo ofereceu ao seu guru, lembrei-me de Juan Manuel de Prada. Fidel, não desmerecendo da ascendência galega, sempre foi apreciador da boa mesa mas abomina bolos. Bolos em geral e bolos de coca em particular. De modo que, depois de ler a notícia da visita do índio, por solidariedade com o velho comandante, decidi procurar um livro de Juan de Prada e deliciar-me com um determinado texto da obra. É a minha homenagem ao cubano nesta hora difícil.
Embora o texto seja de fino recorte literário, cogitei longamente acerca da pertinência de o trazer a lume. Encorajado por algumas coisas que vou lendo na blogosfera, e mesmo correndo o risco de estarrecer algumas mentes mais sensíveis, decidi trazê-lo.



Vou uma vez por ano a Cuba, para fumar com Fidel Castro uns bons charutos e lhe contar uma ou outra anedota picante. Fidel é um bocado manhoso, um pouco paquidérmico e barbudo demais. No fim da visita, dá-me umas palmadas nas costas com aquelas suas mãos de velho sapo, e leva-me para uma saleta decorada com pouco gosto, com pretensões a lupanar das Caraíbas, onde me esperam meia dúzia de pequenas cubanas, risonhas e partidárias do regime castrista. Fidel diz-me que escolha uma e eu decido-me, para o não o deixar mal visto, pela mais rechonchuda. Fidel faz estalar os dedos, ordenando às outras que se retirem; ele faz o mesmo, após cofiar as barbas de patriarca outonal. E eu, ficando ali a sós com a cubanita, pergunto-lhe:
- Como te chamas?
- Gertrudes.
As cubanas são mulheres com uma certa vocação para as curvas, de uma carnalidade que contrasta com os seus nomes, muito ásperos para o gosto ocidental. Na Gertrudes, concretamente, sublinharei o seu riso mulato, os seus braços sedentários e a sua estatura de menina que não cresceu. Vamos à praia (Fidel tem residência de Verão à beira-mar, para espiar com a luneta os viajantes das jangadas que naufragam antes de acostar à Florida) e eu pego-lhe na mão , sentindo entre os meus dedos o calor afável e hospitaleiro das raças mestiças. Fodemos em silêncio, em cima da areia (talvez a luneta de Fidel nos esteja a examinar), com a noite toda a derramar-se sobre nós. Gertrudes tem uma cona avantajada, crioula, e sobre ela gravita o resto do seu corpo, uma cona que, tal como a manigua(1), pode enredar com as suas plantas o viajante descuidado. Vou desbravando o caminho que me há-de levar até ao fundo de Gertrudes, enquanto ela me dá instruções num espanhol rudimentar, fulgurante de americanismos, que me transmite ainda maior tesão. A cona de Gertrudes, liberta por fim de moitas pesarosas sabe-me a ananás e a licores tropicais. Contemplo a cona de Gertrudes recitando-lhe fragmentos de Paradiso, o romance de Lezama Lima que na adolescência me deslumbrou pelas suas conexões insólitas, embora nunca conseguisse entendê-lo completamente (mas a literatura não é para entender, basta que acaricie o ouvido, a alma ou os colhões). Gertrudes confessa-me a meio do coito que Paradiso é a sua obra preferida, e demonstra-mo citando passagens pertinentes. Fidel, homem de pouca leitura, deve estar a alucinar a cores, perante tamanho alarde de erudição literária, caso se não tenha cansado de nos espiar com a luneta. Os meus gostos, em geral, coincidem com os de Gertrudes, e este consenso facilita um orgasmo uníssono, cubano, quase telúrico. Gertrudes, que é um pouco desabrida, vem-se, maldizendo Guillermo Cabrera Infante(2), que considera um James Joyce para mulatos com úlcera gástrica. Acho que é um exagero.

Conos, Juan Manuel de Prada



(1) Expressão da língua nativa taina; bosque tropical pantanoso e impenetrável. (N.E.)
(2) Cabrera Infante, n. em 1929, é sobretudo conhecido pelo seu feérico romance Três Tristes Tigres, aventura da linguagem cubana em que o humor desempenha importante papel. A alusão deve-se aqui ao facto de o escritor se ter exilado de Cuba em 1965. (N.E.)

02 dezembro 2006

UMA FATIA PARA ESQUECER

A rapaziada Andina continua a surpreender-nos: Evo Morales, chegou há dois dias a Cuba para assistir ao dia das forças armadas cubanas e comemorar o aniversário do comandante – na realidade fez anos a 13 de Agosto mas um arreliador desarranjo intestinal não aconselhou festejos – e, a uma pergunta de um jornalista sobre a prenda para o enfermo, respondeu: “como prometi, eis o bolo de cocaína!
Estou em crer que o dito bolo fará habitualmente parte da dieta alimentar de Morales. Assim se compreende como não liga patavina aos protestos que vão tomando conta das ruas do seu país: depois da sobremesa toma os protestos por aplausos.

30 novembro 2006

O DESCOBRIDOR







Pelos vistos desde pequeno que tem uma fixação:
lançar-se à descoberta.
Só nos resta desejar que os ventos estejam de feição.



Descobridor

Um pai gosta de se rever no filho,
não nos defeitos, mas naquilo que,
dentro de uma óptica de adulto, é
considerado qualidade ou virtude. É verdade
que os defeitos, quando em miniaturas,
podem ter graça. O mau génio
dum rapazito “promete”, não
raro, um forte carácter
macho para quando ele for um
homem, e isso tranquiliza
e tem graça. Mas é inegável
que as virtudes brilham e
lisonjeiam mais.


Quando o meu querido
fedelho me anunciou,
arvorando como podia a
solenidade de que os seus
dez anos eram capazes, que
queria ir para descobridor,
eu senti-me surpreso
e, logo, vaidoso. Até que enfim
que aparecia alguém, nas quatro
últimas gerações da família
Soares Picoto, que se propunha
descobrir, que forcejava
por se dedicar à descoberta de
algo
.
– Mas descobrir o quê?
perguntei ao Alvarito.
– Novas terras!, disse o pequeno.


Expliquei-lhe que a grandeza
dos portugueses como
navegadores e descobridores
era um facto incontroverso, mas que
hoje estava tudo descoberto.
O Alvarito ficou pensativo,
Depois, olhou para mim
e disse, meio desencantado:
- Então posso ser engenheiro…

Alexandre O’Neill

21 novembro 2006

A 10 DIAS DO 1.º DE DEZEMBRO

Há uma dúzia de anos a Assembleia-geral da ONU instituiu o dia 21 de Novembro como Dia Mundial da Televisão. Os estados membros foram convidados a comemorar o dia e instados a promoverem, a nível mundial, a troca de programas sobre temas como a paz, a segurança e o desenvolvimento económico e social, reforçando, deste modo, o intercâmbio cultural.
Doze anos volvidos e podemos “contemplar” em toda a sua extensão o fiasco das intenções da ONU.
Hoje, 21 de Novembro, comemora-se o dia Mundial da Televisão. Se a ONU tivesse adiado a comemoração por mais dez dias, tomaria um aparelho, subiria ao 1.º andar e jogá-lo-ia pela janela. Comemoraria, desse modo, a Restauração da Independência.
Como assim não é o meu protesto vai deixar a televisão muda durante todo este dia!

19 novembro 2006

HUMOR NEGRO

Há dois dias a imprensa noticiou as conclusões de um estudo conduzido por investigadores americanos que conseguiram provar – vá lá saber-se como – que participar regularmente na missa aumenta a longevidade.
O estudo foi desenvolvido à roda das fartas mesas de Pitsburg, o que, em termos científicos, é pobre e pode até considerar-se, em certos casos, contraproducente: fosse feito no Lesoto, no Botswana ou na Suazilândia e concluiriam que para alguns nem a missa lhes vale.

PS: esperança de vida, dados de 2005: LESOTO, 34,47 anos; BOTSWANA, 33,87 anos; SUAZILÂNDIA, 33,22 anos...

17 novembro 2006

"EFEITO ATATURK" EM CAMPO MAIOR

O amigo João Moutinho perguntava-me, com alguma ironia, diga-se: Então não há mais Ataturk’s. Dei-lhe uma resposta de acordo com a pergunta mas, pensando melhor, talvez possa dizer-se mais alguma coisa sobre o assunto. Não propriamente sobre o jovem turco, mas sobre uma outra ridicularia, essa bem mais próxima de nós: os grandes portugueses.
A RTP está neste momento a cumprir a “nobre” tarefa de seleccionar os 10 mais famosos portugueses de onde sairá o maior cá do burgo. Confesso que não assisti a nenhum dos programas – penso que teria sido mais do que um – onde se tratou desse tema mas imagino também que não terei perdido grande coisa. O formato não é novo, nem é nosso, foi importado. Noutros países, também aqui mais “adiantados” que nós, já apuraram os dez mais, estando por isso em condições de, a qualquer momento, fazerem soar as trombetas. Por cá dizem-me que para Janeiro – de 5007, espero. Dei uma olhadela à página do programa e verifiquei que os organizadores não terão levado em linha de conta o efeito Ataturk. Se o tivessem feito estaria entre o Manoel de Oliveira, cineasta e o Manuel dos Santos, toureiro, o empresário – ou direi antes o filantropo – Manuel Rui Azinhais Nabeiro. Se os empregados, os amigos da pesca, os afilhados, os amigos da caça, os compadres, os amigos da sueca e pelo menos sete oitavos de Campo Maior se dispuseram a telefonar para votar no benfeitor, o Manuel Rui será eleito ao arrepio de todas as perscrutações, tão só porque a RTP, na sua soberba, não se dignou beber dos ensinamentos deste blog, desconhecendo, por isso, o que, em situações como esta, o efeito Ataturk pode fazer.

Bom, acontecerá o mesmo que noutros países, por exemplo nos Estados Unidos da América. Sabem por acaso quem é a 6.ª personalidade mais importante da história desse grande país? Nem mais: George W. Bush.

13 novembro 2006

DESAFIO DAS MANIAS

Fui arrebanhado para participar neste desafio e não tive qualquer possibilidade de fuga.
O desafio consta do seguinte:
Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogs aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blog.

As minhas manias:
1- Mania de ser optimista;
2- Mania de chegar a horas;
3- Mania de cultivar a "má-língua";
4- Mania que tenho poucas manias;
5- Mania que tenho sempre razão.

Os meus convidados:
- Blog da Mikas
- Fantasias
- Escola Revisitada
- Histórias e Sabores
- Lusíadas

PS: confesso que tenho bastantes dúvidas acerca daquela última mania mas fui coagido a escrevê-la.

INÉS ALLENDE

Para trás ficou Cuzco, coroada pela fortaleza sagrada […], sob um céu azul. Ao sair da cidade, mesmo debaixo dos olhos do governador, do seu séquito, do bispo e da […] cidade que se despedia de nós, Pedro chamou-me para o seu lado com uma voz clara e destemida.
- Junte-se a mim doña Inês Suárez! – exclamou, e quando passei à frente dos seus soldados e oficiais, colocando o meu cavalo ao lado do seu, acrescentou em voz baixa: - Vamos para o Chile, Inês da minha alma…

Isabel Allende, Inês da Minha Alma


O mais recente livro de Isabel Allende, Inês da minha alma, relata a prodigiosa aventura da conquista do Chile.
Naqueles tempos, já não havia lugar para as mais nobres façanhas naquela Europa, corrupta, envelhecida, dilacerada por conspirações políticas […]. O futuro estava do outro lado do Atlântico.
É neste mundo novo que Pedro de Valdivia, contra tudo o que seria de esperar, se lança à conquista do Chile, mesmo sabendo que se conseguisse sobreviver ao deserto do Atacama, o lugar mais inóspito da Terra, dificilmente escaparia aos aguerridos índios Mapuche. Mas Pedro estava convencido que o Chile era o local ideal, bem longe dos cortesãos da Ciudad de los Reyes, para fundar uma sociedade justa baseada no trabalho árduo e na lavoura da terra, sem a riqueza fácil das minas e o recurso à escravatura. De modo que se lança à aventura.
A História nunca foi pródiga no tratamento dado às mulheres e, no séc. XVI, isso era ainda mais evidente, de modo Pedro de Valdivia “arcaria” com todos os louros de tal façanha.
Isabel Allende descobriu que uma mulher, Inês Suárez, nascida numa obscura localidade Andaluza teria tido um papel importantíssimo nessa epopeia. Investigou em todos os locais possíveis e legou-nos a extraordinária história dessa mulher.
Conhecendo a obra da autora, e em especial Paula, não podemos deixar de reparar nas imensas afinidades existentes entre as duas mulheres de modo que por vezes somos levados a pensar que a narradora é, afinal, Inês Allende ou, eventualmente, Isabel Suárez.

12 novembro 2006

VLADIMIR PALAHNUIK, 1919, JACK PALANCE, 2006

Jack Palance, nascido a 18 de Fevereiro de 1919 em Lattimer, no estado da Pensilvânia, no seio de uma modesta família de emigrantes ucranianos, morreu na sexta-feira aos 87 anos de idade, na sua casa de Montecito, na Califórnia, ao que dizem, de causas naturais.
Jack Palance, nascido Vladimir Palahnuik, antes de iniciar a carreira de actor, foi pugilista – Jack Brazzo – e militar.
Os duros vão desaparecendo. Hollywood começa a ser tomada por frouxos.

09 novembro 2006

UM PAI NATAL PARA DON HUGUITO

Hugo Chavez só ouviu falar de Portugal porque em tempos alguém lhe sugeriu que uma fotografia que o mostrava a conversar com um sujeito bem parecido numa qualquer sala de espera de um aeroporto, poderia, eventualmente, servir para mostrar ao mundo que era um líder que se dava com gente de bem. Mas este arremedo de estadista não sabe o que se passa por cá, caso contrário saberia que, tal como não se pode decretar o fim de uma crise, também não se pode proibir por decreto a visita do Pai Natal. E foi isto, pasme-se, o que ele fez: mandou publicar um decreto que proíbe o uso de imagens ou bonecos do Pai Natal, pinheiros enfeitados e, até, botas e meias vermelhas, em todos os edifícios públicos venezuelanos.
E eu a pensar que já nada mais me surpreenderia…

Socorro-me do trabalho poético de um seu colega dos antípodas para dedicar um bom Natal a Don Huguito, com o desejo que o Pai Natal lhe traga um IPod para ouvir os discursos do ianque e o Trópico de Câncer do Henry Miller para aplacar a ira sempre que esta se manifeste. Só peço ao Pai Natal que não lhe traga nada daquilo que ele lhe pediu.

PAI NATAL

Pai Natal, vem, por favor!
Traz zincos prás escolas,
Traz giz, traz quadros,
Cadernos, lápis e livros!
Traz carteiras e armários,
E professores e alegria!

Pai Natal, vem, por favor!
Traz a chuva e verdura,
E frutas, milho e arroz
Nos campos dos nossos pais!
Harmonia entre adultos,
P’ra nós a certeza da paz.

Xanana Gusmão

07 novembro 2006

O EFEITO ATATÜRK

Dealbar de novo milénio.
Numa altura de temor e pânico, exacerbado não sei por quem e consubstanciado no Bug do ano 2000, uma revista estrangeira, da qual não me ocorre o nome, mas com posição na praça e difusão mundial, lembrou-se, no encerramento de um milénio, eleger a personalidade que nos últimos mil anos mais se tenha destacado: “O Homem do Milénio”.
Na era da aldeia global – o Bug foi, afinal, um fiasco – o modo de votação não poderia ser outro: pela Internet.
A votação lá começou e, uns tempos depois, quando a organização se apercebeu da personalidade que iria sair vencedora tratou de, sub-repticiamente, anular a eleição: Atatürk, literalmente, o pai dos Turcos, estava prestes a tornar-se o homem do milénio.
Ninguém duvida da importância que Mustafa Kemal (1881-1938) o Atatürk, tem para a moderna Turquia da qual foi o grande impulsionador mas, daí até ser a personalidade mundial mais importante dos últimos mil anos, digamos que seria necessária muita força de vontade para se aceitar.
Mas então como é que tudo aconteceu? Muito fácil. A revista, que, como já se disse, tinha – e tem, penso – difusão mundial, também chega à Turquia. Ora, algum Otomano se lembrou de encorajar os seus concidadãos a votarem no “Pai” e eles não se fizeram rogados. E, assim, uma iniciativa que no resto do mundo tinha despertado pouco interesse tornou-se, na Turquia, quase numa questão de honra nacional. Setenta milhões de Turcos correram, então, para o computador. O final da história adivinha-se.
Tudo isto, a propósito da ridícula ideia de escolher as Novas Sete Maravilhas do Mundo.
No dia sete de Julho do ano que vem – ainda pensei que o sete era o do George Best, mas afinal não – o mundo ficará a conhecer as novas maravilhas num espectáculo que será transmitido pela televisão para todo o mundo a partir do Estádio da Luz em Lisboa. E pronto, a partir desse dia o romantismo aliado às sete maravilhas desaparecerá. Mas, escolham o que escolherem, nunca conseguirão destronar o Colosso de Rodes, nem os Jardins Suspensos da Babilónia, nem o Farol de Alexandria, nem a Estátua de Zeus, nem o Templo Ártemis, nem o Mausoléu de Halicarnasso. Muito menos as Pirâmides de Gisé.
Os promotores desta ridicularia, liderados pelo suiço Bernard Weber, à qual um antigo director geral da UNESCO emprestou o nome, estão a cair no mesmo erro que há seis anos destruiu a luminosa ideia da revista americana. Ao não terem em conta o “efeito Atatürk” as novas Sete Maravilhas do Mundo serão tudo menos maravilhas ou, sendo-o, não serão, com toda a certeza, do mundo.
A votação já começou e, soube um dia destes, que já começaram também as “jogadas de bastidores”. Os Indianos, alarmados pelo fraco lugar ocupado pelo Taj Mahal, começaram a acorrer em força à votação e já o posicionaram num lugar elegível. Espera-se a resposta dos chineses.
S. Marino, Lichtenstein, Andorra e Belize não têm qualquer hipótese.

24 outubro 2006

ENQUANTO SALAZAR DORMIA...

Mary deu uma gargalhada e Rita desconcentrou-se, rindo. Tirei a venda dos olhos e vi-as, as duas seminuas à minha frente. […] Abracei-as e trocámos beijos os três. Depois caímos sobre a cama, enroscados uns nos outros e amámo-nos a três em desvario. Como se um tremendo cataclismo aí viesse e só nos restassem poucas horas sobre a Terra.



No início dos anos 40 do século passado o mundo era fustigado por uma guerra como a humanidade jamais tinha visto. Com a vizinha Espanha devastada por 3 anos de uma feroz guerra fratricida e o resto da Europa a ferro e fogo, restava Portugal, um oásis de paz e tranquilidade, para onde fugia a Europa que tinha pernas para o fazer. A pastelaria [Suiça], onde a afluência de refugiados obrigara a abrir uma esplanada para a rua, fora baptizada pelos portugueses de «Bompernasse», pois podiam observar-se por lá muitas e belas pernas de mulheres estrangeiras. Francesas, belgas, holandesas, judias da Alemanha ou da Polónia calçavam soquettes, saíam à rua sem meias, luvas ou chapéus, e penteavam o cabelo curto «à refugiada». Aliviadas por terem escapado à guerra, aos black outs, às bombas ou às perseguições da Gestapo, viviam Lisboa como um oásis, um nirvana de paz e felicidade, e mostravam as pernas ao sol, lendo revistas e fumando cigarros, numa animação estranha aos costumes lusitanos.
É nesta Lisboa cosmopolita que se cruzam reis, príncipes, banqueiros, capitalistas, judeus e, enquanto Salazar dorme, guerreiam-se os serviços de inteligências de ambas as facções beligerantes. Se há coisa que não falta no meu hotel é gente famosa. Na semana passada, além dos Gulbenkian, na segunda jantou lá o rei Carol da Roménia, com a sua bailarina Lopescu! Na terça almoçou o Guggenheim! Na quarta, apareceu para jantar a baronesa Rotschild, com o Ricardo Espírito Santo e, na sexta, a grã-duquesa Carlota do Luxemburgo.
O narrador, um luso britânico, filho de pai Inglês e mãe Portuguesa, é um antigo agente dos serviços secretos britânicos que, passados 50 anos, regressa a Lisboa e peregrina pelos locais que guarda na memória, recordando todas as peripécias vividas na altura.
O livro, de Domingos Amaral, é de uma leitura agradável. Recria o ambiente do Portugal dos anos 40, o glamour dos hotéis de luxo de Lisboa e do Estoril e revela algumas situações pitorescas como a da família Gulbenkian: É uma família curiosa.Ele instala-se no Aviz, a mulher no Palácio do Estoril. Depois, almoçam juntos no […] hotel, mas fazem-no em mesas separadas, cada um com os seus convidados.



PS: Quando, pelo menos alguns de nós, chegarmos aos 80 anos, seremos, talvez, como os pescadores quando desatam a contar histórias de pescarias: aumentam sempre três palmos ao peixe. O agente Jack Gil Mascarenhas Deane tinha chegado já aos 80 quando nos relatou a história por si vivida, 50 anos antes. Mesmo que por vezes se tenha entusiasmado a descrever aqueles pormenores mais íntimos e tenha feito como os pescadores, esta é, com efeito, uma bela história.
Enquanto lia as aventuras do agente Jack Gil lembrei-me de outro herói luso britânico: o piloto da RAF Jaime Eduardo de Cook e Alvega. O livro não o revela mas será que os dois não se terão cruzado na Lisboa de 40?

18 outubro 2006

PEDRO CAMACHO

No seu último monólogo da hora de jantar – sua homilia dominical, como já alguém se lhe referiu –, Marcelo Rebelo de Sousa, reportando-se ao último tiro no pé dado pelo tontinho do ministro da Economia, disse que não foi por mal que o governante assim falou e que, de qualquer modo, nem era bem isso que ele queria dizer. Só soou assim porque o ministro em questão possui um vocabulário pobrezinho, fruto das suas parcas leituras quando era pequeno. O professor lá saberá do que fala.
Desconheço a maior ou menor frugalidade das suas primeiras leituras, de qualquer modo, atrever-me-ia a recomendar ao senhor ministro uma deliciosa leitura: nem mais nem menos do que “A Tia Júlia e o Escrevedor” de Mário Vargas Llosa. A obra, ao que me constou, tem muito de autobiográfico, mas o que gostava de chamar a atenção era para uma extraordinária personagem que dá pelo nome de Pedro Camacho. A acção desenrola-se nos anos 50, na época dourada da rádio e das radionovelas. Uma emissora de Lima, para a qual o Varguitas preparava os noticiários nos intervalos dos seus afazeres académicos de aluno na faculdade de Direito da Universidade de Lima, tentando combater a audiência de uma emissora concorrente, contratou a certa altura o novelista Boliviano Pedro Camacho. Este viria a revelar-se de uma extraordinária fecundidade, conseguindo escrever três ou quatro histórias em simultâneo, fazendo-o, praticamente, na hora em que iriam ser transmitidas. O êxito das radionovelas deste homem foi estrondoso. A certo ponto, porém, os ouvintes começaram a notar que as personagens de uma história começavam a aparecer noutra e algumas personagens eram cópias fiéis de pessoas reais.
Não desvendarei mais nada da história. Um eventual leitor poderia perder o interesse pela leitura integral da obra. Direi apenas ao nosso ministro da Economia que, em vez de confundir a realidade com a ficção, melhor fora que, qual Pedro Camacho, confundisse a ficção com a realidade.

14 outubro 2006

A CRISE ACABOU!

Ontem, ao ouvir o ministro Manuel Pinho anunciar uma refinaria do Monteiro de Barros, ainda maior do que a primeira, lembrei-me, não sei porquê, do gato da Whiskas. Num anúncio, que por estes dias vai passando nas televisões, a dona chega das compras e, mal entra em casa, começa a bombardear o sansão – acho que não é bem este o nome do animal, mas, pelo menos por hoje, passará a sê-lo – de verborreia. O bicho, não sei se por fome se por cansaço, interpreta do palavreado da patroa: blá, blá, blá,… whiskas,… blá, blá, blá,… whiskas,… blá, blá, blá…
Nos últimos dias tem sido grande a azáfama que reina nas reuniões do governo. Os últimos protestos de rua parece que foram em grande. Alguns jornais disseram-no com todas as letras: manifestações como Lisboa já não via desde a revolução! – vamos lá a metê-los na ordem! De modo que toca a puxar pelos miolos – temos que anestesiar a populaça!
Já sei! – exclamou o chefe. E todo o grupo, mais embevecido ainda, espera avidamente a ideia iluminada do grande líder -, vamos anunciar uma grande refinaria!
Alguém, timidamente, lembrou que essa tinha sido já anunciada. Então anuncia-se outra muito maior que a primeira! Todos deram vivas e agradeceram a Deus – cada um ao seu, claro! – tê-los presenteado com aquele grande timoneiro. Só mais uma coisa – disse –, como se trata de uma refinaria é o Manel Pinho que o vai anunciar à Nação.


Post Scriptum: tenha ou não acabado a crise – embora, por vezes, possam ajudar, o povo não se alimenta de palavras, alimenta-se com o dinheiro que tem no bolso – este governo continua a ser bafejado pela sorte. Então não é que continua a haver jackpot no euro milhões. Com o pensamento em cem milhões quem é que vai ligar a greves ou manifestações? Até sexta à noite o governo está à vontade para continuar com as suas maquinações.

02 outubro 2006

OS ÁRBITROS E O REI HIERON DE SIRACUSA

Ontem, ao ler a notícia dos presentes, em ouro falsificado, oferecidos aos árbitros, lembrei-me do Rei Hieron de Siracusa.
Conta-se – conta-nos Vitrúvio, arquitecto Romano do séc. I a.C. – que o Rei Hieron II, desejando obsequiar as divindades com um presente à altura da sua real dignidade, decidiu oferecer-lhes uma coroa em ouro maciço. Mandou procurar o melhor ourives do reino e entregou-lhe uma generosa quantidade desse metal.
No dia aprazado o ourives entregou ao soberano uma coroa ricamente cinzelada. Vá lá saber-se porquê, ao espírito do monarca começam a assomar algumas dúvidas acerca da fidelidade do trabalho do artista. A coroa tinha exactamente o peso do ouro que o rei lhe tinha entregue, mas quem lhe garantia que uma parte não foi substituída por outro metal? Por prata, por exemplo. Querendo uma resposta para a dúvida que o atormentava, Hieron confiou a Arquimedes a tarefa de resolver o enigma.
Vitrúvio, que nos conta a história, viveu dois séculos depois de Arquimedes. Talvez que durante todo esse tempo a história tivesse sido, digamos, boleada. Mas é uma bela história.
Estando no balneário público, enquanto ia imergindo no tanque, Arquimedes reparava que a água ia subindo. Na sua mente apareceu, então, a solução do problema do Rei Hieron: “Todo corpo mergulhado total ou parcialmente num líquido sofre um impulso vertical, de baixo para cima, igual ao peso do volume do líquido deslocado."
A sua alegria foi tal que, sem reparar sequer que estava completamente nu, saiu das termas e precipitou-se pelas ruas de Siracusa, exclamando: “- Eureka! Eureka!”.
A história diz-nos que Arquimedes descobriu que o ourives tinha substituído uma parte do ouro pelo mesmo peso em prata e, diz-se, por sua intercessão, o monarca não terá punido o trafulha. Ao fim e ao cabo, não fora ele e essa importante descoberta teria de esperar.
Os nossos corruptos árbitros nunca duvidaram da autenticidade das prendas que lhes ofereciam, e, mesmo que duvidassem, nem conheciam o Arquimedes nem a história do Rei Hieron, por isso é que, sabe-se agora, foram presenteados com prendas de ouro falsificado para comprar os seus favores.
Os nossos corruptos árbitros. Corruptos a simplórios.

26 setembro 2006

BROCANDO O NOSSO CÉREBRO

Há alguns anos, um solidário bebedor, Inglês ou Irlandês, já me não recordo, fez os seus amigos prometerem-lhe que, uma vez morto e incinerado, o punhado de cinzas que restassem iriam para uma pequena ânfora que seria colocada em local de destaque no seu pub de eleição. Ali, à vista dos amigos, ser-lhe-ia menos penosa a jornada para a eternidade. Embora não tenha vertido uma lágrima como o outro quando viu os tanques irromper por Bagdad, confesso que esta notícia me sensibilizou. Todos ganhariam com isso: o morto tinha companhia e os vivos podiam mandar vir outra rodada – erguiam o copo, viravam-se para a urna e exclamavam: - À nossa!
Desconheço se algum dos amigos ainda vive mas, ainda hoje, o morto lá continuará a contemplar os bebedores do alto do escaparate. Por vezes, um ou outro, lá lhe dirigirá a palavra. Serão, fatalmente, frases sem nexo mas que ajudam a passar o tempo.
Tudo isto vem a propósito de uma nova moda que acaba de chegar a Portugal. Alguém teve a ridícula ideia de, por meio de brutais aumentos de pressão e temperatura, num processo em tudo idêntico ao que se utiliza na natureza, transformar em diamante o carbono contido numa madeixa de cabelo de um finado. Deste modo, os entes queridos que cá ficassem, lembrar-se-iam dele. Se não de memória pelo menos pelo tacto.
O diamante, ao que me dizem com certificado e tudo, é idêntico àquele que protege a ponta de qualquer broca para furar pedra. Um material pouco consentâneo com a memória que se quer preservar, mas enfim… é a desmedida criatividade dos homens.

22 setembro 2006

ESTADO DA NAÇÃO: RECOMENDA-SE!

Às segundas-feiras, o principal canal da televisão pública brinda os telespectadores com o Prós e Contras. A dinâmica do programa vive muito à custa da selecção do painel. Por vezes, essa escolha é tudo menos criteriosa e o programa é um longo bocejo, outras vezes, apesar de um painel redondo, propício a duas horas de enfado, o programa prende a atenção do espectador. São insondáveis os caminhos do Senhor.
Na última segunda feira o tema girava à volta de Educação. O assunto era já gasto pelo que se esperaria um miserável share para o canal 1. Tal parece não ter acontecido.
Na mesa da situação, digamos assim, sentava-se a ministra – à Pai Natal, como diria numa das suas habituais tontarias, a condutora do programa. Sobre a senhora ministra, podemos não lhe conhecer as ideias mas conhecemos-lhe o discurso. Até aqui nada de novo.
Ao seu lado direito uma personagem de carinha miúda e corte à Charlie Brown. Apresentar-se-ia como Presidente do Conselho Executivo de uma escola dos arredores de Guimarães. O primeiro mal escolhido. Limitou-se, qual sabujo, a concordar inteiramente com todas as medidas propostas pela equipa da educação. Na sua escola reinava a harmonia. Os professores estavam felizes e contentes e os alunos aprendiam melhor. Lá, no Eldorado, está quase a atingir-se a perfeição. Estaria a pensar num futuro lugar de Director-Geral para cima. Depois daquela prestação o seu sonho terá caído por terra. Ninguém quer tamanho bajulador a trabalhar consigo.
Na mesa da oposição tínhamos um professor universitário ex-governante da área. Punha aquela expressão grave tão natural naqueles que conhecem os meandros do labirinto. Numa introspecção rápida terá avaliado a situação do seu telhado e, na sua linguagem polida, passou o serão a concordar com as medidas da ministra. Havia uma ou outra com que não estava, totalmente, de acordo mas, cortesmente, evitou revelá-las. A linguagem monocórdica com que dizia as coisas também não ajudou. Enfim a segunda má escolha. No final do programa, em parte, redimir-se-ia.
A seu lado outra professora presidente. Agora da escola de uma terra com uma fábrica de cerveja de que não consigo lembrar-me o nome. Nem da terra nem da cerveja. Não trouxe muito para o debate. Na sua zona haverá interesses alheios à escola que chamem os alunos porque, pelos vistos, o abandono escolar não é despiciendo. Abusou dos Cursos de Educação e Formação que o comum dos mortais não sabe bem de que se trata. Outra escolha desacertada, portanto.
Na primeira fila do anfiteatro, a apresentadora costuma sentar alguns convidados cuja função é dinamizar o debate e abanar as consciências. Pensava eu. Vejamos:
Outro dirigente de uma escola, agora do Algarve. No seu estilo de presidente de Associação de Moradores, que sim, que agora é que isto vai p’rá frente, que na sua escola era como no Eldorado, estava tudo bem e havia harmonia.
Ao lado um velhinho. Embora já retirado, continua a encontra-se com colegas ainda no activo. Não vá a senhora ministra lembrar-se de lhe baixar a reforma – ficaram um poucochinho desagradados com todas estas mudanças mas, como é para melhorar, estão a encarar o sacrifício como necessário – limitou-se a aplicar a última pedagogia que conheceu: «Aninhas, quantos são quatro mais oito?». «São dez senhora professora!». «Está certo, mas…». Podiam ter evitado a deslocação do velhinho à capital.
Ao centro dois jovens do décimo segundo ano. Um deles, com o calor e o nervoso, não conseguiu alinhavar uma frase que fosse. Foi-lhe prometido que falaria quando estivesse mais calmo mas, como continuasse a gastar lenços de papel para enxugar a cara, foi mantido calado até ao fim. O outro, que sim senhora, que gostou de todos os professores, que todos o ajudaram a chegar até onde se encontrava, blá, blá, blá. Todos os professores?! Como se todos nós não tivéssemos andado na escola. Enfim, podiam ter poupado este sacrifício aos imberbes. Deitar-se-iam mais cedo e ficariam mais frescos para aturar os queridos professores na manhã seguinte.
Junto deles uma senhora com a pintura esborratada. O adiantado da hora não se compadece com estas coisas e a caracterização também não ajudou. Era uma professora que também era mãe, ou uma mãe que também era professora, bom, já não me recordo muito bem. Praguejou contra a direcção do colégio do filho mais novo que não a deixou, ou deixou relutantemente, visitar as instalações. Não sei se disse mais qualquer coisa mas a dizer teriam sido destas banalidades. Podia ter ficado a contar uma história ao seu filhinho mais novo. A criancinha teria adormecido em paz e o país não teria perdido grande coisa.
Finalmente, um sindicalista. Embora o seu estilo Adriano Correia de Oliveira não o tenha ajudado e estivesse constantemente a responder à antepenúltima pergunta da apresentadora, não ouvindo sequer as duas últimas, foi o único que tentou remar contra a maré. Não é bonita aquela peculiar mania dos agitadores de responderem sem que lhes tenham perguntado, atropelando os outros, mas esteve quase a levar a ministra a utilizar a sua frase mais querida: - Não me deixam falar.
E eis que é chamado um último participante. É um professor da Serra da Estrela que, nas palavras da apresentadora, pediu, insistentemente, para ser convidado. De uma das últimas filas, levanta-se, então, a personagem mais burlesca de todo o programa. Trota pelo anfiteatro abaixo e chega afogueado junto do palco. Parece que tinha vindo de Manteigas a pé. Numa linguagem de vendedor de banha de cobra começa por dizer que tem uma série de perguntas para fazer à ministra. Alarmada, a apresentadora lembra-o do combinado: - Apenas uma pergunta! O troglodita que tinha o discurso preparado para uma dúzia de perguntas não conseguiu resumir tudo numa só e o que disse soou ininteligível. A sua viagem desde a Serra foi em vão.
De vez em quando, em aparições hitchcockianas, viam-se dois marretas sentados no extremo direito da primeira fila. Ora meneavam a cabeça, ora mostravam enfado. Estou ainda por saber quem eram e o que ali faziam.
A montanha teria parido um rato, não fora uma curta afirmação final. O senhor das falinhas mansas que já tinha sido secretário de estado, apelando à sua capacidade de síntese, conseguiu, ainda que, penso eu, não intencionalmente, resumir tudo o que ali se tinha passado. Olhando para o Charlie Brown que tinha sentado à sua frente disse-lhe: - Tenho-o ouvido atentamente desde o início do programa e de tudo o que disse só consigo estar de acordo consigo numa coisa: ambos somos benfiquistas.
Perdemos, pelo menos, duas horas de descanso mas fomos para a cama mais felizes: o país vai bem!

19 setembro 2006

PASSADO À MEDIDA DO PRESENTE

Félix Ventura vive na baixa de Luanda num velho casarão colonial rodeado de retratos circunspectos e estantes a abarrotar de livros. Quando bebé foi deixado numa caixa de cartão, acondicionado entre vários exemplares d’A Relíquia – Eça foi o meu primeiro berço, costumava, orgulhosamente, dizer – junto da porta de um alfarrabista que, após a revolução, deixaria casa e livros ao filho adoptivo e trocaria a instabilidade de Luanda pela calma de Lisboa.
Diariamente o albino Félix Ventura – Branco, eu?! Não, não! Sou negro. Sou negro puro. Sou um autóctone. Não está a ver que sou negro?... – espiolhava o jornal. Quando encontrava alguma notícia que lhe interessava, recortava-a e arquivava-a. Guardava, religiosamente, centenas de pastas com recortes e centenas de filmes.
Em Angola emerge, por estes tempos, uma conjunto de pessoas cujo venturoso presente não está em consonância com o inconfessável passado.
O albino era uma pessoa atenta aos novos tempos e viu nesta discrepância uma oportunidade de negócio - Dê aos seus filhos um passado melhor. O material que laboriosamente guardava, ajudá-lo-á a construir passados para todos aqueles que reclamarem os seus serviços. Há os que necessitam de sangue nobre na sua árvore genealógica, há os que querem limpar o sangue das mãos e há até aqueles que querem trocar o seu passado porque, simplesmente, é inacreditável – quero trocar esta história inverosímil, a história da minha vida, por outra simples e sólida. A história de um homem comum. Eu dou-lhe uma verdade impossível, você dá-me uma mentira vulgar e convincente, aceita? E fá-lo-á com tal verosimilhança que os próprios se convencerão do seu passado glorioso e sem mácula.
Tudo isto é-nos dado a conhecer por intermédio de uma osga – uma osga, sim, mas de uma espécie muito rara. Está a ver estas listras? Trata-se de uma osga-tigre ou osga-tigrada, um animal tímido, ainda pouco estudado. Os primeiros exemplares foram descobertos há meia dúzia de anos na Namíbia – que, desde sempre, viveu na casa de Félix Ventura. Tal como Félix, também a osga experimenta sérias dificuldades em presença da luz, daí, talvez, a afinidade que se vai criando entre ambos. Por vezes sonha com a sua vida anterior quando era um humano.
N’O Vendedor de Passados, numa linguagem escorreita, José Eduardo Agualusa palmilha os caminhos que o jovem país percorreu após a independência.
Um caminho enxameado de escolhos que tolhem a caminhada.

08 setembro 2006

... MAS SÓ QUANDO FOR VELHA!

A Dona Maria de Jesus faz, no próximo Domingo, 113 anos. É a pessoa mais velha da Europa e uma das mais velhas do Mundo.
Literalmente, atravessou 3 séculos.
Nasceu, corria o séc. XIX, reinava ainda D. Carlos. Assistiu ao regicídio, à implantação da República, às 2 Guerras Mundiais do séc. XX e aos dias de ódio do início do séc. XXI.
Um destes dias, falando sobre o seu futuro, a simpática anciã confidenciava: “Um dia irei para um lar, mas só quando for velha!”.
Gostava de chegar lá perto e ter presença de espírito para dizer tal coisa.
Parabéns, Dona Maria! Para o ano cá estarei, novamente, a desejar-lhe Feliz Aniversário.

03 setembro 2006

DOS 18 AOS 45, MAS...

Ainda este ano, os casais, que por problemas de infertilidade se viam na necessidade de recorrer a clínicas espanholas para tentar solucionar o seu problema, vão poder fazê-lo em Portugal.
O Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto, está a criar o primeiro banco de esperma e óvulos do país. Falando sobre este assunto, Mário Sousa, investigador do ICBAS, realçou que “todos os dadores candidatos serão sujeitos a rigorosos exames de selecção, quer a nível da história clínica pessoal e familiar, quer de análises ao sangue, antes de serem seleccionados par a integrar o banco”. Já a partir de 15 de Setembro começarão as entrevistas a mulheres, potenciais dadoras de óvulos, sendo que as entrevistas aos homens, potenciais dadores de esperma, se iniciarão mais lá para o Outono.
O banco excluirá os voluntários com hábitos tabágicos, alcoólicos ou de toxicodependência ou que tenham contraído vírus como as hepatites B ou C ou o HIV. Os óvulos serão recolhidos em mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 35 anos.
Até aqui tudo bem! Temos que assegurar a qualidade do material genético. Nunca se sabe se o substituto do Engenheiro Sócrates não sairá dali.
O Inverno da notícia vem a seguir: os dadores deverão ter entre 18 e 45 anos! Quem, como eu, estava a pensar doar a sua semente para a posteridade, foi fulminado com esta frase, mesmo que respondendo a todos os outros predicados.
Apenas nos resta agarrarmo-nos a uma pequena nuance de linguagem: quando o Doutor Mário Sousa se referiu às margens de idades dos dadores disse, laconicamente, que estas eram apenas indicativas, não exclusivas, dependendo de cada caso analisado.

01 setembro 2006

SE O RIDÍCULO MATASSE…

De quando em vez, um qualquer manga-de-alpaca de uma qualquer instituição governamental, manda uma imbecilidade cá para fora para nos lembrar que o governo existe e está vigilante.
A imprensa noticia hoje que, no Programa Nacional de Alterações Climáticas (PNAC), está inscrita uma proposta que prevê que a velocidade máxima nas auto-estradas baixe de 120 para 118 km/h. Isso mesmo, leu bem, 118 km/h.
Será que o iluminado estaria a pensar noutras coisas? É que até 118 km/h é Tempestade Tropical mas a partir de 119 km/h é Furacão.

30 agosto 2006

PAU-BRASIL

...
O jovem riu-se e começou a desapertar o colar que usava ao pescoço. Desenfiou, então, uma das conchas, voltou a apertar o colar e lançou para a areia a conta retirada.
- Que estás a fazer? - perguntou Colombe.
- Hoje é dia de lua cheia - respondeu o jovem, com toda a naturalidade -, tenho de tirar uma conta do meu colar.
- Karaya é um prisioneiro - esclareceu um dos guerreiros, rindo-se. - Em cada lua, uma conta a menos; quando se acabarem as contas comemo-lo.
...
Pau-Brasil, Jean-Christophe Rufin


Em 1555, à frente de uma armada de 3 navios e 600 homens, entre soldados e colonos, Nicolas Durand de Villegaignon, Vice-almirante da Normandia, parte do Porto Francês de Le Havre rumo ao Brasil. Tem um sonho: fundar uma colónia na América do Sul – a França Antárctica.
Após uma difícil viagem, a armada penetrou na baía de Guanabara, aportou a uma das suas ilhas e aí construiu um forte: Forte Coligny em honra de Gaspar de Coligny, patrocinador da empresa.
Fruto das privações dos colonos, inflamadas pelo carácter rude e autoritário de Villegaignon, a colónia começa a passar por dificuldades. Dois anos depois da chegada um novo carregamento de colonos chega da Europa, essencialmente Calvinistas Suíços.
A colónia é agora uma babel de tendências religiosas: há católicos, luteranos, calvinistas, huguenotes e, até, anabaptistas. Cada grupo vigiava todos os outros que considerava hostis. Estas lutas internas iam desviando os residentes do essencial e a construção da colónia ia sendo negligenciada.
O sonho da França Antárctica não durou mais do que uma dúzia de anos. Em 1567, já Villegaignon tinha regressado a França, os Franceses são, definitivamente, expulsos por Mem de Sá, com a ajuda de seu sobrinho Estácio de Sá, fundador da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, que viria a perder a vida no assalto.
Baseado neste facto histórico pouco conhecido Jean-Christiphe Rufin escreveu Pau-Brasil.
Guiados por duas das crianças embarcadas na expedição para aprenderem a língua dos selvagens e, deste modo, servirem de intérpretes, entre os autóctones e os colonizadores, somos levados a viver uma aventura extraordinária por terras desconhecidas.
Just, o mais velho, chegará a braço direito de Villegagnon depois de iniciado por este na nobre arte da guerra. Colombe, a mais nova, que embarcará disfarçada de rapaz por ser absolutamente proibido o embarque de mulheres, tornar-se-á, por vontade própria, um elemento de uma tribo de canibais: “gostavam dos filhos, dos pais, da tribo, do sol e das árvores favoráveis, gostavam da água das cascatas e do vento tépido das praias, gostavam da terra que satisfaz as necessidades humanas, gostavam da noite e do dia, do fogo e do sal, da avestruz e do tapir. E, nesta trama apertada de amor e medo, não estava previsto que um só ser se apoderasse de tudo em seu benefício”.
Pelo meio assistimos à penosa travessia do Atlântico, à dolorosa construção do Forte Coligny, às intestinas lutas entre facções religiosas, às crueldades de Villegaignon para impor a lei e a ordem na colónia, ao penoso encontro de civilizações até ao desfecho, ainda que um tanto cinematográfico, em que os Portugueses, finalmente, expulsam os Franceses.
Jean-Christiphe Rufin escreveu um belo romance. Em 2001, Pau-Brasil, seria agraciado com o Prémio Goncourt.

29 agosto 2006

BASTA OLHAR O CÉU

A propósito de um post que aqui deixei, onde dava conta da desclassificação de Plutão, o amigo Chico Rocha, dizia que, embora não visse o que pudesse mudar na ciência com esta decisão, não tinha dúvidas que deste modo o Universo perderia um pouco de seu romantismo.
Amigo Xico, não desanime! Desclassifiquem o que quer que seja que a nós basta-nos deitar de barriga para o ar, olhar o céu e sonhar. E olhe que nisso somos bons!
A este propósito vou recordar-lhe um delicioso diálogo do Rei Leão da Disney, entre o Simba, o Timon e o Pumba.
Uma noite sem nuvens, estavam os três deitados, olhando um céu maravilhoso. Com aquele ar sonhador que por vezes mostrava, diz o Pumba:
- Timon...
- Que é?
- Alguma vez imaginaste o que serão aqueles pontos brilhantes lá em cima?
- Pumba, eu não imagino, eu sei!
- Ah! E o que são?
- São pirilampos! Pirilampos que ficaram colados àquela coisa grande azul escura.
- Ah!... Sempre pensei que fossem bolas de gás a arder a milhões de quilómetros daqui...
- Pumba, p’ra ti, tudo é gás.
- Simba, o que é que tu achas?
- Bom, eu não sei...
- Vamos, fala, fala, fala, Simba. Vá, nós já dissemos. Por favor.
- Alguém me disse uma vez: «do alto das estrelas os grandes reis do passado contemplam-nos».
- A sério? Queres dizer que um bando de reis mortos está a olhar lá de cima?

Pois é, amigo Xico, deitados de costas, debaixo de um céu estrelado, até de olhos fechados conseguimos ver pirilampos como o Timon ou bolas de gás como o Pumba ou reis do passado como o Simba…
Basta querermos!

26 agosto 2006

O CÃO DO JOÃO MALHEIRO

De vez em quando a comunidade científica tem a delicadeza de nos assombrar com as mais inverosímeis descobertas.
Alertado por Lloyd Green, um agricultor do condado de Somerset, no sudoeste de Inglaterra, que jurava a pés juntos que o linguajar das sua amadas vaquinhas tinha o sotaque da região “ – Eu passo muito tempo com as minhas vacas, e, definitivamente, elas mugem com um sotaque de Somerset”, dizia –, Jonh Wells, especialista em fonética da Universidade de Londres, debruçou-se sobre o assunto.
O que descobriu deixou meio mundo boquiaberto: diz ele que, em pequenas populações, como rebanhos, é possível encontrar variações no dialecto que são mais afectadas pelos vizinhos mais próximos da mesma espécie. Mais disse que já foram identificadas diferenças no gorjeio de pássaros da mesma espécie mas de diferentes regiões.
Tudo isto me trouxe à memória um apreciador de vinhos que um dia conheci. Bebia um copo de verde branco, dava um estalido com a língua, e anunciava solenemente: “- Este é da encosta de Perre!”. Bebia outro, outro estalido e: “- Terras baixas de Bertiandos!”. Um terceiro: “- Veiga de Mazarefes!”. Lá chegará o dia em que bastará a um boieiro ouvir um mugido para que possa dizer: “- Esta é da vacaria do Ernesto!” ou “ – Esta é do paul de baixo! ” ou então: “- Eh pá, esta não é de cá!”.
Lloyd Green, o nosso lavrador de Somerset disse mais: “- Acontece o mesmo com os cães; quanto mais perto estamos deles, mais facilmente ficam com a nossa pronúncia”.
O que eu daria para ouvir o cão do João Malheiro!