09 janeiro 2023

AOS MEUS ALUNOS, NA HORA DE PARTIR
Quando tinha a tua idade acho que nem nos meus sonhos mais ousados me veria como professor: seria, isso sim, um trabalhador da indústria. Mas, para o bem ou para o mal, os sonhos nem sempre se concretizam e a vida encarregar-se-ia de me retirar das oficinas. Não sei se alguém, além de mim, ficou a ganhar com a troca, mas confesso que em boa hora a vida me pregou tal partida e me fez professor. Embora, reconhecendo, humildemente, que muitas vezes falhei, confesso que apesar dos revezes, continuo a amar esta profissão e, sem desânimo, recomeço uma e outra vez. Continuo até hoje a levantar-me todos os dias como se fora o primeiro e à espera já do último com irreprimível nostalgia.

Estás prestes a iniciar uma nova etapa na tua, ainda, curta vida; a cruzar a fronteira, como diria a poeta(1). Será um mundo admirável aquele a que chegarás e que, tenho a certeza, com a tua generosidade, o ajudarás a construir mais justo, mais inclusivo e mais solidário. Melhor, certamente, do que aquele que te deixamos. E quando tudo tiver acabado e contar a vida na escola falarei da emoção que me causou a tua alegria quando descobriste a solução do problema, do orgulho que senti quando me confidenciaste que, sem a minha ajuda, não terias conseguido, da alegria imensa de te ver feliz na sala de aula. Contarei estas pequenas coisas, estas coisas simples de que, alguém dizia(2), «nos despedimos insensivelmente», mas que continuo a acarinhar porque é disto que a escola é feita. Guardo-as no meu escaninho mais secreto porque, mesmo não salvando ninguém, dão-me um prazer tão grande que força alguma mo poderá arrancar.

Obrigado por tudo o que partilhaste comigo. Conserva sempre esse brilho nos olhos e nunca deixes de sonhar. Quando precisares de alguém que oiça os teus sonhos cá estarei para ouvi-los.
Até sempre!

carlos ponte, junho de 2022
(1) Lhasa de Sela, “La Frontera”
(2) Tejada Gómez, “Canción de las simples cosas”

31 março 2016

HOJE DIZEMOS PRATA




Vinte e cinco anos. Visto de longe, de muito longe, vinte e cinco anos não será sequer a oscilação de um décimo do comprimento do núcleo de um átomo que o sábio previu, vai para cem anos, e os cientistas detetaram há dias. À nossa escala seria a duração de um suspiro.
Visto de perto, de muito perto, vinte e cinco anos serão mais de trezentas gerações da mais bela borboleta do mundo que os conquistadores espanhóis descobriram no novo mundo e a que chamaram espejitos não acreditando, talvez, que o reflexo das suas asas fosse, afinal, uma soberba transparência. À nossa escala andaríamos ainda pelo crescente fértil a afinar sementes e a gravar os sonhos em barro fresco.
Observados agora à nossa altura, vinte e cinco anos é, mais ano menos ano, uma geração. É o prazo que a natureza nos concede para que acautelemos, se não a perpetuação da espécie, pelo menos a sua continuação. Agora, passados que são vinte e cinco anos sobre aquele dia em que a escola, cheirando ainda a tinta fresca, abriu as portas aos primeiros locatários, vemos entrar a segunda geração. Alguns dos que agora chegam carregam os sonhos daqueles que os precederam: disso estamos certos. Mas, sendo a escola feita da força e da fraqueza dos homens, outros chegarão carregando angústias e frustrações. Faremos tudo, porque esse é o nosso dever, para que estes que agora iniciam a jornada consigam chegar ainda mais longe do que aqueles que os precederam; faremos tudo, porque esse é o nosso dever, por lhes acalentar os sonhos e aquietar os temores: a escola terá cumprido o seu papel e cada um de nós poderá, então, retirar-se com a certeza do dever cumprido.
Olhando para trás, sopesando sucessos e reveses, concluiremos, sem falsas modéstias, que tem valido a pena, estes têm sido bem mais magros do que aqueles e, por tudo isso, hoje dizemos prata. Oxalá, daqui a vinte e cinco anos, outros digam ouro.
carlos ponte, março.2016

08 julho 2013

OS DEUSES E OS DEMÓNIOS, O CÉU E A TERRA


Se quiseres partir amanhã
Eu paro o mundo
Pedro Barroso

O escrúpulo de físico que, estou em crer, nunca permitiria a Camarneiro estas liberdades de poeta de parar o mundo, não o impediu, todavia, de começar já a contraí-lo. Não a truncá-lo porque isso resultaria num mundo desequilibrado e esse não é o que nos é mostrado em “Debaixo de Algum Céu” mas, tão só, um mundo encolhido mas perfeito porque obedecendo às regras da proporcionalidade. Lá encontramos todos os ingredientes que tornam perfeito um mundo, a começar por aqueles homens rômbicos [e] mal feitos para encaixar porque nenhum mundo pode ser perfeito se não tiver lugar para homens imperfeitos. Lá encontramos as dúvidas e as inquietações do padre Daniel, tão novo e [com] um mistério tão grande para explicar. Dividido entre um amor impossível e a obrigação de apascentar o rebanho, este pastor de uma paróquia pequena mas devota, como são quase todas as terras onde os homens morrem só de ganhar a vida, jamais conseguirá ultrapassar a dúvida que o assalta uma e outra vez: pode Deus estar certo e mesmo assim não existir? Ele, que humildemente pedirá ao proscrito que um dia lhe perguntou se Deus é como dormir abrigado do vento, que o ensine a pescar, há-de, num acesso de lucidez, confessar-lhe que tem as mãos cansadas de cruzes, fartas de benzer e lançar terra. Lá encontramos os demónios que nos apoquentam: os que se escondem no breu deixado em cada rotação do farol por aquela luz que os homens do mar sabem ler e onde vêem deuses favoráveis, mães e mulheres e o calor que lhes falta, e os que se acoitam na cabeça do pequeno Frederico e lhe ditam as histórias que ele conta com desenhos: cavalos e homens com espadas, céus cor de laranja e mares encapelados. Lá se encontram aqueles que se isolam, que fogem sempre, até que um dia, olhando o mundo, vêem o que nunca tinham intuído e, tal como o jovem David, juram promessas de conversão: Um dia há-de deitar-se cedo e acordar fresco […] Passear junto ao mar, cumprimentar os pescadores e comer pão quente na padaria. Lá encontramos tudo isso e encontramos também a personagem magnífica de Marco Moço, todo cheio de filosofias, construindo um instrumento de imitar a memória enquanto vai imaginando um mundo onde os deuses se pudessem dispensar e todos construíssem máquinas loucas na cave: um motor para retardar o tempo, um projector de sonhos, um realejo que cante poemas sempre novos, um telescópio para olhar o passado, uma máquina de fazer marés. Moço, que podia bem ser um deus se o mundo encolhesse até ao volume do prédio onde vive, com os materiais que o mar cada dia restitui à praia, madeira e ferro e também latas, cordas, plásticos, ramos secos, sapatos, porque tudo se pode encontrar por onde os homens passam, sem pressas, porque as memórias fazem-se de tempo, vai acertando a sua máquina prodigiosa de brisas e tempestades. E encontramos as mulheres, a viúva do Calvinista que, já idosa, Marco Moço e a máquina prodigiosa resgatarão a uma vida de recordações que a trazem manietada e também Manuela dividida entre o prazer do chocolate e o dever fastidioso da casa e do trabalho, olhando, um dia, o espelho na esperança que este não lhe exagere a idade e Constança que sabia de ciência certa que a mama, as fraldas, as roupinhas de criança e as reuniões de trabalho do marido lhe iriam arruinar o casamento porque os homens são também crianças, passam a vida à procura das mulheres sem saberem que o que lhes falta está metido dentro delas. Soubessem eles quantas mulheres dormem dentro de cada uma delas… mas não sabem. E encontramos ainda outras mulheres, Beatriz, a desgraçada Beatriz que morrerá sozinha no meio de toda a gente, e todas as outras, todas as mulheres do mundo que não diferem muito da São, a peixeira que um dia ofereceu uma saca de peixe ao padre Daniel: se gostar dos bichos reze pela minha alminha. O pastor aceita os peixes e talvez pense nesta sabedoria primordial das mulheres que deixa aos homens a manutenção do sagrado, os ritos e as palavras com que se fala a Deus, mas é a voz delas que fala na sua, são seus os rogos e graças, só elas Lhe sabem falar a modo. Parafraseando um tal Mau-Tempo, este livro fala de todos estes e de muitos outros de quem não sabemos os nomes mas conhecemos as vidas. E durante oito dias, debaixo de um pedaço de céu, os sonhos e os pesadelos, a integridade e a vilania, a alegria e a tristeza, a tolerância e o rigor, o jugo e a libertação, o sagrado e o profano, os deuses e os demónios, o céu e a terra.

16 junho 2013

A IMPORTÂNCIA DE SABER REGRESSAR

Costuma dizer-se que nunca devemos regressar a um lugar onde já fomos felizes. Está claro que este é um dito como outro qualquer. Um político, se lhe fosse pedido um comentário sobre esta expressão, desbobinaria a narrativa - engraçado, desde há uns meses a esta parte, sempre que utilizo esta palavra "narrativa" vem-me à memória um certo figurão que um dia desembarcou por cá vindo de Paris (da Sciences Po de Paris, assim é que é) e desatou a disparar narrativa a torto e a direito. E de tal modo o fez que agora, sempre que penso utilizar o termo, dou por mim a procurar sinónimos. As palavras, sei-o agora, não são seres inanimados: desengane-se quem assim pensa. As palavras têm vida própria e, tal como qualquer mortal, são prejudicadas quando as companhias com que privam são pouco recomendáveis. A narrativa é um caso paradigmático. Há-de passar ainda muito tempo até que seja reabilitada – desbobinaria a narrativa, dizia, que utilizaria se a pergunta fosse sobre as últimas sondagens: enfim, essa expressão vale o que vale - diria.
Voltando, então, ao lugar onde já fomos felizes: parece-me que, as mais das vezes, dá-se a esta frase uma interpretação linear. Por ignorância ou por má fé, alguns querem ver aqui a proibição do regresso ao lugar da felicidade: nada disso. A frase pretende, tão só, avisar-nos que nunca devemos esperar encontrar esse lugar onde já fomos felizes porque esse lugar já não existe. Desde logo porque quando lá regressarmos já seremos outros. A frase, não pretendendo proibir-nos o regresso, longe disso, pretende, isso sim, ajudar-nos a evitar o desconsolo que um segundo olhar pode trazer. Por isso, quando oiço pessoas a dizer que a frase é uma parvoíce, vejo que não entenderam nada.
Regressemos, então, e agora para ficar, ao que nos trouxe aqui: "O retrato da mãe de Hitler", o último romance de Domingos Amaral. Há seis anos o autor deu à estampa "Enquanto Salazar dormia" que, não sendo uma obra que tivesse impressionado a Academia Sueca, era, mesmo assim, um livro muito agradável de ler. Talvez encorajado pelo êxito desse romance o autor decidiu agora voltar à Lisboa dos espiões da 2.ª guerra que tanto o tinham feito feliz há seis anos. O romance é, ou pelo menos pretende ser, a continuação do anterior, mas, terminada a sua leitura, fica-se com a sensação que o autor tinha ficado com bastante material não utilizado no romance anterior e, em vez de o atirar para o local apropriado, compilou-o e fez um livro. Além da forma original mas pouco verosímil da narrativa – agora não consegui fugir-lhe – o livro não traz nada de novo: já tudo tinha sido dito no anterior. Tivesse Domingos Amaral consultado Luisinha, a filha rebelde do general situacionista, apaixonada pelo espião, e esta, da mesma forma que tinha declarado, ao olhar para a sua fotografia num passaporte falso que lhe permitiria sair do país quando a PVDE estava quase a apanhá-la, «Pareço a Joana Fontaine em Rebecca», diria que o remake era de evitar porque, além de criar a sensação de requentado, era sempre pior que o original. E diria mais: diria que podia sempre regressar a quarenta e dois mas nunca esperando encontrar os locais, as pessoas e as ideias inalterados, porque o tempo era já outro.
Mas não consultou e por isso, o regresso, foi, pelo menos para mim, uma desilusão.

11 março 2013

"... ESTA DESGRAÇADA CIDADE DE LISBOA"


Um dia, teria já ultrapassado os setenta anos de idade, Torga dispôs-se a ler as aventuras de Júlio Verne. Faz-nos esta confidência em princípios de 1983 num dos seus diários. Todavia, apressou-se a dizer, sobre o humorista da imagem, como gostava de apelidar o grande escritor francês, que se este não lhe tinha povoado de aventuras a infância, obrigada a contentar-se com as histórias da senhora Maria Ambrósia, tinha enriquecido de franca alegria algumas horas da sua velhice. Vem isto a propósito de Giacomo Casanova, o aventureiro - perdoe-me Dr. Mega Ferreira o ligeiro epíteto que prodigalizo ao Veneziano -, que um dia desembarcou em Lisboa com insondáveis incumbências e por cá andou durante uma meia dúzia de semanas, afortunadamente livres nas suas memórias, até que o secretário Sebastião de Carvalho, irritado pela descoberta da sua rocambolesca fuga das prisões do Doge, lhe deu vinte e quatro horas para deixar o reino. Casanova, sei-o agora, foi muito mais do que aquele marialva, imagem que a história, ciosamente, dele guardou. Eu, que como o poeta, preenchi a infância e a juventude com outros negócios que talvez me tenham estreitado a visão, prometo, a partir de agora, olhar, também, para fora da alcova do Veneziano.
Num certo olhar o livro “Cartas de Casanova, Lisboa 1757” parece ser um cru relato da situação vivida no país durante um dos mais negros momentos da sua história: o terramoto de 1755. Casanova, que se evadiu da prisão na madrugada de 1 de novembro de 1756, precisamente um ano após o grande sismo, para se refugiar em Munique, quando desembarcou em Lisboa, passados que eram cerca de dois anos após o desastre, ficou horrorizado com a visão da tragédia que tinha atingido «esta desgraçada cidade de Lisboa». Pouco depois da chegada, em carta enviada ao irmão, confidenciaria que «mal podia imaginar, naquela noite de novembro de 1755 em que as paredes tremeram na prisão de Veneza e […] por momentos desejara que o abalo acabasse por derrubar as barreiras que [o] separavam da […] tão desejada liberdade, a extensão horrorosa da catástrofe…». Durante as seis semanas que por cá permaneceu, Casanova, vai contando, nas seis cartas que enviou a cinco destinatários diferentes, as suas impressões. Ora sobre a tragédia: «o que se apresentava aos meus olhos era, em muitos aspectos, muito mais horroroso do que as minhas piores conjecturas permitiam imaginar», ora sobre a extrema religiosidade que coava as luzes que iam iluminando essa Europa, atribuindo o bem e o mal aos insondáveis desígnios do senhor e deixando que «as coisas tomem o seu curso normal segundo a vontade divina que é rápida a castigar e lenta a conceder o perdão». Impressionou-se com as desigualdades chocantes sempre que testemunhava as autênticas paradas de elegância, «que bem podia sugerir estarmos nas imediações de Fontainebleau, não se desse o caso de a ostentação proporcionada pelo quadro […] ser tingido pelas legiões de mendigos e estropiados […] à procura de uma esmola que lhes salvasse o dia». Pelo meio vai perorando sobre a qualidade dos nobres portugueses «de pouco mundo e nenhumas luzes» que acha incultos, rudes, supersticiosos e desconfiados, vivendo para as montarias, o jogo e as touradas e ainda arranjou tempo para verificar a boa saúde das filhas mais novas do banqueiro Teixeira, separadas pelo sismo, testemunhar a exclusiva encenação da corte na grade do convento de S. Dinis em Odivelas onde «metade dos marqueses condes e barões» cortejam «as filhas segundas de todas as casas nobres, as suas primas, as suas irmãs, as suas amigas» e, como director da lotaria de Paris, chegar à fala com o «sedentário ministro» Sebastião de Carvalho.
Casanova, viajante incansável, foi um apetrechado escritor: “Histoire de ma vie”, uma obra de fôlego em doze volumes, aí está para o provar. Privou com as mais reputadas figuras europeias do século XVIII. Frequentou os círculos eruditos da época e deu largas à sua paixão pelo jogo. Foi, ao que parece, um violinista mais que aceitável, note-se que foi nessa qualidade que logrou «vencer a barreira até então intransponível do poderoso mosteiro» de Odivelas onde se inteirou da sorte das filhas mais velhas do banqueiro Teixeira. Foi isto tudo mas é da sua faceta de sedutor que a história dele guardou as mais abundantes evidências. Não se pense, no entanto, que neste particular a história lhe foi lisonjeira: não senhor; ele fez por merecê-lo. Pela sua pena, ficamos a conhecer o desenlace de algumas das suas empresas que, durante a breve estadia entre nós, levou a cabo. Nas cartas que escreve vai entremeando o relato formal do andamento das incumbências que cá o trouxeram com novas mais mundanas. Na primeira carta conta à Condessa Coronini que não conseguiu ficar indiferente à presença de uma jovem de longos cabelos louros apanhados à francesa e olhos castanhos como avelãs brilhando por detrás de longas pestanas. Na segunda, descreve ao irmão, a viagem de Marselha até Lisboa por mar e a instalação na hospedaria. Contava-lhe que a criada, que não teria mais de quinze anos e era de compleição agradável, apressou-se a trazer uma selha para o banho e duas ou três vasilhas com água quente. Depois, com muito cuidado, tirou-lhe o barrete que usara na viagem, e que estava praticamente inutilizado, e ajudou-o a despir-se. «Fosse o à-vontade da rapariga, ou porque a água quente viesse restaurar os bons humores na minha circulação, o meu corpo deu sinais exuberantes de ter regressado à vida», disse. Na terceira carta, endereçada a uma misteriosa freira que se pensa ter sido Marina Maria Morosini, começa por relembrar «esse ano memorável em que nos tornámos amigos e amantes» para terminar contando-lhe as aventuras na quinta de Madalena Fróis, prima de Correia Garção - que Casanova, nunca escondendo a aversão que o poeta lhe causava, tratava por Garçon -, ensinando à sua filha, Clara, «uma adorável vestal de catorze anos […] que os olhos não podiam cansar-se de admirar, […] tudo o que possa despertar nela o gosto pelos prazeres da vida». Para terminar, na sexta carta, conta ao senhor de Bernis, ministro de Luís XV, a partida apressada deste reino de Portugal, num reluzente coche de oito molas, na companhia da bela sevilhana Inês de Cantillana, afastando-se, avisadamente, do longo braço do ministro Carvalho, «o homem mais poderoso de Portugal». E só não transmitiu novas mais da sua condição na quinta carta porque o seu génio impulsivo e destemperado o traiu e na quarta, absorvido que estava a contar a Matteo Bragadin, senador da República de Veneza, o minucioso trabalho de aproximação à corte do rei José e do seu todo-poderoso ministro Sebastião de Carvalho.

31 dezembro 2012

CONTO II


Capítulo II
NO TEMPO EM QUE NÃO HAVIA INTERNET NEM PLAYSTATION


A gaveta fechou-se com estrondo e eu fiquei completamente cega. Que saudades do marçano lá da loja, da delicadeza com que abria e fechava as gavetinhas minúsculas de plástico transparente dos mostruários, do cuidado com que nos manuseava, da sensibilidade e orgulho com que nos mostrava aos clientes e lhes falava de nós. Que saudades... Aqui no escuro, sozinha, consigo, por fim, compreender o que li há já muito tempo, li que “a saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora”. Lembro-me que foi num livrinho pequenino mas não me lembro do autor. Talvez nem o tenha conseguido ler, como acontecia muitas vezes, mas estas palavras tão poéticas, que agora me vêm direitinhas à memória, só podiam ter sido escritas por uma pessoa sensível. Naquela altura achei-as bonitas, por isso as recordo, mas não lhes dei uma especial importância, mas agora, aqui fechada, nesta solidão, consigo perceber o que a menina - acho que era uma menina que o dizia - sentiria ao dizê-lo.
Quando comecei a habituar-me à escuridão, que um fiozinho de luz, entrando pela frincha da gaveta, ia combatendo, comecei a perceber que, afinal, não estava sozinha. Antes de mim já outras três tinham tido a mesma sorte, atiradas para a gaveta ainda dentro da caixinha de plástico. Por que não teriam falado? Por que não me teriam dado as boas vindas quando me arremessaram para a gaveta e eu não via nada? “Olá! Não falamos antes porque, entre nós, decidimos que não o faríamos. Quem chegasse teria uns momentos de recolhimento, digamos assim, para se aperceber, talvez devesse dizer para se conformar, da sua nova vida e então, quando o breu desse lugar à penumbra, poderíamos, conversar.” Foi uma bela caneta, toda em madrepérola, quem assim falou. Parece que tinha ouvido os meus pensamentos. “Olá!” respondi.
Dali a pouco ouvimos passos e pouco depois a frincha apagou-se. Agora não passávamos de ténues silhuetas. O barulho da casa foi baixando a pouco e pouco até que se instalou o silêncio. “A parte do dia por que esperamos ansiosamente. Embora quase não se consiga ver podemos falar à vontade e rir às gargalhadas das histórias que contamos. Conta-nos a história de que falaste ontem, caneta primeira” disse a madrepérola. “Caneta primeira?” - admirei-me. “Sim. Decidimos que ficaríamos conhecidas pela ordem em que cá chegamos. Eu, por exemplo sou a caneta segunda, e tu serás a caneta quinta!”. “Caneta quinta? Mas só cá estamos quatro! Porque terei de ser a quinta?” - contestei. “Serás a caneta quinta porque foste a quinta a cá chegar. Talvez não tenhas reparado mas ali ao fundo está a que chegou antes de ti, a caneta quarta”. Então é que reparei. Ao fundo da gaveta lá estava. Embora com dificuldade conseguia-se adivinhar uma caixa ainda meio coberta pelo papel de fantasia Estava ali outra de nós. Talvez a mais taciturna de todas, por isso não tinha ainda dado por ela. “Conta então a história de ontem, segunda” - tornou a madrepérola.
Passou-se já há bastante tempo – começou – por isso pode ser que alguns pormenores não tenham sido rigorosamente como vou contar mas não alterarão, com toda a certeza, a história. Um dia, vi chegar dois clientes. Não tenho grande jeito para adivinhar idades mas não errarei muito se disser que um tinha já passado, há muito, o meio século, o outro era bem mais jovem, talvez filho, ou mesmo neto. Olhavam para nós e iam fazendo comentários acerca do que iam vendo. O mais velho era o que mais falava. Estava constantemente a mostrar ao mais novo pormenores em que, confesso, nunca tinha reparado. De repente, acerca-se de uma bela caneta com aplicações de ouro no aparo, faz um ar pensativo, e começa a recordar: 
Caneta de aparo... aparos … deixa-me sonhar um bocadinho. Aparos, trazem-me à memória a pena, uma chapinha bicuda com rabinho de “pau” que, a espaços que se contavam pelo número de letras escritas num azul retinto, se mergulhava no tinteiro branco de cerâmica embutido no meio do tampo da carteira com assento de dois lugares, onde, putos ainda, nos sentávamos. As calças remendadas, calçados com chancas ou com socos, com “solas” em madeira de freixo e cobertura de duro couro de boi, mas não tão duro que os pés o não conseguissem moldar, ainda que com alguma ajuda do sebo com que o esfregávamos para o impermeabilizar e não deixar entrar a água da chuva ou das poças do caminho que teimávamos em não contornar. Na carteira se aperfeiçoava a caligrafia e se treinava a aritmética. Na carteira nos espantávamos com a valentia dos antepassados e a imensidão do império. Na carteira se levava “bolos” com a palmatória de furinhos e se pendurava, a escorrer, o saco de serapilheira, que depois de transportar cinquenta quilos de batatas de semente Arran-Banner ou Arran-Consul ou mesmo de Portalegre, menos cosmopolita, é certo, mas batata da nossa, servia para nos abrigar da chuva. Sim, porque o guarda-chuva, de grosso pano preto com cacheira de madeira e varetas maciças que davam ótimos instrumentos para jogar ao espeto, não era coisa de crianças, ou melhor, não era coisa para todas as crianças. A chapinha bicuda ou aparo, parecido com aquele que nos causou pavor quando éramos pequenos e nos riscaram o braço, logo abaixo do ombro, que nos deixou para sempre uma cicatriz como prova da nossa vacina contra o sarampo – sarampo, sarampêlo, sete vezes vem ao pêlo. Foi também a primeira forma de tatuar que conheci quando espetei no joelho, um, carregadinho de tinta.
À memória vem-me ainda a minha primeira professora, que mandou o meu pai comprar a minha primeira pena e com ela me ensinou caligrafia no caderno de duas linhas. A Dona Fernanda era uma simpática velhinha. Seca de carnes, vestia sempre de preto, um comprido casaco com uma textura em bordado de alto-relevo e tom brilhante, que apenas deixava espreitar uns sapatinhos de salto baixinho como ela, parecidos com os da Minie ou da Olívia Palito, figuras fantásticas que nos faziam sonhar quando éramos pequenos. Líamos e relíamos as histórias aos quadradinhos, nas revistas que os filhos do senhor Coutinho, aquele que construiu o prédio onde antes era o Mercado Municipal e que agora querem deitar abaixo, nos davam para passar o tempo. 
Não havia internet nem playstation e televisão só no café da Tia Lina. As contas e as redacções eram feitas numa pedra fininha de xisto cinzento, a lousa, que se partia quando caía ao chão e só ficava pretinha quando as oliveiras tinham azeitonas maduras. Esfregávamos e besuntávamos a nossa lousa, que ficava com o cheiro da carroça do azeiteiro da ponte quando levava a "venda" às casas da aldeia. Mas o que nos faltava em tecnologia sobrava-nos em engenho. Roubavam-se lá em casa os preciosos rabos de bacalhau que atados a um fio barbante eram o isco perfeito para apanhar dúzias de caranguejos no Poço Pescadouro. Finda a pescaria preparava-se a confeção: sobre um molho de caruma colocavam-se os pobres crustáceos que, parecendo adivinhar a sua sorte, faziam tudo por fugir antes que o lume os assasse. Aqueles que o conseguiam não poderiam vangloriar-se da façanha por muito tempo pois logo uma mão providencial aparecia para o devolver ao seu lugar. Quando não íamos à pesca inventávamos sofisticadas ratoeiras para apanhar pardais ou então atacávamos os pomares. Com um misto de fome e de vontade de aventura, escalávamos os altos muros da quinta do Ganhão para roubar as apetitosas maçãs que, de outro modo, dificilmente provaríamos. Os mais corajosos de entre nós metiam-se noutras aventuras bem mais temerárias. Noite cerrada, amoitavam-se na leira do Vieira munidos de pesados torrões esperando pelo cabo da Guarda Nacional Republicana que haveria de passar por ali montado na sua pachorrenta Famel Zundapp a caminho de casa. Durante o dia, quando passava na estrada, com a farda cinzenta e aquele redondo capacete de chapa e a grande espingarda Mauser, com uma assustadora baioneta que brilhava ao Sol, pousada no quadro da bicicleta, aterrorizava quem com ele se cruzava. Agora que não tinha a ajuda da farda iria pagá-las. O barulho da fumarenta Famel quando descia os Carregais era o nosso sinal. Três minutos de tensão, medo e coração a bater, até se ver a luzinha a sair da curva do Vieira. Então, era só esperar uns segundos até que se encontrasse no nosso raio de ação e toca a despejar as “munições”. Depois era fugir pela noite dentro, atravessando o rio da Fonte Grossa, pelos carreiros que se conheciam de cor e esperar em silêncio, quase sem respirar, no meio do centeio ou do azevém, não fosse o homenzinho ter coragem para nos perseguir no escuro.
Lembro-me agora que a Dona Fernanda usava sempre um barrete à Cossaco, tal e qual como o daqueles homens da Tundra que caçam lobos, lebres e raposas com ajuda de uma águia. Ela não caçava lebres nem raposas e muito menos lobos, mas fazia muito mais do que isso: mantinha na mesma sala uma “alcateia” em silêncio, das nove às três, com quarenta “lobos e raposas” dos sete aos catorze, e, da primeira à quarta classe, ensinando a todos as contas, a leitura, a história, a geografia e a caligrafia com a pena de aparo. Chegava todos os dias às oito e meia na camioneta de carreira do Sordo. Saía na paragem do Lima e às três e meia partia na mesma camioneta, rumo a casa, ali para os lados da Bandeira.
Aparo, pena, Dona Fernanda… quantas recordações que pensava estarem completamente esquecidas…
É do que me lembro. O contador recordava com tal prazer a história que, de quando em vez, eu via muito bem, os seus olhos brilhavam. O mais novo, esse, não desviava os olhos do outro. Quase nem pestanejava. Parece que tinha medo de perder alguma peripécia da história.
Bom, já é tarde - disse a madrepérola -, ficamos por aqui. Amanhã continuamos...


Depois do primeiro capítulo publicado há cerca de um ano, este foi, digamos assim, escrito a duas mãos. Só conseguiu ver a luz do dia com a prestimosa ajuda do meu irmão Chico. Vamos lá pensar no próximo. Quem se chega à frente?

29 dezembro 2012

BOM ANO



Quem nos pôs aqui sabia muito bem o que estava a fazer. Senão reparem: podia ter-nos posto em Mercúrio. É tão telúrico como nós. Mas não o fez. Se fossemos lá colocados, a cada oitenta e oito dias, nem sequer a cada trimestre, a cada oitenta e oito míseros dias, lá estávamos nós a desejar tudo de bom, como agora se diz - não sei aonde vai o pessoal beber estas modas; é quase como os políticos e os locutores de televisão que dizem «Há cinco anos atrás…» ainda gostava de saber como será há cinco anos à frente – bem, dizia eu, desejar tudo de bom a toda a gente. E isso cansava. Era dizer quatro vezes por ano – ano dos nossos, claro - a mesma coisa. Imagine-se o pessoal a comer as passas e a desejar a queda do governo e ter, ainda que na pior das hipóteses, de repeti-lo por dezasseis vezes antes do dito cair. Uma eternidade. Não dá. Além da caloraça que por lá faz – muito pior que na Amareleja - a vida tornava-se muito repetitiva. Tão repetitiva e enfadonha que o Manuel de Oliveira estava por estes dias a fazer quatrocentos e trinta e dois anos; notem bem, quatrocentos e trinta e dois. Assim não dá. Risque-se Mercúrio!
Podia, então, ter-nos posto em Marte. Ficaríamos mais aconchegadinhos, é certo, porque o condomínio é bem mais acanhado, mas até dava jeito para combater o frio que por lá iríamos rapar. Mas não nos pôs. E fez muito bem! Seria uma seca ter de esperar quase dois anos dos nossos para desejar tudo de bom aos amigos. Imagine-se ter de esperar dois anos para pedir a queda do governo… É verdade que se poupava em passas mas não compensava o que se gastava em tédio. Note-se que lá o Oliveirinha dos filmes era ainda um jovem de pouco mais de cinquenta anos. Demasiado parado: risque-se Marte!
Podia ainda ter escolhido Plutão mas ainda bem que não o fez. Primeiro porque não iríamos ganhar para aquecimento e depois porque haveria de chegar – como chegou – a altura em que os sábios da astronomia haveriam de desclassificá-lo e seria de muito mau gosto a gente viver num planeta que, veio a saber-se mais tarde, não passava de um plutóide. Assim mesmo, plutóide, que, para todos os efeitos, não passa de uma forma gentil de dizer que agora Plutão é um calhau.
De modo que, riscando-se também Plutão e subtraindo os gasosos, o que sobra? Pois é, quem nos pôs aqui sabia, realmente, o que estava a fazer. É o sítio ideal. O único onde um “ano” vale precisamente um ano, nem mais, nem menos. E um ano, todos o sabemos, nem é demasiadamente curto nem excessivamente longo. É por isso que, no dealbar de um novo ano, cá estou eu a desejar que os teus sonhos se realizem e os teus pesadelos se não cumpram.


Vamos agora dar a palavra a quem, realmente, merece. Carlos Drummond de Andrade dizia isto muito melhor do que eu digo:

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante,
vai ser diferente.

22 dezembro 2012

CONTO DE NATAL



O SONHO DO SEBASTIÃO

Faz quase dois anos que a sua vida é uma peregrinação pelas oficinas, pelos estaleiros e pelas quintas das redondezas. Quando arranja um pequeno trabalho – apanhar a fruta num pomar, reparar um muro danificado pelas asperezas do último inverno, preparar os cascos que hão de receber o vinho novo – a vida como que ganha um novo significado. É vê-lo, manhã cedo, partir para o trabalho cabeça bem ao alto distribuindo sonoros cumprimentos a todos os que com ele se cruzam. E enquanto labuta imagina a alegria dos pequenos quando, à tardinha, ouvirem o trinco da cancela. Imagina a alegria dos seus e pensa em todos os outros que à noite irão para a cama de estômago vazio e não consegue evitar que os olhos se lhe inundem. E então chora, chora por si, chora pela Mariana que é a âncora da família, chora pelos seus pequenos e chora por todas as crianças do mundo.
Hoje, Sebastião, não conseguiu trabalho. Depois do magro almoço, Mariana agasalhou os filhos, corrigiu o casaco ao marido e impô-los pela porta fora: «Ala, vão passear, ver os pássaros, e não voltem antes do anoitecer!» E os três lá foram, felizes, pelos campos fora. Nalgumas covas mais abrigadas resistiam ainda alguns farrapos da neve caída na véspera que logo era transformada numa bola pelo primeiro a descobri-la. E admiraram-se com a perspicácia das trutas a subir o ribeiro. E seguiram, de nariz no ar, as revoadas de tordos de azeviche, espantando-se com as suas acrobacias aéreas. E, sempre que os conhecimentos de botânica do pai o permitiram, catalogaram as espécies desconhecidas que se lhes atravessaram no caminho. Até que chegou a hora. O sol, que andou tímido o dia todo, iria esconder-se não faltava muito. As crianças atiraram as últimas pedras à água do ribeiro e os três, empreenderam a viagem de regresso. Ainda as primeiras casas da aldeia não se viam e já, prodígios da meteorologia, os mil cheiros do natal, amplificados pela frugalidade imposta aos seus estômagos, chegavam até eles estugando-lhes o passo.
A mãe estava na cozinha. Envolta numa nuvem de vapor, que os três aspiraram sofregamente, preparava as últimas iguarias da ceia de Natal. Com as verduras da horta, os bicos da capoeira e o cabaz da assistência social, Mariana fazia maravilhas. «Vieram mesmo a tempo. Vá lá, lavem essas mãos e essas caras imundas e sentem-se que o jantar já não demora.» E foi um lauto jantar. As crianças podiam repetir as vezes que quisessem. E comeram batatas e as couves mais tenras da horta e escamudo como se fosse do melhor da Noruega e galinha com arremedos de peru e rabanadas e arroz doce e nozes e pinhões. O pai teve até direito a vinho quente com açúcar. Até que todos se fartaram. Agora era esperar a hora de abrir as prendas que a mãe, carinhosamente, tinha depositado debaixo do pinheirinho, armado num canto da cozinha. E os quatro, muito juntinhos, foram sentar-se à volta do borralho. A mãe, como sempre fazia, começou a contar histórias de Natal. Enquanto os pequenos bebiam avidamente as palavras, Sebastião, embevecido, olhava a mulher e pensava que não fora ela e há muito que a família se teria desmoronado. E enquanto pensava, as palavras do conto iam-se afastando, afastando, até não serem mais que um rumor impercetível e, ainda o Garrinchas não tinha chegado ao adro da ermida da Senhora dos Prazeres, já Sebastião, ajudado pelo vinho quente, adormecera.
Viu-se numa sala imensa. Na parede do fundo uma figura de mulher com os olhos vendados. Na mão esquerda segurava uma balança, na direita empunhava uma espada. Na metade oposta da sala, resguardada por uma sólida balaustrada de madeira, a assistência aguardava. Sebastião olhava à esquerda e à direita e via outros homens que como ele se recusavam a desistir. Até que o juiz, vestido de negro, com uma farta cabeleira branca aos caracóis que lhe chegava aos ombros, mandou entrar os réus. A porta abriu-se e começaram a entrar, cabisbaixos, os políticos que há décadas governam o país. Alguns conhecia-os, outros nunca os tinha visto e havia até alguns dirigentes de grandes empresas que nunca imaginou terem sido ministros. O espaço que lhes estava destinado ficou completamente cheio e a assistência, sem conseguir reprimir mais o asco por aquela gente, ia acusando, em surdina, um e outro: «Está a ver aquele ali? Sim, aquele, é o diretor de uma empresa que faz estradas e pontes e antes era ministro; e aquele ali, o do fato azul, mal chegou a ministro empregou toda a família no ministério. A filha acabou o curso e no dia seguinte estava a dirigir um gabinete como se tivesse vinte anos de experiência; olhe aquele, o do cabelo branco, esteve meia dúzia de anos no governo e está reformado. Ganha mais num mês que um de nós em dois anos. Um de nós, dos que temos emprego, claro; e aquele pulha, aquele magrinho, não é o do banco?»… Até que a voz tonitruante do juiz se fez ouvir: «Silêncio!»
Começou, então, por perguntar o nome a cada um dos acusados mesmo àqueles que todos na sala conheciam e, após obter a resposta, com o indicador espetado e semblante acusador, continuava: «Quando era governante, antes de tomar as decisões que viria a tomar, sabia que elas provocariam a crise que hoje afeta o nosso país e, mesmo assim, tomou-as. Hoje, como consequência das suas determinações, há crianças que passam fome e outras que desmaiam nas aulas por falta de alimento. Tem alguma coisa a dizer em sua defesa?» Quase todos continuaram no seu mutismo receoso e aqueles que ousavam encarar o juiz faziam-no com tanto temor que apenas lhe saíam algumas frases inaudíveis para a assistência mas que o juiz rebatia de imediato. Quando todos falaram, a sala quedou-se em silêncio. O juiz sentenciou então: «Os réus que hoje se apresentaram neste tribunal são culpados pelo estado a que o nosso país chegou. Não são merecedores de piedade. Defraudaram o povo que acreditou neles. Cumprirão todos pena de prisão.» A alegria na assistência foi esfuziante. Deram-se vivas e cantaram-se hossanas e nesse momento na cozinha da casa do Sebastião todos viram o sorriso que se lhe desenhou no rosto. As crianças concluíram que o menino Jesus, finalmente, tinha nascido mas a mãe teve a certeza que naquele momento, Sebastião tinha apanhado aqueles que nos tinham trazido até aqui, e todos eles iriam pagar pelas tremendas maldades que tinham cometido.

21 outubro 2012

EU SOU GREGO


Sempre que vou a Lisboa dou um salto ao Bairro Alto: subo a Calçada do Combro, meto pela rua do Poço dos Negros e viro, lá à frente, para a rua de S. Bento. Chegado ao palácio páro junto da escadaria e assesto o ouvido. Ao princípio é apenas um rumor, um som indistinto que parece provir de muito longe, mas logo que os ouvidos conseguem catalogar os mil ruídos da cidade, o som familiar de gritaria aí está para me lembrar que a vida segue o seu curso e eu posso seguir, então, o meu caminho. Lembrei-me desta minha peregrinação quando li o último livro de Hélia Correia, “A Terceira Miséria”. O longo poema começa por uma pergunta tomada de empréstimo ao poeta germânico  Friedrich Hölderlin «Para que servem os poetas em tempo de indigência?» Ao longo da leitura do poema fui, paulatinamente, descobrindo a serventia dos poetas nestes tempos de desastre: os poetas servem para dar gritos! Não, claro, para gritarem, que para isso há muitos que o fazem muito melhor do que eles, mas para dar gritos! Gritos que se oiçam em toda a parte: gritos que se oiçam nas ruas, gritos que entrem pelas fábricas e pelas escolas adentro, gritos que despertem as vontades estuporadas, gritos que avivem as memórias, gritos que nos ensinem outra vez a perguntar, gritos que não nos deixem soçobrar, gritos estridentes que consigam, até, trespassar as espessas paredes dos gabinetes asséticos onde “eles” se acoitam. É disso que se trata: do grito que se vai formando nas gargantas da gente do Sul, da gente que um dia ainda se desnorteia.
O poema é também uma homenagem à Grécia à «bela Atenas, a que viu aparecer entre os homens a justiça e a livre palavra». Há dois mil anos, diz-nos Marguerite Yourcenar, o imperador Adriano confidenciava ao seu filho adotivo Marco Aurélio: «Foi em latim que eu administrei o império; o meu epitáfio será inciso em latim nas paredes do meu mausoléu na margem do Tibre, mas é em grego que eu terei pensado e vivido.» A um imperador não é permitido revelar aos súbditos o mais profundo da sua alma por isso Adriano disse assim o seu amor e a sua admiração pela Grécia. Hélia Correia que é imperatriz noutro império que a não obriga a estas reservas di-lo, por isso, com todas as palavras ao longo de todo o poema. E no fim somos todos instados a escolher o nosso lado da barricada: eu sou grego!

05 outubro 2012

E DEPOIS DO ADEUS...

Depois da bandeira de pernas para o ar, do pátio do cagaço e do discurso do anfitrião, só faltou mesmo o Paulo de Carvalho a cantar a cappella “e depois do adeus”: pareceu-me vislumbrar o ocaso desta república.

23 setembro 2012

SÓ TENHO UM ADJETIVO


No ecrã, o recém-empossado Presidente da Junta de Salvação Nacional, o general António de Spínola, preparava-se para se dirigir ao País. Dois homens à sua esquerda. Três homens à sua direita. Tudo gente das cavalarias, das armadas, dos esquadrões. Gente séria, com toda a certeza. Estamos bem entregues. Diversidade nos penteados, pelo menos. Já é um começo, já é um começo.
«Graças a Deus», pensou ainda o Doutor Augusto Mendes, dirigindo-se ao recém-empossado Presidente da Junta de Salvação Nacional, «tiveste o bom senso de não aparecer com o teu ridículo monóculo. Ou as letrinhas do comunicado são assim tão miudinhas? Não me digas que te viste obrigado, à última da hora, a usar os óculos de ver ao perto? Não acredito. Ai, deves ter ficado tão fodido quando percebeste que não podias aparecer neste momento histórico com o teu ridículo monóculo. Quem é que escreveu esta merda? Só vejo mosquitos, porra. Tragam-me os óculos».
Ontem, quando acabei de ler o livro de estreia de João Ricardo Pedro, lembrei-me de outro almirante. Não um almirante daquela armada séria que apaziguava os temores do doutor Augusto Mendes mas de outra que gostava tanto da água como qualquer gato vadio. Um almirante que, durante dezasseis longos anos, nos habituamos a ver, tesoura em punho, segando tudo o que lhe estendessem à frente. Conta-se que, na inauguração de uma obra qualquer do regime, depois de, com ar entendido, ter admirado a construção, sentenciou: «Só tenho para isto um adjetivo: gostei!»
A obra estende-se por três gerações: o avô, Doutor Augusto Mendes, médico, de boas famílias da cidade do Porto, que um dia, cansado da vida atribulada do hospital, decidiu aventurar-se para lá do Fundão, passando Alpedrinha, na casa do demónio de onde até as cobras fogem, para ser apenas um médico de aldeia; António, o filho, acossado pelos demónios da guerra colonial. Aldeias inteiras. Mães aos gritos. Palhotas, estás a ver? Ardiam num fósforo. Os corpos demoravam mais tempo. O cheiro; e Duarte, o neto, um exímio pianista, tentando desenvencilhar-se neste ambiente que, como diria o poeta, paira à tona de água, com a mãe a lutar para que tudo não se afunde definitivamente: «Eu estou a morrer, Duarte. E o teu pai ama-te muito, e vai precisar muito de ti. Tens de o tentar compreender…».
Pelas páginas do livro perpassam os êxitos e as adversidades, talvez mais estas do que aqueles, das três gerações da família. Numa linguagem escorreita, tomamos conhecimento de histórias hilariantes: o episódio do Amável um menino triste, franzino, doente e efeminado que um dia abalou para África e que, apesar dos boatos que o davam rico com propriedades imensas no norte de Angola e mais de quinhentos pretos ao seu serviço, regressou, vinte anos depois, como tinha partido e, se possível, ainda mais amarelento. Condoída pelo seu estado, toda a aldeia para lá do Fundão, ainda depois de Alpedrinha, meteu mãos à obra e em cinco dias reconstruiu a casa que tinha sido dos pais. Mas o Amável não dava sinal de melhora, cada dia mais débil, mais febril, até que o obrigaram a ir ao consultório do Doutor Augusto Mendes. Com o conhecimento de quase sessenta anos de prática clínica e algumas apalpadelas, o médico sentenciou que o seu problema estava na “tripa”. Mandou-o baixar as calças e colocar-se de gatas, e aviou-lhe um valente clister. Depois de devidamente esvaziado pode verificar-se que o causador de tamanho desarranjo tinha sido um saquinho de plástico cheio de diamantes. O livro fala-nos, até, dos inolvidáveis golos do Mário Kempes no campeonato do mundo de setenta e oito e do valente Manuel Zeferino que, não sendo um Nicolau nem um Trindade e muito menos um Agostinho, bastava olhar para ele para se ver que era bom rapaz.
Fala de tudo isto e de muito mais. E fala, ainda, das mulheres. Uma homenagem às mulheres. De capítulo inteiro. Um quase poema com algo de épico a fazer lembrar aqueloutro que fala da Luísa da Calçada de Carriche. Uma homenagem ao trabalho, à coragem e à sabedoria das mulheres e que termina assim: «Tenho um cancro.» Encostou a mão ao seio esquerdo e disse: «Aqui.» Depois disse: «Vou ser operada na segunda feira, amanhã dou entrada no hospital.» Depois disse: «A despensa está cheia, fiz bacalhau com natas, que está no congelador, e uma panela de sopa.» Depois disse: «No congelador também há bifes e hambúrgueres e costeletas.» Depois disse: «Devo ficar internada, pelo menos, uma semana depois logo se vê.» Não disse mais nada.
Pese embora a obstinação da Dona Laura, deixando bem claro que o que quer que estivesse a acontecer no País, ali em casa tudo permaneceria na mesma, pela obra parece perpassar uma certa mágoa pela chegada tardia do 25 de Abril. Policarpo, que anos antes tinha trocado o país pela civilizada Europa de Newton, Lavoisier e Descartes, a bendita Europa, que, se formos a ver, só começa em atravessando os Pirenéus, escreveria ao amigo Augusto depois da revolução: «Agora já estou velho, já não volto. Agora já é tarde.»


04 agosto 2012

GRITA-LHE NOMES FEIOS


Quando vejo um político na televisão tentando, desavergonhadamente, justificar o injustificável dá-me cá uma vontade de lhe agarrar pelos colarinhos… Em vez de se atenuar, esta minha sanha destruidora tem vindo, desde há uns anos a esta parte, a crescer. À falta de melhor, mal começam, ufanos, tentando enganar-me, desato a responder com obscenidades a cada uma das suas mentiras. É a minha maneira de libertar a tensão que começa a criar-se mal a criatura abre a boca. Confesso que começava a ficar preocupado com este crescendo de fúria, mas, finalmente, a ciência vem em meu auxílio. Três investigadores da Universidade de Keele, na Grã-Bretanha, Richard Stephens, John Atkins e Andrew Kingston, após aturados – e penso que apurados – estudos científicos, concluíram que gritar obscenidades liberta a tensão e alivia a dor. «O que pensamos – diz Stephens, professor de Psicologia, e coordenador da equipa – é que quando injuriamos produzimos uma reação emocional que estimula o nosso sistema nervoso, fazendo com que o coração acelere e a adrenalina corra.» Com esta importante descoberta os investigadores venceram o prémio Ig Nobel e foram recompensados com a fabulosa quantia de dez biliões – assim mesmo biliões dos nossos ou triliões se preferirem os americanos – de dólares… do Zimbabué.
Sei há muito tempo que chamar cabrão e filho da puta e mandar o intrujão para a puta que o pariu, alivia – oh, se alivia – a tensão que se começa a acumular em nós quando ouvimos as primeiras mentiras. Sei isso há muito mais tempo do que os sábios de Keele, não tive é oportunidade de concorrer: tivesse e quem ia a Harvard receber os dez biliões seria eu.

23 abril 2012

TODOS OS LIVROS


- Qual é o teu favorito?
- Não tenho um favorito. Não há livros separados de outros. Todos os livros que falam do mar, desde a Odisseia até ao último romance de Patrick O’Brian, estão interligados, como uma biblioteca.
- A biblioteca de Borges…
- Não sei. Nunca li nada desse Borges. Mas é verdade o que digo, que o mar se parece com uma biblioteca.
Arturo Pérez Reverte, “O cemitério dos barcos sem nome

11 abril 2012

AL-SAHAF E AS OBRAS DA PARQUE ESCOLAR

Mohammed Saeed Al-Sahaf, que a imprensa estrangeira apelidava de “Ali o comediante”, era o ministro da informação de Saddam Hussein ao tempo da segunda guerra do golfo. O cognome foi-lhe outorgado pelos jornalistas como reconhecimento das suas tiradas absurdas durante os briefings diários organizados pelo governo iraquiano para dar conta dos avanços da tropa doméstica. No dia 8 de Abril de 2003, como habitualmente, Al-Sahaf reuniu a imprensa estrangeira para comunicar que as valorosas tropas iraquianas, alumiadas pela destemida guarda republicana, continuavam a travar a mãe de todas as batalhas e rechaçavam as arremetidas dos cães raivosos invasores a quem seria infligida uma derrota que jamais seria esquecida. Ficaria para a história a patética imagem do ministro a jurar que estavam a desbaratar as tropas estrangeiras e a vencer a guerra no preciso momento em que, qualquer repórter que olhasse pela janela, veria já os tanques da coligação a poucos quarteirões de distância. Bagadad seria tomada pelo invasor poucas horas depois do briefing.
Lembrei-me do ministro da informação Al-Sahaf quando ontem, nos telejornais da noite, ouvi a antiga ministra Lurdes Rodrigues afirmar, perante a comissão parlamentar de Educação, que “o programa da Parque Escolar foi uma festa para as escolas, foi uma festa para os alunos, foi uma festa para a arquitetura, foi uma festa para a engenharia, foi uma festa para o emprego e foi uma festa para a economia”. Quando o Tribunal de Contas deteta despesas e pagamentos ilegais no montante de cerca de 256 milhões de euros e mais de 236 milhões euros relativos a 34 contratos da Parque Escolar não submetidos a visto, quando diz que houve um acréscimo de pelo menos 218,5% nos custos das obras realizadas, relativamente à estimativa inicial e que o dinheiro não chegou, por isso, nem para metade das escolas programadas, ouvir a ex-ministra com aquele ar alienado dizer que os relatórios do Tribunal de Contas teciam fartos elogios à gestão do programa, dá que pensar. O patético Al-Sahaf não faria melhor.

07 abril 2012

BOA PÁSCOA



Apesar da troika insensível e do Passos charlatão; apesar dos sábios da John Hopkins que querem acabar com o calendário e dos de Cambridge a jurar que a última ceia, afinal, foi a uma quarta, apesar de todas estas luminárias em conluio, conspirando contra mim, amanhã, o primeiro domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio da primavera, mantendo-me fiel à tradição judaico cristã cá de casa, juntar-nos-emos à volta do cabrito.
Boa Páscoa.

21 março 2012

HOMEM, QUE FAZES TU?



Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre…


Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa…

EPÍGRAFE, Eugénio de Castro, 1864-1944

08 março 2012

ELAS ESPALHAM A DESORDEM

Elas tecem o desacato com engenho, na mansa lentidão dos dias; tão depressa suspiram maleitosas, ensimesmadas e aflitas, como em tudo inventam supérfluos motivos de riso e de alegria.
Elas cantam, rodopiam, dançam, interpretam peças maliciosas e declamam poemas.
Elas confrontam-nos com o rasto do mal, usando perfumes de gardénia, de nardo e de almíscar, odores doces e turvos, a fazerem esvoaçar a roda das saias folhadas, rendadas.
Elas usam nos lábios e nas faces o carmim das rosas selvagens, pondo igual desvario nas vestes e nas ideias.
Elas são altivas e vaidosas, escrevem poesia, discutem filosofia, lêem livros proibidos.
Elas tresandam a heresia com as suas atitudes e ideias pervertidas; provocam com estouvamentos e arroubos.
Elas gostam do luxo.
Elas trazem consigo ideais perigosos, instruem-se, estudam, perseguem a utopia, na constante busca extremada da Luz, em busca do atordoamento do novo.
Elas cultivam a desobediência e os rancores, sarcásticas e vingativas. Regem-se por regras próprias.
Elas questionam os dogmas, duvidam da fé, não cortam a raiz da tentação e das dúvidas.
Elas espalham a desordem.


Adaptado de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta


Leonor de Almeida Portugal, neta dos marqueses de Távora, após o nebuloso processo que devastaria a sua família, foi enclausurada no convento de Chelas, juntamente com a mãe e a irmã, contava, então, oito anos de idade. Por lá ficariam durante dezanove anos até à morte do Rei D. José e ao consequente afastamento de Sebastião José de Carvalho e Melo. O marquês de Pombal tentava, deste modo, calar a descendência dos marqueses de Távora mas Leonor, amante da liberdade e ávida de Luz nunca se aquietou nos espaços lúgubres de Chelas não dando descanso à madre superiora que, vezes sem conta, se queixou ao bispo de Lacedemónia do comportamento indecoroso daquelas em que «corria nas veias sangue envenenado e ruim dos Távoras». Sirvo-me de uma das queixas da prioresa para render a minha singela homenagem a todas as nossas fortes mulheres que, perante as dificuldades, se recusam a claudicar.

22 fevereiro 2012

O BASTONÁRIO DOS ADVOGADOS NO MOTEL

Há dias, enquanto ouvia o doutor Marinho Pinto, naquele seu modo sôfrego, a atropelar-se nos adjectivos, lembrei-me da anedota dos dois juízes: 
Um dia, dois juízes encontraram-se no parque de estacionamento de um motel e repararam que cada um estava com a mulher do outro.
Após alguns instantes de um silêncio constrangido, provocado pelo inusitado da situação, mas, sem nunca perderem a compostura própria de magistrados, em tom solene e respeitoso, diz um deles:
- Nobre colega, não obstante este fortuito imprevisível, sugiro que desconsideremos o ocorrido, crendo eu que o correcto seria que a minha mulher venha comigo, no meu carro, e a sua mulher volte com Vossa Excelência no seu.
Ao que o outro, de modo igualmente cortês, desfiando o rol de salamaleques próprio da sua condição, respondeu:
- Concordo plenamente, nobre colega, que isso seria o correcto, sim, no entanto, não seria justo, levando-se em consideração que vocês estão saindo e nós estamos entrando.
Um dia, estou em crer que maldosamente, alguém me dizia que o Doutor Marinho Pinto, em tempos, tentou enveredar pela carreira de juiz mas, circunstâncias várias concorreriam para que tal lhe não tivesse sido possível. Talvez que tudo isto, como lembraria um novel filósofo da nossa praça, não passe de pura maledicência mas confesso que ao ouvir o Doutor Marinho apelidar de betinhos e betinhas os membros do governo, acusando-os de burocratas que não conhecem o país, imaginei-o juiz, a sair de um motel.

14 fevereiro 2012

S. VALENTIM URBANO E ASSALARIADO.

[…] Abriu a porta de casa e entrou. Havia um cheiro estranho no vestíbulo. Um certo perfume. Almiscarado e doce. […] Estava a meio das escadas e consciente de que o perfume tinha algo de miasmático, quando foi obrigado a parar. Eva estava de pé, à porta do quarto, envergando um pijama de um amarelo incrível com umas calças muito largas. Estava horrorosa e, ainda por cima, fumava um cigarro comprido numa boquilha comprida e a boca estava pintada de vermelho brilhante.
- Meu querido caralhinho – murmurou ela em voz rouca, meneando-se. – Anda cá. Vou chupar-te os mamilos até que me faças vir oralmente.
Wilt virou as costas e fugiu, escadas abaixo […]

Tom Sharpe, “Wilt”