25 abril 2011

VALERÁ A PENA?


"Poder-se-á perguntar, com aparente pertinência e justificada razão se, agora, com Portugal a viver horas amargas de crise, angústia e incerteza, importaria comemorar Abril.
Na verdade, importará fazê-lo, neste tempo em que os medos reemergiram no nosso quotidiano, em que o regresso da fome, que grassa um pouco por todo o País, acutiladamente nos surpreende e contende, em que obrigados somos a dobrar a cerviz perante os ditames estrangeiros, em que se duvida que haja fundada esperança em melhores dias?"


Extracto do discurso do ex-presidente Ramalho Eanes, proferido no Palácio de Belém, durante as comemorações do 37.º aniversário da Revolução de Abril

24 abril 2011

ATÉ QUANDO?


Um dia, um empresário com medo de andar de avião, telefonou para uma agência de viagens, procurando inteirar-se da probabilidade de haver uma bomba a bordo. O funcionário da agência achou a pergunta estranha, mesmo para os tempos que correm, mas, habituado a ouvir perguntas estranhas, lá foi dizendo que a probabilidade de isso acontecer era muito baixa, não mais do que 1 para 10000. O empresário, parecendo não ficar muito satisfeito com a resposta, agradeceu e desligou. Pouco depois o telefone da agência voltou a tocar. Era novamente o senhor da bomba. Agora queria saber qual seria a probabilidade de haver duas bombas a bordo do mesmo avião. Se já a primeira pergunta lhe pareceu disparatada esta ainda mais, mas, conhecedor do cálculo de probabilidades, o funcionário da agência de viagens lá lhe foi dizendo que a probabilidade de haver duas bombas a bordo do mesmo avião era insignificante. Seria o quadrado da probabilidade de haver apenas uma, logo, não mais do que 1 para 100 000 000. Agora sim, o assustadiço homem de negócios ficou contente com a resposta. Agradeceu calorosamente e desligou.
Algum tempo mais tarde, o funcionário da agência de viagens leu num jornal que num aeroporto tinha sido preso um passageiro que se preparava para embarcar com uma bomba na bagagem. Quando a polícia o interrogou, disse que levava a bomba na mala apenas para diminuir o risco de haver uma bomba a bordo.
Lembro-me desta deliciosa história, contada pelo matemático americano John Allen Paulos, sempre que oiço os nossos políticos a falarem de números, de percentagens e de estatísticas. Onde nós, ignorantes, vemos desgraça nos números do desemprego vem um ministro e diz que, comparando com não sei quê, estamos no bom caminho; onde nós, agoirentos, vemos a taxa de crescimento a apontar para o chão vem um secretário de estado dizer-nos que se compararmos com não sei quanto o amanhã será risonho; onde nós, desconfiados, vemos criatividade na opulência dos resultados dos exames de Matemática, lá temos o porta-voz do governo para nos lembrar que somos pobres e mal agradecidos e já não conseguimos, sequer, acreditar nas capacidades dos nossos jovens. Enfim, estamos na mão de gente tão ignorante quão perigosa. Ainda ontem o INE nos veio dizer que afinal o deficit de 2010 não foi de 6,9 nem de 8,6 mas sim de 9,1% do Produto Interno Bruto. E o nosso drama é que nem sabemos sequer se a desgraça se fica por aqui. Os nossos políticos que enchem a boca com juras de amor à pátria e promessas de trabalho incansável e desinteressado em prol do bem comum, andam, isso sim, a espalhar bombas por todo o lado, armadilhando o futuro de todo um povo. E, note-se, até nisso a sua incompetência salta à vista: colocaram as bombas para estourar quando eles já estivessem a salvo e afinal eis que lhes começam a rebentar nas mãos. Estamos, pelo menos há seis anos, nas mãos de um bando de prestidigitadores. Até quando?

23 abril 2011

PÁSCOA FELIZ

... e ainda para os que chamam nomes ao Sócrates, ao Teixeira e àquele da boquinha de peixe de que não me lembra o nome. E também para os Irlandeses, para os Gregos e para os falsos Finlandeses. E para todos os cem mil que há três anos desancaram na Lulu e os trezentos mil de doze de Março. E para as colegas de trabalho - e vá lá, para os colegas - e para todos os outros de que me não lembro agora.

21 março 2011

TEMPO QUASE PERFEITO


Ontem chegaram as primeiras andorinhas. A Primavera “rebenta” por aí e não tarda, os jacarandás estarão em flor. Não fora uns imbecis que todos os dias nos atormentam e este seria um tempo perfeito.
Hoje é o dia da poesia e para o comemorar escolhi um belo poema de Alfonso Castelao, um poeta popular Galego, que Dulce Pontes canta admiravelmente: Lela.


LELA

Están as nubes chorando
Por un amor que morreu
Están as ruas molladas
De tanto como choveu

Lela, Lela
Lelina por quen eu morro
Quero mirarme
Nas meninas dos teus ollos

Non me deixes
E ten compasión de min
Sen ti non podo
Sen ti non podo vivir

Dame alento das tuas palabras
Dame celme do teu corazón
Dame lume das tuas miradas
Dame vida co teu dulce amor

Alfonso Castelao, 1886/1950

19 março 2011

QUANDO EU MORRER...


[...]

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.
[...]

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos"

15 março 2011

SERENIDADE

No meio da desolação causada pelo desastre, um japonês de cabelo grisalho, com o telefone emprestado pelo jornalista português, avisa, finalmente, o filho na América, que perdeu tudo mas salvou a vida: «Tive muita sorte», dizia. Depois da chamada, em conversa com o português, confessava que o único conforto que lhe restava ainda, era a lua radiosa e as estrelas a brilhar no escuro da noite.
Um dia, se fosse, também, atingido por uma desgraça, gostava de ter esta serenidade e este desprendimento para dizer o mesmo.
Do alto da poltrona onde me encontro, olhando aterrado o horror e a destruição, lembro-me de John Kennedy: «Eu sou um Japonês!»

12 março 2011

OPÇÕES

Quando li na imprensa que, no ano passado, Silvio Berlusconi tinha gasto 34 milhões de euros em prendas para as amigas lembrei-me do vaidosão do nosso primeiro-ministro. Pelos vistos aqueles fatinhos que ele veste e que de vez em quando, para seu gáudio, uma ou outra revista da especialidade diz que lhe ficam bem, são comprados no Rodeo Drive em Beverly Hills, ao que dizem, a loja mais cara do mundo. Quanto ao local onde faz as compras até se compreende, o homem sempre teve propensão para representar, mas dar 50 dólares por umas peúgas e 50 mil por um fato é obra, para não dizer coisa pior. Não que tenha algo a ver com o modo como o homem gasto o dinheiro que ganhou com o suor do seu rosto, mas não gosto nada de ver escrito no cristal da montra da lojinha exclusiva onde só entra um cliente de cada vez: «primeiro ministro de Portugal». Os americanos que por lá passam e lêem o nome dos clientes, se souberem o que é Portugal, devem pensar o mesmo que eu quando penso nos luxos de que se rodeiam alguns líderes africanos no meio da pobreza mais abjecta.
Mas voltemos a Il Cavaliere: eu, que sou do Sul e um bocado para o Marialva, confesso que apreciaria mais ter lido no jornal que o primeiro ministro de Portugal gastou 50 mil em putas do que o ter gasto num fatinho por medida na casa de Bijan.

08 março 2011

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
[...]

José Luís Peixoto, "a mulher mais bonita do mundo"

06 março 2011

CRÓNICAS POUCO REACCIONÁRIAS

Um dia, um dirigente de uma poderosa estação de televisão, do qual não me lembra nome nem condição, procurando exemplificar o poder da TV dizia: «Se a televisão não mostrou o incêndio na floresta, será que ela, realmente, ardeu?»
Vezes sem conta tenho-me lembrado desta tirada premonitória. Depois de ter lido o último livro de António de Sousa Homem, veio-me, novamente, à memória, o episódio do incêndio da floresta.
António de Sousa Homem nasceu no Porto, fará por estes dias, 91 anos, mas desde a década de oitenta do século passado que vive em Moledo. Assim mesmo: Moledo. A importância da terra não exige o “do Minho” para que todos saibam de que se trata.
António de Sousa Homem é um velho reaccionário. Imagino-o no melhor quarto do ermitério de Moledo - como carinhosamente gosta de chamar à sua casa -, com vista para o oceano, rodeado de livros, de mesuras e de cuidados, vigiando as nórdicas no areal, não pelas razões inconfessáveis que o faria esse outro velho sapo das Caraíbas, mas apenas para que qualquer Frísia de pele tisnada pelas inclemências do clima minhoto, não venha perturbar a paz familiar nem a ordem natural das coisas.
O livro é uma compilação de crónicas. Dúzias e dúzias de crónicas onde o velho celibatário minhoto perscruta o quotidiano da terra, reverencia a vida e a obra do velho Doutor Homem, seu pai, e, qual sátiro sem vergonha, xinga com a distinção da família que continua a venerar o senhor Dom Miguel. Verão após verão, assusta-se com as hordas de veraneantes que lhe entram pelas portas adentro e por lá acampam até finais de Agosto. O Doutor é um homem atento. Recordando o episódio do incêndio na floresta: se a crónica o não noticiou será que, realmente, houve nortada em Moledo?
O Dr. Homem “repete-se até à eternidade convencido de que tem, ainda, alguma coisa para dizer, mesmo num país que preza galantemente a ignorância” mas é com um prazer imenso que da primeira à última página o leitor toma conhecimento dos devaneios amorosos do tio Alberto, das dúvidas existenciais da sobrinha Maria Luísa, dos medos da tia Benedita e das aventuras do sobrinho Pedro. O Dr. Homem pode repetir-se, já ganhou permissão para tal e, de qualquer modo, não se pode chamar a isso repetir, é, tão somente, vincar bem as ideias.
Proximamente, António de Sousa Homem vem à Biblioteca Municipal falar do seu último livro de crónicas: “Um Promontório em Moledo”. Lá estarei para ouvir as suas histórias. Como se fora a primeira vez.

08 fevereiro 2011

E FAZEM MESMO FALTA?

No manuseio do comando da televisão não fico nada atrás de um qualquer adolescente a escrever mensagens no telemóvel. Não que tenha especial destreza nos polegares mas o facto de ter apenas dois ou três canais, a que dedico algum interesse, permite-me lá chegar de olhos fechados. Não quero com isto dizer que num momento de maior pachorra não passeie pelas restantes teclas. Com um pouco de sorte encontram-se coisas extraordinárias. Há uns dias, no Porto Canal, penso que numa mesa redonda – estes passeios nunca dão para a gente se deter mais do que breves momentos em cada capelinha – às tantas arrazoa um dos intervenientes: Aliás, é até perigoso colocar o problema dessa maneira (o problema a que se referia era a diminuição do número de deputados na Assembleia da República), a opinião pública - continuava a discorrer a criatura -, podia, até, pensar que os deputados não estavam lá a fazer nada.
No início da semana a imprensa dava conta de um estudo que concluía que umas boas gargalhadas prolongam a vida. Depois de ouvir um dos “bons nabos do hemiciclo” discorrer sobre o número de deputados – e a nobreza com que o fez – as gargalhadas que dei asseguram-me, pelo menos, mais três quartos de hora de vida.

31 dezembro 2010

costa norte


BOM ANO

Os conhecimentos empíricos, apurados por gerações de bebedores, já há muito que tinham concluído que o Champanhe é para beber frio. Agora a ciência vem validar o que o palato já tinha por adquirido. Uma equipa de académicos da Universidade de Reims concluiu que a temperatura ideal para se servir o Champanhe é de 4º C, pois, a esta temperatura, as moléculas de Dióxido de Carbono presentes na bebida têm mais dificuldade em desprender-se do líquido do que teriam se a temperatura fosse superior. Ora, sabendo-se que o CO2 ajuda a transferir o sabor, o aroma e a sensação da bebida para a boca do degustador, vemos quão importante é conseguir-se manter aprisionado no líquido a maior quantidade possível desse gás. Mas a equipa de cientistas não se ficou por aqui. No seu estudo, publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry, os académicos discorrem, ainda, sobre o modo ideal para se verter o líquido para a taça concluindo que esta deve estar ligeiramente inclinada para que a bebida escorra pela sua parede ao invés de a colocar na vertical e verter o líquido directamente no fundo. As razões prendem-se, também, com o CO2. Se a taça estiver na vertical a turbulência causada pelo líquido ao bater no fundo vai acelerar a libertação do Dióxido de Carbono mas se se inclinar ligeiramente deixando que o líquido escorra pela parede evitar-se-á parte desse problema e as perdas serão reduzidas a metade.
Logo, na hora de servir o Champanhe, lembre-se: incline a taça e encha-a. Beba uma pelo ano que acaba e outra pelo que começa. Eu acompanhá-lo-ei.
BOM ANO!

28 dezembro 2010

PALÁCIO DO POVO

Decididamente já nada nos consegue arrancar desta letargia que vai tomando conta da gente. Feitos tolos, acreditando em milagres, ainda acalentamos a esperança que os frente-a-frente dos candidatos à presidência trouxessem alguma animação às hostes mas logo desde o primeiro se viu ao que vinham e as esperanças ruíram logo ali. É que nem uma mísera ideia original se ouve da boca daquele pessoal e as únicas ideias estapafúrdias que até podiam dar para alegrar não o logram fazer porque sendo estapafúrdias não são originais. No frente-a-frente de ontem, que não tive pachorra para ver, a dado momento o candidato Nobre, aquele da parábola da galinha e do menino, puxa da manga aquilo que seria o seu trunfo: se for eleito abrirei o palácio de Belém ao povo! Cá está uma ideia nada original. Diria mesmo, uma ideia requentada. O grande estadista Hugo Chavez já há muito que a pôs em prática lá em casa. E mais, além de abrir as portas do palácio de Miraflores ao povo ainda chamou duas dúzias de famílias para lá viverem com ele. Ainda gostava de ver o presidente Nobre a fazer o mesmo. Já estou a imaginar quem iria ocupar a sala dos Embaixadores, ou a sala Dourada ou mesmo a sala Império… enfim, o presidente Nobre iria ficar aconchegadinho.

26 dezembro 2010

SE AO MENOS CANTASSE...

Ontem, ao assistir à habitual homilia de Natal do primeiro-ministro – assistir é uma força de expressão que eu não consigo ouvir mais do que as primeiras frases do homem sem me irritar –, lembrei-me dos ratos que cantam. A história, contava-a o JN de quarta-feira, relata o achado de uma equipa de investigadores da universidade de Osaka que, ao que parece inadvertidamente, criou uma série de ratos que, em vez de emitirem aquela chiadeira própria da sua condição, desataram a emitir sonoros chilreios de fazer corar de inveja as mais pintadas das aves canoras. E foi aqui que me lembrei dos ratos cantores: se os cientistas japoneses pudessem fazer alguma coisa à voz incomodativa daquele personagem. Não digo pô-lo a cantar mas, pelo menos, afinar-lhe as cordas vocais - e, já agora, o discurso - de modo a ser menos tormentoso ouvi-lo. E o tratamento podia ainda trazer-lhe outros benefícios: o estudo permitiu apurar que os roedores, além de ficarem com melhor voz, também modificaram algumas das suas características físicas como a cauda que ficou mais fina. Se pensarmos no apêndice nasal do homem fácil será ver os benefícios que daí podia tirar.

25 dezembro 2010

QUE CHOVA E QUE NEVE! É NATAL.




CHOVE. É DIA DE NATAL

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

FERNANDO PESSOA, 25/12/1930

18 outubro 2010

NECESSIDADES BÁSICAS

Por alturas da primeira guerra do golfo, quando os beligerantes se preparavam para a contenda, um jornalista decidiu entrevistar o comandante de uma determinada companhia britânica que tinha a fama, e ao que parece também o proveito, de fazer sempre o “trabalho” bem feito. A certa altura da entrevista o jornalista perguntou ao coronel qual era o segredo para que a sua companhia fosse sempre tão “eficaz” no cumprimento das missões. A resposta saiu cristalina: O segredo está no estômago. Os meus homens sabem que têm as suas necessidades básicas asseguradas e a necessidade primeira é a alimentação. Um soldado esfomeado jamais conseguirá cumprir convenientemente a sua missão.
Lembrei-me deste episódio quando, ontem, li as conclusões de um estudo sobre as carências alimentares dos nossos jovens onde se conclui que 12% dos alunos vão para a escola com o estômago vazio. O estudo apurou ainda que no ano passado essa percentagem tinha sido já de 8% e que no próximo será ainda bem mais grave. Este é já o principal factor do insucesso escolar.
Há vinte anos, por alturas da guerra do golfo, Sócrates não tinha tempo para estas minudências. Coisas bem menos prosaicas, como a escolha de uma boa escola de engenharia para fazer a sua formação, ocupar-lhe-iam o espírito, de modo que não terá ouvido o Coronel. Foi pena. Se o tivesse ouvido talvez tivesse pensado em alimentar os nossos jovens convenientemente antes de enxamear as escolas com computadores. Não sei quem lhe terá dito que se abarrotasse as escolas de computadores, internet e quadros interactivos os nossos alunos, como que por magia, ficavam mais inteligentes e, dentro de meia dúzia de anos, ninguém notaria a diferença entre Portugal e a Finlândia. Não sei quem lhe terá dito, mas sei que doze em cada cem computadores já estão parados. Os donos têm de lutar por prover as necessidades básicas e essas não são, com certeza, um computador.

16 outubro 2010

À TRIPA-FORRA

Ontem, a propósito da publicação dos rankings das escolas, ouvi duas declarações que, não fora a responsabilidade de quem as produziu, ter-me-ia rido a bandeiras despregadas.
A primeira foi feita pelo Director do colégio colocado em primeiro lugar, ou num dos primeiros lugares, do Ranking. Procurando uma declaração do Director que lhe ilustrasse a notícia, o jornalista começou por lembrar os ouvintes que se tratava de um colégio privado, logo não ao alcance da esmagadora maioria da população. “Não - refutou o director -, nós nunca rejeitamos ninguém, se tivermos vaga aceitamos todos os que nos procuram.” Depois de ouvir esta pérola não pude deixar de pensar que o dito colégio tem muita sorte em tê-lo como director, se o tivesse como aluno, com toda a certeza, não estaria tão bem classificado.
A segunda declaração do dia foi produzida pela Ministra da Educação quando lhe pediram, tão só, um comentário acerca da discrepância entre os resultados das escolas públicas e das escolas privadas. O depoimento foi o maior arrazoado que eu já ouvi sobre o tema: “… hum, os resultados da escola pública decorrem do facto de ser uma escola aberta onde todos estão onde as crianças que têm mais dificuldade estão a ser apoiadas e as crianças que aprendem bem também estão portanto é uma escola onde não há selecção de alunos, todos são convidados a estar na escola e a aprender ao seu ritmo com o esforço para que todos aprendam bem o melhor possível mas sabendo nós que os seres humanos são diferentes e que as condições de apoio devem ter em consideração a diversidade dos seres humanos.” A senhora ministra, que até é escritora, sabe, com certeza, o elevado valor das palavras, para poderem ser usadas assim à tripa-forra. Reconheço, humildemente, que não conheço a sua obra - a Enid Blyton chegou primeiro e tive de me haver com ela - mas não duvido que gasta apenas as palavras que são necessárias. Então por que é que, de há uns tempos para cá, teima em dizer coisas que ninguém entende e outras que nos fazem rir? A senhora, até porque é ministra da educação, deveria ter usado um registo mais pedagógico e ter chamado à atenção do jornalista dizendo-lhe somente: “Esses dados não são comparáveis!” O senhor entenderia, poupava, e muito, nas palavras e informava de um modo que todos compreendiam. Assim…

19 agosto 2010

MANDASSE EU...


“… A linha é muito bonita e é uma pena se a fecharem agora. Oxalá a componham e que eu tenha saúde para ir lá outra vez ver passar os comboios.”
Camila Alves, 85 anos, Codeçais [in JN19AGO2010]


Mandasse eu, em vez daquele tonto com olhos de goraz, e a Linha do Tua ia já para obras: a Dona Camila, de Codeçais, havia de regalar os olhos, por muitos e bons anos, a ver passar os comboios.

28 julho 2010

POIS AGORA VOU-TE COMER!

O louva-a-deus é um insecto singular. Em repouso lembra alguém orando, daí o nome pelo qual é conhecido. A forma e as cores do seu corpo permitem-lhe uma camuflagem perfeita. Da sua dieta habitual fazem parte pequenos insectos, como moscas, abelhas e gafanhotos. Uma das particularidades da espécie tem a ver com a originalidade dos métodos adoptados na hora de trabalhar para a perpetuação da espécie. Na hora do acasalamento, ainda o macho não terminou a função, e já a fêmea se prepara para lhe arrancar e comer a cabeça. Não, pelos vistos não o faz como penalização pelo sofrível desempenho do parceiro, a razão é, digamos assim, bem menos prosaica, fá-lo como forma de se apropriar de uma importante reserva de nutrientes de que necessitará até à altura da postura dos ovos evitando, desse modo, ter de se expor aos seus predadores naturais ao procurar alimento. Está claro que com este acto a bicha, além de ficar de barriguinha cheia, evita também que o Romeu se dê p’ra outras Julietas. Lembrei-me do louva-a-deus quando no passado fim-de-semana li que o Rui Pedro Soares se mostrou disponível para ser dono do Sol. Rui Pedro Soares, para quem não se lembra, é aquele jovem ex-administrador da Portugal Telecom que quando foi chamado a depor numa comissão de inquérito no Parlamento parece que estava frente a um pelotão de fuzilamento e produziu o depoimento mais ridículo que aquelas paredes já ouviram: “… eu sou um fervoroso adepto de futebol… acho que como a maioria dos portugueses… fervoroso adepto de futebol… sou um fervoroso adepto de futebol e o meu clube é o futebol clube do porto…”. Na altura os jornais, com o Sol à cabeça, não lhe deram descanso e apesar de ter interposto uma providência cautelar para que o semanário não publicasse umas certas escutas telefónicas estas foram mesmo publicadas o que desagradou ao gestor que meteu o jornal em tribunal. A sentença acaba de ser publicada e atribui ao queixoso uma batelada de dinheiro em indemnizações. Ora o homem não está com meias medidas: "Se o Sol não conseguir pagar a dívida, estou disponível para me entender com os accionistas do semanário e ficar dono do jornal". Quando, no último fim-de-semana soube das intenções do ex-administrador não pude deixar de pensar na louva-a-deus: fodeste-me, pois agora vou-te comer!

12 julho 2010

DOUTOR, LEVO OU DEIXO OS PATOS?

Conta-se que Ruy Barbosa, o grande filólogo brasileiro, um dia, ao chegar a casa, ouviu um barulho suspeito vindo das traseiras da moradia. Pé ante pé vai investigar e dá de caras com um pilha galinhas que sorrateiramente se preparava para saltar o muro com os patos da sua criação bem acondicionados na serapilheira.
- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
E o ladrão, confuso, diz:
- Doutor, levo ou deixo os patos?
Lembro-me desta deliciosa história sempre que oiço o Francisco Assis, com aquela sua prosápia oleosa a perorar sobre qualquer coisa. O homem fala, fala, enrola, atropela-se nas palavras, volta ao início, redunda… para dizer nada. Cansa só de o ouvir… Mas enfim, são as provações a que sujeitam o povo.
Este fim-de-semana deu uma entrevista a um semanário e, pasme-se, o homem diz a quem o quer ouvir que tem todas as condições para ser líder do PS. Gostava de lhe dizer, Dr. Assis, que não tem condições não senhor. Depois de termos passado, não sei quantos anos, a ouvir um com aquela sua irritante vozinha de cana rachada e estilo mestre-escola não suportaríamos sequer a ideia de ter de ouvir, durante anos, essa sua bazófia untuosa a entrar-nos pela porta adentro. E depois uma pessoa que diz “não me excluindo a mim próprio, sem falsa modéstia” e remata a entrevista dizendo que “Eu procuro não ficar prisioneiro da ideia de ter um destino pessoal, porque isso me impediria de viver a vida no dia a dia” devia era concorrer às novas oportunidades.