08 Março 2012

ELAS ESPALHAM A DESORDEM

Elas tecem o desacato com engenho, na mansa lentidão dos dias; tão depressa suspiram maleitosas, ensimesmadas e aflitas, como em tudo inventam supérfluos motivos de riso e de alegria.
Elas cantam, rodopiam, dançam, interpretam peças maliciosas e declamam poemas.
Elas confrontam-nos com o rasto do mal, usando perfumes de gardénia, de nardo e de almíscar, odores doces e turvos, a fazerem esvoaçar a roda das saias folhadas, rendadas.
Elas usam nos lábios e nas faces o carmim das rosas selvagens, pondo igual desvario nas vestes e nas ideias.
Elas são altivas e vaidosas, escrevem poesia, discutem filosofia, lêem livros proibidos.
Elas tresandam a heresia com as suas atitudes e ideias pervertidas; provocam com estouvamentos e arroubos.
Elas gostam do luxo.
Elas trazem consigo ideais perigosos, instruem-se, estudam, perseguem a utopia, na constante busca extremada da Luz, em busca do atordoamento do novo.
Elas cultivam a desobediência e os rancores, sarcásticas e vingativas. Regem-se por regras próprias.
Elas questionam os dogmas, duvidam da fé, não cortam a raiz da tentação e das dúvidas.
Elas espalham a desordem.


Adaptado de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta


Leonor de Almeida Portugal, neta dos marqueses de Távora, após o nebuloso processo que devastaria a sua família, foi enclausurada no convento de Chelas, juntamente com a mãe e a irmã, contava, então, oito anos de idade. Por lá ficariam durante dezanove anos até à morte do Rei D. José e ao consequente afastamento de Sebastião José de Carvalho e Melo. O marquês de Pombal tentava, deste modo, calar a descendência dos marqueses de Távora mas Leonor, amante da liberdade e ávida de Luz nunca se aquietou nos espaços lúgubres de Chelas não dando descanso à madre superiora que, vezes sem conta, se queixou ao bispo de Lacedemónia do comportamento indecoroso daquelas em que «corria nas veias sangue envenenado e ruim dos Távoras». Sirvo-me de uma das queixas da prioresa para render a minha singela homenagem a todas as nossas fortes mulheres que, perante as dificuldades, se recusam a claudicar.

22 Fevereiro 2012

O BASTONÁRIO DOS ADVOGADOS NO MOTEL

Há dias, enquanto ouvia o doutor Marinho Pinto, naquele seu modo sôfrego, a atropelar-se nos adjectivos, lembrei-me da anedota dos dois juízes: 
Um dia, dois juízes encontraram-se no parque de estacionamento de um motel e repararam que cada um estava com a mulher do outro.
Após alguns instantes de um silêncio constrangido, provocado pelo inusitado da situação, mas, sem nunca perderem a compostura própria de magistrados, em tom solene e respeitoso, diz um deles:
- Nobre colega, não obstante este fortuito imprevisível, sugiro que desconsideremos o ocorrido, crendo eu que o correcto seria que a minha mulher venha comigo, no meu carro, e a sua mulher volte com Vossa Excelência no seu.
Ao que o outro, de modo igualmente cortês, desfiando o rol de salamaleques próprio da sua condição, respondeu:
- Concordo plenamente, nobre colega, que isso seria o correcto, sim, no entanto, não seria justo, levando-se em consideração que vocês estão saindo e nós estamos entrando.
Um dia, estou em crer que maldosamente, alguém me dizia que o Doutor Marinho Pinto, em tempos, tentou enveredar pela carreira de juiz mas, circunstâncias várias concorreriam para que tal lhe não tivesse sido possível. Talvez que tudo isto, como lembraria um novel filósofo da nossa praça, não passe de pura maledicência mas confesso que ao ouvir o Doutor Marinho apelidar de betinhos e betinhas os membros do governo, acusando-os de burocratas que não conhecem o país, imaginei-o juiz, a sair de um motel.

14 Fevereiro 2012

S. VALENTIM URBANO E ASSALARIADO.

[…] Abriu a porta de casa e entrou. Havia um cheiro estranho no vestíbulo. Um certo perfume. Almiscarado e doce. […] Estava a meio das escadas e consciente de que o perfume tinha algo de miasmático, quando foi obrigado a parar. Eva estava de pé, à porta do quarto, envergando um pijama de um amarelo incrível com umas calças muito largas. Estava horrorosa e, ainda por cima, fumava um cigarro comprido numa boquilha comprida e a boca estava pintada de vermelho brilhante.
- Meu querido caralhinho – murmurou ela em voz rouca, meneando-se. – Anda cá. Vou chupar-te os mamilos até que me faças vir oralmente.
Wilt virou as costas e fugiu, escadas abaixo […]

Tom Sharpe, “Wilt”

04 Janeiro 2012

AS FÉRIAS DA MARIA JOÃO

Maria João Ruela é jornalista. Pivot da SIC, quando não está a ler as notícias, gosta, ao que nos diz, de viajar. Depois, com o que anota no caderninho, “ lugares, pessoas, diálogos e pensamentos” e o que guarda na memória, “cheiros sabores e emoções”, faz um livro de viagens. Parece que está na moda os jornalistas verterem em folha impressa qualquer coisa que lhes dê na gana e as editoras, sempre à cata de negócio, têm aproveitado esse filão. No livro que escreveu, “Viagens contadas”, duzentas páginas de letra avantajada e prodigamente ilustrado, como convém, Maria João fala das suas viagens à Patagónia, aos Himalaias, a Marrocos, à Noruega, aos Alpes, aos Pirinéus, à Ucrânia, à Polónia e à Rússia. Verdade que nos tinha avisado logo no título do livro, mas, ao falar de um tão avantajado número de destinos, o que resulta não é muito diferente de uma dessas revistas de viagens que nos prometem, em páginas de texto ciciado e imagens soberbas, destinos de sonho e aventura. Maria João conta-nos as suas aventuras como o faria, depois das férias de verão, qualquer colega lá do escritório, repentinamente chegada aos prazeres do 1.º mundo, contando às amigas embevecidas as aventuras na Tunísia ou na República Dominicana.
Ao ler este livro lembrei-me de Bruce Chatwin e da inolvidável aventura “Na Patagónia” em demanda do brontossauro e de Paul Theroux, outro viajante crónico, que tomou fora de casa, em Chicago, “O velho expresso da Patagónia”, foi por ali abaixo e só não chegou ao cabo Horn porque a linha férrea termina antes. E lembrei-me também de Elias Canetti que ouviu “As vozes de Marraquexe” e as verteu num livro espantoso. Lembrei-me destes três viajantes inveterados e fiquei com vontade de reler aqueles livros admiráveis que nos legaram.
No seu livro, Maria João, diz-nos que foi num serão, sentada a ver televisão na companhia do marido, o Zé – assim mesmo, o Zé, como se a gente se conhecesse desde sempre e se desse de abraço. Diz ela que ao ver num documentário três jovens, Jim, Tom e Kate, percorrerem a montanha, sempre acima dos três mil metros, rodeados de paisagens, escarpas e glaciares, teve, naquele momento, a certeza que faria o mesmo. Em tempos li que Gabriel Garcia Márquez, teve, durante uma viagem de automóvel, a mesma visão e, diante dele, viu desfilar todo o enredo da sua obra prima “Cem anos de solidão”. Depois foi só parar, fechar-se longe do barulho, e escrever de empreitada todo o livro que lhe valeria um nobel. Eu, que tomo conhecimento destes prodígios, reconheço, humildemente, que não fui, ainda, tocado por essa graça. Sei, até, de ciência certa, que jamais o serei. Eu, que sei o dispêndio de energia para obrar cada linha, olho para estes prodígios e só me vem à memória o poema “Budapeste” de Billy Collins, poeta americano, que começa assim: A minha caneta move-se pela página/ como o focinho de um estranho animal...

02 Janeiro 2012

UM NOVO CALENDÁRIO

Uma improvável dupla de sábios da Universidade John Hopkins, encorajada, talvez, pelos samoanos e os toquelauenses, soube-se por estes dias, propõem-se acabar não com um dia como os ilhéus mas com o calendário inteiro. Com efeito, um astrofísico e um economista, considerando que o nosso gregoriano calendário está velho e ultrapassado, lançaram uma campanha para a adoção de um novo calendário com uma nova forma de organizar os dias, fixando datas e permitindo que os feriados, como o Natal e o Dia de Ano Novo, possam calhar sempre a um domingo, todos os anos. Ao que consta continuaria a haver doze meses em cada ano que seria ainda dividido em quatro trimestres iguais de noventa e um dias, acabando a divisão entre anos comuns e anos bissextos. Para se recuperar os dias perdidos com esta contagem a dupla tirou da cartola uma ideia genial só ao alcance dos predestinados: a cada cinco ou seis anos haveria uma semana adicional. Ao novo calendário fixo, que prevê apenas um dia semanal de descanso, são apontadas vantagens laborais e produtivas, além de outros benefícios económicos, como o planeamento estável de férias, salários e calendários escolares e a simplificação de cálculos financeiros.
Ao ler a notícia dos sábios que querem mudar o calendário, lembrei-me da minha avó. A minha avó, que por razões que não interessam ao caso, tinha um carinho especial pelo S. Miguel não perdoaria a quem a privasse do convívio com o santo. A minha avó já morreu há muitos anos, mas lá, onde quer que se encontre, estará, certamente, de atalaia e não permitirá que uma dupla que decidiu esbanjar o dinheiro do empregador com a ideia estapafúrdia de um novo calendário, lhe roube o 29 de Setembro.

01 Janeiro 2012

BOM ANO

primeiro dia do annus horribilis

E pronto, eis-nos chegados ao dia um do annus horribilis. Pudesse eu e fazia-lhe – ao annus horribilis - o que os samoanos e os toquelauenses fizeram ao 30 de Dezembro.
Mas não posso!
Por isso e ainda que, para nos dificultar as coisas, este ano seja bissexto, encará-lo-ei bem de frente, e sem vacilar, sem acusar as estocadas ao longo do trajeto, caminharei rumo àquilo que, quero pensar, será um futuro mais justo, mais tolerante, mais probo e mais solidário. Mostraremos àqueles cinzentões do norte do que é capaz um meridional despeitado.
Junta-te a mim!

29 Dezembro 2011

O MEU CONTO DE NATAL

Capítulo I
AINDA UM DIA HEI-DE ESCREVER COISAS ASSIM...

Se mo perguntassem não saberia explicar porquê, o certo é que, chegada a época do natal, aquela época em que a rua fica engalanada com luzinhas multicolores e laçarotes vermelhos e as pessoas se mostram mais simpáticas, dou por mim a sonhar com grandes feitos literários. Há anos que ocupo um lugar privilegiado para espreitar os livros que os clientes vão folheando e há frases que recordo a cada passo: “Muitos anos mais tarde, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo”, é das minhas preferidas. É a primeira frase de um livro. Agora que me vem à memória… que teria feito o coronel Aureliano para merecer tal sorte? Grande coisa não terá sido para se passar assim pelas armas um coronel, mas ouve-se por aí cada coisa que o melhor é não nos deitarmos a adivinhar. “… aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo”, ah, como gostaria de ter sido eu a escrevê-la… 
- Desculpe, posso ser-lhe útil em alguma coisa?
- Pode sim senhor! Queria comprar uma caneta para oferecer.
- Com certeza, queira acompanhar-me, por favor.
A simples alusão a caneta teve o condão de me despertar dos meus sonhos - ou devaneios, não sei -, e olhar para quem assim falava. Um homem alto, de barriga proeminente e faces rosadas seguia já o empregado. Vi-os aproximar-se. Temos aqui esta Parker, material de confiança – dizia o empregado -, com uma óptima relação qualidade preço, ou então esta Sheaffer, modelo clássico, de uma fiabilidade a toda a prova ou ainda esta Rotring, com um design mais moderno mas com uma ergonomia irrepreensível ou... - O empregado ia desfiando a ladainha mil vezes repetida mas o barrigudo nem o ouvia, absorto que estava a observar todas as canetas do mostruário ou, valha a verdade, mais o pedacinho de cartolina preso por um fio a cada caneta do que a própria caneta. Até que, de repente, vi um dedo grosso a apontar para mim:
- Quero esta!
O empregado, apanhado assim à falsa fé, ficou momentaneamente aturdido mas logo se recompôs:
- Uma óptima escolha. É sem dúvida o melhor exemplar de que dispomos na nossa loja.
- Então embrulhe-ma. Vou oferecê-la a um grande amigo meu.
- Com certeza.
E enquanto me iam fechando na escuridão do meu sarcófago de papel de fantasia dei por mim a pensar, sabe-se lá porquê, que todos os meus sonhos não passavam disso mesmo.
Não sei o tempo que passou: se dias se semanas. Na escuridão perde-se a noção do tempo. Uma vez tinha lido isso e achei que o escritor, sendo um romance épico, o tinha lá posto apenas porque ficava bem, mas agora, assim fechada no escuro, tinha a prova que afinal, sendo sempre noite, não se consegue ter a percepção da passagem do tempo, mas por fim lá sou sacudida mais uma vez e volto a ver a luz. Primeiro por uma nesga que foi abrindo, abrindo, até o papel de fantasia ser todo arrancado.
- Outra esferográfica! Aquele vaidoso do Antunes sempre com a mania das ofertas finas. Há-de pensar que sou escritor. E ainda por cima com aparo. Sabe que não me ajeito com estas coisas e toca de me dar uma…
- Olha, uma boa prenda para ofereceres. Há-de haver gente que dá grande valor a essas coisas. Devia ser a esposa do grande amigo. Silenciosa como estava, mais interessada no programa da televisão do que nas prendas do marido, ainda não tinha dado por ela.
Não fora o grosso anel de ouro que usava no mindinho da mão direita e um nadinha menos de barriga, dir-se-ia que o Antunes e o grande amigo eram uma e a mesma pessoa. Depois de me observar sumariamente, deixou-me esquecida em cima de uma mesa antes de, ao fim da noite, atirar comigo para uma gaveta. Quando a escuridão voltou a derramar-se sobre mim senti que o mundo todo desabava e entrevi, então, pela segunda vez, o fim dos meus sonhos. Mas recusei render-me: não seria a reclusão numa gaveta que me venceria. Claro que seria custoso passar os dias no escuro sem ao menos poder espreitar os livros que os clientes da loja iam folheando ou ouvir uma ou outra conversa sobre as novidades que iam saindo mas continuaria a sonhar. E depois as palavras da mulher “Há-de haver gente que dá grande valor a essas coisas” que continuavam a ecoar na minha cabeça seriam o antídoto a que poderia recorrer sempre que o desalento ameaçasse instalar-se no meu espírito. Um dia, tenho a certeza, escreverei um texto como aquele que foi lido a um rei e que começava assim: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher.

Continua...

PS. O desafio que faço aos eventuais leitores é que comecem a pensar nos próximos capítulos de modo a enriquecer a pobreza franciscana deste, digamos, urbano conto de natal. Fico à espera de contribuições.