31 março 2016

HOJE DIZEMOS PRATA




Vinte e cinco anos. Visto de longe, de muito longe, vinte e cinco anos não será sequer a oscilação de um décimo do comprimento do núcleo de um átomo que o sábio previu, vai para cem anos, e os cientistas detetaram há dias. À nossa escala seria a duração de um suspiro.
Visto de perto, de muito perto, vinte e cinco anos serão mais de trezentas gerações da mais bela borboleta do mundo que os conquistadores espanhóis descobriram no novo mundo e a que chamaram espejitos não acreditando, talvez, que o reflexo das suas asas fosse, afinal, uma soberba transparência. À nossa escala andaríamos ainda pelo crescente fértil a afinar sementes e a gravar os sonhos em barro fresco.
Observados agora à nossa altura, vinte e cinco anos é, mais ano menos ano, uma geração. É o prazo que a natureza nos concede para que acautelemos, se não a perpetuação da espécie, pelo menos a sua continuação. Agora, passados que são vinte e cinco anos sobre aquele dia em que a escola, cheirando ainda a tinta fresca, abriu as portas aos primeiros locatários, vemos entrar a segunda geração. Alguns dos que agora chegam carregam os sonhos daqueles que os precederam: disso estamos certos. Mas, sendo a escola feita da força e da fraqueza dos homens, outros chegarão carregando angústias e frustrações. Faremos tudo, porque esse é o nosso dever, para que estes que agora iniciam a jornada consigam chegar ainda mais longe do que aqueles que os precederam; faremos tudo, porque esse é o nosso dever, por lhes acalentar os sonhos e aquietar os temores: a escola terá cumprido o seu papel e cada um de nós poderá, então, retirar-se com a certeza do dever cumprido.
Olhando para trás, sopesando sucessos e reveses, concluiremos, sem falsas modéstias, que tem valido a pena, estes têm sido bem mais magros do que aqueles e, por tudo isso, hoje dizemos prata. Oxalá, daqui a vinte e cinco anos, outros digam ouro.
carlos ponte, março.2016

08 julho 2013

OS DEUSES E OS DEMÓNIOS, O CÉU E A TERRA


Se quiseres partir amanhã
Eu paro o mundo
Pedro Barroso

O escrúpulo de físico que, estou em crer, nunca permitiria a Camarneiro estas liberdades de poeta de parar o mundo, não o impediu, todavia, de começar já a contraí-lo. Não a truncá-lo porque isso resultaria num mundo desequilibrado e esse não é o que nos é mostrado em “Debaixo de Algum Céu” mas, tão só, um mundo encolhido mas perfeito porque obedecendo às regras da proporcionalidade. Lá encontramos todos os ingredientes que tornam perfeito um mundo, a começar por aqueles homens rômbicos [e] mal feitos para encaixar porque nenhum mundo pode ser perfeito se não tiver lugar para homens imperfeitos. Lá encontramos as dúvidas e as inquietações do padre Daniel, tão novo e [com] um mistério tão grande para explicar. Dividido entre um amor impossível e a obrigação de apascentar o rebanho, este pastor de uma paróquia pequena mas devota, como são quase todas as terras onde os homens morrem só de ganhar a vida, jamais conseguirá ultrapassar a dúvida que o assalta uma e outra vez: pode Deus estar certo e mesmo assim não existir? Ele, que humildemente pedirá ao proscrito que um dia lhe perguntou se Deus é como dormir abrigado do vento, que o ensine a pescar, há-de, num acesso de lucidez, confessar-lhe que tem as mãos cansadas de cruzes, fartas de benzer e lançar terra. Lá encontramos os demónios que nos apoquentam: os que se escondem no breu deixado em cada rotação do farol por aquela luz que os homens do mar sabem ler e onde vêem deuses favoráveis, mães e mulheres e o calor que lhes falta, e os que se acoitam na cabeça do pequeno Frederico e lhe ditam as histórias que ele conta com desenhos: cavalos e homens com espadas, céus cor de laranja e mares encapelados. Lá se encontram aqueles que se isolam, que fogem sempre, até que um dia, olhando o mundo, vêem o que nunca tinham intuído e, tal como o jovem David, juram promessas de conversão: Um dia há-de deitar-se cedo e acordar fresco […] Passear junto ao mar, cumprimentar os pescadores e comer pão quente na padaria. Lá encontramos tudo isso e encontramos também a personagem magnífica de Marco Moço, todo cheio de filosofias, construindo um instrumento de imitar a memória enquanto vai imaginando um mundo onde os deuses se pudessem dispensar e todos construíssem máquinas loucas na cave: um motor para retardar o tempo, um projector de sonhos, um realejo que cante poemas sempre novos, um telescópio para olhar o passado, uma máquina de fazer marés. Moço, que podia bem ser um deus se o mundo encolhesse até ao volume do prédio onde vive, com os materiais que o mar cada dia restitui à praia, madeira e ferro e também latas, cordas, plásticos, ramos secos, sapatos, porque tudo se pode encontrar por onde os homens passam, sem pressas, porque as memórias fazem-se de tempo, vai acertando a sua máquina prodigiosa de brisas e tempestades. E encontramos as mulheres, a viúva do Calvinista que, já idosa, Marco Moço e a máquina prodigiosa resgatarão a uma vida de recordações que a trazem manietada e também Manuela dividida entre o prazer do chocolate e o dever fastidioso da casa e do trabalho, olhando, um dia, o espelho na esperança que este não lhe exagere a idade e Constança que sabia de ciência certa que a mama, as fraldas, as roupinhas de criança e as reuniões de trabalho do marido lhe iriam arruinar o casamento porque os homens são também crianças, passam a vida à procura das mulheres sem saberem que o que lhes falta está metido dentro delas. Soubessem eles quantas mulheres dormem dentro de cada uma delas… mas não sabem. E encontramos ainda outras mulheres, Beatriz, a desgraçada Beatriz que morrerá sozinha no meio de toda a gente, e todas as outras, todas as mulheres do mundo que não diferem muito da São, a peixeira que um dia ofereceu uma saca de peixe ao padre Daniel: se gostar dos bichos reze pela minha alminha. O pastor aceita os peixes e talvez pense nesta sabedoria primordial das mulheres que deixa aos homens a manutenção do sagrado, os ritos e as palavras com que se fala a Deus, mas é a voz delas que fala na sua, são seus os rogos e graças, só elas Lhe sabem falar a modo. Parafraseando um tal Mau-Tempo, este livro fala de todos estes e de muitos outros de quem não sabemos os nomes mas conhecemos as vidas. E durante oito dias, debaixo de um pedaço de céu, os sonhos e os pesadelos, a integridade e a vilania, a alegria e a tristeza, a tolerância e o rigor, o jugo e a libertação, o sagrado e o profano, os deuses e os demónios, o céu e a terra.

16 junho 2013

A IMPORTÂNCIA DE SABER REGRESSAR

Costuma dizer-se que nunca devemos regressar a um lugar onde já fomos felizes. Está claro que este é um dito como outro qualquer. Um político, se lhe fosse pedido um comentário sobre esta expressão, desbobinaria a narrativa - engraçado, desde há uns meses a esta parte, sempre que utilizo esta palavra "narrativa" vem-me à memória um certo figurão que um dia desembarcou por cá vindo de Paris (da Sciences Po de Paris, assim é que é) e desatou a disparar narrativa a torto e a direito. E de tal modo o fez que agora, sempre que penso utilizar o termo, dou por mim a procurar sinónimos. As palavras, sei-o agora, não são seres inanimados: desengane-se quem assim pensa. As palavras têm vida própria e, tal como qualquer mortal, são prejudicadas quando as companhias com que privam são pouco recomendáveis. A narrativa é um caso paradigmático. Há-de passar ainda muito tempo até que seja reabilitada – desbobinaria a narrativa, dizia, que utilizaria se a pergunta fosse sobre as últimas sondagens: enfim, essa expressão vale o que vale - diria.
Voltando, então, ao lugar onde já fomos felizes: parece-me que, as mais das vezes, dá-se a esta frase uma interpretação linear. Por ignorância ou por má fé, alguns querem ver aqui a proibição do regresso ao lugar da felicidade: nada disso. A frase pretende, tão só, avisar-nos que nunca devemos esperar encontrar esse lugar onde já fomos felizes porque esse lugar já não existe. Desde logo porque quando lá regressarmos já seremos outros. A frase, não pretendendo proibir-nos o regresso, longe disso, pretende, isso sim, ajudar-nos a evitar o desconsolo que um segundo olhar pode trazer. Por isso, quando oiço pessoas a dizer que a frase é uma parvoíce, vejo que não entenderam nada.
Regressemos, então, e agora para ficar, ao que nos trouxe aqui: "O retrato da mãe de Hitler", o último romance de Domingos Amaral. Há seis anos o autor deu à estampa "Enquanto Salazar dormia" que, não sendo uma obra que tivesse impressionado a Academia Sueca, era, mesmo assim, um livro muito agradável de ler. Talvez encorajado pelo êxito desse romance o autor decidiu agora voltar à Lisboa dos espiões da 2.ª guerra que tanto o tinham feito feliz há seis anos. O romance é, ou pelo menos pretende ser, a continuação do anterior, mas, terminada a sua leitura, fica-se com a sensação que o autor tinha ficado com bastante material não utilizado no romance anterior e, em vez de o atirar para o local apropriado, compilou-o e fez um livro. Além da forma original mas pouco verosímil da narrativa – agora não consegui fugir-lhe – o livro não traz nada de novo: já tudo tinha sido dito no anterior. Tivesse Domingos Amaral consultado Luisinha, a filha rebelde do general situacionista, apaixonada pelo espião, e esta, da mesma forma que tinha declarado, ao olhar para a sua fotografia num passaporte falso que lhe permitiria sair do país quando a PVDE estava quase a apanhá-la, «Pareço a Joana Fontaine em Rebecca», diria que o remake era de evitar porque, além de criar a sensação de requentado, era sempre pior que o original. E diria mais: diria que podia sempre regressar a quarenta e dois mas nunca esperando encontrar os locais, as pessoas e as ideias inalterados, porque o tempo era já outro.
Mas não consultou e por isso, o regresso, foi, pelo menos para mim, uma desilusão.

11 março 2013

"... ESTA DESGRAÇADA CIDADE DE LISBOA"


Um dia, teria já ultrapassado os setenta anos de idade, Torga dispôs-se a ler as aventuras de Júlio Verne. Faz-nos esta confidência em princípios de 1983 num dos seus diários. Todavia, apressou-se a dizer, sobre o humorista da imagem, como gostava de apelidar o grande escritor francês, que se este não lhe tinha povoado de aventuras a infância, obrigada a contentar-se com as histórias da senhora Maria Ambrósia, tinha enriquecido de franca alegria algumas horas da sua velhice. Vem isto a propósito de Giacomo Casanova, o aventureiro - perdoe-me Dr. Mega Ferreira o ligeiro epíteto que prodigalizo ao Veneziano -, que um dia desembarcou em Lisboa com insondáveis incumbências e por cá andou durante uma meia dúzia de semanas, afortunadamente livres nas suas memórias, até que o secretário Sebastião de Carvalho, irritado pela descoberta da sua rocambolesca fuga das prisões do Doge, lhe deu vinte e quatro horas para deixar o reino. Casanova, sei-o agora, foi muito mais do que aquele marialva, imagem que a história, ciosamente, dele guardou. Eu, que como o poeta, preenchi a infância e a juventude com outros negócios que talvez me tenham estreitado a visão, prometo, a partir de agora, olhar, também, para fora da alcova do Veneziano.
Num certo olhar o livro “Cartas de Casanova, Lisboa 1757” parece ser um cru relato da situação vivida no país durante um dos mais negros momentos da sua história: o terramoto de 1755. Casanova, que se evadiu da prisão na madrugada de 1 de novembro de 1756, precisamente um ano após o grande sismo, para se refugiar em Munique, quando desembarcou em Lisboa, passados que eram cerca de dois anos após o desastre, ficou horrorizado com a visão da tragédia que tinha atingido «esta desgraçada cidade de Lisboa». Pouco depois da chegada, em carta enviada ao irmão, confidenciaria que «mal podia imaginar, naquela noite de novembro de 1755 em que as paredes tremeram na prisão de Veneza e […] por momentos desejara que o abalo acabasse por derrubar as barreiras que [o] separavam da […] tão desejada liberdade, a extensão horrorosa da catástrofe…». Durante as seis semanas que por cá permaneceu, Casanova, vai contando, nas seis cartas que enviou a cinco destinatários diferentes, as suas impressões. Ora sobre a tragédia: «o que se apresentava aos meus olhos era, em muitos aspectos, muito mais horroroso do que as minhas piores conjecturas permitiam imaginar», ora sobre a extrema religiosidade que coava as luzes que iam iluminando essa Europa, atribuindo o bem e o mal aos insondáveis desígnios do senhor e deixando que «as coisas tomem o seu curso normal segundo a vontade divina que é rápida a castigar e lenta a conceder o perdão». Impressionou-se com as desigualdades chocantes sempre que testemunhava as autênticas paradas de elegância, «que bem podia sugerir estarmos nas imediações de Fontainebleau, não se desse o caso de a ostentação proporcionada pelo quadro […] ser tingido pelas legiões de mendigos e estropiados […] à procura de uma esmola que lhes salvasse o dia». Pelo meio vai perorando sobre a qualidade dos nobres portugueses «de pouco mundo e nenhumas luzes» que acha incultos, rudes, supersticiosos e desconfiados, vivendo para as montarias, o jogo e as touradas e ainda arranjou tempo para verificar a boa saúde das filhas mais novas do banqueiro Teixeira, separadas pelo sismo, testemunhar a exclusiva encenação da corte na grade do convento de S. Dinis em Odivelas onde «metade dos marqueses condes e barões» cortejam «as filhas segundas de todas as casas nobres, as suas primas, as suas irmãs, as suas amigas» e, como director da lotaria de Paris, chegar à fala com o «sedentário ministro» Sebastião de Carvalho.
Casanova, viajante incansável, foi um apetrechado escritor: “Histoire de ma vie”, uma obra de fôlego em doze volumes, aí está para o provar. Privou com as mais reputadas figuras europeias do século XVIII. Frequentou os círculos eruditos da época e deu largas à sua paixão pelo jogo. Foi, ao que parece, um violinista mais que aceitável, note-se que foi nessa qualidade que logrou «vencer a barreira até então intransponível do poderoso mosteiro» de Odivelas onde se inteirou da sorte das filhas mais velhas do banqueiro Teixeira. Foi isto tudo mas é da sua faceta de sedutor que a história dele guardou as mais abundantes evidências. Não se pense, no entanto, que neste particular a história lhe foi lisonjeira: não senhor; ele fez por merecê-lo. Pela sua pena, ficamos a conhecer o desenlace de algumas das suas empresas que, durante a breve estadia entre nós, levou a cabo. Nas cartas que escreve vai entremeando o relato formal do andamento das incumbências que cá o trouxeram com novas mais mundanas. Na primeira carta conta à Condessa Coronini que não conseguiu ficar indiferente à presença de uma jovem de longos cabelos louros apanhados à francesa e olhos castanhos como avelãs brilhando por detrás de longas pestanas. Na segunda, descreve ao irmão, a viagem de Marselha até Lisboa por mar e a instalação na hospedaria. Contava-lhe que a criada, que não teria mais de quinze anos e era de compleição agradável, apressou-se a trazer uma selha para o banho e duas ou três vasilhas com água quente. Depois, com muito cuidado, tirou-lhe o barrete que usara na viagem, e que estava praticamente inutilizado, e ajudou-o a despir-se. «Fosse o à-vontade da rapariga, ou porque a água quente viesse restaurar os bons humores na minha circulação, o meu corpo deu sinais exuberantes de ter regressado à vida», disse. Na terceira carta, endereçada a uma misteriosa freira que se pensa ter sido Marina Maria Morosini, começa por relembrar «esse ano memorável em que nos tornámos amigos e amantes» para terminar contando-lhe as aventuras na quinta de Madalena Fróis, prima de Correia Garção - que Casanova, nunca escondendo a aversão que o poeta lhe causava, tratava por Garçon -, ensinando à sua filha, Clara, «uma adorável vestal de catorze anos […] que os olhos não podiam cansar-se de admirar, […] tudo o que possa despertar nela o gosto pelos prazeres da vida». Para terminar, na sexta carta, conta ao senhor de Bernis, ministro de Luís XV, a partida apressada deste reino de Portugal, num reluzente coche de oito molas, na companhia da bela sevilhana Inês de Cantillana, afastando-se, avisadamente, do longo braço do ministro Carvalho, «o homem mais poderoso de Portugal». E só não transmitiu novas mais da sua condição na quinta carta porque o seu génio impulsivo e destemperado o traiu e na quarta, absorvido que estava a contar a Matteo Bragadin, senador da República de Veneza, o minucioso trabalho de aproximação à corte do rei José e do seu todo-poderoso ministro Sebastião de Carvalho.

31 dezembro 2012

CONTO II


Capítulo II
NO TEMPO EM QUE NÃO HAVIA INTERNET NEM PLAYSTATION


A gaveta fechou-se com estrondo e eu fiquei completamente cega. Que saudades do marçano lá da loja, da delicadeza com que abria e fechava as gavetinhas minúsculas de plástico transparente dos mostruários, do cuidado com que nos manuseava, da sensibilidade e orgulho com que nos mostrava aos clientes e lhes falava de nós. Que saudades... Aqui no escuro, sozinha, consigo, por fim, compreender o que li há já muito tempo, li que “a saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora”. Lembro-me que foi num livrinho pequenino mas não me lembro do autor. Talvez nem o tenha conseguido ler, como acontecia muitas vezes, mas estas palavras tão poéticas, que agora me vêm direitinhas à memória, só podiam ter sido escritas por uma pessoa sensível. Naquela altura achei-as bonitas, por isso as recordo, mas não lhes dei uma especial importância, mas agora, aqui fechada, nesta solidão, consigo perceber o que a menina - acho que era uma menina que o dizia - sentiria ao dizê-lo.
Quando comecei a habituar-me à escuridão, que um fiozinho de luz, entrando pela frincha da gaveta, ia combatendo, comecei a perceber que, afinal, não estava sozinha. Antes de mim já outras três tinham tido a mesma sorte, atiradas para a gaveta ainda dentro da caixinha de plástico. Por que não teriam falado? Por que não me teriam dado as boas vindas quando me arremessaram para a gaveta e eu não via nada? “Olá! Não falamos antes porque, entre nós, decidimos que não o faríamos. Quem chegasse teria uns momentos de recolhimento, digamos assim, para se aperceber, talvez devesse dizer para se conformar, da sua nova vida e então, quando o breu desse lugar à penumbra, poderíamos, conversar.” Foi uma bela caneta, toda em madrepérola, quem assim falou. Parece que tinha ouvido os meus pensamentos. “Olá!” respondi.
Dali a pouco ouvimos passos e pouco depois a frincha apagou-se. Agora não passávamos de ténues silhuetas. O barulho da casa foi baixando a pouco e pouco até que se instalou o silêncio. “A parte do dia por que esperamos ansiosamente. Embora quase não se consiga ver podemos falar à vontade e rir às gargalhadas das histórias que contamos. Conta-nos a história de que falaste ontem, caneta primeira” disse a madrepérola. “Caneta primeira?” - admirei-me. “Sim. Decidimos que ficaríamos conhecidas pela ordem em que cá chegamos. Eu, por exemplo sou a caneta segunda, e tu serás a caneta quinta!”. “Caneta quinta? Mas só cá estamos quatro! Porque terei de ser a quinta?” - contestei. “Serás a caneta quinta porque foste a quinta a cá chegar. Talvez não tenhas reparado mas ali ao fundo está a que chegou antes de ti, a caneta quarta”. Então é que reparei. Ao fundo da gaveta lá estava. Embora com dificuldade conseguia-se adivinhar uma caixa ainda meio coberta pelo papel de fantasia Estava ali outra de nós. Talvez a mais taciturna de todas, por isso não tinha ainda dado por ela. “Conta então a história de ontem, segunda” - tornou a madrepérola.
Passou-se já há bastante tempo – começou – por isso pode ser que alguns pormenores não tenham sido rigorosamente como vou contar mas não alterarão, com toda a certeza, a história. Um dia, vi chegar dois clientes. Não tenho grande jeito para adivinhar idades mas não errarei muito se disser que um tinha já passado, há muito, o meio século, o outro era bem mais jovem, talvez filho, ou mesmo neto. Olhavam para nós e iam fazendo comentários acerca do que iam vendo. O mais velho era o que mais falava. Estava constantemente a mostrar ao mais novo pormenores em que, confesso, nunca tinha reparado. De repente, acerca-se de uma bela caneta com aplicações de ouro no aparo, faz um ar pensativo, e começa a recordar: 
Caneta de aparo... aparos … deixa-me sonhar um bocadinho. Aparos, trazem-me à memória a pena, uma chapinha bicuda com rabinho de “pau” que, a espaços que se contavam pelo número de letras escritas num azul retinto, se mergulhava no tinteiro branco de cerâmica embutido no meio do tampo da carteira com assento de dois lugares, onde, putos ainda, nos sentávamos. As calças remendadas, calçados com chancas ou com socos, com “solas” em madeira de freixo e cobertura de duro couro de boi, mas não tão duro que os pés o não conseguissem moldar, ainda que com alguma ajuda do sebo com que o esfregávamos para o impermeabilizar e não deixar entrar a água da chuva ou das poças do caminho que teimávamos em não contornar. Na carteira se aperfeiçoava a caligrafia e se treinava a aritmética. Na carteira nos espantávamos com a valentia dos antepassados e a imensidão do império. Na carteira se levava “bolos” com a palmatória de furinhos e se pendurava, a escorrer, o saco de serapilheira, que depois de transportar cinquenta quilos de batatas de semente Arran-Banner ou Arran-Consul ou mesmo de Portalegre, menos cosmopolita, é certo, mas batata da nossa, servia para nos abrigar da chuva. Sim, porque o guarda-chuva, de grosso pano preto com cacheira de madeira e varetas maciças que davam ótimos instrumentos para jogar ao espeto, não era coisa de crianças, ou melhor, não era coisa para todas as crianças. A chapinha bicuda ou aparo, parecido com aquele que nos causou pavor quando éramos pequenos e nos riscaram o braço, logo abaixo do ombro, que nos deixou para sempre uma cicatriz como prova da nossa vacina contra o sarampo – sarampo, sarampêlo, sete vezes vem ao pêlo. Foi também a primeira forma de tatuar que conheci quando espetei no joelho, um, carregadinho de tinta.
À memória vem-me ainda a minha primeira professora, que mandou o meu pai comprar a minha primeira pena e com ela me ensinou caligrafia no caderno de duas linhas. A Dona Fernanda era uma simpática velhinha. Seca de carnes, vestia sempre de preto, um comprido casaco com uma textura em bordado de alto-relevo e tom brilhante, que apenas deixava espreitar uns sapatinhos de salto baixinho como ela, parecidos com os da Minie ou da Olívia Palito, figuras fantásticas que nos faziam sonhar quando éramos pequenos. Líamos e relíamos as histórias aos quadradinhos, nas revistas que os filhos do senhor Coutinho, aquele que construiu o prédio onde antes era o Mercado Municipal e que agora querem deitar abaixo, nos davam para passar o tempo. 
Não havia internet nem playstation e televisão só no café da Tia Lina. As contas e as redacções eram feitas numa pedra fininha de xisto cinzento, a lousa, que se partia quando caía ao chão e só ficava pretinha quando as oliveiras tinham azeitonas maduras. Esfregávamos e besuntávamos a nossa lousa, que ficava com o cheiro da carroça do azeiteiro da ponte quando levava a "venda" às casas da aldeia. Mas o que nos faltava em tecnologia sobrava-nos em engenho. Roubavam-se lá em casa os preciosos rabos de bacalhau que atados a um fio barbante eram o isco perfeito para apanhar dúzias de caranguejos no Poço Pescadouro. Finda a pescaria preparava-se a confeção: sobre um molho de caruma colocavam-se os pobres crustáceos que, parecendo adivinhar a sua sorte, faziam tudo por fugir antes que o lume os assasse. Aqueles que o conseguiam não poderiam vangloriar-se da façanha por muito tempo pois logo uma mão providencial aparecia para o devolver ao seu lugar. Quando não íamos à pesca inventávamos sofisticadas ratoeiras para apanhar pardais ou então atacávamos os pomares. Com um misto de fome e de vontade de aventura, escalávamos os altos muros da quinta do Ganhão para roubar as apetitosas maçãs que, de outro modo, dificilmente provaríamos. Os mais corajosos de entre nós metiam-se noutras aventuras bem mais temerárias. Noite cerrada, amoitavam-se na leira do Vieira munidos de pesados torrões esperando pelo cabo da Guarda Nacional Republicana que haveria de passar por ali montado na sua pachorrenta Famel Zundapp a caminho de casa. Durante o dia, quando passava na estrada, com a farda cinzenta e aquele redondo capacete de chapa e a grande espingarda Mauser, com uma assustadora baioneta que brilhava ao Sol, pousada no quadro da bicicleta, aterrorizava quem com ele se cruzava. Agora que não tinha a ajuda da farda iria pagá-las. O barulho da fumarenta Famel quando descia os Carregais era o nosso sinal. Três minutos de tensão, medo e coração a bater, até se ver a luzinha a sair da curva do Vieira. Então, era só esperar uns segundos até que se encontrasse no nosso raio de ação e toca a despejar as “munições”. Depois era fugir pela noite dentro, atravessando o rio da Fonte Grossa, pelos carreiros que se conheciam de cor e esperar em silêncio, quase sem respirar, no meio do centeio ou do azevém, não fosse o homenzinho ter coragem para nos perseguir no escuro.
Lembro-me agora que a Dona Fernanda usava sempre um barrete à Cossaco, tal e qual como o daqueles homens da Tundra que caçam lobos, lebres e raposas com ajuda de uma águia. Ela não caçava lebres nem raposas e muito menos lobos, mas fazia muito mais do que isso: mantinha na mesma sala uma “alcateia” em silêncio, das nove às três, com quarenta “lobos e raposas” dos sete aos catorze, e, da primeira à quarta classe, ensinando a todos as contas, a leitura, a história, a geografia e a caligrafia com a pena de aparo. Chegava todos os dias às oito e meia na camioneta de carreira do Sordo. Saía na paragem do Lima e às três e meia partia na mesma camioneta, rumo a casa, ali para os lados da Bandeira.
Aparo, pena, Dona Fernanda… quantas recordações que pensava estarem completamente esquecidas…
É do que me lembro. O contador recordava com tal prazer a história que, de quando em vez, eu via muito bem, os seus olhos brilhavam. O mais novo, esse, não desviava os olhos do outro. Quase nem pestanejava. Parece que tinha medo de perder alguma peripécia da história.
Bom, já é tarde - disse a madrepérola -, ficamos por aqui. Amanhã continuamos...


Depois do primeiro capítulo publicado há cerca de um ano, este foi, digamos assim, escrito a duas mãos. Só conseguiu ver a luz do dia com a prestimosa ajuda do meu irmão Chico. Vamos lá pensar no próximo. Quem se chega à frente?

29 dezembro 2012

BOM ANO



Quem nos pôs aqui sabia muito bem o que estava a fazer. Senão reparem: podia ter-nos posto em Mercúrio. É tão telúrico como nós. Mas não o fez. Se fossemos lá colocados, a cada oitenta e oito dias, nem sequer a cada trimestre, a cada oitenta e oito míseros dias, lá estávamos nós a desejar tudo de bom, como agora se diz - não sei aonde vai o pessoal beber estas modas; é quase como os políticos e os locutores de televisão que dizem «Há cinco anos atrás…» ainda gostava de saber como será há cinco anos à frente – bem, dizia eu, desejar tudo de bom a toda a gente. E isso cansava. Era dizer quatro vezes por ano – ano dos nossos, claro - a mesma coisa. Imagine-se o pessoal a comer as passas e a desejar a queda do governo e ter, ainda que na pior das hipóteses, de repeti-lo por dezasseis vezes antes do dito cair. Uma eternidade. Não dá. Além da caloraça que por lá faz – muito pior que na Amareleja - a vida tornava-se muito repetitiva. Tão repetitiva e enfadonha que o Manuel de Oliveira estava por estes dias a fazer quatrocentos e trinta e dois anos; notem bem, quatrocentos e trinta e dois. Assim não dá. Risque-se Mercúrio!
Podia, então, ter-nos posto em Marte. Ficaríamos mais aconchegadinhos, é certo, porque o condomínio é bem mais acanhado, mas até dava jeito para combater o frio que por lá iríamos rapar. Mas não nos pôs. E fez muito bem! Seria uma seca ter de esperar quase dois anos dos nossos para desejar tudo de bom aos amigos. Imagine-se ter de esperar dois anos para pedir a queda do governo… É verdade que se poupava em passas mas não compensava o que se gastava em tédio. Note-se que lá o Oliveirinha dos filmes era ainda um jovem de pouco mais de cinquenta anos. Demasiado parado: risque-se Marte!
Podia ainda ter escolhido Plutão mas ainda bem que não o fez. Primeiro porque não iríamos ganhar para aquecimento e depois porque haveria de chegar – como chegou – a altura em que os sábios da astronomia haveriam de desclassificá-lo e seria de muito mau gosto a gente viver num planeta que, veio a saber-se mais tarde, não passava de um plutóide. Assim mesmo, plutóide, que, para todos os efeitos, não passa de uma forma gentil de dizer que agora Plutão é um calhau.
De modo que, riscando-se também Plutão e subtraindo os gasosos, o que sobra? Pois é, quem nos pôs aqui sabia, realmente, o que estava a fazer. É o sítio ideal. O único onde um “ano” vale precisamente um ano, nem mais, nem menos. E um ano, todos o sabemos, nem é demasiadamente curto nem excessivamente longo. É por isso que, no dealbar de um novo ano, cá estou eu a desejar que os teus sonhos se realizem e os teus pesadelos se não cumpram.


Vamos agora dar a palavra a quem, realmente, merece. Carlos Drummond de Andrade dizia isto muito melhor do que eu digo:

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante,
vai ser diferente.