02 junho 2007

DESERTO DE IDEIAS

Toda a gente dá por sabido que no dito deserto vivem muitos espíritos que produzem nos viajantes grandes e surpreendentes ilusões para os fazerem perecer […] e muitos, não tendo sido avisados da existência destes espíritos, perecem de mala morte
Marco Pólo, O Livro das Maravilhas, 1298
Citado por ABC dos Desertos, Público

Estava para não falar disto mas, depois de tantas atoardas, decidi-me. Um dia destes, o ministro das obras públicas foi à televisão – pelos vistos desdobrou-se pelos canais todos, ou quase todos. Com aquele ar rústico e aquela forma bronca de dizer as coisas, que o caracteriza, foi explicar as últimas embrulhadas em que se meteu. Foi uma perda de tempo. Deveria saber que não é possível explicar o inexplicável.
Começou pelo deserto. Basicamente quis dizer que um aeroporto deve ser construído o mais próximo possível do maior número dos futuros potenciais utilizadores. Todos estaremos de acordo. Desgraçadamente, o ministro não quis dizer essa verdade insofismável de um modo assim tão cru e toca a florear o texto. Para arruinar ainda mais as coisas teve a infeliz ideia de pelo meio, fazendo lembrar uma personagem misógina da nossa praça, bradar alto e bom som “na margem sul jamais!”. Como ninguém o ensinou que texto com flores não é para quem quer, mas para quem pode, o ministro Lino tem sido, após essa infeliz intervenção, alvo da chacota da nossa classe política de todo o espectro Este-Oeste, essa sim, vivendo num deserto de ideias, para não falar dos autarcas da margem Sul que, afivelando a sua melhor cara de despeito, têm vindo a terreiro exigir as desculpas do ministro. Enfim, um regabofe. Cabe aqui dizer que seria criminoso construir um aeroporto num local que estudos sérios não aconselhassem mas, reduzir a discussão ao deserto da outra margem.
A outra embrulhada que teve de explicar foi a da sua inscrição na ordem. Aqui, amigo Mário Lino, pode dizer que foi o bastonário que, na primeira fila lhe fazia olhinhos, o levou a dizer o que disse, que eu não acredito. O senhor disse que era engenheiro inscrito na ordem porque o país andava há dias a divertir-se com a novela do percurso académico de um outro engenheiro - gostaria era de ver a cara desse outro ao ouvir isso. Diga o que disser, nem Freud me convenceria do contrário.

6 comentários:

citadinokane disse...

Carlos,
Peloamordedeus, tem uma pergunta para ti lá no meu blog, responda por favor!!!
Abraços,
Pedro

Anónimo disse...

Toma lá cuidado porque, a postar estas ideias subversivas, um destes dias ainda te acontece como o professor Charrua…
Mas já que estamos com a “mão na massa”…convém não te esqueceres que, outro cavalheiro, veio rapidamente justificar a impugnação com a crueza dos factos … “ as pontes podem ser dinamitadas!!!”. Com este argumento irrefutável calou toda a gente, essa é que é essa…! Confessa, alguma vez te ocorreu este cenário tenebroso? …alguma vez te passou isso pela tola? Jamais!! Jamais!!!

Beijos

Helena Guerreiro

Laurentina disse...

Daquelas intelejumências só se poderia esperar aquilo mesmo...
Bom fim de semana.
beijão grande

Tozé Franco disse...

Todos os dias de manhã ouço falar das filas nas pontes do Tejo. De onde virão? Serão tuaregues? Tantos? E onde estão os camelos? A dar conferências de imprensa? Tantas perguntas sem resposta.
Um abraço.

olho_azul disse...

Talvez deserto seja o cérebro de uma certa pessoa... deserto de neurónios!
Um abraço

Laurentina disse...

ATENÇÃO AO QUE SE ESTA A PASSAR AO BLOG PORTUGAL PROFUNDO...É URGENTE SOLIDARIEDADE PARA COM ELE NESTE MOMENTO ...
BOM FIM DE SEMANA
BEIJÃO GRANDE