24 outubro 2009

O REVISOR SARAMAGO

Quando, anteontem, vi o Saramago com aquele seu estilo patusco de esganarelo perorar sobre os malefícios que a leitura da Bíblia pode causar nas criancinhas e invectivar o Deus sanguinário e vingativo dos cristãos, veio-me à memória uma célebre tirada de um antigo primeiro ministro. A coisa passou-se, se a memória não me atraiçoa, na primeira metade da década de noventa do século passado. O dito primeiro-ministro nutria pelo Presidente da República de então um ascoroso ódio de estimação, no que, diga-se de passagem, era correspondido. Quando o mandato do presidente se aproximava do fim o primeiro-ministro, querendo dar mais uma ferroada no rival, dizia e repetia: "- Vamos ajudar o senhor Presidente da República a terminar o seu mandato com dignidade".
José Saramago, que é um escritor maravilhoso, que cá deixará pérolas como “O Memorial do Convento”, ou “Levantado do Chão”, ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, só para citar alguns, que ganhou um mais que merecido Nobel da Literatura, que na Academia Sueca, diante do Rei Carlos Gustavo, proferiu o mais belo discurso que aquelas vetustas pedras já ouviram e que começava assim: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”, José Saramago que criou personagens admiráveis como Baltasar e Blimunda, José Saramago que construiu tudo isto não conseguiu, ainda, ver que nem mesmo um prémio Nobel tem que ter sempre opinião sobre tudo. E vai daí continua com aquela sua mania irritante de tecer aquelas opiniões definitivas sobre tudo e sobre nada. Com a idade esta mania vai-se acentuando e as suas palavras que eram escutadas com deferência começam a ser uma maçada. A continuar assim e com certeza não faltará muito até que ouçamos: “- Vamos ajudar o Saramago a terminar os seus dias com dignidade”.
Ou será que Saramago, qual Raimundo Silva, revisor d’A História do Cerco de Lisboa, cansado de ver como a História cada vez é menos capaz de surpreender, decide pôr no lugar de um "sim" um "não", subvertendo a autoridade das "verdades históricas”?

9 comentários:

Helena Guerreiro disse...

Oh Ponte, a senilidade atinge também os nobilitados!
Olha, que Deus lhe perdoe se for capaz (sim, que este Deus da bíblia também não é flor que se cheire…).

Tozé Franco disse...

Olá Carlos.
Gosto de alguns livros de Saramago, mas parece-me que se excedu, ou talvez não, porque segundo me parece tudo não passou de um golpe publicitário.
Um abraço

Anónimo disse...

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Eu bem me esfalfo em tentar ler, do princípio ao fim, alguns livros do Saramago, que vou comprando.

Mas, que não sei o me dá, ainda não o consegui fazer. O que será que se passa comigo?

Um abraço, Carlos Ponte

António

Pires de Lima disse...

Olá, Carlos!

Leio e (re)leio Saramago com o mesmo encantamento de um primeiro livro. Para mim, há dois escritores contemporâneos maiores da Língua Lusa: Saramago e Mia Couto. Quanto a Saramago, prémio Nobel por real mérito, considero-o um ilustre embaixador da Língua de Camões, Pessoa, Cesário, Almeida Garrett... Não lê Saramago quem quer,lê Saramago quem pode, ou seja, para se ler Saramago é necessário ser um leitor competente. Só quem tem uma maturidade literária como Saramago escreve como ele escreve. Basta ler "Levantado do Chão", "O Homem Duplicado" ou o fabuloso livro "As Intermitências da Morte" para compreender isso. Alguma vez algum escritor escreveu algo tão fabuloso acerca da morte como Saramago faz no último livro citado? Como afirmas, já mais alguma vez a Academia Sueca ouvirá proferir tão belo discurso "que aquelas vetustas pedras já ouviram" Esse era um texto que, obrigatoriamamente, lia aos meus alunos do secundário pela beleza das palavras e da eloquência. Saramago é um GRANDE escritor é só a um GRANDE escritor é permitido afirmar certas realidades como faz Saramago. Saramago não está senil, Saramago atingiu uma maturidade literária que algum escritor dificilmente atingirá. Há poucos dias, ouvi e vi uma entrevista dada a um canal espanhol por Saramago e fiquei fascinado com a lucidez daquele HOMEM e pela beleza das suas palavras!

Pires de Lima

Carlos Ponte disse...

Olá Zé Carlos!
Obrigado pela visita e pelas palavras que deixaste. Sobre o conteúdo, concordo contigo, quase por inteiro. E digo quase porque o Mia Couto… bom, confesso que acho que exagera naquela sua forma inventiva de escrita, digamos assim, e quando começo a lê-lo, não consigo apreender metade do conteúdo. Talvez os meus fracos mecanismos mentais sejam absorvidos pela descodificação da sua linguagem e depois, claro, faltam onde não deveriam faltar. Bom mas prometo que voltarei em breve ao Mia Couto. Sobre o Saramago: inteiramente de acordo! O “Levantado do Chão” é uma obra fantástica da primeira à última frase. Embora aprecie, bem mais, a sua obra até ao “Ensaio” continuo a concordar contigo. Há apenas um pormenor que parece que ficou apenas insinuado no teu comentário: quando dizes, “Há poucos dias, ouvi e vi uma entrevista dada a um canal espanhol por Saramago e fiquei fascinado com a lucidez daquele HOMEM” estás, realmente a dar a tua opinião acerca da polémica de Penafiel? Isto é, achas lúcida a sua interpretação linear da Bíblia, vinte ou mais séculos depois de ter sido escrita?
Entretanto espero que estejas a passar um Bom Natal.

Fernando disse...

O Zé não pode ter opinião, mas os outros podem?

Então aquele Deus não é flor....

isto não entrasr no jogo que criticamos?

Carlos Ponte disse...

Qual Zé, Fernando? O Pires de Lima?