13 janeiro 2007

MÁS-LÍNGUAS

Há alguns anos abriu em Viana um simpático cafezinho a que foi dado o nome de Amarillo. Recordo-me que a primeira vez que vi o nome gravado nas vitrinas me lembrei da Amarillo das revistas e dos filmes de cowboys e dos duelos na rua principal debaixo do sol impiedoso do meio-dia. Isto, numa altura que uma certa família ainda não tinha trazido má fama ao Texas.
Apesar de por vezes a música parecer uma Techno Parade, gosto de, uma vez por outra, sentar-me um pouco e ler o JN ou então o Público que a casa todos os dias põe à disposição dos seus clientes. Ontem, ao fim da tarde, fui ao Amarillo. Peguei no Notícias que estava livre e sentei-me a uma mesa. A música não incomodava – Techno não pode ser sempre – abri o jornal e comecei a ler. Na mesa ao lado, duas criaturas, professoras pelo que se depreendia das suas palavras, mostravam-se chocadas com a atitude de uma terceira, pelos vistos, das suas relações. Trejeito daqui, esgar dali, má-língua dacolá, lá iam apunhalando a amiga ausente.
Eu, ouvinte acidental de toda aquela conversa, lembrei-me de uma anedota que o meu amigo Aires me tinha contado algumas horas antes:
Na altura do Natal dois clítoris passeavam por uma rua da baixa admirando as montras decoradas para a quadra. Então diz um para o outro:
- Ouvi dizer que não consegues atingir o orgasmo?
- Olha filha, más-línguas! Más-línguas, é o que é!
Voltando às professoras. Alguém dizia, algures, que é a conversa das mulheres que faz girar o mundo. Começo a pensar que talvez tenha razão. Depois de um chorrilho de frases incompreensíveis – não porque ciciassem mas, simplesmente, porque falavam em simultâneo –, finalmente, uma começou a dizer algo que teve o condão de emudecer a amiga:
- Então não queres saber que foi para Paris nas férias do Natal e só veio ontem? Quase duas semanas depois de as aulas terem começado? E depois admiram-se da ministra fazer o que faz!
- Uma falta de responsabilidade intolerável! – gania a outra.
Não havia condições para ler. O tempo em que, estudante universitário no Porto, conseguia estudar no meio do ambiente atroador do Café Cenáculo, já passou há décadas. Agora, sem silêncio, tenho dificuldade em concentrar-me na leitura. Dobrei o jornal, voltei a colocá-lo no cesto e saí.
Pela rua ia pensando na conversa que desencaminhou a minha leitura: foi de férias e voltou quase duas semanas após o início das aulas!
Não, só pode ser má-língua das invejosas das amigas!

7 comentários:

olho_azul disse...

Pode ser más línguas, dor de cotovelo. Mas também pode ser um desabafo sobre uma situação que não é novidade: a classe docente parece ter umas certas regalias.
Estamos a ser acusados injustamente de muitas coisas, mas por outro lado há algumas que são verdadeiras. O problema está na forma como este assunto foi abordado, resultando assim num total descrédito da função docente. Em vez de más linguas, deveriam aparecer "boas línguas" que de forma unida limpassem a imagem do professor. Apesar de toda a conversa de ministra eu ainda acredito que seja possível.
Um abraço nortenho
PS Obrigada pela visita ao meu cantinho!

Helena Guerreiro disse...

Apre! Já não se pode estar calmamente num café, com uma amiga a expurgar as nossas frustrações, que há-de aparecer algum anónimo que à socapa, analisa com olhar censor as nossas acções, desprezando os poderes terapêuticos da maledicência. A má-língua é um exercício de catarse das nossas rotinas e uma prática para elevar o nosso ego: afinal sempre somos melhores do que aqueles que são alvo do nosso maldizer!
Quem nunca a praticou que atire a primeira pedra!

Tozé Franco disse...

Começa-me a parecer que seria bom que alguns "professores", quero acreditar que poucos, prolongassem as férias e não voltassem, para ver se davam descanso àqueles que realmente o querem ser....

Teresa David disse...

Achei muito curioso este texto pelo que demonstra da continuação da mentalidade pequenina e maldizente dos portugueses e da quase impossibilidade de fazer algo, que também adoro, que é presentemente ler concentradamente num café. Padeço do mesmo problema e já fiz mesmo uma busca insana pelos meus lados em todos os cafés dum canto possível para ler, e saí defraudada em todos os locais que visitei. As pessoaas gritam, a louça por detrás do balcão é tal chinfrim que não se sabe se estar a lavá-la ou a tentar parti-la toda!
Moral da história: resta o sossego dum canto em casa para pôr a leitura em dia.
Bjs
TD

prof disse...

Más línguas mesmo! Pelo menos ao dizerem que a "outra" faltou duas semanas. Se, no dia 13, o Carlos diz que ouviu essa conversa no dia 12 e as senhoras dizem que a colega regressou no dia anterior, julgo que ao trabalho (portanto, no dia 11) e as aulas tinham começado a 3, a professora faltou uma semana e não duas...

manuel neves disse...

Viva!

As más linguas, já são essência natural e cultural do nosso querido País. Alguém consegue imaginar Portugal sem a sua má linguasita?!
Essa dos professores é por demais evidente, e a dos médicos que receitam só por dá cá aquela palha?! ah!... e o Sr. Prior lá da Paróquia tem uma filha, quero dizer... dizem!...

Um abraço

Mikas disse...

HUm será???