13 fevereiro 2007

O NEW YORK TIMES DO ALBERTO JOÃO

Anteontem, quando as televisões mostraram o Alberto João, à saída da assembleia de voto, vociferar contra os de Lisboa – que estão a roubar a Madeira, que vão ter de responder em tribunal –, lembrei-me de John Rockfeller.
John Davison Rockfeller, nascido em 1839, foi um industrial e filantropo americano que juntou uma fortuna incomensurável – ganhar dinheiro é um dom de Deus, dizia. A cotações actuais, John D. valeria quase tanto como três Bill Gates. Antes de a sua empresa de extracção, refinação e comercialização de petróleo, a Standard Oil, ter sido desmantelada pelo governo com base na Lei Antitrust, recentemente aprovada, era responsável por noventa por cento de todo o petróleo que circulava dos Estados Unidos da América.
Conta-se – conta-o José Saramago n’O Ano da Morte de Ricardo Reis –, que para o fim da vida, Rockfeller morreu em 1937 com a provecta idade de 98 anos, enquanto a América se debatia, ainda, com as sequelas da grande depressão e na Europa os sinais do caos que se avizinhava eram já bem visíveis, o New York Times fazia todos os dias um exemplar único do jornal, falsificado de uma ponta à outra, só com notícias agradáveis e artigos optimistas para que o pobre velho não [tivesse] de sofrer com os terrores do mundo e suas promessas de pior.
O Jornal da Madeira, agraciado com 4,6 milhões de euros pelo Governo Regional do arquipélago, para manter o pluralismo na comunicação social, é o New York Times do Alberto João Jardim. Apenas com uma pequena diferença: na América foi o jornal quem tomou a iniciativa de publicar um número extirpado dos horrores e colorido de quimeras para não ferir os débeis ouvidos nem os baços olhos do ancião, na Madeira é o próprio que o manda fazer para que no dia seguinte, ao pequeno almoço, possa ler um jornal mondado das notícias que falam de uma democracia de opereta onde não há pluralismo ideológico nem pluralismo na comunicação social.

2 comentários:

Anónimo disse...

O texto é fino e elegante, mas também bom humor sibilino, com comparações metafóricas entre dois jornais e duas figuras, que se lê com agrado. Gostei e apreciei. Óptimo fim-de-semana.

Tozé Franco disse...

Gostei do texto.
Quanto ao jornal, também é um bocado meu, pois é sustentado com os nosso impostos.
Bem, mas isto é um cibano do "contenente" a falar.
Bom Domingo.