29 dezembro 2012

BOM ANO



Quem nos pôs aqui sabia muito bem o que estava a fazer. Senão reparem: podia ter-nos posto em Mercúrio. É tão telúrico como nós. Mas não o fez. Se fossemos lá colocados, a cada oitenta e oito dias, nem sequer a cada trimestre, a cada oitenta e oito míseros dias, lá estávamos nós a desejar tudo de bom, como agora se diz - não sei aonde vai o pessoal beber estas modas; é quase como os políticos e os locutores de televisão que dizem «Há cinco anos atrás…» ainda gostava de saber como será há cinco anos à frente – bem, dizia eu, desejar tudo de bom a toda a gente. E isso cansava. Era dizer quatro vezes por ano – ano dos nossos, claro - a mesma coisa. Imagine-se o pessoal a comer as passas e a desejar a queda do governo e ter, ainda que na pior das hipóteses, de repeti-lo por dezasseis vezes antes do dito cair. Uma eternidade. Não dá. Além da caloraça que por lá faz – muito pior que na Amareleja - a vida tornava-se muito repetitiva. Tão repetitiva e enfadonha que o Manuel de Oliveira estava por estes dias a fazer quatrocentos e trinta e dois anos; notem bem, quatrocentos e trinta e dois. Assim não dá. Risque-se Mercúrio!
Podia, então, ter-nos posto em Marte. Ficaríamos mais aconchegadinhos, é certo, porque o condomínio é bem mais acanhado, mas até dava jeito para combater o frio que por lá iríamos rapar. Mas não nos pôs. E fez muito bem! Seria uma seca ter de esperar quase dois anos dos nossos para desejar tudo de bom aos amigos. Imagine-se ter de esperar dois anos para pedir a queda do governo… É verdade que se poupava em passas mas não compensava o que se gastava em tédio. Note-se que lá o Oliveirinha dos filmes era ainda um jovem de pouco mais de cinquenta anos. Demasiado parado: risque-se Marte!
Podia ainda ter escolhido Plutão mas ainda bem que não o fez. Primeiro porque não iríamos ganhar para aquecimento e depois porque haveria de chegar – como chegou – a altura em que os sábios da astronomia haveriam de desclassificá-lo e seria de muito mau gosto a gente viver num planeta que, veio a saber-se mais tarde, não passava de um plutóide. Assim mesmo, plutóide, que, para todos os efeitos, não passa de uma forma gentil de dizer que agora Plutão é um calhau.
De modo que, riscando-se também Plutão e subtraindo os gasosos, o que sobra? Pois é, quem nos pôs aqui sabia, realmente, o que estava a fazer. É o sítio ideal. O único onde um “ano” vale precisamente um ano, nem mais, nem menos. E um ano, todos o sabemos, nem é demasiadamente curto nem excessivamente longo. É por isso que, no dealbar de um novo ano, cá estou eu a desejar que os teus sonhos se realizem e os teus pesadelos se não cumpram.


Vamos agora dar a palavra a quem, realmente, merece. Carlos Drummond de Andrade dizia isto muito melhor do que eu digo:

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante,
vai ser diferente.

22 dezembro 2012

CONTO DE NATAL



O SONHO DO SEBASTIÃO

Faz quase dois anos que a sua vida é uma peregrinação pelas oficinas, pelos estaleiros e pelas quintas das redondezas. Quando arranja um pequeno trabalho – apanhar a fruta num pomar, reparar um muro danificado pelas asperezas do último inverno, preparar os cascos que hão de receber o vinho novo – a vida como que ganha um novo significado. É vê-lo, manhã cedo, partir para o trabalho cabeça bem ao alto distribuindo sonoros cumprimentos a todos os que com ele se cruzam. E enquanto labuta imagina a alegria dos pequenos quando, à tardinha, ouvirem o trinco da cancela. Imagina a alegria dos seus e pensa em todos os outros que à noite irão para a cama de estômago vazio e não consegue evitar que os olhos se lhe inundem. E então chora, chora por si, chora pela Mariana que é a âncora da família, chora pelos seus pequenos e chora por todas as crianças do mundo.
Hoje, Sebastião, não conseguiu trabalho. Depois do magro almoço, Mariana agasalhou os filhos, corrigiu o casaco ao marido e impô-los pela porta fora: «Ala, vão passear, ver os pássaros, e não voltem antes do anoitecer!» E os três lá foram, felizes, pelos campos fora. Nalgumas covas mais abrigadas resistiam ainda alguns farrapos da neve caída na véspera que logo era transformada numa bola pelo primeiro a descobri-la. E admiraram-se com a perspicácia das trutas a subir o ribeiro. E seguiram, de nariz no ar, as revoadas de tordos de azeviche, espantando-se com as suas acrobacias aéreas. E, sempre que os conhecimentos de botânica do pai o permitiram, catalogaram as espécies desconhecidas que se lhes atravessaram no caminho. Até que chegou a hora. O sol, que andou tímido o dia todo, iria esconder-se não faltava muito. As crianças atiraram as últimas pedras à água do ribeiro e os três, empreenderam a viagem de regresso. Ainda as primeiras casas da aldeia não se viam e já, prodígios da meteorologia, os mil cheiros do natal, amplificados pela frugalidade imposta aos seus estômagos, chegavam até eles estugando-lhes o passo.
A mãe estava na cozinha. Envolta numa nuvem de vapor, que os três aspiraram sofregamente, preparava as últimas iguarias da ceia de Natal. Com as verduras da horta, os bicos da capoeira e o cabaz da assistência social, Mariana fazia maravilhas. «Vieram mesmo a tempo. Vá lá, lavem essas mãos e essas caras imundas e sentem-se que o jantar já não demora.» E foi um lauto jantar. As crianças podiam repetir as vezes que quisessem. E comeram batatas e as couves mais tenras da horta e escamudo como se fosse do melhor da Noruega e galinha com arremedos de peru e rabanadas e arroz doce e nozes e pinhões. O pai teve até direito a vinho quente com açúcar. Até que todos se fartaram. Agora era esperar a hora de abrir as prendas que a mãe, carinhosamente, tinha depositado debaixo do pinheirinho, armado num canto da cozinha. E os quatro, muito juntinhos, foram sentar-se à volta do borralho. A mãe, como sempre fazia, começou a contar histórias de Natal. Enquanto os pequenos bebiam avidamente as palavras, Sebastião, embevecido, olhava a mulher e pensava que não fora ela e há muito que a família se teria desmoronado. E enquanto pensava, as palavras do conto iam-se afastando, afastando, até não serem mais que um rumor impercetível e, ainda o Garrinchas não tinha chegado ao adro da ermida da Senhora dos Prazeres, já Sebastião, ajudado pelo vinho quente, adormecera.
Viu-se numa sala imensa. Na parede do fundo uma figura de mulher com os olhos vendados. Na mão esquerda segurava uma balança, na direita empunhava uma espada. Na metade oposta da sala, resguardada por uma sólida balaustrada de madeira, a assistência aguardava. Sebastião olhava à esquerda e à direita e via outros homens que como ele se recusavam a desistir. Até que o juiz, vestido de negro, com uma farta cabeleira branca aos caracóis que lhe chegava aos ombros, mandou entrar os réus. A porta abriu-se e começaram a entrar, cabisbaixos, os políticos que há décadas governam o país. Alguns conhecia-os, outros nunca os tinha visto e havia até alguns dirigentes de grandes empresas que nunca imaginou terem sido ministros. O espaço que lhes estava destinado ficou completamente cheio e a assistência, sem conseguir reprimir mais o asco por aquela gente, ia acusando, em surdina, um e outro: «Está a ver aquele ali? Sim, aquele, é o diretor de uma empresa que faz estradas e pontes e antes era ministro; e aquele ali, o do fato azul, mal chegou a ministro empregou toda a família no ministério. A filha acabou o curso e no dia seguinte estava a dirigir um gabinete como se tivesse vinte anos de experiência; olhe aquele, o do cabelo branco, esteve meia dúzia de anos no governo e está reformado. Ganha mais num mês que um de nós em dois anos. Um de nós, dos que temos emprego, claro; e aquele pulha, aquele magrinho, não é o do banco?»… Até que a voz tonitruante do juiz se fez ouvir: «Silêncio!»
Começou, então, por perguntar o nome a cada um dos acusados mesmo àqueles que todos na sala conheciam e, após obter a resposta, com o indicador espetado e semblante acusador, continuava: «Quando era governante, antes de tomar as decisões que viria a tomar, sabia que elas provocariam a crise que hoje afeta o nosso país e, mesmo assim, tomou-as. Hoje, como consequência das suas determinações, há crianças que passam fome e outras que desmaiam nas aulas por falta de alimento. Tem alguma coisa a dizer em sua defesa?» Quase todos continuaram no seu mutismo receoso e aqueles que ousavam encarar o juiz faziam-no com tanto temor que apenas lhe saíam algumas frases inaudíveis para a assistência mas que o juiz rebatia de imediato. Quando todos falaram, a sala quedou-se em silêncio. O juiz sentenciou então: «Os réus que hoje se apresentaram neste tribunal são culpados pelo estado a que o nosso país chegou. Não são merecedores de piedade. Defraudaram o povo que acreditou neles. Cumprirão todos pena de prisão.» A alegria na assistência foi esfuziante. Deram-se vivas e cantaram-se hossanas e nesse momento na cozinha da casa do Sebastião todos viram o sorriso que se lhe desenhou no rosto. As crianças concluíram que o menino Jesus, finalmente, tinha nascido mas a mãe teve a certeza que naquele momento, Sebastião tinha apanhado aqueles que nos tinham trazido até aqui, e todos eles iriam pagar pelas tremendas maldades que tinham cometido.

21 outubro 2012

EU SOU GREGO


Sempre que vou a Lisboa dou um salto ao Bairro Alto: subo a Calçada do Combro, meto pela rua do Poço dos Negros e viro, lá à frente, para a rua de S. Bento. Chegado ao palácio páro junto da escadaria e assesto o ouvido. Ao princípio é apenas um rumor, um som indistinto que parece provir de muito longe, mas logo que os ouvidos conseguem catalogar os mil ruídos da cidade, o som familiar de gritaria aí está para me lembrar que a vida segue o seu curso e eu posso seguir, então, o meu caminho. Lembrei-me desta minha peregrinação quando li o último livro de Hélia Correia, “A Terceira Miséria”. O longo poema começa por uma pergunta tomada de empréstimo ao poeta germânico  Friedrich Hölderlin «Para que servem os poetas em tempo de indigência?» Ao longo da leitura do poema fui, paulatinamente, descobrindo a serventia dos poetas nestes tempos de desastre: os poetas servem para dar gritos! Não, claro, para gritarem, que para isso há muitos que o fazem muito melhor do que eles, mas para dar gritos! Gritos que se oiçam em toda a parte: gritos que se oiçam nas ruas, gritos que entrem pelas fábricas e pelas escolas adentro, gritos que despertem as vontades estuporadas, gritos que avivem as memórias, gritos que nos ensinem outra vez a perguntar, gritos que não nos deixem soçobrar, gritos estridentes que consigam, até, trespassar as espessas paredes dos gabinetes asséticos onde “eles” se acoitam. É disso que se trata: do grito que se vai formando nas gargantas da gente do Sul, da gente que um dia ainda se desnorteia.
O poema é também uma homenagem à Grécia à «bela Atenas, a que viu aparecer entre os homens a justiça e a livre palavra». Há dois mil anos, diz-nos Marguerite Yourcenar, o imperador Adriano confidenciava ao seu filho adotivo Marco Aurélio: «Foi em latim que eu administrei o império; o meu epitáfio será inciso em latim nas paredes do meu mausoléu na margem do Tibre, mas é em grego que eu terei pensado e vivido.» A um imperador não é permitido revelar aos súbditos o mais profundo da sua alma por isso Adriano disse assim o seu amor e a sua admiração pela Grécia. Hélia Correia que é imperatriz noutro império que a não obriga a estas reservas di-lo, por isso, com todas as palavras ao longo de todo o poema. E no fim somos todos instados a escolher o nosso lado da barricada: eu sou grego!

05 outubro 2012

E DEPOIS DO ADEUS...

Depois da bandeira de pernas para o ar, do pátio do cagaço e do discurso do anfitrião, só faltou mesmo o Paulo de Carvalho a cantar a cappella “e depois do adeus”: pareceu-me vislumbrar o ocaso desta república.

23 setembro 2012

SÓ TENHO UM ADJETIVO


No ecrã, o recém-empossado Presidente da Junta de Salvação Nacional, o general António de Spínola, preparava-se para se dirigir ao País. Dois homens à sua esquerda. Três homens à sua direita. Tudo gente das cavalarias, das armadas, dos esquadrões. Gente séria, com toda a certeza. Estamos bem entregues. Diversidade nos penteados, pelo menos. Já é um começo, já é um começo.
«Graças a Deus», pensou ainda o Doutor Augusto Mendes, dirigindo-se ao recém-empossado Presidente da Junta de Salvação Nacional, «tiveste o bom senso de não aparecer com o teu ridículo monóculo. Ou as letrinhas do comunicado são assim tão miudinhas? Não me digas que te viste obrigado, à última da hora, a usar os óculos de ver ao perto? Não acredito. Ai, deves ter ficado tão fodido quando percebeste que não podias aparecer neste momento histórico com o teu ridículo monóculo. Quem é que escreveu esta merda? Só vejo mosquitos, porra. Tragam-me os óculos».
Ontem, quando acabei de ler o livro de estreia de João Ricardo Pedro, lembrei-me de outro almirante. Não um almirante daquela armada séria que apaziguava os temores do doutor Augusto Mendes mas de outra que gostava tanto da água como qualquer gato vadio. Um almirante que, durante dezasseis longos anos, nos habituamos a ver, tesoura em punho, segando tudo o que lhe estendessem à frente. Conta-se que, na inauguração de uma obra qualquer do regime, depois de, com ar entendido, ter admirado a construção, sentenciou: «Só tenho para isto um adjetivo: gostei!»
A obra estende-se por três gerações: o avô, Doutor Augusto Mendes, médico, de boas famílias da cidade do Porto, que um dia, cansado da vida atribulada do hospital, decidiu aventurar-se para lá do Fundão, passando Alpedrinha, na casa do demónio de onde até as cobras fogem, para ser apenas um médico de aldeia; António, o filho, acossado pelos demónios da guerra colonial. Aldeias inteiras. Mães aos gritos. Palhotas, estás a ver? Ardiam num fósforo. Os corpos demoravam mais tempo. O cheiro; e Duarte, o neto, um exímio pianista, tentando desenvencilhar-se neste ambiente que, como diria o poeta, paira à tona de água, com a mãe a lutar para que tudo não se afunde definitivamente: «Eu estou a morrer, Duarte. E o teu pai ama-te muito, e vai precisar muito de ti. Tens de o tentar compreender…».
Pelas páginas do livro perpassam os êxitos e as adversidades, talvez mais estas do que aqueles, das três gerações da família. Numa linguagem escorreita, tomamos conhecimento de histórias hilariantes: o episódio do Amável um menino triste, franzino, doente e efeminado que um dia abalou para África e que, apesar dos boatos que o davam rico com propriedades imensas no norte de Angola e mais de quinhentos pretos ao seu serviço, regressou, vinte anos depois, como tinha partido e, se possível, ainda mais amarelento. Condoída pelo seu estado, toda a aldeia para lá do Fundão, ainda depois de Alpedrinha, meteu mãos à obra e em cinco dias reconstruiu a casa que tinha sido dos pais. Mas o Amável não dava sinal de melhora, cada dia mais débil, mais febril, até que o obrigaram a ir ao consultório do Doutor Augusto Mendes. Com o conhecimento de quase sessenta anos de prática clínica e algumas apalpadelas, o médico sentenciou que o seu problema estava na “tripa”. Mandou-o baixar as calças e colocar-se de gatas, e aviou-lhe um valente clister. Depois de devidamente esvaziado pode verificar-se que o causador de tamanho desarranjo tinha sido um saquinho de plástico cheio de diamantes. O livro fala-nos, até, dos inolvidáveis golos do Mário Kempes no campeonato do mundo de setenta e oito e do valente Manuel Zeferino que, não sendo um Nicolau nem um Trindade e muito menos um Agostinho, bastava olhar para ele para se ver que era bom rapaz.
Fala de tudo isto e de muito mais. E fala, ainda, das mulheres. Uma homenagem às mulheres. De capítulo inteiro. Um quase poema com algo de épico a fazer lembrar aqueloutro que fala da Luísa da Calçada de Carriche. Uma homenagem ao trabalho, à coragem e à sabedoria das mulheres e que termina assim: «Tenho um cancro.» Encostou a mão ao seio esquerdo e disse: «Aqui.» Depois disse: «Vou ser operada na segunda feira, amanhã dou entrada no hospital.» Depois disse: «A despensa está cheia, fiz bacalhau com natas, que está no congelador, e uma panela de sopa.» Depois disse: «No congelador também há bifes e hambúrgueres e costeletas.» Depois disse: «Devo ficar internada, pelo menos, uma semana depois logo se vê.» Não disse mais nada.
Pese embora a obstinação da Dona Laura, deixando bem claro que o que quer que estivesse a acontecer no País, ali em casa tudo permaneceria na mesma, pela obra parece perpassar uma certa mágoa pela chegada tardia do 25 de Abril. Policarpo, que anos antes tinha trocado o país pela civilizada Europa de Newton, Lavoisier e Descartes, a bendita Europa, que, se formos a ver, só começa em atravessando os Pirenéus, escreveria ao amigo Augusto depois da revolução: «Agora já estou velho, já não volto. Agora já é tarde.»


04 agosto 2012

GRITA-LHE NOMES FEIOS


Quando vejo um político na televisão tentando, desavergonhadamente, justificar o injustificável dá-me cá uma vontade de lhe agarrar pelos colarinhos… Em vez de se atenuar, esta minha sanha destruidora tem vindo, desde há uns anos a esta parte, a crescer. À falta de melhor, mal começam, ufanos, tentando enganar-me, desato a responder com obscenidades a cada uma das suas mentiras. É a minha maneira de libertar a tensão que começa a criar-se mal a criatura abre a boca. Confesso que começava a ficar preocupado com este crescendo de fúria, mas, finalmente, a ciência vem em meu auxílio. Três investigadores da Universidade de Keele, na Grã-Bretanha, Richard Stephens, John Atkins e Andrew Kingston, após aturados – e penso que apurados – estudos científicos, concluíram que gritar obscenidades liberta a tensão e alivia a dor. «O que pensamos – diz Stephens, professor de Psicologia, e coordenador da equipa – é que quando injuriamos produzimos uma reação emocional que estimula o nosso sistema nervoso, fazendo com que o coração acelere e a adrenalina corra.» Com esta importante descoberta os investigadores venceram o prémio Ig Nobel e foram recompensados com a fabulosa quantia de dez biliões – assim mesmo biliões dos nossos ou triliões se preferirem os americanos – de dólares… do Zimbabué.
Sei há muito tempo que chamar cabrão e filho da puta e mandar o intrujão para a puta que o pariu, alivia – oh, se alivia – a tensão que se começa a acumular em nós quando ouvimos as primeiras mentiras. Sei isso há muito mais tempo do que os sábios de Keele, não tive é oportunidade de concorrer: tivesse e quem ia a Harvard receber os dez biliões seria eu.

23 abril 2012

TODOS OS LIVROS


- Qual é o teu favorito?
- Não tenho um favorito. Não há livros separados de outros. Todos os livros que falam do mar, desde a Odisseia até ao último romance de Patrick O’Brian, estão interligados, como uma biblioteca.
- A biblioteca de Borges…
- Não sei. Nunca li nada desse Borges. Mas é verdade o que digo, que o mar se parece com uma biblioteca.
Arturo Pérez Reverte, “O cemitério dos barcos sem nome

11 abril 2012

AL-SAHAF E AS OBRAS DA PARQUE ESCOLAR

Mohammed Saeed Al-Sahaf, que a imprensa estrangeira apelidava de “Ali o comediante”, era o ministro da informação de Saddam Hussein ao tempo da segunda guerra do golfo. O cognome foi-lhe outorgado pelos jornalistas como reconhecimento das suas tiradas absurdas durante os briefings diários organizados pelo governo iraquiano para dar conta dos avanços da tropa doméstica. No dia 8 de Abril de 2003, como habitualmente, Al-Sahaf reuniu a imprensa estrangeira para comunicar que as valorosas tropas iraquianas, alumiadas pela destemida guarda republicana, continuavam a travar a mãe de todas as batalhas e rechaçavam as arremetidas dos cães raivosos invasores a quem seria infligida uma derrota que jamais seria esquecida. Ficaria para a história a patética imagem do ministro a jurar que estavam a desbaratar as tropas estrangeiras e a vencer a guerra no preciso momento em que, qualquer repórter que olhasse pela janela, veria já os tanques da coligação a poucos quarteirões de distância. Bagadad seria tomada pelo invasor poucas horas depois do briefing.
Lembrei-me do ministro da informação Al-Sahaf quando ontem, nos telejornais da noite, ouvi a antiga ministra Lurdes Rodrigues afirmar, perante a comissão parlamentar de Educação, que “o programa da Parque Escolar foi uma festa para as escolas, foi uma festa para os alunos, foi uma festa para a arquitetura, foi uma festa para a engenharia, foi uma festa para o emprego e foi uma festa para a economia”. Quando o Tribunal de Contas deteta despesas e pagamentos ilegais no montante de cerca de 256 milhões de euros e mais de 236 milhões euros relativos a 34 contratos da Parque Escolar não submetidos a visto, quando diz que houve um acréscimo de pelo menos 218,5% nos custos das obras realizadas, relativamente à estimativa inicial e que o dinheiro não chegou, por isso, nem para metade das escolas programadas, ouvir a ex-ministra com aquele ar alienado dizer que os relatórios do Tribunal de Contas teciam fartos elogios à gestão do programa, dá que pensar. O patético Al-Sahaf não faria melhor.

07 abril 2012

BOA PÁSCOA



Apesar da troika insensível e do Passos charlatão; apesar dos sábios da John Hopkins que querem acabar com o calendário e dos de Cambridge a jurar que a última ceia, afinal, foi a uma quarta, apesar de todas estas luminárias em conluio, conspirando contra mim, amanhã, o primeiro domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio da primavera, mantendo-me fiel à tradição judaico cristã cá de casa, juntar-nos-emos à volta do cabrito.
Boa Páscoa.

21 março 2012

HOMEM, QUE FAZES TU?



Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre…


Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa…

EPÍGRAFE, Eugénio de Castro, 1864-1944

08 março 2012

ELAS ESPALHAM A DESORDEM

Elas tecem o desacato com engenho, na mansa lentidão dos dias; tão depressa suspiram maleitosas, ensimesmadas e aflitas, como em tudo inventam supérfluos motivos de riso e de alegria.
Elas cantam, rodopiam, dançam, interpretam peças maliciosas e declamam poemas.
Elas confrontam-nos com o rasto do mal, usando perfumes de gardénia, de nardo e de almíscar, odores doces e turvos, a fazerem esvoaçar a roda das saias folhadas, rendadas.
Elas usam nos lábios e nas faces o carmim das rosas selvagens, pondo igual desvario nas vestes e nas ideias.
Elas são altivas e vaidosas, escrevem poesia, discutem filosofia, lêem livros proibidos.
Elas tresandam a heresia com as suas atitudes e ideias pervertidas; provocam com estouvamentos e arroubos.
Elas gostam do luxo.
Elas trazem consigo ideais perigosos, instruem-se, estudam, perseguem a utopia, na constante busca extremada da Luz, em busca do atordoamento do novo.
Elas cultivam a desobediência e os rancores, sarcásticas e vingativas. Regem-se por regras próprias.
Elas questionam os dogmas, duvidam da fé, não cortam a raiz da tentação e das dúvidas.
Elas espalham a desordem.


Adaptado de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta


Leonor de Almeida Portugal, neta dos marqueses de Távora, após o nebuloso processo que devastaria a sua família, foi enclausurada no convento de Chelas, juntamente com a mãe e a irmã, contava, então, oito anos de idade. Por lá ficariam durante dezanove anos até à morte do Rei D. José e ao consequente afastamento de Sebastião José de Carvalho e Melo. O marquês de Pombal tentava, deste modo, calar a descendência dos marqueses de Távora mas Leonor, amante da liberdade e ávida de Luz nunca se aquietou nos espaços lúgubres de Chelas não dando descanso à madre superiora que, vezes sem conta, se queixou ao bispo de Lacedemónia do comportamento indecoroso daquelas em que «corria nas veias sangue envenenado e ruim dos Távoras». Sirvo-me de uma das queixas da prioresa para render a minha singela homenagem a todas as nossas fortes mulheres que, perante as dificuldades, se recusam a claudicar.

22 fevereiro 2012

O BASTONÁRIO DOS ADVOGADOS NO MOTEL

Há dias, enquanto ouvia o doutor Marinho Pinto, naquele seu modo sôfrego, a atropelar-se nos adjectivos, lembrei-me da anedota dos dois juízes: 
Um dia, dois juízes encontraram-se no parque de estacionamento de um motel e repararam que cada um estava com a mulher do outro.
Após alguns instantes de um silêncio constrangido, provocado pelo inusitado da situação, mas, sem nunca perderem a compostura própria de magistrados, em tom solene e respeitoso, diz um deles:
- Nobre colega, não obstante este fortuito imprevisível, sugiro que desconsideremos o ocorrido, crendo eu que o correcto seria que a minha mulher venha comigo, no meu carro, e a sua mulher volte com Vossa Excelência no seu.
Ao que o outro, de modo igualmente cortês, desfiando o rol de salamaleques próprio da sua condição, respondeu:
- Concordo plenamente, nobre colega, que isso seria o correcto, sim, no entanto, não seria justo, levando-se em consideração que vocês estão saindo e nós estamos entrando.
Um dia, estou em crer que maldosamente, alguém me dizia que o Doutor Marinho Pinto, em tempos, tentou enveredar pela carreira de juiz mas, circunstâncias várias concorreriam para que tal lhe não tivesse sido possível. Talvez que tudo isto, como lembraria um novel filósofo da nossa praça, não passe de pura maledicência mas confesso que ao ouvir o Doutor Marinho apelidar de betinhos e betinhas os membros do governo, acusando-os de burocratas que não conhecem o país, imaginei-o juiz, a sair de um motel.

14 fevereiro 2012

S. VALENTIM URBANO E ASSALARIADO.

[…] Abriu a porta de casa e entrou. Havia um cheiro estranho no vestíbulo. Um certo perfume. Almiscarado e doce. […] Estava a meio das escadas e consciente de que o perfume tinha algo de miasmático, quando foi obrigado a parar. Eva estava de pé, à porta do quarto, envergando um pijama de um amarelo incrível com umas calças muito largas. Estava horrorosa e, ainda por cima, fumava um cigarro comprido numa boquilha comprida e a boca estava pintada de vermelho brilhante.
- Meu querido caralhinho – murmurou ela em voz rouca, meneando-se. – Anda cá. Vou chupar-te os mamilos até que me faças vir oralmente.
Wilt virou as costas e fugiu, escadas abaixo […]

Tom Sharpe, “Wilt”

04 janeiro 2012

AS FÉRIAS DA MARIA JOÃO

Maria João Ruela é jornalista. Pivot da SIC, quando não está a ler as notícias, gosta, ao que nos diz, de viajar. Depois, com o que anota no caderninho, “ lugares, pessoas, diálogos e pensamentos” e o que guarda na memória, “cheiros sabores e emoções”, faz um livro de viagens. Parece que está na moda os jornalistas verterem em folha impressa qualquer coisa que lhes dê na gana e as editoras, sempre à cata de negócio, têm aproveitado esse filão. No livro que escreveu, “Viagens contadas”, duzentas páginas de letra avantajada e prodigamente ilustrado, como convém, Maria João fala das suas viagens à Patagónia, aos Himalaias, a Marrocos, à Noruega, aos Alpes, aos Pirinéus, à Ucrânia, à Polónia e à Rússia. Verdade que nos tinha avisado logo no título do livro, mas, ao falar de um tão avantajado número de destinos, o que resulta não é muito diferente de uma dessas revistas de viagens que nos prometem, em páginas de texto ciciado e imagens soberbas, destinos de sonho e aventura. Maria João conta-nos as suas aventuras como o faria, depois das férias de verão, qualquer colega lá do escritório, repentinamente chegada aos prazeres do 1.º mundo, contando às amigas embevecidas as aventuras na Tunísia ou na República Dominicana.
Ao ler este livro lembrei-me de Bruce Chatwin e da inolvidável aventura “Na Patagónia” em demanda do brontossauro e de Paul Theroux, outro viajante crónico, que tomou fora de casa, em Chicago, “O velho expresso da Patagónia”, foi por ali abaixo e só não chegou ao cabo Horn porque a linha férrea termina antes. E lembrei-me também de Elias Canetti que ouviu “As vozes de Marraquexe” e as verteu num livro espantoso. Lembrei-me destes três viajantes inveterados e fiquei com vontade de reler aqueles livros admiráveis que nos legaram.
No seu livro, Maria João, diz-nos que foi num serão, sentada a ver televisão na companhia do marido, o Zé – assim mesmo, o Zé, como se a gente se conhecesse desde sempre e se desse de abraço. Diz ela que ao ver num documentário três jovens, Jim, Tom e Kate, percorrerem a montanha, sempre acima dos três mil metros, rodeados de paisagens, escarpas e glaciares, teve, naquele momento, a certeza que faria o mesmo. Em tempos li que Gabriel Garcia Márquez, teve, durante uma viagem de automóvel, a mesma visão e, diante dele, viu desfilar todo o enredo da sua obra prima “Cem anos de solidão”. Depois foi só parar, fechar-se longe do barulho, e escrever de empreitada todo o livro que lhe valeria um nobel. Eu, que tomo conhecimento destes prodígios, reconheço, humildemente, que não fui, ainda, tocado por essa graça. Sei, até, de ciência certa, que jamais o serei. Eu, que sei o dispêndio de energia para obrar cada linha, olho para estes prodígios e só me vem à memória o poema “Budapeste” de Billy Collins, poeta americano, que começa assim: A minha caneta move-se pela página/ como o focinho de um estranho animal...

02 janeiro 2012

UM NOVO CALENDÁRIO

Uma improvável dupla de sábios da Universidade John Hopkins, encorajada, talvez, pelos samoanos e os toquelauenses, soube-se por estes dias, propõem-se acabar não com um dia como os ilhéus mas com o calendário inteiro. Com efeito, um astrofísico e um economista, considerando que o nosso gregoriano calendário está velho e ultrapassado, lançaram uma campanha para a adoção de um novo calendário com uma nova forma de organizar os dias, fixando datas e permitindo que os feriados, como o Natal e o Dia de Ano Novo, possam calhar sempre a um domingo, todos os anos. Ao que consta continuaria a haver doze meses em cada ano que seria ainda dividido em quatro trimestres iguais de noventa e um dias, acabando a divisão entre anos comuns e anos bissextos. Para se recuperar os dias perdidos com esta contagem a dupla tirou da cartola uma ideia genial só ao alcance dos predestinados: a cada cinco ou seis anos haveria uma semana adicional. Ao novo calendário fixo, que prevê apenas um dia semanal de descanso, são apontadas vantagens laborais e produtivas, além de outros benefícios económicos, como o planeamento estável de férias, salários e calendários escolares e a simplificação de cálculos financeiros.
Ao ler a notícia dos sábios que querem mudar o calendário, lembrei-me da minha avó. A minha avó, que por razões que não interessam ao caso, tinha um carinho especial pelo S. Miguel não perdoaria a quem a privasse do convívio com o santo. A minha avó já morreu há muitos anos, mas lá, onde quer que se encontre, estará, certamente, de atalaia e não permitirá que uma dupla que decidiu esbanjar o dinheiro do empregador com a ideia estapafúrdia de um novo calendário, lhe roube o 29 de Setembro.

01 janeiro 2012

BOM ANO

primeiro dia do annus horribilis

E pronto, eis-nos chegados ao dia um do annus horribilis. Pudesse eu e fazia-lhe – ao annus horribilis - o que os samoanos e os toquelauenses fizeram ao 30 de Dezembro.
Mas não posso!
Por isso e ainda que, para nos dificultar as coisas, este ano seja bissexto, encará-lo-ei bem de frente, e sem vacilar, sem acusar as estocadas ao longo do trajeto, caminharei rumo àquilo que, quero pensar, será um futuro mais justo, mais tolerante, mais probo e mais solidário. Mostraremos àqueles cinzentões do norte do que é capaz um meridional despeitado.
Junta-te a mim!

29 dezembro 2011

O MEU CONTO DE NATAL

Capítulo I
AINDA UM DIA HEI-DE ESCREVER COISAS ASSIM...

Se mo perguntassem não saberia explicar porquê, o certo é que, chegada a época do natal, aquela época em que a rua fica engalanada com luzinhas multicolores e laçarotes vermelhos e as pessoas se mostram mais simpáticas, dou por mim a sonhar com grandes feitos literários. Há anos que ocupo um lugar privilegiado para espreitar os livros que os clientes vão folheando e há frases que recordo a cada passo: “Muitos anos mais tarde, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo”, é das minhas preferidas. É a primeira frase de um livro. Agora que me vem à memória… que teria feito o coronel Aureliano para merecer tal sorte? Grande coisa não terá sido para se passar assim pelas armas um coronel, mas ouve-se por aí cada coisa que o melhor é não nos deitarmos a adivinhar. “… aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo”, ah, como gostaria de ter sido eu a escrevê-la… 
- Desculpe, posso ser-lhe útil em alguma coisa?
- Pode sim senhor! Queria comprar uma caneta para oferecer.
- Com certeza, queira acompanhar-me, por favor.
A simples alusão a caneta teve o condão de me despertar dos meus sonhos - ou devaneios, não sei -, e olhar para quem assim falava. Um homem alto, de barriga proeminente e faces rosadas seguia já o empregado. Vi-os aproximar-se. Temos aqui esta Parker, material de confiança – dizia o empregado -, com uma óptima relação qualidade preço, ou então esta Sheaffer, modelo clássico, de uma fiabilidade a toda a prova ou ainda esta Rotring, com um design mais moderno mas com uma ergonomia irrepreensível ou... - O empregado ia desfiando a ladainha mil vezes repetida mas o barrigudo nem o ouvia, absorto que estava a observar todas as canetas do mostruário ou, valha a verdade, mais o pedacinho de cartolina preso por um fio a cada caneta do que a própria caneta. Até que, de repente, vi um dedo grosso a apontar para mim:
- Quero esta!
O empregado, apanhado assim à falsa fé, ficou momentaneamente aturdido mas logo se recompôs:
- Uma óptima escolha. É sem dúvida o melhor exemplar de que dispomos na nossa loja.
- Então embrulhe-ma. Vou oferecê-la a um grande amigo meu.
- Com certeza.
E enquanto me iam fechando na escuridão do meu sarcófago de papel de fantasia dei por mim a pensar, sabe-se lá porquê, que todos os meus sonhos não passavam disso mesmo.
Não sei o tempo que passou: se dias se semanas. Na escuridão perde-se a noção do tempo. Uma vez tinha lido isso e achei que o escritor, sendo um romance épico, o tinha lá posto apenas porque ficava bem, mas agora, assim fechada no escuro, tinha a prova que afinal, sendo sempre noite, não se consegue ter a percepção da passagem do tempo, mas por fim lá sou sacudida mais uma vez e volto a ver a luz. Primeiro por uma nesga que foi abrindo, abrindo, até o papel de fantasia ser todo arrancado.
- Outra esferográfica! Aquele vaidoso do Antunes sempre com a mania das ofertas finas. Há-de pensar que sou escritor. E ainda por cima com aparo. Sabe que não me ajeito com estas coisas e toca de me dar uma…
- Olha, uma boa prenda para ofereceres. Há-de haver gente que dá grande valor a essas coisas. Devia ser a esposa do grande amigo. Silenciosa como estava, mais interessada no programa da televisão do que nas prendas do marido, ainda não tinha dado por ela.
Não fora o grosso anel de ouro que usava no mindinho da mão direita e um nadinha menos de barriga, dir-se-ia que o Antunes e o grande amigo eram uma e a mesma pessoa. Depois de me observar sumariamente, deixou-me esquecida em cima de uma mesa antes de, ao fim da noite, atirar comigo para uma gaveta. Quando a escuridão voltou a derramar-se sobre mim senti que o mundo todo desabava e entrevi, então, pela segunda vez, o fim dos meus sonhos. Mas recusei render-me: não seria a reclusão numa gaveta que me venceria. Claro que seria custoso passar os dias no escuro sem ao menos poder espreitar os livros que os clientes da loja iam folheando ou ouvir uma ou outra conversa sobre as novidades que iam saindo mas continuaria a sonhar. E depois as palavras da mulher “Há-de haver gente que dá grande valor a essas coisas” que continuavam a ecoar na minha cabeça seriam o antídoto a que poderia recorrer sempre que o desalento ameaçasse instalar-se no meu espírito. Um dia, tenho a certeza, escreverei um texto como aquele que foi lido a um rei e que começava assim: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher.

Continua...

PS. O desafio que faço aos eventuais leitores é que comecem a pensar nos próximos capítulos de modo a enriquecer a pobreza franciscana deste, digamos, urbano conto de natal. Fico à espera de contribuições.

23 outubro 2011

INSTANTES QUE BRILHAM

A história passou-se vai para mais de 20 anos. Por alturas da primeira guerra do golfo, quando na contenda ainda não tinha sido dado o primeiro tiro, ocupados que estavam os contendores a contar espingardas, um repórter conseguiu chegar à fala com o comandante de uma célebre companhia britânica que tinha a fama, e, ao que dizem, também o proveito, de fazer sempre o “trabalho” bem feito. Não me recordo já da maioria das perguntas que o jornalista fez mas há uma que continua vívida na minha memória como se tivesse sido feita ainda hoje: qual o segredo para que a companhia seja sempre tão eficaz no cumprimento das missões que lhe são cometidas?
Não é de bom tom o entrevistador expor na entrevista os seus estados de alma, pretende-se, isso sim, que leve o outro a revelar os seus, mas não será difícil de adivinhar aquilo que esperaria ouvir na resposta do coronel: muito treino, muita garra, muita bravura, armas do tempo da guerra das estrelas e outras coisas do mesmo jaez, por isso imagino a cara de indisfarçável assombro do periodista quando ouviu o coronel responder candidamente que o segredo estava no estômago. «Os meus homens sabem que têm as suas necessidades básicas asseguradas e a necessidade primeira é a alimentação. Um soldado esfomeado jamais conseguirá cumprir convenientemente a sua missão».
A Escola Básica da Abelheira conseguiu, nos exames nacionais do 9.º ano de Matemática de 2011, o melhor resultado do país entre as escolas básicas da rede pública. Quando tomei conhecimento desta verdadeira lança em África conseguida pela minha escola, veio-me à memória a admirável historia do Coronel que velava pelo estômago dos seus soldados para que estes se concentrassem, unicamente, naquilo que foram ensinados a fazer. Lembrei-me deste episódio marcial e pensei em como conseguiríamos muito mais se nos fossem asseguradas as necessidades básicas, a começar por uma equipa dirigente que realmente soubesse o que é uma escola, não aquela escola etérea que se consegue divisar do alto dos gabinetes climatizados do ministério mas sim uma escola real, uma escola que só se consegue conhecer descendo ao nível do solo. Não temos tido essa sorte. Há anos que assistimos impotentes à inexorável destruição de tudo o que de bom tinha sido conseguido ao longo de anos e anos de trabalho abnegado. Chegamos a um ponto crítico e isso traz-me à memória os versos do poeta colombiano, Guillermo Valencia, “Há um instante no crepúsculo / em que as coisas brilham mais”. O crepúsculo é aquela parte do dia de claridade mais frouxa que tanto pode anunciar a escuridão da noite como o clarão do dia. Não me recordo já a qual se referia o poeta, e para o caso isso pouca importância terá, mas obrigo-me a pensar que este é o crepúsculo anunciador de um dia radioso. Depois deste resultado continuaremos a trabalhar com o mesmo empenho de sempre e, se calhar, com ânimo redobrado. A satisfação com que todos recebemos a notícia permite afirmá-lo com segurança. Para o ano conseguiremos, certamente, bons resultados nos exames nacionais e, mesmo que as necessidades básicas nos continuem a ser sonegadas, continuaremos a trabalhar com o empenho de sempre.

01 agosto 2011

MAS A FILOSOFIA HOJE ME AUXILIA


O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.
Mas a filosofia
Hoje me auxilia
A viver indiferente assim.
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Para ninguém zombar de mim.
[…]

“Filosofia”, Noel Rosa, 1933


Depois de ter perdido as eleições e se ter despedido dos correligionários com um enternecedor «adoro-vos», Sócrates confidenciou aos mais chegados que era sua intenção tirar um ano para se dedicar ao estudo da Filosofia em Paris. Desconheço se tomou já o seu lugar nos bancos da escola, não sei até se as aulas serão presenciais ou à distância – à distância de um faxe ou de um e-mail, se o homem, que tem fama de analfabeto cibernético, já se conseguir desenrascar -, um método tão do seu agrado, mas a fazer fé nas palavras do amigo Mário Soares, esse velho sapo que em tempos o apelidou de «o pior do Guterrismo», o homem vai mesmo para o Quartier Latin. Numa entrevista a Clara Ferreira Alves, na Única, depois de dizer que Sócrates «é belicoso», «Não tem tacto político para ouvir as pessoas sem responder logo» e que «não foi muito claro nem transparente», remata afirmando que «Não é um socialista como eu. Ele foi para a Sorbonne estudar para perceber isso. É bom que vá estudar». E que fique por lá se o quiserem, acrescentaria eu.
Para o convencer a não regressar a este antro de invejosos que não querem saber sequer se vai morrer de sede ou se vai morrer de fome, envio-lhe um extracto do poema “Filosofia” de Noel Rosa que Chico Buarque de Hollanda incluiu no seu álbum "Sinal Fechado" de 1974.

26 junho 2011

A TERRA TODA, OS CEGOS E O ELEFANTE.

Um dia quatro cegos apalpavam um elefante. Um deles tocou-lhe na perna e logo exclamou:
- O elefante é como um pilar!
O segundo, que tacteava a tromba do bicho, disse:
- Não, o elefante é como uma serpente!
O terceiro apalpou a barriga do paquiderme e afirmou:
- Não, não. Não têm razão. O elefante é igual a um tonel!
Finalmente, o quarto cego, que acariciava as orelhas do animal, naquela forma definitiva dos “cegos”, afiançou:
- O elefante é como um abano!
Então, começaram a discutir entre si, a forma e o aspecto do animal e, quase chegaram a vias de facto. Um transeunte, vendo-os discutir, perguntou-lhes o que se passava. Cada um deles apresentou os seus pontos de vista e, no fim, pediram-lhe para decidir qual deles tinha razão. O transeunte, depois de meditar alguns momentos, sentenciou:
- Nenhum de vocês viu o elefante!
Vezes sem conta lembro-me desta parábola admirável. Ontem, depois de ter acabado de ler o último livro de José Manuel Saraiva, lembrei-me, mais uma vez, dos cegos e do elefante.
Rafael, personagem principal do romance, acabado de chegar aos sessenta anos, é abandonado por Sara, sua companheira dos últimos quatro. O episódio atira-o para uma depressão que a pouco e pouco o vai consumindo. Depois de muito instado por um amigo, lá resolve procurar a ajuda de uma psiquiatra que, no dizer do conselheiro, o irá para sempre libertar da solidão que o consome e das ideias que o mortificam. Em grande parte, o livro gira à volta das sessões com a psiquiatra Clara Gautier e é precisamente da primeira dessas sessões, que agora, finda a leitura, eu me recordo.
Depois de muito esforço - «Acredite que não foi fácil chegar até aqui, doutora» -, Rafael lá se decide encontrar com a clínica. O primeiro capítulo do livro relata a primeira sessão do programa de tratamento. O doente está ali para falar, e o médico só de quando em vez introduz uma ou outra pedrinha no discurso não para o travar mas, tão só, para o direccionar. E Rafael falou. Falou de Sara e de todos os gestos simples do dia-a-dia, mesmo daqueles que um amante empedernido como eu acharia sem qualquer significado. Falou do pai e da mãe como o teriam feito o Tony Soprano ou o Alexander Portnoy. Falou de casamento e de traição, falou de amor e de ódio, falou de verdade e de mentira, falou de tudo e falou de nada. E fê-lo com um discurso tão redondo, com umas frases tão concordantes, que eu pensei logo ali, no final do primeiro capítulo, ter encontrado a óbvia razão para o abandono da Sara: Cansou-se! Cansou-se de o ouvir e partiu para outra.
Vejo agora que aquele primeiro discurso transportava já sinais que indiciavam uma mente perturbada, mas eu, que não sou psicanalista e que acabo mesmo de ver esfumar-se alguma ténue ilusão, que pudesse ainda subsistir, de um dia vir a sentar alguém no meu divã, eu, dizia, não os consegui ler e, qual cego da parábola, quis logo tirar conclusões definitivas no final do primeiro capítulo. Erro meu. O último livro de José Manuel Saraiva, “A Terra Toda” é para se ir apalpando, tacteando, acariciando as páginas todas que só assim se compreenderá a mente intrincada de Rafael moldada pelas circunstâncias de uma existência difícil.

também publicado em conversa.com