23 maio 2009

A CUIDAR QUE AS FLORES O APLAUDIAM

Ontem – se calhar sem avisarem como já se vem tornando um hábito, vá lá saber-se porquê –, o primeiro-ministro, a ministra da educação e o ministro das finanças apareceram na escola António Arroio para, ao que consta, aporem as suas assinaturas num pindérico contrato de pedreiro para umas obras no edifício. O acto não tinha dignidade suficiente para merecer a presença de mais do que um secretário de estado mas o governo decidiu obsequiá-lo com a presença de três ministros da nação. Não sei se por falta de trabalho nos gabinetes ministeriais se pensando já nas bonitas imagens e frases sonantes que as televisões mostrariam em horário nobre, os três lá foram. A coisa até que nem começou mal. Cada um lá ia dizendo uma piada de circunstância e tudo se encaminhava para que, finalmente, os “comunistas” dessem uma manhã de descanso ao primeiro ministro mais à sua ministra da educação – deixamos propositadamente o ministro das finanças de fora porque a esse já ninguém o leva a sério – mas, quando os estudantes se aperceberam da presença de tal delegação na sua escola foi o bom e o bonito. Foi tamanha a contestação que a luzente comitiva teve de acabar a espectáculo de supetão e ser guiada por caminhos esconsos rumo a uma saída alternativa que os pusesse a salvo do coro de vaias que, com certeza, faria as delícias de alguns canais de televisão à hora do jantar.
Esta mania que, em especial o primeiro-ministro e a ministra da educação, têm de se raspar sub-repticiamente vai-se tornando um hábito pelo que episódios destes, de tão banalizados, começam a não prender a nossa atenção, mas ontem, quando à hora de jantar ouvi dizer que o gabinete do primeiro ministro tinha enviado para as redacções a informação que o Engenheiro Sócrates não tinha saído pela porta do cavalo como estava a ser noticiado, tive um sobressalto. De repente, lembrei-me do “professor Salazar […] em passinhos delicados de freira, ondulando os dedos transparentes para os vasos a cuidar que as flores o aplaudiam[1]. Será que o homem, distribuía aquele ridículo sorrisinho de plástico aos estudantes da António Arroio, pensando que o louvavam?


[1] in "O Manual dos Inquisidores", António Lobo Antunes

1 comentário:

as-nunes disse...

Éh lá! Quando uma pessoa se põe a pensar é o diacho!...
Querem lá ver que nos andam a lançar poeira p´rós olhos?
E depois admiram-se que a malta comece a fazer contas de cabeça e consiga provar mesmo que 1+1=2 !?

Um abraço, caro amigo Carlos Ponte