10 novembro 2008

ESTAMOS FODIDOS!


Quando o último manifestante mal tinha, ainda, abandonado a Rotunda já um jornalista, comentando a jornada, dizia do alto da sua sapiência: «Os professores têm de ser avaliados! Nós aqui também somos avaliados. Todas as organizações avaliam o seu pessoal.» Mais tarde diria ainda: «A ministra não pode ceder. Se o fizesse teria outras classes profissionais a encher as ruas reclamando cinco por cento de aumento.». No recato do meu lar, depois de ouvir isto, lembrei-me de Millôr Fernandes: Estamos fodidos!
A opinião pública não entende patavina do que se passa. Com pouca capacidade de analisar o mundo, não conseguiu, ainda, desembaraçar-se daquela ideia simples que um dia lhe transmitiram: “Os professores não querem é trabalhar!” Aqueles que têm por missão informar, separando o trigo do joio, afinal, vemos agora, também não perceberam nada do que realmente se está a passar – recuso-me, até ver, a aceitar aquela hipótese mais maquiavélica de, “não quererem” perceber – e continuam a sua cruzada de imbecilidades que em nada contribui para a resolução deste gravíssimo problema. Se não vejamos: Partindo do princípio que o jornalista não tinha qualquer inconfessável interesse em deturpar as coisas, erra quando diz que os professores têm de ser avaliados. Na realidade os professores sempre foram avaliados e querem continuar a sê-lo só não querem é este sistema de avaliação arbitrário, incoerente e injusto que o senhor jornalista, ainda para mais no papel de comentador de temas de educação, de todo, não conhece. No item “Preparação para o desenvolvimento dos temas a tratar” poderia ter um dez (excelente), ou um oito (muito bom), ou um sete (bom) ou, até um seis (regular), mas como mostrou uma total impreparação terá, tão só, um três (insuficiente). No item “Conhecimento dos temas tratados” continua a não poder levar mais do que um três (insuficiente). Pensava que os professores estavam lá a reclamar o aumento de ordenado. Finalmente, no item “Percepções do público ouvinte” levará outro três. Enganou-o. Disse-lhe que os professores têm de ser avaliados [porque] nós aqui [na estação] também somos avaliados [e] todas as organizações avaliam o seu pessoal. Disse-lhe que a ministra não pode ceder [porque] se o fizesse teria outras classes profissionais a encher as ruas reclamando cinco por cento de aumento. Disse-lhe tudo isto e o público ouvinte, com a sua capacidade de síntese, interpretou: “Os professores não querem é trabalhar!” O jornalista comentador de quem falo tem nome, ouvi-o ontem de manhã na RTPN mas o nosso drama, é que me poderia estar a referir a um comentador em abstracto que não seria necessário alterar nem uma vírgula, tal é a homogeneidade de pensamento que patenteiam.
E enquanto este estado de coisas não se alterar todos perdemos. Mesmo que artificialmente, se apresentem belas estatísticas sobre a melhoria do ensino no país – o público não sabe que é impossível melhorar em apenas um ano os resultados escolares em mais de vinte por cento mas abre a boca de espanto –, o nosso ensino público continuará a definhar. E a quem me disser que a criação das elites dirigentes está assegurada pelas selectivas escolas privadas dir-lhe-ei que nunca uma batalha foi ganha apenas pelos generais.

2 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns pelo teu post! Subscrevo inteiramente a forma e o conteúdo!
Esses “comentários” acintosos passam despercebidos ao cidadão comum; e a nossa indignação nem sequer os inquieta, porque as reformas na educação só são visíveis muitos anos depois de implementadas!
Esta sociedade, amorfa, facilmente manipulável e sem referenciais estruturantes é, provavelmente, o resultado dos múltiplos erros que se cometeram no passado. Mas o mais perturbante é perceber que os actos políticos que conduzem a estes estado de coisas já não são apenas produto da leviandade de quem está a dar os primeiros passos em direcção à democracia, mas antes, fruto da premeditação dolosa de alguns oportunistas. Quem tem consciência disto não pode baixar os braços!
Helena Guerreiro

citadinokane disse...

Carlos,
Sou professor e sei o quanto essa categoria se esforça para dar o melhor...
O Millôr, ah o Millôr!
Quando essa situação mudará, cá e aí???
abs