02 agosto 2006

SABER OUVIR

Ao visitante que percorre o souk, nada o separa dos objectos, sejam portas, sejam vidros. E o comerciante, que se rodeia dos seus artigos, nunca os identifica, podendo sempre alcançar quanto tem à venda. Seja o que for, tudo se entrega ao visitante, espontaneamente, sem reservas. Assim, pode ele conservar pelo tempo que quiser, este ou aquele objecto. Pode apreciá-los calmamente, fazer perguntas, levantar dúvidas e até, se a sua disposição lho permitir, contar a sua história, a história dos seus antepassados, ou a história de toda a humanidade, sem que isso o obrigue a comprar seja o que for.
Elias Canetti, As Vozes de Marraquexe

Nascido em 1905 em Rutschuck, uma cidade que hoje pertence à Bulgária mas que à época integrava o império Austro-Húngaro, Elias Canetti, de ascendência Judia, viria a falecer em 1994. Com apenas 6 anos de idade, em 1911, a família parte para Inglaterra, instalando-se em Manchester onde o pai se dedica, com bastante sucesso, ao comércio têxtil, mas um ano depois, em 1912, o seu desaparecimento abalá-lo-á enormemente a ponto de, continuamente, meditar sobre a falta de sentido da morte. “A mais alta e mais formosa tarefa do ser humano é lutar contra a morte”, dizia. No ano seguinte viaja entre Zurique, Viena e Frankfurt. É nesta altura que aprende o alemão que virá a ser a sua língua literária. Na segunda metade dos anos trinta, talvez incomodado com a barbárie que, a pouco e pouco se ia instalando na Alemanha, parte para Inglaterra. Aí produz parte substancial da sua obra que lhe valerá, em 1981, o prémio Nobel da Literatura.
Não sei bem porquê, nestes dias de ódio, lembrei-me de Elias Canetti. Em tempos li “As vozes de Marraquexe”, um belo relato de uma viagem que o autor fez a Marrocos, acompanhando um grupo de amigos cineastas que aí foram filmar. O livro relata as suas deambulações por toda a cidade e a incessante busca do conhecimento de todas as facetas do povo autóctone – fosse árabe ou judeu – e do seu modo de vida, tentando – e conseguindo-o, diga-se – escutar as mil vozes da grande cidade. Fá-lo com tanta sensibilidade, respeito pelas tradições locais e humanismo que toda a obra é um apelo à sã convivência entre os povos.
Vou relê-lo! É uma verdadeira lição para todos nós. Ensina a ouvir e, não tenhamos ilusões, nem todos nós o sabemos fazer.

2 comentários:

Tozé Franco disse...

Obrigado por ter passado pelo meu blogue.
Agradeço as palavras simpáticas.
O seu blogue passa também a ter mais uma visita.
Quanto a Viana,fica para o regresso a Coimbra.
Um abraço.

asn disse...

Donde se demonstra que é uma ingratidão de muitos de nós não sermos capazes (infelizmente nem humanamente isso seria possível)de dar a devida atenção ao que anda por aí escrito em livros (alguns excepcionais) que ninguém lê!
Quantas histórias de vida e de ensinamentos estão completamente dissimuladas no meio da imensidão de publicações que nos atiram literalmente para os nossos olhos e ouvidos!
Viva!